Precipício
9 Nove
Notas iniciais
E todo dia eu vejo o noticiário
Todos os problemas que poderíamos resolver
Máscara sorriu triste ao entrar em casa. Estava tudo como havia deixado na noite em que sofrera o acidente: os pacotes de salgadinho no sofá, os DVDs espalhados no chão, a janela entreaberta, a cozinha pútrida, repleta de alimentos estragados e todo o pó acumulado com os meses.
Ele não esperava algo diferente. Já imaginava que ninguém se daria ao trabalho de cuidar da casa de Câncer e ficaria decepcionado, por mais estranho que pareça, se fosse diferente.
Uma das poucas vezes que agradeceu pelos aposentos particulares dos templos serem tão pequenos* foi quando Máscara se viu com a casa limpa antes da meia-noite, com boa parte do tempo gasta calculado a localização dos móveis para otimizar a movimentação da cadeira de rodas. Aiolos já havia subido para Sagitário e, sozinho com Aiolia, se permitiu desabafar.
– Leone, minha vida aqui promete ser horrível — o canceriano disse, amargo — Imagino como vai ser o falatório dos próximos dias.
– Tenta não pensar muito — Aiolia respondeu, acariciando os cabelos de Máscara, que repousava a cabeça em seu ombro — Partir pra porrada é melhor.
Máscara riu, sabendo que essa era a reação que esperava de si mesmo. Imaginava se toda essa amargura e tristeza passariam, como falsamente tinham no hospital. Talvez passasse a reagir com violência, justificando a animosidade, ou simplesmente seria indiferente.
Ser indiferente, agora, parecia uma alternativa tão tentadora quanto difícil de ser concretizada.
– Você vai dormir aqui hoje?
– Você quer? — Aiolia respondeu doce, beijando o namorado — Eu adoraria.
Era nesses pequenos momentos em que estava com Aiolia que Máscara se agarrava. Pequenas centelhas de luz em meio a escuridão. Não sabia exatamente em que momento tinha ficado tão dependente emocionalmente de Aiolia e tanto a dúvida quanto a dependência não o incomodavam. Estar perto de Aiolia, física e emocionalmente, o fazia sorrir e esquecer da paralisia e da solidão que sentia.
Não. Mais que isso. A solidão não existia mais. No lugar dela, apenas um arrependimento incômodo de não ter sido diferente, o gosto salgado dos frutos que estava colhendo e não podia evitar.
Sentiu ser abraçado por Aiolia e sorriu, esquecendo do que o esperava pela manhã e adormeceu.
Pela manhã, Máscara teria uma reunião com Atena e os demais Cavaleiros de Ouro, tanto para por o canceriano a par dos acontecimentos quanto discutir o futuro do mesmo.
Propositadamente, estava chegando atrasado. Desta forma não encontraria ninguém pelo caminho e sabia que Atena não se importaria com isso. Chegou no Décimo Terceiro Templo carregado por Aiolia nas costas (o que não era recomendado pelos médicos, mas o canceriano insistiu por julgar a posição "menos humilhante"), ambos de armadura, viu-se diante da primeira reunião feita com os membros sentados em volta de uma mesa e não em pé, como era tradição. Imaginou se isso era obra de Atena e agradeceu. Havia deixado a cadeira de rodas em casa e as opções "ficar na reunião sentado com os outros em pé" e "ficar na reunião nas costas de Aiolia" não eram agradáveis.
A mesa era espaçosa, retangular com duas cadeiras de encosto alto em cada extremidade, uma dourada, onde estava Atena, e uma em tons terrosos, onde estava Shion. As demais cadeiras — sete à direita de Atena e seis à esquerda — seguiam o mesmo padrão de cores da de Shion, com os mesmos assentos de veludo vermelho, mas encosto menor, com entalhes do símbolo de cada signo e em ordem zodiacal.
As únicas vazias eram Câncer e Leão, no que Aiolia tratou de colocar Máscara na cadeira que lhe era de direito e sentar também.
Máscara suava frio e esse era seu único sinal de nervosismo. Por fora, ele parecia o mesmo italiano irritável e sem coração de antes, cínico, sanguinário e detestável.
– Bom, agora que estamos todos aqui, declaro iniciada a reunião — disse Shion — Antes de começarmos, seja bem vindo de volta, Máscara da Morte.
– Obrigado, Mestre Shion.
A reunião se seguiu tediosa e detalhada, com Mestre Shion e Atena repassando todos os pormenores que Máscara perdeu em sua ausência. Nenhum dos companheiros de armas havia lhe dirigido a palavra ainda, mas o mesmo não se podia dizer dos olhares, que variavam de pena a repúdio. As exceções eram Aiolia, que segurava sua mão o tempo todo e Aiolos, que sorria para si a maior parte do tempo.
Mas essa era a parte fácil da reunião, onde só ouviam calados. A parte em que lhes era dada a palavra prometia ser bem pior.
Quando foi dada a palavra para os cavaleiros, Milo foi o primeiro a se manifestar.
– Mestre, Atena, com todo o respeito, mas por que ele está aqui? — escorpiano fora curto e grosso, como já era esperado, mas portava um tom mais ameno e não ofensivo — Digo, não acho que Máscara da Morte tenha condições de...
Milo não completou a frase, mas todos sabiam o que a seguia. Máscara tinha condições de portar a armadura de ouro, servir Atena e defendê-la e à Terra quando e se necessário, por conta da paralisia?
Máscara suspirou fundo. Perguntava-se o mesmo.
– Não estamos em batalha, Milo — a deusa respondeu calmamente — Além do mais, Máscara da Morte tem o direito de escolher se quer ficar.
O canceriano entendeu o que a deusa queria dizer. Que ele não teria como defendê-la em uma batalha e que, se estivessem em tempos de guerra, as coisas seriam diferentes. Obviamente poderia escolher se queria ficar, mas para onde iria, caso não quisesse? Não sabia fazer outra coisa além do que agora era privado, não tinha uma profissão, um lugar para ir ou alguém no mundo lá fora. Ficar era a única escolha que tinha.
Apertou a mão de Aiolia por debaixo da mesa, nervoso. O leonino o olhou de lado e sorriu e Máscara viu que todos o observavam, esperando uma resposta para a pergunta indireta da deusa.
– Eu preciso ficar.
Precisava ficar por que era sua única opção no final das contas e, por mais que agora tivesse Aiolia, não esperava que o relacionamento durasse mais que os outros, sempre fazia algo estúpido, por mais apaixonado que estivesse. O leonino cansaria de si depois do sexo, tinha certeza. Então, mesmo que agora Aiolia fosse quem o confortava e matava a solidão que o afligia, ainda estava sozinho em qualquer lugar que fosse e, no Santuário, estava seu lar, o único que conheceu.
O resto da reunião se seguiu com calma, apesar de certo tumulto — fora designado uma função para cada Cavaleiro de Ouro à parte das atribuições da armadura, tendo ficado Máscara da Morte responsável por treinar jovens aprendizes juntamente com Camus.
A reunião terminou com um clima desagradável de silêncio e olhares inquisitórios, julgadores. Aiolia reparara que Afrodite encarou Máscara a maior parte do tempo e que o namorado sempre desviava o olhar quando via o pisciano. Quando todos começaram a se levantar e ir para suas casas, o canceriano corou profundamente, fingindo desinteresse quando Aiolia o pegou no colo.
– Aiolia, espera um pouco para descer — disse Máscara, sussurrando.
O leonino sabia que o namorado queria ficar sozinho, ficar longe dos demais companheiros de arma e o entendia, por isso esperou um pouco. No fim, quando decidiu sair, julgando ter todos ido para suas casas ou quase lá, Shaka ainda estava parado ao lado de Aiolos na porta do templo, os esperando.
– O que estão fazendo aqui? — perguntou Aiolia.
– Esperando vocês, não é óbvio? — Aiolos disse sorrindo — Quase desisti e fui para casa.
– Diga por você, Sagitário, eu estou esperando apenas por Aiolia.
Máscara da Morte respirou fundo, desviando o olhar. Aiolia sorriu para o amigo e o irmão, se aproximando deles.
– O que querem comigo? — respondeu o leonino — Não me digam que não suportam minha ausência, capaz de me convencerem.
Shaka bufou impaciente, reconhecendo a falta que o leonino lhe fizera nesses últimos meses — Você fica fora por meses e quando chega, some. Talvez eu só queira companhia, Leão.
– O Mu também estava aqui, mas perdeu a paciência e desceu até Touro — Aiolos disse divertido — Eu estou aqui ainda por que não me aguento mais de curiosidade para saber porque você chamou o Máscara da Morte de "amor".
Shaka arqueou a sobrancelha, corando e encarando Aiolia. O leonino deu de ombros, sincero, enquanto o canceriano desviou o olhar, fingindo desinteresse.
– Não tem muito que contar. Só rolou.
– Rolou, tipo, rolou? — indagou o sagitariano — Ou não estão nos finalmentes?
– Ah, não rolou assim ainda, mas começamos a namorar — respondeu Aiolia, quando percebeu que Máscara fingia não estar presente e não responderia — Não queremos começar as coisas de um jeito tão assim.
Aiolos anuiu em silêncio e sorriu amplamente. Seu irmãozinho estava namorando, mesmo que com Máscara da Morte, e isso era boa notícia. Shaka, por sua vez, começou a descer as escadarias em silêncio e de mau humor, o que passou despercebido pelos irmãos gregos, mas não pelo italiano, que arqueou as sobrancelhas em dúvida.
Não sabia o que fazer com o que tinha recém descoberto, mas uma coisa era certa: Aiolia não podia saber.
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