Dois anos e nove meses.
Esse foi o tempo em que estive com Erika procurando o maldito Acampamento Meio-Sangue. Dois anos e nove meses viajando — fugindo — de cidade em cidade, pegando caminhos errados e enfrentando tigres-de-dentes-de-sabre do tamanho de um conversível feitos plantas e flores, karpoi — os espíritos da natureza que comentei antes. Sim, eles eram importantes – harpias e ninfas psicopatas. Haviam muito mais, mas esses tinham um olhar diferenciado por mim. Plantas em particular queriam me triturar.
Eu tenho pesadelos com arbustos me apunhalando desde então.

Os monstros que mais apareciam não pareciam realmente querer me devorar, apenas me perseguiam e berravam no meu ouvido no caminho para as escolas (ou das escolas para casa, eles não estavam nem aí. Provas finais? Que se danem!) em que eu ficava matriculado por poucos meses.

Você precisa ficar em um lugar seguro enquanto colho informações mais concretas.— Erika havia dito —Além disso, álgebra é essencial!

Era insuportável ter uma fantasma checando seus deveres de casa e se apossando dos seus materiais escolares como um poltergeist quando você não os fazia.
Claro, não era de todo o mal. Nas escolas eu poderia relaxar sem que monstros me perseguissem e poderia fingir ser um garoto normal. Até fiz amigos. Mas não durava muito.
Logo eu teria que colocar as roupas na mochila surrada — que comprei em Salt Lake City — e tentar a sorte para mais perto de Long Island. Descobrimos que o acampamento estava ali pouco depois de alugarmos um apartamento em Pitsburgo, Pensilvânia. Mesmo assim, eu estava sem esperanças.

As instruções que nos davam eram sempre duvidosas. Quando estávamos no outono de Woodland Township, Nova Jersey, uma senhora ruiva de aparência amigável nos disse que o acampamento ficava no Michigan. Meses mais tarde, no inverno de Detroit, uma garota de cabelo platinado nos convenceu de que qualquer meio-sangue estaria seguro no Texas. E logo depois, num domingo ensolarado de Houston, um rapaz loiro e bronzeado com um sorriso afetado nos fez juntar as malas para irmos à Mineápolis.
Algo sempre dava errado. Quando não eram caminhos em círculos, aconteciam acidentes nas viagens. Já perdi as contas de quantas vezes quase morri em desastres de trânsito viajando pelos Estados Unidos, ou como eu caía no sono e ao invés de acordar no Maine, era forçado e descer em Ottawa. Uma vez, uma menininha vendendo limonadas na porta de uma das escolas em que estudei quase me fez acreditar que eu deveria seguir para o Alaska.

Então foi decidido: Erika coletaria informações mais seguras enquanto eu ficava seguro numa escola da Louisiana e finalmente poderia aprender a ler e decorar tabuada do oito. Mas mesmo aquilo era uma tortura, as palavras dançavam para fora dos livros e me deixavam tonto nos primeiros parágrafos que eu era forçado a ler nas aulas de inglês.
Só alguns meses depois, na Lead Neely's Bend Midschool, em Tenessee, que descobri que tinha dislexia e Déficit de Atenção e Hiperatividade. O sr. Phillips foi o professor e orientador mais paciente que tive, e explicou tudo para Erika — que fingia ser minha mãe muito ocupada para lidar com um filho problemático (a névoa poderia deixá-la visível para alguns mortais) — , e me instruiu a ficar para aulas extracurriculares e trabalhar minhas "complexidades", como ele gostava de falar.

Isso tinha acontecido quase dois anos depois que fugi do ciclope em Las Vegas. E foram os meses mais calmos que vivi desde então. Ainda tenho saudades de Neely's Bend e das incríveis aulas de história do sr. Phillips.
Infelizmente eu acabei sendo expulso de lá depois de fraturar a tíbia do riquinho Donnie Prumt quando ele me acusou de roubar uma medalha de xadrez da sala de troféus da escola. Isso depois de ele gritar para todos no intervalo que eu tinha pichado o capô da Mercedes do Diretor Wells com uma carinha triste e dois xis no lugar dos olhos. O cara chegou a apontar o dedo para mim até para dizer que eu tinha deixado seu pequeno pé de feijão morrer pouco antes da apresentação dos trabalhos de ciências do terceiro ano.
Donnie Prumt nunca sabia a hora de parar de falar. Ou bisbilhotar.

Certo, então lá estava eu na aula de geografia — a última aula do dia — , olhando pela janela e encarando uma águia particularmente grande — e vermelha — sobrevoar o prédio da Arsenal Middle School, em Pitsburgo, voando em círculos e cacarejando cada vez mais alto a medida que descia.

Águias não cacarejam, pensei.

Eu já sabia o que estava por vir, então suspirei. Talvez alto demais, pois a sra. Lunger me chamou a atenção.

—O senhor não está apreciando a explicação, sr. Totenn? — perguntou, cutucando o próprio queixo com o giz. Era assim que ela mostrava que alguém estava encrencado.

—Perdão, senhora. Águias não cacarejam. — disse. A classe explodiu em risadas. As narinas da sra. Lunger dilataram com tanta intensidade que eu pensei que ela começaria a flutuar para fora da sala de aula.

Eu juro que aquilo saiu sem querer. Ou talvez não tivesse. Eu não controlava muito bem o que escapava da minha boca.

—Certo. — ela recuperou a pose e sorriu suavemente, virando-se para a lousa e escrevendo:

SEGUNDA-FEIRA, TESTE DE ÚLTIMA HORA. IMPORTANTÍSSIMO.

Todos gemeram.

SR. TOTENN FAVOR IR PARA A DIRETORIA. AGORA.

Gemi.

Apanhei minhas coisas e as coloquei na mochila de qualquer jeito, andando para fora da sala.

—Não tão depressa, meu querido. — a sra. Lunger conseguia ter uma voz insuportável quando queria —Você sabe das minhas regrinhas. Pegue um papel, escreva "desculpas" e então leia para todos nós.

—Claro, senhora. — me apressei para abrir a mochila, que caiu no chão e fez algumas meninas darem risadinhas. Arranquei uma folha do meu caderno. O aluno da primeira carteira, Todd, me emprestou uma caneta.

Comecei a escrever, mas o nervosismo – e a dislexia — fez DESCULPAS virar BFSGULBAS. E eu não iria mostrar aquilo para a classe.

Quer saber? Que se dane.
Virei a folha e escrevi com mais força, sem querer rasgando-a com a caneta, mas bem a tempo de terminar a palavra.
Fiz questão de lamber a parte de trás da folha e a colei no quadro com um tapa que fez uma garota — Victoria Reeves — mais atrás acordar com um guincho. A folha ficou grudada logo acima da palavra DIRETORIA, um pouco torta. Mas todos iriam conseguir ler.

SR. TOTENN FAVOR IR PARA INFEЯNO. AGORA.

Não esperei que a sala se recuperasse do susto e devolvi a caneta de Todd pouco antes de jogar a mochila por cima do ombro e correr escadas abaixo para fora do colégio.

Não foi minha melhor abordagem, é claro. Mas ás vezes eu preferia ter de lidar com monstros ao invés de professoras de geografia autoritárias.

Não demorou muito para que eu me arrependesse de sequer pensar isso.

A suposta águia-galinha não estava mais à vista, então apenas comecei a andar de volta para casa, os dedos das mãos entrelaçados no bolso duplo do moletom verde escuro.
Não vai ter problema. O apartamento ficava a poucas quadras da escola.

Sem distrações. — Erika me advertira uma vez. —Alguns monstros gostam de fazer tudo parecer um acidente. Não quero encontrar você morto numa vala por seguir sons estranhos.

—Foco. Sem monstros. Só dessa vez. Por favor. — rezei baixinho, suspirando e olhando para as nuvens. Os deuses não tentaram me ajudar, nem uma vez sequer. Nenhuma arma mágica para combater as aberrações, nem mesmo um trovão para eu saber que estavam olhando por mim.
Ainda espero acordar num manicômio, vestindo uma camisa de força e babando no chão, murmurando sobre deuses e ciclopes.

—Talvez vocês nem existam. — rosnei, fechando a cara. —Talvez nada disso seja real.

A brisa calma se transformou num vento macabro, e eu sabia que tinha falado demais.

Você adoraria que fosse assim, não é, meio-sangue? — uma risada má soou acima da minha cabeça junto com o som de bater de asas. -Vocês adoram fugir das suas vidas.
Antes que eu pudesse me virar para encarar qualquer que fosse aquela criatura, senti a mochila ficar mais leve um milésimo de segundo antes das alças me puxarem para cima pelas axilas e meus pés saírem do chão. O barulho de asas se intensificou.
O ar escapou meus pulmões e eu me remexi desesperadamente para cair antes que a altura se tornasse um problema maior.

—Monte de penas fedorentas! Galinha gigante! — praguejei, tentando acertar um dos punhos nas pernas da harpia — dava pra reconhecer o cheiro de galinheiro sujo quando se estava muito perto de uma — , mas eu já estava da altura do segundo andar de um prédio a minha esquerda. Até mesmo vi meu reflexo no vidro preto das janelas. Agora era só esperar a mochila arrebentar com meu peso e tchau, tchau, Eugene.

A primeira experiência com voo foi única, já a sensação de quase morte já era um costume.

A harpia voou mais alguns metros do chão, algo como duas vezes um poste de luz convencional. As construções passavam por mim com mais velocidade.

Prepare-se para enfrentar a fúria da Dama Primavera! — a harpia cacarejou com deleite e agitou minha mochila para o lado, fazendo todo o lado direito do meu corpo de chocar contra um prédio velho. A velocidade em que estávamos voando fez com que o concreto queimasse minha pele e eu sibilei de dor, o que ela adorou e repetiu mais algumas vezes, rindo como uma gralha. Ela estava realmente se divertindo.

Quando tentou me investir mais uma vez contra o arranha-céu mais próximo, consegui chutar-me para longe com ambos os pés, o que fez com que meu tênis direito ficasse mais frouxo. Então tive uma ideia.

Tentei chutar o pé direito para cima e pegar o tênis com uma mão para bater na harpia, mas tudo o que consegui fazer foi lançá-lo para dentro de uma janela e escutar um chiado felino vindo lá de dentro.
O próximo movimento da harpia foi o que me salvou, pois ela desceu num rasante para esmagar-me no beiral de uma construção mais baixa, porém consegui erguer ambas as pernas para frente o máximo que pude e desviei com sucesso.
A criatura grasnou e voamos alguns metros acima dos telhados das casas. Não era tão alto.

Era a melhor opção do momento, então estiquei os braços para cima sacudi o corpo para me soltar das alças. Foi exatamente o que aconteceu, mas eu não estava esperando que realmente funcionasse.
Despenquei em queda livre por poucos segundos e pousei nas placas de tijolos com força. Senti todas as vértebras da minha coluna se chocarem ao mesmo tempo e tossi com agonia.
A harpia guinchou mais acima e eu sabia que ela daria outro rasante, dessa vez para arrancar um pedaço de mim.
Ignorei a dor e andei o mais depressa possível para o teto da próxima casa, tropeçando em pedaços de pedra e madeira e assustando alguns pombos a medida que corria pelos telhados.

A casa mais próxima estava separada por um vão do teto onde eu estava, um pouco longe. Aqui vamos nós.

Peguei mais velocidade e pulei, um pouco mais cedo que deveria, e percebi que eu me chocaria contra a janela mais alta à vista.
Adeus estômago.
Caí em câmera lenta, apenas o barulho do sangue correndo em meus ouvidos e o cacarejo da harpia. Estava atrás de mim, pronta para me rasgar com suas garras ossudas. Senti uma estocada violenta nas costas em pleno ar, que me fez ser lançado mais para frente e cair em segurança – ha — nos tijolos. Minha mochila estava logo à frente de mim. Só parei para entender que galinha gigante tentara me nocautear com ela depois de derrapar telhado abaixo com algumas telhas soltas. Caí num beco estreito de costas em algo um tanto macio, mas o cheiro de chorume comida velha me fez perceber onde eu acabara de pousar. A mochila caiu pouco depois, com tudo, logo abaixo da minha virilha. Eu não tinha mais voz para gemer até aquele ponto.

Que dia horrível.

Fiquei alguns segundos tentando recuperar forças para me levantar e correr para longe, mas estava exausto e totalmente dolorido.

Dor. Foi só isso que senti antes de desmaiar. E que dor excruciante.