Predestinado
10 Capítulo Dez
A ansiedade acabou me fazendo dormir como uma pedra. Isso até eu receber um banho inesperado em plena manhã.
Quando abri os olhos, os irmãos Stoll tinham baldes nas mãos. Minha cama estava encharcada, tal como eu mesmo. Me sentei rapidamente e olhei em volta, estava começando a amanhecer. O céu do lado de fora fazia uma mistura com as cores rosa e laranja. Seria bonito se eu não estivesse fedendo a água de banheiro.
—Aqui, assim você vai se acostumar com o seu trabalho do resto do mês. – Travis falou entre os dentes. Os outros campistas estavam rindo de mim, mas ainda assim pareciam aborrecidos com os acontecimentos da noite anterior. –Tem sorte de eu não encher os seus lençóis de vermes e escorpiões, seu merdinha.
Estava sonolento demais para retrucar, então apenas levantei e tirei a camiseta, depois torci a água dela. Peguei minha espada e Travis hesitou, mas passei por ele e seus irmãos antes de abrir a porta do chalé e caminhar para fora. Não iria me dar o luxo de deixar a arma ali, onde poderiam roubá-la ou danificá-la. Aquela espada tinha sido a única coisa a qual me apeguei naquele lugar.
Não haviam campistas do lado de fora, pois estava muito cedo, o que achei melhor, não queria esbarrar em ninguém no caminho para o pavilhão.
Chegando lá, pus o máximo de comida que pude na boca e segui em direção à arena, onde esfaqueei os bonecos de treinamento feitos de palha até que nada sobrou deles a não ser por seus suportes de madeira, e mesmo de um desses consegui tirar algumas lascas. Não tinha percebido o passar do tempo, pois quando me voltei para o céu, o sol estava pairando por cima de mim. Devia ser nove ou dez da manhã.
Chutei os montes de palha do chão e suspirei. Eu não deveria estar ali. O acampamento era uma grande mentira. Prometi a mim mesmo que se encontrasse Erika mais uma vez, iria chutar seu traseiro espectral.
Não preciso ficar aqui por muito tempo, pensei. Tenho uma arma, posso me virar sozinho pelas ruas. Roubando comida ou dinheiro e apunhalando monstros. Eu podia muito bem ir embora. Não precisava daquele lugar.
Seria solitário, claro, mas a única pessoa que mais se pareceu com uma amiga para mim era um fantasma. Além disso, não deveria ser tão ruim assim ficar por minha conta.
Estava tão inerte em meus pensamentos que não percebi a presença de Dreus quando se aproximou de mim. Estava se esforçando para respirar, massageando o próprio peito.
—Você sempre está correndo de um lado para o outro? – perguntei. Ele inspirava e expirava com força, levantando o indicador como quem diz que vai falar algo. Levou pelo menos um minuto para que ele finalmente se recuperasse.
—Ah, Tártaro... – ele resmungou. –Na verdade, não. Eu... tenho asma. – percebi suas orelhas ficando vermelhas ao dizer aquilo. –Sempre esqueço de trazer a bombinha comigo. De qualquer maneira, Quíron me mandou dizer que você vai limpar os banheiros pelo resto do mês. Deveria começar logo.
—Não vou limpar porcaria nenhuma.
—Ah, vai sim. – Uma outra voz veio de trás de mim. Sophia, do chalé de Atena, tinha acabado de se sentar na arquibancada da arena, soprando algo da ponta de uma flecha. Tinha quase a mesma aura de Calíope, mas não dava tanto medo quando sua irmã mais velha. Estava com o cabelo castanho amarrado para trás como sempre, seu arco pendurado pela linha em seu corpo atlético. A aljava que estava amarrada em suas costas no capture a bandeira agora estava em seu colo.
—Assuma suas responsabilidades, Totenn. – ela continuou. –Você deixou todos zangados ontem à noite. Deveria ser punido mais severamente, mas Quíron deixou passar. Então você vai colaborar.
Ri com escárnio.
—É claro. E se eu não quiser colaborar?
Os olhos cinzentos dela se voltaram para mim. Estava claramente se segurando para não atirar uma flecha no meu olho.
—Vamos, cara. – Dreus se manifestou, estava claramente nervoso com a situação. –Não piore as coisas. Eu vou lá e te ajudo a limpar tudo. Tenho o dia livre.
—Pare de tratá-lo tão bem, Andreus. – ralhou Sophia, se levantando. –Ele foi um babaca, deve ser tratado como tal.
—Bem, você claramente é um pé no saco. Você não me viu reclamar sobre isso, viu? – disse, revirando os olhos logo antes de sentir o gancho que ela desferiu na minha mandíbula.
Caí aos pés de Dreus, ele parecia a ponto de sair correndo para longe.
—Pronto. – os olhos de Sophia brilharam de satisfação. –Talvez agora você queria colaborar.
Senti um gosto metálico na boca e pontos pretos zanzaram na frente de meus olhos. Dreus engoliu o pânico e suspirou, me oferecendo a mão.
—Bem, não vou dizer que você não mereceu isso, porque mereceu. Vamos logo, Eugene.
Concordei com a cabeça, zonzo. Ondas quentes de dor se expandindo pelo meu maxilar, e aceitei a ajuda do filho de Hefesto para me levantar. Juntei a espada da areia e segui cambaleando para os banheiros.
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—Eu normalmente pego uns autômatos escondido para esfregar os urinóis, mas acho que luvas rasgadas são um castigo melhor para você. – Dreus dizia, esfregando o chão encardido da ala masculina do banheiro enquanto eu limpava o décimo terceiro urinol — haviam vinte -, cutucando o corte na minha bochecha com a língua.
—É. – assenti, secando o suor da testa com o antebraço. Era quente e malcheiroso ali dentro, mas imaginei que poderia ser pior. Eu estava com a camisa ainda úmida em volta do pescoço, o que ajudava um pouco. Dreus parecia estar se divertindo com a minha situação, mas ao mesmo também era o único no acampamento que não queria me dar um bom chute no saco, e apreciei isso. Se não falasse tanto das próprias invenções e não chiasse vez ou outra quando parava para respirar, eu o apreciaria ainda mais.
A trombeta que anunciava a hora do almoço tocou, mas depois de horas tentando deixar aqueles urinóis brancos de novo, perdi o apetite.
Dreus se apressou para ir comer, e disse que voltaria para me ajudar com o resto do trabalho.
Aquilo estava demorando mais do que eu esperava. Eu esfregava, enxaguava e esfregava de novo. Aparentemente os garotos de Nêmesis tinham um sério problema de mira, pois tive que limpar a parede também.
Quando estava finalmente acabando de limpar o último, escutei a porta de abrir. De início, pensei que fosse Dreus, mas ao voltar minha atenção para o garoto, estremeci. Nico Di Angelo.
Ele semicerrou os olhos para mim e encarou o piso ensaboado. Torci para que ele viesse em minha direção e escorregasse. Colocaria meu estado de espírito no lugar.
Infelizmente, ele usava coturnos. Coturnos enlameados. Ele apenas andou de um lado para o outro como se estivesse procurando algo, suas pegadas imundas marcando os ladrilhos do piso. Ele estão deu de ombros e foi embora, mas não sem antes me lançar um sorriso irônico.
Me levantei e meus pés descalços deslizaram, mas consegui me manter de pé ao me agarrar num dos vasos de porcelana do mictório. Tive sorte de aquele estar limpo. Minhas pernas estavam num ângulo esquisito, com um pé escorado à parede e o outro deslizando para trás, o que parecia mais um espacate mal feito.
Quando me pus de pé normalmente, Di Angelo já tinha desaparecido.
—Filhote de defunto... – rosnei, logo depois suspirando e agarrando um rodo para jogar as pegadas de lama e sabão para fora do banheiro.
De tarde, depois que deixei o banheiro o mais limpo que pude, não tive coragem de voltar para a arena. De Sophia me acertara com um soco, Calíope certamente me faria comer a próprias tripas. Então segui para a beira mar e apenas caminhei pela areia, a brisa do Estuário de Long Island era calma e fresca, secando o suor da minha testa.
Imaginei quem seria meu parente divino, e por que não havia me reclamado ainda. Todos os campistas sabiam quem era seu parente divino depois do acordo que Percy Jackson havia feito com os deuses do Olimpo. Todos os semideuses de até treze anos de idade deveriam ser notados por seus pais divinos ao chegar no acampamento. Eu era o único que aparentemente fora rejeitado. Não tinha família, apenas um nome. Nunca conheci meu pai ou mãe mortal, simplesmente acordei no Cassino Lótus como se o lugar tivesse simplesmente me gerado num passe de mágica. Não sabia nada sobre mim mesmo antes de Erika ter me arrancado de lá. Nenhuma pista a não ser o meu sotaque, digamos, peculiar. Meu inglês sempre foi bastante diferente e eu cismava em pronunciar todas as consoantes das palavras, principalmente o “r” e “l” quando estava com raiva ou frustrado. Vez ou outra eu murmurava palavras em o que poderia tanto ser russo quanto alemão, mas não tinha ideia do motivo. Erika sempre dizia que o passado não era tão importante e que eu deveria apenas seguir em frente, mas não tem como simplesmente ignorar uma coisa dessas.
Me sentei na areia, observando o horizonte onde o mar desaparecia de vista. Algumas náiades perseguiam umas às outras debaixo d’água, outras se sentavam nas pedras mais perto da praia e penteavam os cabelos, que mais pareciam tentáculos de águas-vivas, flutuando em torno de suas cabeças mesmo na superfície.
Abracei meus joelhos e respirei fundo antes de sussurar:
—Por favor, quem quer que você seja... me dê um sinal.
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