Predestinado

15 Capítulo Quinze


Chegar no Mundo Inferior não era a mais fácil das tarefas. Existiam quatro meios de se chegar lá:
1) Morrendo. Não era uma opção.
2) Por Los Angeles. O mundo dos mortos ficava bem debaixo do estado.
3) A Porta de Orfeu, mas precisavam de música. E nenhum deles iria começar a cantar. Nem pensar.
E, é claro, a opção mais fácil: O Labirinto. Uma de suas entradas estava perto do Punho de Zeus, nem um quilômetro da Casa Grande.

Tudo o que Calíope precisava era sua cimitarra e algumas poucas barras de cereal. Os monstros eram o menor dos problemas.
Já esteve em missões de resgate antes, alguns anos antes da Batalha de Manhattan, onde teve que trazer de volta John Evans, filho de Hipnos, junto de Clarisse La Rue.
Ela lembrava do quão perturbado o garoto estava até voltar a si. Tinha fugido do exército de Cronos pelo Labirinto, mas acabara se perdendo. Ele entrou em contato com Quíron através de seus sonhos e consegui chamar ajuda. Foi resgatado pelas duas e desde então estava no acampamento. Não tinha sido uma missão simples, ainda mais com uma filha de Ares tão presunçosa quanto Clarisse, mas as semideusas acabaram criando um laço de confiança.

Confiança, ha.
Era algo muito peculiar para Calíope. Depois do que lhe acontecera em sua própria casa, no que pareciam milhares de anos antes de se juntar aos outros semideuses, era bastante complicado de ela se afeiçoar a alguém. Se tinha algo que ela tinha certeza, é de que não se pode confiar em ninguém.

Quando Andreus Ascia finalmente saiu de seu chalé com sua mochila estufada e suja de graxa, ela respirou fundo, a cabeça balançando.

—Vai realmente precisar de tudo o que você pôs aí? – perguntou ela. O filho de Hefesto enrubesceu.

—Bem... Nunca se sabe e...

—Se você reclamar do peso, Ascia, mesmo que só uma vez... – ela não completou a ameaça. Era mais efetivo quando as pessoas imaginavam. Dreus engoliu em seco, mas não voltou atrás, olhando para Sophia, que dedilhava a linha de seu arco distraidamente. Ela estava com o rabo de cavalo de sempre, mas a camisa laranja do acampamento estava coberta por uma jaqueta jeans. Sua aljava alterada pendia na cintura como uma bainha especialmente grande. Era um presente de Atena.

Quíron deu a Calíope um mapa com instruções sobre o Labirinto, que eles tinham começado a estudar depois do despertar de Gaia. Ela mesma havia ajudado com algumas listagens. Seria fácil para ela viajar por ali.

Eles seguiram em direção ao Punho de Zeus, o sol da tarde pintando o céu com uma mistura de roxo e laranja berrante. Daria uma bela foto, pensou ela.
Quando chegaram na entrada, Nico de Angelo os esperava. Estava de braços cruzados, encostado numa árvore, a espada de ferro estígio pendendo ao lado do corpo.

—Ei, Nico. – Dreus cumprimentou com um aceno. O outro garoto retribuiu com um meio sorriso.

—Will me fez prometer que eu não iria segui-los para ter uma conversa com meu pai, aquele idiota. – reclamou, coçando os cabelos negros. Ele olhou para os três, de forma quase sombria. –Mas não disse que eu não poderia ajudá-los. Calíope já esteve no Labirinto, mas eu sei os caminhos que levam para o Érebo. Posso ver seu mapa?

Calíope entregou-o, mas estava olhando para a entrada, formulando um plano de viagem. Nico encarou o papel por alguns segundos e apontou com um dedo.

—Aqui, vejam. Lembro-me de passar por aqui antes de chegar nas margens do Lete. Sigam por esta parte e evitem distrações. Você sabe o que fazer, Cal.

Ela não gostava de ser chamada daquele jeito, mas nada comentou. Dobrou o mapa e o enterrou dentro da mochila, passando pelo garoto sem dar uma palavra.
Sophia e Dreus a seguiram depois de agradecer o filho de Hades. E eles adentraram o Labirinto.

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As suspeitas de Eugene quanto a Hades tê-lo reclamado apenas para ter uma desculpa para matá-lo cresciam a cada instante.
Pouco depois de finalmente ter entendido que estava no reino dos mortos, ele vagou pela margem do Rio Estige, chutando pedras e pensando no que diabos faria. Depois de algum tempo seu estômago embrulhou, e ele percebeu que não comeu nada desde a noite em que fugira do acampamento. Logo depois ficou confuso. Os mortos sentem fome?
Bem, talvez ele estivesse vivo afinal.

Merda.

Logo a fome foi o menor de seus problemas. Um cachorro, do tamanho de um urso-pardo e negro como a noite, o tinha atacado das sombras e o perseguido por toda a margem, até que uma caverna pequena – que o garoto jurava não estar ali antes – lhe deu abrigo. Era pequena o suficiente para que o monstro só conseguisse esticar a pata para dentro. Eugene a cortou fora com sua espada e o cachorro se desfez em cinzas.

As cavernas pareciam a parte mais segura do lugar, então ele decidiu que as usaria como proteção. Quando a fome voltou, ele suspirou.

—Cale a boca. – disse ele para o próprio estômago, que gemeu em resposta. Ele olhou em volta e se sentou no chão arenoso, a espada suja de essência de monstro no colo, e fechou os olhos.

Seus sonhos estavam ficando cada vez mais confusos.

Ele se viu numa cidade que parecia antiga, talvez da época das grandes guerras, com ruas pavimentadas com pedras e casas de telhado inclinado, típicas de lugares onde o inverno era acompanhado pela neve. Crianças com roupas de época saíam das escolas, correndo e rindo. Adultos passeavam calmamente pela calçada ou dirigiam coupes e porsches dos anos 30 que pareciam novos em folha.
Um grupo de meninos entre oito e dez anos de idade passou por ele falando em uma outra língua, mas Eugene a entendia perfeitamente:

—Eles quebraram outra loja perto da minha casa! – um deles falou, animado. —Vamos ir ver!

Eles concordaram e o seguiram por algumas ruas. Eugene logo atrás, também curioso para ver aquilo.

Quando pararam em frente, a vitrine da relojoaria estava aos pedaços. O balcão fora saqueado, mas ainda haviam pedaços de brilhantes no chão. Os garotos entraram, evitando as pontas de vidro ainda expostas e começaram a catar pérolas e anéis de prata escondidos debaixo dos sofás. Fizeram uma competição de quem pegaria mais joias.
Um garoto em particular chamou a atenção de Eugene. Era um pouco mais baixo que os outros e usava uma boina de couro maior do que deveria, pois vez ou outra caía sobre seus olhos. Tinha cabelos cor de palha e olhos verdes como a esmeralda que tinha em mãos. Ele achava as pedras preciosas com mais rapidez que os outros, os bolsos da bermuda estavam cheios delas. Ele sorria para os outros, triunfante.

—Eu ganhei! – anunciou ele, batendo nos próprios bolsos, que tintilaram. Os outros garotos resmungaram. Um deles lhe arrancou a boina com um tapa, que caiu nos cacos de vidro. —Ei! Não seja idiota, Till. – e agarrou o chapéu, batendo-o contra o balcão.

Till lhe bagunçou os cabelos e saiu da loja, acompanhado pelos outros dois.

—Hans, Fritz, vamos quebrar o resto da vidraça. Você vem, Gene? – perguntou ele, olhando para o mais novo.

—Esperem eu sair! – avisou, pulando para fora e agarrando uma pedra. Logo os quatro estavam apedrejando o que sobrara da parte de fora da loja, rindo e xingando o sr. e sra. Kumpfer, que eram os donos do estabelecimento. Eugene sabia daquilo, mas não entendia o porquê.

Um jovem soldado passou por eles e olhou para a algazarra com um sorriso em escárnio.

—Seus pais sabem que estão aqui, garotos? – perguntou, e Till arremessou uma pedra certeira no último fragmento de vidro ainda exposto, bradando alegremente.
O soldado riu.

—Vamos, vocês. Deveriam estar em casa. – disse, colocando a mão no ombro do garoto que se chamava Fritz. —Não quer que eu conte à mãe o que está fazendo aqui, não é? Vá logo. Avise a ela que não estarei para o jantar.

Fritz concordou com a cabeça e jogou sua pedra no chão. O soldado esticou a mão direita na frente do corpo e os meninos o copiaram, gritando em uníssono:

Heil Fürher!

E seguiram pelo beco. O garoto menor colocou a boina na cabeça.

—Nem acredito que seu irmão já saiu do quartel, Fritz. Ele vai para a guerra também?

—Claro que vai. – concordou. —O pai e a mãe estão orgulhosos dele. Eu também vou me alistar assim que tiver idade. Quero conhecer o Fürher.

Logo eles se separaram, seguindo para suas casas. Eugene acompanhou o mais novo deles, que subiu alguns lances de escadas para um apartamento.

Mutti! – chamou, esfregando os sapatos no carpete e metendo as mãos nos bolsos. —Olhe o que eu achei!

Uma mulher saiu da cozinha, sorrindo docemente. A mãe dele, Eugene presumiu. Era alta e branca, com cabelos dourados ondulando sobre os ombros e olhos iguais aos do menino. Usava um vestido amarelo que lhe cobria os joelhos, com alguns detalhes em branco e bege. No anelar da mão esquerda estava uma grossa aliança de cor escura, mas sem brilho.

—Achou o quê, Mausi? – Ela chegou mais perto e lhe encheu de beijos na bochecha. Se Eugene bem entendera, ela acabara de lhe chamar de ratinho. Talvez fosse algum tipo de apelido entre eles.
Ela o pegou no colo e lhe beijou o nariz enquanto o menino lhe mostrava uma mão cheia de fragmentos de ouro e anéis de todo o tipo de metal precioso.

—Achei isso na loja do sr. Kumpfel. Os soldados destruíram tudo.

O semblante amável da mulher mudou para preocupação.

—Eles foram levados também, não é? – suspirou ela, sentando o filho no sofá. —Por que você estava lá?

—Fritz Weber contou. Nós entramos e pegamos o que sobrou.

—Isso não lhe pertence, querido.

—Eles não vão mais usar, de qualquer maneira... – o menino olhou para a mão, sua boina cobrindo os olhos. A mulher inalou levemente pelo nariz e a ajeitou. —Fritz disse que eles eram judeus imundos.

—Não fale assim. Fritz Weber é filho de soldado, não sabe o que está dizendo. O sr. e a sra. Kumpfel não fizeram nada de errado. Olhe para mim. – ela levantou-lhe o queixo com o dedo indicador e sorriu. —Todas as pessoas são iguais. Não importa se são judeus ou alemães, de cor escura ou clara. Todos iremos nos reunir no mesmo lugar no final. Entende isso, Eugene?

Eugene, que assistia a cena, arregalou os olhos, um calafrio lhe desceu a espinha.

O menino concordou com a cabeça e abraçou o pescoço da mãe, e o sonho se dissipou.