Um mês inteiro se passou, e não tive nenhum sinal. Nada em meus sonhos que me instigasse qualquer clareza, ou um pinguinho de esperança. Ser ignorado normalmente me irritaria, mas eu só me sentia desamparado e ainda mais rejeitado pelo resto. O chalé onze ficou fora dos jogos de capture a bandeira por minha causa, o que fez o clima pesar ainda mais, então eu só entrava ali para ir dormir e saía de manhã o quanto antes.
Mas em contraste, Dreus Ascia me mantinha com esperança, o que ajudou um pouco. Minhas habilidades com a espada melhoravam aos poucos também, o que queria dizer que Calíope estava pisando em mim o dobro de vezes ao dia. E, lentamente, os outros começaram a se acostumar – ou aturar, como queira – com minha presença, por mais que deixassem claro que não esqueceriam tão cedo da minha pequena demonstração de como ser inconveniente.

Para ser honesto, mesmo com toda aquela atmosfera tensa, não me arrependi do que tinha feito. Ainda cogitava em fugir para outro lugar, mas ao mesmo tempo pensava em como eu viveria fora da segurança das barreiras anti-monstro: Aniquilando criaturas vindas direto do Tártaro e dormindo numa sarjeta? Não parecia nem um pouco convidativo, mas eu pensaria em algo.

Ao mesmo tempo, o clima do acampamento tinha mudado. Literalmente, o clima. O céu parecia mais escuro pela manhã e em pleno meio dia de verão, brisas geladas nos pegavam de surpresa. Alguns garotos de Deméter reclamavam que o campo de morangos estava morrendo aos montes. Jason Grace também encarava o céu vez ou outra, nervoso. Parecia que o outono havia simplesmente decidido irromper no meio de Julho.

Em pouco menos de uma semana, todos os morangos plantados murcharam. A comida farta ficou sem gosto. As ninfas que antes pulavam e dançavam por aí agora se arrastavam lentamente de um lugar para o outro, apáticas. Até mesmo o grande pinheiro de Thalia tinha perdido algumas folhas, mas continuava imponente como sempre.
É claro que desconfiavam de mim. O garoto novo chega sem dar muita explicação, traz problemas e logo depois as plantas não crescem mais.
Nenhum deles comentara algo na minha frente, mas eu podia vê-los cochichando quando eu passava, olhando para o céu ou encarando os frutos podres no chão. As ninfas corriam – ou se arrastavam – de mim de pavor.

A melancolia de não ser aceito logo voltou a ser ressentimento. Tive vontade de assustar os espíritos da natureza com minha espada só por crueldade. Quis que pensassem que eu era mesmo o responsável por aquilo. Queria esmurrar o primeiro que cochichasse sobre mim novamente. Se fossem me confrontar, que fizessem isso na minha frente.

No fim daquela tarde, todos fomos jantar mais cedo. Eram cinco da tarde, mas o céu estava escuro e sem nenhuma nuvem. Além disso, os conselheiros dos chalés, Quíron e Dionísio iriam se reunir na Casa Grande para discutir algo sobre uma missão. Concluíram que algo sério estava ocorrendo com o acampamento, e precisavam mandar heróis para consertar o que quer que estivesse acontecendo.
Me afastei dos filhos de Hermes, sentando do lado oposto da mesa número onze. Quando finalmente me servi, encarei a salada de batatas, que estavam claramente apodrecendo. As ervilhas estavam murchas e a carne parecia velha. Suspirei e me levantei para fazer minha oferenda. Ainda tinha esperanças de que algo me desse um norte, talvez uma mensagem, talvez... qualquer coisa.

Segui de cabeça baixa para o braseiro com passos curtos. Tropecei em algo e cai para frente, o prato voando de minhas mãos e se partindo no chão em pedaços. A comida se espalhou pelo chão, e uma pequena parte para a brasa, dissolvendo-se em fumaça. Ouvi risos das mesas, até mesmo de Dionísio, mais à frente.
Estapeei as ervilhas que caíram nos meus cabelos ao mesmo tempo que distinguia no que havia acontecido. Nico Di Angelo estava de pé em minha frente e me lançou um sorriso sarcástico.

–Precisa de ajuda aí, Totenn? – Perguntou ele. Não contive a raiva que vinha guardando aquela semana, invadindo meus pulmões, e no instante seguinte eu estava agarrando-o pela gola da camisa, os olhos ardendo em fúria.

—Ah, Di Angelo... estava mesmo esperando por um motivo para lhe quebrar os dentes. – e dei uma cabeçada em seu rosto anêmico. Todos em volta prenderam a respiração. Ouvi algumas pessoas se levantando de seus assentos.

Nico grunhiu e deu dois passos para trás, me encarando nos olhos ao mesmo tempo que uma rajada gelada invadiu o pavilhão, apagando todas as tochas que iluminavam o lugar. A única luz agora era a do braseiro, crepitando logo atrás de mim.
Com a falta de luz, o rosto do filho de Hades estava macabro com o sangue escorrendo do nariz, seus cabelos pareciam estar se mesclando com as sombras. Ninguém ao redor disse nada, porém escutei os cascos de Quíron quando se aproximou de nós. Estava pronto de falar algo, mas um arquejo coletivo quebrou o silêncio. A expressão intimidadora de Nico vacilou, e seus olhos se arregalaram em incredulidade, mas não estava olhando para mim, pelo menos não diretamente.
Me voltei para o resto dos semideuses, todos com o olhar fixo no mesmo ponto. Não entendi o que estava acontecendo, mas olhei também.

Um brilho rubro me cobria, com a imagem de um elmo pairando sobre minha cabeça. Um elmo de guerra negro e lustroso irradiando poder em volta de mim. O chão estremeceu e um raio cortou os céus com um clarão estrondoso.

—Impossível... – balbuciou Nico Di Angelo, parecia estar a ponto de desmaiar.

—Está reclamado. – Quíron disse, sua voz estava por um fio. –Hades, Senhor dos Mortos. Governador das riquezas do subterrâneo. Salve, Eugene Totenn, filho do Mundo Inferior.

Senti a visão embaçar e meu estômago embrulhar.
Por que?

De todos os deuses, por quê justamente que enviou monstros para me matar? Que tipo de piada de mau gosto era aquela? O deus que mais detestei todo esse tempo... era meu pai?

A imagem desapareceu, e ninguém disse uma palavra até então. Quíron pôs a mão em meu ombro e declarou com seriedade:

—Preciso ter uma palavra com você, criança.

—O juramento. – Nico sacudia a cabeça, ainda não acreditando. –Hades não quebrou o juramento. Isso está errado!

—Isso nos dá mais perguntas que respostas. – Admitiu o centauro, olhando para os campistas. –Vão para seus chalés. Conselheiros, me encontrem na Casa Grande imediatamente.

—Espere... – gaguejei. –Estão enganados.

—Vá para o chalé treze, menino. E tente pôr a cabeça no lugar. Falaremos com você pela manhã.

Nico limpou o sangue de seu nariz, tentando convencer todos do que eu mesmo queria acreditar. Quíron lhe disse que entrariam em consenso na reunião.

Me apressei para o chalé onze e agarrei tudo o que me pertencia o mais rápido que pude, pulando a janela antes que alguém entrasse. Corri em direção ao pinheiro de Thalia e entrei na floresta escura, ajeitando a mochila nas costas e embainhando a espada. Eu não ficaria nem mais um minuto naquele lugar. Era tudo uma grande farsa. Aquele acampamento não era meu lugar. Hades não era meu pai. Estavam todos mentindo para mim. Eu voltaria para o Cassino Lótus a pé se fosse preciso.

Nada mais importava agora.