O filho de Hades e seu namorado estavam sentados à mesa de Apolo novamente, dessa vez estavam sozinhos. Eu os observei junto dos campistas do chalé onze e detestei o fato de estarem tão felizes juntos. Minha vontade real era desafiar o tal Nico Di Angelo para um duelo, mas a aura de poder daquele garoto era quase palpável, por mais que não aparentasse ser mais velho que eu. Eu seria massacrado por aquele moleque magricela despenteado, e isso me deixava ainda mais frustrado.

Ele lançou um olhar para mim, — como se estivesse sentindo que eu estava estrangulando-o mentalmente — e me analisou por alguns longos segundos, logo depois comentando algo com o garoto loiro do seu lado que tentava arrumar seus cabelos. O garoto loiro — Will, se não me engano — parou e me olhou também, depois puxou o namorado pelo ombro como se o repreendesse. Logo após começaram a conversar de novo.

Quando me virei para o meu prato, as verduras estavam murchas e a carne parecia velha. Resmunguei algo para a ninfa que ainda nos servia e ela pareceu que fosse explodir de indignação, se voltando para servir os outros campistas. Os irmãos Stoll encararam meu prato e Travis disse que minha comida não estava assim quando foi servida. Não me queixei muito, pois já tinha perdido a fome até aquele ponto.

O resto dos campistas vieram aos montes depois de algum tempo, e logo o pavilhão estava cheio. As ninfas começaram a trabalhar mais rápido. Os sátiros repreendiam alguns semideuses que não estavam sentados em suas respectivas mesas e até Nico se postou na mesa do chalé treze. Quando todos se serviram, o sr. D fez algumas declarações:

—Certo, certo. Viva a nós. Obrigado pela consideração, moleques. Já deveriam saber, mas a captura da bandeira será esta noite. O chalé dezessete detém os lauréis.

Aplausos e assobios vieram de uma mesa mais atrás, onde quatro adolescentes atléticos e com expressão presunçosa pareciam ainda mais presunçosos. O chalé de Nice, Travis explicou.

—Certo, acalmem-se. — sr. D continuou. —Deve ser até um pouco antiesportivo por serem filhos da deusa da vitória, mas não sou eu quem sai perdendo. Se meus garotos estivessem aqui... bem, não interessa. Parabéns e viva aos deuses de novo. — ele pareceu ter acabado, mas Quíron esticou o pescoço e lhe disse algo. O deus do vinho assentiu, revirando os olhos. —Ah, mais uma coisa. Todos já devem saber, mas um novato apareceu ontem à noite e nos deu um susto. Gin Toneti.

Os irmãos Stoll deram risadinhas enquanto Quíron sussurrava mais uma vez para sr. D.

—Eugene Totenn, isso mesmo. Como se já não soubessem.

E se sentou. Os campistas aplaudiram — por alguma razão que me escapou da percepção — e começaram a se levantar para fazer suas oferendas. Não estava nem um pouco empolgado pela fumaça que os deuses me cuspiriam, mas minha animação logo voltou quando vi Nico Di Angelo indo para o braseiro com seu prato cheio.

Me levantei e fiz questão de esbarrar em seu ombro quando joguei toda a minha comida no fogo, desviando das chamas que queriam me queimar os cabelos. Quando me virei para voltar para minha mesa, Nico me encarou exatamente do jeito que eu imaginei que faria. Lancei para ele a minha melhor cara se “foi sem querer, querendo” e voltei a me sentar junto dos filhos de Hermes.

O resto da tarde seguiu com as aulas de mitologia de Quíron no anfiteatro. Ele estava nos contando sobre a árdua batalha dos deuses entre si, quando Poseidon tentou derrubar Zeus do trono por estar insatisfeito com a tirania do senhor dos deuses. Os olimpianos se voltaram contra eles mesmos e isso resultou em catástrofes na Terra. As montanhas se desmanchavam e os mares estavam impossíveis de se navegar. Semideuses lutavam entre si em batalhas sangrentas e os mortais pagavam caro por tudo aquilo. Quíron deixou bem claro que os semideuses tinham a necessidade de conter seus parentes para que guerras como aquela não se repetissem. Não me esforcei em conter um riso sarcástico e alguns campistas me olharam como se eu fosse louco. Quíron apenas continuou a explicação sobre as guerras entre os deuses e logo depois nos dispensou para que a turma sênior tivesse suas aulas de monstrologia.

Estava pensando em tentar a sorte na pedra de escalada flamejante quando Dreus, o garoto magrelo de Hefesto que eu tinha visto anteriormente, me abordou. Estava visivelmente cansado por ter corrido até mim e ergueu a mão em minha direção como se pedisse um minuto.

—Oi... — ele arfou —Você é o novato do chalé de Hermes, certo? Estamos no mesmo time do capture a bandeira. Travis pediu que eu explicasse a coisa toda pra você. Vem, estamos em reunião.

Ele me guiou até o pavilhão. Cerca de vinte campistas se aglomeraram na mesa de Hermes. Calíope lançou um olhar mal-humorado para mim e Dreus, como se estivesse prestes a nos dar uma bronca. Nos sentamos junto aos outros e um garoto alto e musculoso de cabelos loiro nos lançou um sorriso, estava sentado na extremidade da mesa, se apoiando com as mãos por cima de um largo pedaço de pergaminho com desenhos, um mapa.

—Você deve ser Eugene. Meu nome é Jason Grace, filho de Zeus. É um prazer. — disse ele, logo depois se voltando para o pergaminho. —Aqui está o mapa da floresta. Vê o riacho aqui? É a divisa dos territórios dos times azul e vermelho. Somos os vermelhos desta vez, e vamos acabar com o chalé de Nice, Ares, Hécate, Apolo e Deméter. No nosso time temos Zeus, Atena, Hefesto, Hermes e Hades. — Eu não tinha visto Nico Di Angelo ali num momento antes, mas ele assentiu para todos, do lado de Jason, os braços cruzados. —O plano é simples, pessoal. Nossa bandeira ficará logo atrás do Punho de Zeus. Quero Sophia e Dreus de guarda. — Ele olhou para o filho de Hefesto e a garota de Atena com rabo de cavalo que eu vira mais cedo. — Vocês dois fazem um belo estrago juntos, então acabem com aqueles caras de Nice. O resto do chalé de Hermes e Atena vêm comigo para o ataque. Nico e o restante do chalé de Hefesto, vocês ficam na retaguarda protegendo a bandeira sem atravessar a fronteira. Prefiro ter mais arqueiros, mas tenho certeza de que vamos ficar bem.

Uma garota musculosa do chalé nove com um lenço vermelho amarrando os cabelos sorriu.

—Temos autômatos feitos para ataques de longa distância. Eles não vão chegar nem perto.

Jason sorriu.

—Os azuis costumam esconder a bandeira numa árvore, ainda mais com os filhos de Deméter de guarda, e eles sempre ficam de guarda. Então, vamos ficar de olho em tudo ao redor. Todo mundo entendeu? Repassem a mensagem para o resto dos campistas, conselheiros. – ele disse e depois se virou para mim. –Boa sorte mais tarde, vocês dois. Conto contigo, Dreus. Você acabou aquele projeto?

O filho de Hefesto sorriu de orelha a orelha, puxando um machado duplo acoplado às costas. Ele o mostrou para Jason, que analisou a arma por cima das lentes do óculos.

—Erick me conseguiu uma pedra mágica imantada. São duas pedras, na verdade. Tem esse compartimento de óleo para as lâminas... Nyssa disse que vou acabar me incendiando, mas eu tenho tudo sobre controle. Todos os botões estão afastados e...

—Com licença, — eu disse. Não estava nem um pouco interessado naquela conversa. —Acho que devíamos ir checar as armas e tal. Vou indo.

—Espere, Eugene. Eu gostaria de falar com você. Dreus, você pode ir ajudar o chalé nove a preparar os autômatos? É o melhor engenheiro do acampamento.

Dreus assentiu e guardou o machado, andando em direção aos chalés. O sorriso de Jason vacilou por um instante e ele me olhou com atenção, andando para longe da mesa e dos outros.

—Quíron e Dionísio abafaram a sua história para o resto do acampamento, e isso deixou todo mundo meio apreensivo com a sua chegada. — ele disse, ajeitando o óculos. —Campistas não costumam apenas dar as caras por aqui sem mais nem menos, ainda mais sem serem percebidos. E ainda tem esse boato da fúria. Calíope me disse para não tirar os olhos de você. Ela te considera perigoso.

Não disfarcei a risada seca que me escapou.

Perigoso? Ela acabou comigo mais cedo. — lhe mostrei os cortes nos braços. —Mas realmente, parece que ela tem um problema comigo. Aliás, parece que todos têm.

—Não diga isso. Só não sabem exatamente o que pensar de você. E Calíope, bem... Ela não se dá bem com a maioria. — ele então balançou a cabeça, como se estivesse perdendo o foco. —Além disso, você não foi reclamado até agora. Isso também é... estranho. Normalmente os deuses reivindicam seus filhos assim que chegam no acampamento.

Ri com amargura, coçando a cabeça. Ele pôs uma mão no meu ombro.

—Bem, você é diferente dos outros. Mas isso não é ruim, Eugene. Vai se adaptar logo, logo.

—Certo, já me disseram isso. — eu dei de ombros. —Sobre a Fúria, é verdade. Eu a matei com uma boa pisada. Os outros estão com medo de sofrer o mesmo?

Os olhos de Jason brilharam divertidamente.

—Isso foi uma ameaça? — ele perguntou, com algo entre um sorriso e um deboche.

—Depende. — Tentei não ficar aborrecido com a reação dele. —Se continuarem me encarando como se eu fosse algum tipo de bicho peçonhento, talvez eu considere essa possibilidade. — eu afastei seu braço de mim e andei para fora do pavilhão, mas não tinha rumo.

Não queria admitir, mas me acovardei diante da aura do filho de Zeus. Era muito mais forte que eu, e acabaria comigo de brincadeira se eu tentasse algo.

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Logo depois do jantar, os chalés que estariam nos jogos se apressaram para a floresta, vestindo suas armaduras e se colocando a postos. Dreus ofereceu ajuda para colocar minha armadura, mas Sophia o puxou pela orelha em direção ao Punho de Zeus, um arco de guerra brilhando na outra mão.

Jason estava falando com os filhos de Hefesto no território vermelho, por pouco não atravessando o riacho com o os chalés de Hermes e Atena. Enquanto isso, Calíope observava o território dos azuis, sua cimitarra em punho. Com o capacete e a armadura, parecia ainda mais forte e intimidante. Seus irmãos arrumavam as armaduras uns dos outros e agarravam seus escudos, encarando as árvores escuras e as silhuetas do time azul brandindo suas armas em agitação. Me apressei para junto de Connor e saquei minha própria espada. Era estranho agora que eu tinha algo para me defender depois de tanto tempo fugindo de monstros por aí, mas aparentemente os jogos não matavam ninguém por décadas. A adrenalina antes reservada para correr e me esconder agora ansiava pela batalha. Os chalés de Hermes e Atena gritaram provocações para o outro time mais à frente pouco antes de uma trombeta ser soada. Logo após, a vanguarda liderada por Jason avançou para depois do riacho. Me atrasei um pouco com o susto e um garoto de Ares chocou seu escudo contra mim, rindo com escárnio quando eu fui de encontro ao chão com força, o elmo ameaçando sair da minha cabeça.

Fiquei ali deitado na grama por algum tempo, atordoado, tentando distinguir as imagens borradas ao redor. Outros campistas pulavam por cima de mim gritando palavrões em grego antigo, o barulho do choque de metal contra metal e grunhidos de dor invadindo a floresta com rapidez. Algumas flechas seguidas de um gás malcheiroso zuniam no ar, que fez com que eu acordasse e me arrastasse de volta na direção do riacho. Vi Nico Di Angelo colocando dois dos filhos de Nice no chão em poucos segundos, sua espada negra brilhando com a luz da lua.

—Parece que Nice não vai favorecer os próprios filhos dessa vez. — ele deu de ombros. —É uma pena.

Me levantei e ele mudou sua atenção para mim por um segundo antes de desviar de uma flecha e cruzar sua espada com o arco de um garoto de Apolo. O jeito que ele o olhou denunciou que aquele deveria ser Will Solace. Os dois sorriram como se um estivesse lendo os pensamentos do outro e Will agarrou o namorado pela gola da camisa, jogando-o no riacho com um golpe de judô.

Ajeitei o capacete e corri floresta adentro, avistando Jason voando por entre as árvores à procura do estandarte da equipe azul. Corri para me juntar ao resto da equipe de ataque, esquivando-me de vinhas encantadas pelas crianças de Deméter e usando as árvores como escudo para as flechas de impacto dos arqueiros de Apolo.

Não sei bem o que aconteceu comigo depois de ser derrubado, mas eu conseguia sentir a batalha em volta de mim. As flechas pareciam de mover mais lentamente. As investidas não me pegaram despercebido. Até chegar junto de Calíope, interceptei o ataque de um espadachim de Deméter, usando a parte chata da espada para desarmá-lo e batendo sua cabeça contra a árvore mais próxima.

—Fique em contato com a natureza, idiota. — murmurei, até sentir uma pancada violenta nas costas que me fez perder o ar. Teria caído para frente se não tivesse usado a espada de apoio. Virei-me para ver o que havia me atingido: um conjunto de três flechas com largos pedaços de couro no lugar de pontas afiadas tinha se fincado na minha armadura. Eu entrelacei os dedos em volta das hastes e as arranquei de uma vez. A parte que haviam atingido estava quente e lançava irritantes ondas de dor pelo resto do corpo. Não me atrevi a tentar ver quem tinha me atingido e dei um passo para o lado, onde um abeto largo serviria facilmente de escudo contra quaisquer outros ataques. Parei e respirei fundo, me escondendo entre as árvores ao mesmo tempo que me aproximava dos campistas da minha equipe. Os outros aparentemente estava ocupados demais para me dar apoio.

Dois campistas — uma de Nice e o outro Deméter, talvez — se encontravam quase no final da floresta, onde mais atrás estava a praia onde as náiades treinavam os semideuses para mergulhos mais profundos e coisas que semideuses fazem debaixo d’água. Ambos não se juntavam à batalha, mas se mantinham alertas o tempo todo, o que me fez prestar um pouco mais de atenção no enorme pinheiro que eles pareciam estar guardando.

Pensei em atacá-los, mas eles eram mais velhos e certamente mais experientes, então me apressei para chegar em Calíope ou Jason.

Eu esgueirava-me entre arbustos e árvores nas sombras para não chamar a atenção, e no caminho consegui derrubar uma arqueira distraída de Apolo, acertando seu elmo por trás com o cabo da espada.

Avistei Jason e Nico lutando contra meia dúzia de esgrimistas e lanceiros. Jason flutuou por cima de suas cabeças e as chutava logo em seguida. Tive o impulso de ajudá-los, mas algo me veio à mente.
Se eu os ajudasse, eles iriam ter a glória da vitória. Jason iria agarrar a bandeira dos azuis e ele e Nico teriam o crédito, não o novato que os irritara.

Pouco me importava de ser da equipe perdedora, eu não me senti bem-vindo por nenhum daqueles semideuses. Além disso, não iria dar o gostinho da vitória para um filho de Zeus, muito menos Hades.

Embainhei a espada e agarrei uma lasca de pedra do tamanho da palma da minha mão. A joguei com força na direção de Jason, que foi acertado no ombro. Ele parou e pareceu se desfocar por um instante, pois chegou perto suficiente do chão para que algum semideus lhe agarrasse o tornozelo e o puxasse para que os outros o subjugassem. Senti seus olhos passarem por mim antes que os azuis o pressionassem contra o chão e corri para o riacho, gritando para todos os guerreiros do time adversário:

—Punho de Zeus. O estandarte vermelho está no Punho de Zeus! Se apressem logo, imbecis!

Todo o time vermelho me lançou olhares incrédulos enquanto eu arrancava o capacete e o jogava contra um autômato de bronze danificado pelo o que parecia ter sido um golpe de lança. Ele foi ao chão, a cabeça metálica rolando para a água, fazendo barulhos de curto circuito. A batalha cessou por um breve momento e eu estava com toda a atenção que tive direito. Estava nervoso, mas lancei meu melhor sorriso.

—Boa sorte com a bandeira. — me adiantei para fora do campo de batalha, em direção ao conjunto de chalés. Não dei nem meio passo antes de parar. —Ah, quase me esqueci. — Não me dei ao trabalho de me virar para eles mais uma vez antes de lhes apresentar o dedo do meio.

E segui para o chalé número onze.

Notas finais
;)