Predestinado
4 Capítulo Quatro
Eu só sabia o que era sonhar quando passei minha primeira noite fora do Cassino Lótus. E desde então, todos os sonhos que eu me lembrava eram muito estranhos. Este não poderia ser diferente.
Havia um extenso jardim sombrio em volta da mim, com árvores tortas e um rio de cor branca que seguia calmamente. A grama era escura, seca e quebradiça, mas parecia regularmente aparada. Uma mulher de sedosos cabelos morenos com um longo vestido cor de oliva estava colhendo algumas flores vermelho-sangue que formavam uma trilha à margem do rio. Haviam pétalas espalhadas em volta dela, se fundindo lentamente em seu vestido como pingos de tinta.
—Foi aqui que eu me apaixonei por você, marido. – ela não estava se referindo a mim, obviamente, estava falando consigo mesma. Seu tom era calmo, mas cheio de ressentimento –Bem neste mesmo lugar. O mesmo lugar em que você decidiu que atenderia às lamúrias daquela bonifrate desprezível. – mais pétalas caíram no chão e eu percebi que ela as estava arrancando das flores, estremecendo de raiva. Mas logo suspirou, fungando. Estava olhando para aquela água leitosa –Eu sempre amei as papoulas e esse rio, e você sabia. Deixou que eu cuidasse deles a meu modo. Mas isso... foi a traição mais baixa que você cometeu. Deveria saber, mais que ninguém, que se deve deixar os mortos do jeito que estão: mortos! – sua voz ficou embargada, e ela começou a soluçar, cobrindo o rosto com as mãos. As flores que ela estava despedaçando caíram na água e foram levadas serenamente pelo rio.
Ela então parou, se recompôs e se virou para trás. Olhou na minha direção com desprezo e eu senti as pernas ficarem bambas.
—Então...? — a mulher secou as lágrimas.
Acordei antes que pudesse responder.
Já era manhã, mas eu continuava largado em cima de sacos de lixo. Uma luz branca pairava em cima de mim.
—Eugene. — chamou. Era a voz de Erika. -Ah, deuses. Está vivo.
—Ahn... — resmunguei, tentando me levantar. Meu corpo ainda doía.
—A diretora me disse que você fugiu antes da aula acabar.— Ela soou aborrecida, e atravessou sua mão na minha cabeça, o que me fez pular com o frio repentino no cérebro.
—Ai! Certo, certo. Desculpe. Não vou fazer de novo.
—Muito engraçado. Sabia que iriamos embora hoje de manhã. O que aconteceu?
Estapeei a sujeira das roupas e olhei para ela.
—Harpia. Me arrastou até aqui. Deve ter achado que morri na queda. — Me forcei a levantar e pegar a mochila, olhando para o telhado de onde caí. -Nós vamos indo ou não? Vai ser legal conhecer Nova York e descobrir o seu acampamento imaginário estava esse tempo todo em Alcatraz. — ri em escárnio, balançando a cabeça.
Ela suspirou. Sabia que eu estava sem esperanças.
—Temos que continuar tentando. Atravessaremos o mundo, se for necessário. Você precisa ter fé.
Joguei minha mochila em sua direção, que apenas atravessou seu corpo imaterial e se chocou contra uma lata de lixo. Uma ratazana correu para dentro do esgoto.
A cara de espanto de Erika quase fez com que me arrependesse.
—Fé?! — berrei -Em quem? Nos deuses? Eles nunca moveram um dedo para me ajudar. Você sabe há quanto tempo temos procurado? Quase três anos! Talvez essa droga de lugar existisse quando você era viva, mas já deve ter virado história. Estamos andando em círculos por todo esse tempo! Você nunca me disse nada concreto desde que nos conhecemos, sabe o quanto isso é frustrante? — solucei, meus olhos ardiam -Estou cansado. Estou cansado de ficar fugindo o tempo todo. Estou cansado de acreditar num lugar que nunca vou encontrar. Quero voltar para o cassino e passar o resto da eternidade esquecendo que tem monstros tentando me matar! Quero ir embora!
Ela apenas me encarou enquanto eu arfava e chorava, chutando os sacos e latas de lixo em volta de mim. Aquele sentimento esteve me consumindo por muito tempo e eu precisava colocá-lo para fora. Ela não me julgava por explodir assim. Nunca julgou.
—Você quer mesmo isso? — ela perguntou quando eu finalmente me acalmei e sentei no chão encardido. Foi a pergunta mais sincera que ela já me fizera. -Quer mesmo voltar para o Cassino Lótus?
Eu fitei seus olhos opacos e respirei fundo.
—Não. Só quero que isso acabe. Não quero ter que ouvir que temos de ir para outra direção assim que chegarmos em Nova York.
—Você não irá.— ela sorriu levemente. O sorriso dela sempre conseguia despejar um pouquinho de esperança no meu coração. -Confie em mim. Só mais esta vez. Sei que estamos perto. Posso sentir.
A verdade é que eu não queria acreditar, mas também não queria decepcioná-la. A única missão dela era me deixar a salvo, pelo menos isso eu deveria tentar. Assim que eu chegasse ao acampamento, ela estaria livre. Não precisaria mais vagar por aí e salvar semideuses perdidos, por mais que fosse o trabalho dos sátiros. Ela já vira alguém querido morrer antes da hora. Eu não podia deixá-la sofrer aquilo mais uma vez.
Peguei minha mochila e arranquei algumas cascas de maçã dos bolsos laterais, andando para fora do beco. Ela me acompanhou de volta para o apartamento e eu tomei um longo banho gelado para tirar o cheiro do chorume e lavar os arranhões. Logo eu estava pronto para pegar o Greyhound: Bus Station e seguir viagem para a cidade de Nova York.
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A viagem durou oito longas horas, nas quais eu me forcei para não dormir. Não iria acordar no Canadá de novo. Chega de truques sujos.
Erika estava sentada do meu lado o tempo todo, olhando as paisagens e conversando comigo sobre as histórias que ela ouvira sobre o acampamento. Ela já havia contado muitas delas, mas eram sempre muito boas de se ouvir.
Ela me contou sobre o centauro treinador de heróis, Quíron e sobre Dionísio, que foi forçado a lidar com jovens semideuses por ter perseguido uma ninfa protegida por Zeus. Disse que ele não se dava bem com os campistas de início, mas depois da Guerra dos Titãs — onde o lendário filho de Poseidon, Percy Jackson, salvou um garoto amaldiçoado por Cronos e livrou temporariamente a inimizade dos deuses. — tinha finalmente os visto mais como uma família. Ela também falou sobre como a Segunda Guerra foi responsável pela quase extinção dos poucos filhos dos Três Grandes que ainda viviam.
Cada história preenchia meu peito e me dava vontade de apressar o tempo. Era bom ter esperança. Ter um objetivo que me deixasse focado. Foco era a palavra chave de Erika, aparentemente.
Erika também me explicou mais uma vez sobre como a Névoa funcionava, e como ela poderia ser manipulada tanto contra semideuses quanto os mortais.
—É um instrumento de batalha e estratégia. — disse, com muita seriedade. –Mortalmente poderosa. Nunca se esqueça disso, Eugene.
—Não vou. Você se preocupa demais às vezes. – encolhi os ombros e olhei pela janela. Nova York aparentava estar no meio de uma tarde calma. Quatro horas da tarde, talvez. O Sol pairava com um brilho ofuscante, como se estivesse cansado. Apolo poderia estar resolvendo outras coisas naquele momento.
Talvez numa reunião com os outros deuses.
Assim que pus os pés nas ruas de Manhattan, uma sensação estranha me invadiu. Um relâmpago cortou os céus, seguido de um estrondo colossal.
Todos em volta, inclusive eu, olharam para cima com temor. Era Junho, ou seja, verão. Não havia uma nuvem no céu.
Meu ombro formigou e percebi que Erika tinha tentado tocá-lo – ela às vezes parecia esquecer que era um fantasma – a expressão nos seus olhos sem brilho era de medo.
—Perto. Muito perto. Precisamos nos apressar.
Assenti e dei um nó extra nos tênis velhos que tive que pôr para substituir os que havia perdido na tarde anterior para a harpia. Então seguimos às pressas para o táxi mais próximo.
Meu Cartão Lótus estava arranhado e sua tarja magnética estava descascando em vários pontos, então em muitas situações tive que passá-lo mais de uma vez para que funcionasse.
Nesse táxi em particular, perdi a conta de quantas vezes tentei pagar o motorista. Ele já estava quase nos expulsando do carro quando a maquininha finalmente apitou, mas sua telinha não brilhou com o símbolo do infinito e sim com $42,37. Era tudo o que tinha sobrando, de alguma forma. O motorista ergueu uma sobrancelha e nos conduziu para Long Island.
Mais uma hora de viagem. Estava tão exausto que quase caí no sono duas ou três vezes, o que quer dizer que Erika duas ou três vezes atravessou seu braço em minha cabeça, fazendo meu cérebro ser consumido por fumaça gelada de fantasma. Nada agradável, mas efetivo.
Então o carro parou sem que eu percebesse. Acho que estava perdendo a noção do tempo.
—Certo, caloteiros. – o motorista rosnou, sua voz sibilou, como se os dentes fossem grandes demais. –Hora de morrer.
—Ah não— Erika suspirou.
—Ah não. – repeti.
Quando se virou para nós, o motorista – ou criatura, dá na mesma – sorriu com largas presas amarelas, os olhos brilhando em escarlate como se refletisse o próprio inferno.
—Hora de morrer. – repetiu, como se não tivéssemos ouvido da última vez. –Entendeu? Descer, morrer.
Parei por um segundo.
Quê?
—Você disse morrer da primeira vez. – Apontou Erika. Eu quis xingá-la. O monstro suspirou, desapontado consigo mesmo.
—Estou perdendo o jeito. – coçou a cabeça enrugada e careca com uma garra do tamanho do meu antebraço, depois deu de ombros, ou de asas, não importava. –Certo, morram de qualquer forma!
E investiu uma mão crépida cheia de garras em Erika.
O monstro pareceu confuso, pois esperava que ela se desintegrasse, mas seu ataque apenas a atravessou e rasgou o banco. Aproveitei a deixa para abrir a porta e começar a correr. Mas... para onde?
Ah, deuses. Como sou burro.
Bem, estávamos em Long Island, com certeza, mas e agora? Para que lado?
Erika estava aparentemente tentando argumentar com a criatura, pois falava mansamente enquanto recebia grunhidos e mais investidas. O carro estava balançando com toda aquela algazarra.
—Pra onde eu corro? –gritei para dentro do carro. Erika se virou para mim, sua cabeça foi atacada e transformada em fumaça, mas de refez logo depois. Ela também parecia confusa, mas algo clareou seu olhar.
—Colina Meio-Sangue.— sorriu. Mais uma vez, eu quis xingá-la.
—E onde isso fica?! – gesticulei com os braços para todos as direções. Minha voz saiu mais aguda que o esperado.
Ela pareceu ofendida, mas deve ter tido uma ideia.
E foi uma ótima ideia, diga-se de passagem.
Ela encarou o monstrengo com um sorriso como se o desafiasse. E, simplesmente, adentrou seu corpo pelas fendas que deviam ser suas narinas. Simples assim.
Nojento. Genial.
Ele se remexeu e uivou e se debateu por alguns segundos antes de finalmente se acalmar. Quando olhou para mim, seus olhos estavam totalmente brancos e opacos. Erika tinha acabado de possuí-lo. Foi estranho quando os dentes amarelos sorriram docemente para mim.
—Ela sabe onde fica.— a voz de Erika se projetou para fora do morcego humanoide, enquanto saia pela porta do motorista com certa dificuldade. Deve ter se esquecido como é ter um corpo físico.
—Ela?— indaguei.
—É uma fúria. Torturadoras dos Campos de Punição. Eu lhe falei sobre elas, não?
—Deve ter falado. – respirei fundo e me lembrei: Fúrias obedeciam apenas a Hades. Mas...
Isso queria dizer que Hades me queria morto?
Bem, isso explicava muitas coisas.
Tentei não pensar muito sobre aquilo. Era um pouco fácil com todo o cansaço que eu estava sentindo.
Erika-fúria bateu suas asas de morcego e pairou sobre mim, agarrando a alça de mão da minha mochila com seus pés e me erguendo do chão.
De novo não, pensei.
E voamos em direção à Colina Meio-Sangue.
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