Precipício
6 Seis
Notas iniciais
Cansado de todas as falsidades
Então vou entregar todos os meus segredos. Desta vez
Máscara acordou com o sol no rosto, se sentindo bem e disposto, apesar dos braços ligeiramente doloridos. Olhou o teto do hospital e suspirou fundo, em dúvida se queria sair dali rápido ou continuar e se esconder de tudo que teria que enfrentar.
– Bom dia, Bela Adormecida — cumprimentou Aiolia, divertido — Como se sente hoje?
– Bem. — respondeu sorrindo — E você?
– Entediado, daí o Aiolos vem hoje.
O canceriano demorou a entender a relação entre tédio e o sagitariano, mas lembrou que era o irmão quem trazia toda aquela quantidade de quadrinhos e livros para Aiolia.
– Sei.
– Não está muito animado, não é? — Aiolia se sentou na maca enquanto falava — Eu pedi ele para trazer uns jogos também, um daqueles que dá pra carregar.
– Portátil?
– Isso. Um para você. — o leonino disse sorrindo — Também acho que você devia perguntar pro seu médico sobre a disfunção erétil.
Máscara fez cara feia ao ouvir a última frase, no que Aiolia riu.
– Preciso mesmo?
– Quer ou não quer voltar a fornicar? — Aiolia respondeu sério — Aproveita e pergunta sobre a incontinência urinária e fecal, para você se livrar das fraldas e fazer sua higiene sozinho.
– E tem como? — Por um momento, o italiano se sentiu mal por não ter conversado apropriadamente com um médico ainda. — Quer dizer, eu ainda não tinha pensado nisso.
– Claro que tem como. — volveu divertido — Não vou limpar sua bunda o resto da vida, cara, é só falar com o médico que ele te orienta.
Máscara da Morte ficou feliz e aliviado de uma maneira difícil de explicar, num misto de ansiedade e sentimento de liberdade agradáveis e confortantes. Pela primeira vez sentiu vontade de falar com o médico à respeito da paraplegia e não se sentia tão desorientado assim.
– Obrigado, Aiolia.
Era a segunda vez em menos de 24 horas que Máscara da Morte o agradecia e Aiolia ficou confuso com isso. Era como se (quase) não reconhecesse o canceriano de antes do acidente e ficou imaginando como alguma coisa pode mudar tanto uma pessoa. Por sua vez, Máscara não sabia por que agradecia tanto. Obviamente se sentia imensamente agradecido ao leonino, mas não era de seu feitio agradecer nem uma única vez, quiçá todas as que já tinha a Aiolia. Era estranho, mas se deu conta de que gostava da companhia do grego e imaginou se os agradecimentos tinham relação com isso.
Aiolia não respondeu como na noite passada, com um "De nada" risonho e gostoso, mas beijou Máscara da Morte novamente. Leve e sem pretensões, apenas um roçar na boca, mas que significava muito mais que qualquer resposta que desse.
– Não faça disso um hábito, leone.
A verdade era que Máscara se viu querendo que isso virasse, sim, um hábito, mas não exteriorizou o que pensava, certo de que Aiolia pensava apenas na parte "sexual" de uma relação, já se estapeando mentalmente tanto por já pensar em uma relação hipotética com Aiolia quanto por assumir o que o outro queria e por de fato querer que isso fosse real. E todas essas hipóteses, sacudidelas mentais e dúvidas (interrompidas vez ou outra por um selinho) deixava Máscara confuso e irritadiço, o que não fazia sentido, partindo do princípio de que normalmente as pessoas não ficam felizes por se irritar. Ademais, perceber que estava feliz por estar irritado por conta de Aiolia o irritava ainda mais e o fazia esquecer da paraplegia. A longo prazo, esperançosamente, poderia o fazer aceitar-se, o que o fazia se sentir melhor, reiniciando o ciclo felicidade-irritação.
Outro efeito disso era que o canceriano não sabia como agir, então na dúvida decidiu por ser "agridoce".
Esses longos segundos em que o canceriano decidia o que sentir e como agir foram muito bem aproveitados por Aiolia, que decidiu ser uma boa ideia transformar sim, isso num hábito e dar inúmeros beijinhos correspondidos na boca e entorno de Máscara da Morte.
– Eu acho que gosto de te beijar, Ettore.
– Ah, vá, sério? — respondeu Máscara, risonho — Eu nunca teria adivinhado. Você é um mestre da quiromancia, Aiolia.
– Na verdade, eu leio a sorte em borras de chá. — Aiolia respondeu, ignorando o ramo equivocado da matéria "Adivinhações" ressaltado pelo outro — Ler mãos não é meu forte.
– E qual é a minha sorte?
– Meus dotes não são gratuitos, cara. — Aiolia se levantou da posição em que estava (quase deitado em cima do outro, na maca) e colocou as mãos na cintura, fingindo suspense — E o preço é alto.
– Que preço vou ter que pagar?
– Esse.
O preço era o previsto por Máscara da Morte e objetivado por Aiolia, um beijo quente e cheio de vontade, partido novamente do leonino. Ambos não sabiam o porquê de tal toque ser tão agradável e, verdade seja dita, não ligavam a mínima.
– Isso está virando um hábito, leone.
– Quer sua sorte agora? — o canceriano concordou num aceno mudo, no que Aiolia prosseguiu — "Você vai ter uma transa muito porreta em breve".
Máscara da Morte riu, dando um murro no ombro do leonino.
– EI! O que foi?
– Eu estava esperando algo romântico ou confortante, idiota!
– Eu não sabia que você era romântico, Ettore! — Aiolia riu, abraçando o outro e então deitando ao lado na maca, de lado, fazendo Máscara virar o pescoço e olhar direto a ele — Eu posso mudar a previsão, se quiser.
– Não precisa, eu gostei da previsão — o canceriano riu e continuou — Só que é uma previsão para um futuro meio distante.
– Eu espero.
– E vai ficar aqui, assim? A cama é minha, porra.
– Eu é quem limpo sua bunda, eu tenho o direito.
– Sai daqui, cacete.
– Vai fazer o quê? Me chutar daqui de cima?
Seguindo o clima de falsa animosidade entre os dois, Máscara da Morte empurrou Aiolia de cima da maca, tendo o leonino gargalhado quando chegou ao chão e reclamando baixinho de dor, mas rapidamente levantou e subiu em cima da maca novamente, prendendo os pulsos do italiano contra o colchão e ficando de quatro.
– Quero ver me jogar agora.
O canceriano não respondeu, ocupado demais em admirar os olhos verde brilhantes do grego, o que percebeu acontecer sempre que encontrava os olhos do outro.
Então se beijaram novamente (o que realmente parecia estar virando hábito) e ambos se impressionaram em quão diferente pode ser os beijos de duas pessoas. Dessa vez não havia luxúria nenhuma no beijo, apenas um sentimento quente e confortante, parecido com tomar sopa no inverno, enrolado em um cobertor, perto de uma fogueira e ao lado da pessoa que a gente ama.
Aiolia se afastou do beijo com calma, abrindo os olhos que haviam se cerrado. — Cara, eu...
– Eu sei, Aiolia.
Olhando um para o outro era difícil entender e explicar, mas ambos sabiam o que o outro sentia, sabiam de todos os sentimentos confusos e fortes que cresceram em poucos dias de amizade em meio à anos de convivência.
– Eu tenho que falar — o leonino riu de lado. — Eu sei que você sabe. Eu acho sei também de você. Mas eu tenho que falar.
– Então diz.
– Eu acho que estou gostando de você.
– E eu... Eu gosto da sua companhia.
– Porra, Ettore, eu abro meu coração e você responde que "gosta da minha companhia"? — Aiolia respondeu num muxoxo, com falsa indignação — Eu achei que tínhamos algo sério aqui.
– Gostar de sua companhia é a única certeza que eu tenho — respondeu sorrindo.
– Mas eu declarei uma dúvida, não uma certeza.
– Minha vida é só dúvidas agora, Aiolia. Não é ruim ser a única coisa firme em meio ao furacão.
– Vamos fazer sua higiene matinal agora — Aiolia se levantou da maca, buscando não olhar diretamente para o canceriano. Sua face estava vermelha e não lhe parecia uma boa ideia encarar o outro agora — Daqui a pouco vem uma enfermeira te pegar, você tem um monte de exames para fazer, ainda de jejum. E depois tem fisioterapia. Temos um dia cheio.
– Saquei. Você não vai comigo nos exames?
– Não posso.
Aiolia estava se sentindo dividido em três, todas girando em torno da mesma coisa: uma parte era idiota por ter declarado uma dúvida romântica e ouvido uma certeza amistosa, uma parte extremamente irritada por ter recebido uma certeza amistosa como resposta e a última parte estava derretendo por dentro, com vontade de saltitar e sair correndo e gritar todo o ar dos pulmões sua felicidade, justamente por ter ouvido uma certeza amistosa, que de outro ângulo lhe parecia deveras romântico ouvir ser o único ponto fixo em meio à turbulência.
O ponto negativo dos sentimentos tripartidos é que um tem efeito sobre o outro e o sentimento que sobressai é totalmente diverso dos três que o deram origem, principalmente se tratando de uma pessoa tão impulsiva quanto Aiolia. Por isso, para Máscara da Morte, Aiolia estava de saco cheio de ser "enfermeira" e doido para ter relações sexuais com algo que se mova ou, na melhor das hipóteses, apenas entediado.
De qualquer forma, Máscara decidiu por ficar ligeiramente chateado com a confusa mudança súbita de humor do grego, mas sem transparecer, salvaguardando a hipótese de ser apenas um mal entendido.
– Tudo bem então.
Assim, passaram parte do dia separados, com Máscara da Morte fazendo exames e Aiolia sentado em um banco do jardim olhando para o tempo. O leonino poderia, sim, ter acompanhado o outro, mas ficar sozinho um tempo para pensar era o ideal agora, para por as ideias no lugar.
Nesse dia, Máscara da Morte fizera a fisioterapia sem a companhia de Aiolia, mas nem ligou tanto, estava ocupado demais se sentindo inútil, o que esperava não acontecer a cada sessão fisioterápica. O canceriano só sentiu falta do leonino quando, ao fim dos exercícios, viu necessária a escolta de uma enfermeira. Foi quando o pensamento de que Aiolia poderia ter ficado chateado por um motivo idiota não intencional lhe ocorreu, mas deu de ombros. Se não tivera a intenção, não moveria um dedo para pedir desculpas. Provavelmente caso tivesse intenção a reação seria a mesma, mas esse não era o caso.
Quando chegou no quarto, viu-se obrigado a aceitar a ajuda da enfermeira franzina e ossuda que o havia escoltado e mais dois enfermeiros — um negro, alto e de ombros largos e um ruivo com sardas e cabelo de ninho de pássaros. No processo, maldisse Aiolia mentalmente o quanto pôde e exteriorizou isso na forma de impropérios em italiano e ofensas aos enfermeiros que o ajudavam a se locomover.
Isso fez com que, após ficar sozinho no quarto com a bandeja de comida em frente, percebesse o quanto era dependente e sentia falta de Aiolia. O leonino era mais cuidadoso e menos impessoal que os enfermeiros, não o fazia se sentir inútil e era forte o suficiente para carregar Máscara sozinho.
E era divertido, alegre, era uma ótima companhia e ...
Máscara da Morte interrompeu os pensamentos e voltou a comer, duplamente irritado com o leonino, tanto por desaparecer por ficar chateado por um motivo imbecil quanto por fazer tanta falta.
Tanta falta.
Tanta falta.
Tanta...
O canceriano comeu com raiva, engolindo os sentimentos negativos com a mastigação. E quando visse o idiota do Aiolia novamente, o mataria na base das mordidas.
O leonino tinha passado o dia andando pelo hospital e então andando pela cidade, tentando desviar seus pensamentos. Não era como se ele estivesse chateado ou o quê agora, ele só não queria ver Máscara da Morte. Sabia que o canceriano estava em boas mãos, então não era ruim ficar um pouco sozinho. Daí quando chegasse ao quarto do hospital, continuaria como se nada tivesse acontecido.
O que seria uma boa idéia, se o canceriano não tivesse seus pensamentos homicidas interrompidos por um Sagitariano, que abriu a porta com cuidado.
– Fala, cara, como você tá?
Máscara da Morte olhou para Aiolos confuso antes de responder – Tô legal.
Aiolos entrou com dois pacotes na mão, para então sentar na poltrona que Aiolia normalmente usava, à vontade.
– Que bom que você acordou. – disse sorrindo – Não é muito legal ter um companheiro doente.
– Uhum.
Aiolos parecia... simpático e isso deixava o italiano confuso. Tudo o que lhe passava pela cabeça era que o grego sentia pena e isso não era agradável.
– Sabe cadê o Aiolia?
– Não, aquele desgraçado sumiu o dia todo.
– Vocês estão se dando tão bem quanto pensei que estariam – sorriu sem graça – Ao menos logo você vai levar alta e poder ter sua vida normal.
Máscara levantou uma sobrancelha e respondeu – Não exatamente, sabe.
– Ah, é, a cadeira de rodas. Eu tinha me esquecido.
– É, a cadeira de rodas – sorriu irônico – Apesar de que a cadeira de rodas é o menor dos meus problemas.
– Ué, mas por que? – volveu confuso.
– Precisar da cadeira de rodas é um problema um tanto maior.
– Você vai se sair bem.
– Não é como se eu tivesse muita opção.
O canceriano continuou comendo, enquanto o sagitariano observava e balançava a perna de um lado para o outro.
– Vem cá, você devia saber cadê o Aiolia.
– Eu lá tenho cara de babá, porra? Seu irmão é maior e vacinado, ele sabe se cuidar!
– Não precisa ser rude, cara...
– Então enche o saco de outro, cacete.
– Por isso é que todo mundo no Santuário tá achando é bom você ter ficado paralítico. Você não ajuda.
O efeito foi imediato: o humor de Máscara da Morte caiu e seus olhos lacrimejaram, fazendo o Sagitariano se arrepender automaticamente do que havia dito.
– Desculpa, cara, eu...
– Não tem o quê desculpar, você tem razão. Eu sou intragável. – suspirou fundo e continuou – Aiolos, me deixe sozinho, sim? Espere o Aiolia na recepção que você fala com ele quando ele chegar, mas não quero suas fuças aqui. Eu aviso sobre as sacolas também.
Quando viu o Sagitariano deixar o quarto cabisbaixo, chateado e resmungando baixo, o italiano teve um acesso de fúria, jogando a bandeja cheia de comida na parede e esmurrando as pernas com força. Com as pernas já vermelhas e sangrando, apesar de insensíveis, se recostou na maca e começou a chorar.
Fale com o autor