Predestinado

21 Capítulo Vinte e Um


Se não fosse por Sophia, talvez os três tivessem voltado para o Acampamento.

Ela foi a primeira a acordar do transe de horror e desesperança que atingiu-os ao ver Eugene Totenn com os olhos sem vida. Ela viu e sentiu aquela aura sombria, quase insuportável. Como aquele garoto tão novo poderia emanar tal escuridão? Como ele chegou àquele ponto?

Ela não sabia dos motivos do filho de Hades, mas tinha certeza de uma coisa: ele não iria conseguir superar aquilo sozinho. Foi quando resolveu agir, finalmente.

Ela se levantou, mesmo que as pernas tremessem, e encarou Calíope e Dreus, ambos pasmos com o que acontecera. Então foi até Dreus e abriu sua mochila estufada, procurando pelas cordas de Bronze Celestial que ela sabia que ele teria ali. Ele pareceu não ter notado, ainda encarando o chão, sem saber o que fazer. Sophia puxou duas flechas de sua aljava encantada que pendia em sua cintura, e amarrou as pontas cordas finas na haste com cautela. Fincou uma das flechas no chão com toda a força e se abaixou, preparando a outra no arco e mirando na margem oposta do rio. A corda foi lançada por cima da água, e a flecha fincou no chão com firmeza. Ela repetiu a ação, mas dessa vez atirou as flechas na altura do peito: na parede da caverna atrás de si e na copa de uma das árvores da floresta em que Eugene adentrara. Era por ali que eles atravessariam, como nos treinamentos de Quíron.

Ela se virou para os companheiros e suspirou. Eles pareciam ter voltado a si, mas ainda não era o bastante.

—Aquele pirralho está com problemas. Vou dar uns cascudos nele quando o acharmos e o levarmos para casa. Vocês vêm comigo ou não?

Calíope se limitou a dar um pequeno sorriso. Dreus piscou com força e olhou para as duas, confuso.

—Cascudos? Que foi que eu fiz agora?

Sophia riu, e lhe ofereceu a mão para que levantasse. Calíope se pôs de pé sozinha e suspirou, mirando a floresta.

—Se Totenn ainda estiver vivo quando o encontramos, eu juro que vou matá-lo. Nunca mais vou bancar a babá pra ninguém.

—Isso quer dizer que vamos ser babás dele e do Dreus pelo resto de nossas vidas. — Sophia apontou.

A irmã apenas deu de ombros, assentindo. E se dirigiram até a ponte improvisada.

∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞ Ω ∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞

Hades e Eugene caminhavam para a entrada do palácio do Mundo Inferior. Os dois observavam as filas dos mortos para entrar no Pavilhão de Julgamento ao longe. O Senhor do Mortos olhou pra o filho enquanto caminhavam, parecia ainda um poco desconcertado.

—O que pretende fazer agora, criança?

Eugene se demorou a assistir as almas condenadas aos Campos Asfódelos, com certeza não era o melhor lugar para se olhar ao receber aquela pergunta.

—Não sei. Não tenho para onde ir. — disse, o que fez o deus erguer uma sobrancelha.

—O Acampamento Meio-Sangue ainda está de pé, não é? Você deve ter conhecido Nico.

—Ah, sim. Sim, eu o conheci. Mas ninguém me quer por lá. Eu… causei alguns problemas.

—É mesmo? Então os três que vieram aqui para levá-lo de volta não são seus amigos?

Eugene se voltou para o pai, os olhos arregalados.

—Alguém veio para me buscar?

—Duas filhas de Atena e um garoto de Hefesto se voluntariaram numa missão de busca. Cruzaram o Estige. Estão procurando você desde que você fugiu.

—Eu nem mesmo… Eles estão bem?

—Ah, vão ficar. Deixarei com que cheguem até aqui e então irei levá-los de volta ao Acampamento. — Hades comentou, um pequeno sorriso no canto da boca. Ele mirou a espada embainhada do filho, e limpou a garganta. —Você já usa ferro estígio, então. Onde conseguiu isso?
O menino enrubesceu, nervoso.

—Não me lembro muito bem… Mas aqueles espíritos me disseram para mergulhar a lâmina no rio, e ela ficou assim.

—Entendo.

Eugene esperou por algum tipo de explicação sobre como aquilo aconteceu, mas Hades parecia estar muito ocupado nos próprios pensamentos. Ele então pôs a mão dentro das vestes, de onde tirou uma aliança de aspecto antigo e um tanto torta, tão escuro quanto a lâmina da espada nova. O garoto reconheceu a joia, mas deixou que o pai falasse.

—Bem, isso é um tanto… insólito. — Eugene não fazia ideia do que aquela palavra significava, mas nada comentou. —Eu nunca cheguei a conhecer você de verdade. Você tinha acabado de nascer quando o deixei com sua mãe, e ela não comentou muito sobre mim, eu sei. Eu… dei a ela este anel quando fiz minha promessa. É feito de ferro estígio, e acabou sendo amaldiçoado, mas sei isso que não irá atingi-lo. — ele esticou a mão para dar-lhe o anel. Eugene franziu as sobrancelhas.

—Você está me dando… um anel velho e amaldiçoado. — ele encarou o anel, que brilhou com a luz das tochas de fogo esverdeado, igual ao Chalé Treze. —Obrigado?

Hades assentiu, não percebendo o sarcasmo na voz do filho.

—Minha prole consegue contornar maldições de uma forma… singular. E eu queria que ficasse com algo de sua mãe. Nem sei se ela chegou a usá-lo, mas...

—É, eu entendi. — disse, colocando o presente no anelar esquerdo. Não queria admitir, mas ficou feliz de receber algo do pai, por mais que nunca esperasse qualquer coisa do tipo.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos. Nenhum dos dois parecia saber como reagir um com a presença do outro, e ambos sabiam daquilo. E ambos ficaram felizes por saberem daquilo.

Então um soldado morto-vivo marchou até seu mestre, e Hades assentiu.

—Seus amigos estão aqui.

∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞ Ω ∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞∞

Mesmo quase tendo se borrado de medo e quase mergulhado num rio oleoso e cheio de coisas assustadoras boiando, Dreus não se sentia tão apavorado quanto achava que fosse ficar. Ele estava na porta do castelo do deus dos mortos, e não sentia que pudesse desmaiar ou ter uma crise de asma a qualquer momento. Progresso!

Os ghouls de Hades os avisaram que Eugene estava com o pai, e estava seguro, o que facilitou bastante e quebrou a tensão que foi criada quando o trio o viu rodeado de escuridão e com aqueles olhos… Dreus queria poder esquecer daquela cena.

Os três avançaram para as portas do castelo negro de Hades, que se abriam enquanto seu dono e Eugene caminharam na direção deles. Os esqueletos que estavam de guarda bateram continência. Calíope se curvou, e Sophia e Dreus a imitaram.

—Lorde Hades. — ela disse respeitosamente, e encarou Eugene. Dreus jurou por um momento que ela fosse realmente lhe dar o cascudo prometido nele, mas ela parecia surpreendentemente aliviada. —Agradecemos pela hospitalidade.

—Ah, que respeitosa. De todos os semideuses, não pensei que você voltasse aqui tão cedo. – Hades comentou, o que fez a expressão reverente de Calíope hesitar por um segundo. Dreus não sabia do que se tratava, mas temeu que ela chutasse o deus do submundo entre as pernas.

—Não deixaria dois adolescentes confusos vagarem por aqui procurando por um outro adolescente três vezes mais confuso, quando um deles não pode nem mesmo lembrar de trazer uma bombinha de asma. –—aquelas palavras atingiram Dreus como um soco no estômago, mas ele não ousou levantar o olhar. —São três semideuses mortos a menos na minha conta. Vai ajudar a manter minha consciência limpa.

Hades soltou um riso pelo nariz, como se Calíope lhe contasse algum tipo de piada interna sinistra. Ela não poderia estar mais séria.

Eugene limpou a garganta.

—Então…

Sophia e Dreus se levantaram ao mesmo tempo, se entreolhando. Calíope umedeceu os lábios.

—Vamos para casa, então. Eu acredito que o milorde pode nos dar uma carona de volta. Para nos poupar um pouco de todo o estresse, não concorda?

Hades assentiu, um tanto distraído, e olhou para o filho.

—Não espero vê-lo por aqui muito em breve, então tente se manter vivo o máximo possível.

Era uma despedida de pai e filho um tanto fria e rápida demais para Dreus, mas Eugene não parecia sentir o mesmo, apenas concordando com a cabeça e descendo os degraus para perto de Calíope. Parecia muito menos carrancudo que da última vez que se viram no acampamento, com um brilho nos olhos que fez Dreus sentir que valeu a pena ter chegado até ali, apesar de tudo.

—Que tipo de carona é essa? — perguntou, olhando para a filha de Atena mais velha.

Ela não respondeu. Apenas esperou enquanto Hades estalava os dedos, fazendo as sombras do chão se contorcerem e rodopiarem em volta dos quatro, até que lhes puxassem para a total escuridão.