Notas iniciais
Olá :D Demorei um pouco, perdão :( Demorou mais que 45 dias? Saibam que não abandonei a fic, só que fiquei um pouco ocupada com a vida em off plus a dificuldade que foi escrever uma bendita de uma cena u.u No geral, aproveitem!

E quando uma situação se agrava

Apenas escreva num disco

Máscara da Morte olhou para cima, irritado. Irritação era uma das coisas que mais sentia nessa semana desde que voltara para casa. Ver outras pessoas, conversar com outras pessoas, pedir ajuda para outras pessoas, escutar as fofocas a seu respeito quando descia junto a Camus para treinar moleques, olhar para cima ao conversar, por que todos os filhos de uma puta não tinham o bom senso de se baixar ao conversar com um cadeirante.

A única exceção era Aiolia, que sempre se abaixava, sempre perguntava se queria ajuda ao invés de sair metendo a mão em sua recém chegada cadeira de rodas novinha (por sinal, muito mais confortável que a alugada e a do hospital).

O grego era como um barco de salvação a um náufrago em uma ilha deserta ou uma flor de lótus no meio do pântano, mesmo que essa última comparação o lembrasse mais de Shaka que de Aiolia.

Era com Aiolia que se acalmava e aprendia a usar a sonda, que o ajudava a ser independente, não o olhava como se merecesse ou fosse a pior pessoa da Terra. Era com Aiolia que se esquecia de tudo que estava à sua volta e podia respirar livre um pouco.

Como imaginara desde o início, voltar não era fácil.

O leonino também tinha voltado às atividades comuns de cavaleiro e não ficar junto dele o dia todo era tão estranho. Tinha que ficar aturando as fuças frias e blasé do Camus, fuças catarrentas insuportáveis dos aprendizes e a fuças altivas e ultimamente tristonhas do cavaleiro de Virgem.

E era essa fuça loira de olhos azuis que fazia seu pescoço doer ao olhar para cima nesse exato momento. Shaka não se curvava um mísero centímetro para ficar na mesma linha de visão do canceriano e a diferença de altura fazia o ar superior ficar ainda mais efetivo.

Máscara da Morte realmente odiava Shaka.

O estava aturando apenas por falta de escolha: Além de ser amigo de seu namorado, o indiano estava ajudando-o a desenvolver e controlar o cosmos, de forma a ajudar na recuperação dos movimentos, assim como Shaka usava para "ver". Não era certeza se ia ajudar ou até onde essa ajuda iria, mas era um bom adicional à fisioterapia.

– Isso poderia ser mais fácil — disse Shaka suspirando pesadamente — Você podia ao menos tentar se esforçar.

– Ah, claro, estou com preguiça de andar e daí comprei uma cadeira de rodas — Máscara se irritava ainda com o desdém que Shaka invariavelmente fazia. Ou Máscara não se esforçava, ou estava com preguiça, ou essa dorzinha não era nada, ou era muito molenga de não conseguir ficar em tal posição, ou não merecia ser um Cavaleiro de Ouro se não conseguia manipular seu cosmo com perícia. Shaka estava detestável e o canceriano desconfiava profundamente que o motivo era Aiolia: a pessoa que lhe trazia felicidade era a mesma que trazia pesar ao virginiano.

De certa forma, saber de algo tão importante que Shaka não sabia e saber que tal sofrimento era por amor (ainda que tal fosse direcionado ao namorado de Máscara) fazia o italiano ter mais paciência que o normal.

E esse era o único motivo que o impediu de socar o rosto do indiano.

– O que de certa forma foi o acontecido, levando em conta as circunstâncias.

Máscara da Morte suspirou fundo, sabendo o que o virginiano queria dizer.

A culpa foi sua, agora aguenta.

Chamou Aiolia por cosmo, Ou você vem aqui me pegar ou Atena vai precisar de outro cavaleiro de virgem. Não aguentava mais a presença de Shaka.

Tudo bem, não é como se Shaka fosse o único a achar bom a atual situação de Máscara da Morte. Mas o virginiano falava com tanta naturalidade, como se não fosse nada esfregar a culpa na cara e no ego do italiano, como se, por ser certo e indiscutível, não tinha problema nenhum em dizer certas coisas.

Espero que agora você tenha aprendido a beber.

Já procurou a família da moça?

Como é a sensação de ter a morte de alguém nos seus ombros?

Será mais prudente na próxima vez que dirigir?

Ocasionalmente ditos entre uma lição e outra.

Shaka não era uma má pessoa, Máscara sabia disso. Até por que Aiolia não seria amigo dele caso contrário. Só que o loiro não gostava da escolha amorosa do leonino e muito menos de sofrer por amor sem saber que se está sofrendo, o que tornava o virginiano irritável com Máscara da Morte e toda a situação envolvida.

– Agora ficou mudo — Shaka riu, dando as costas — Máscara, não é educado não responder as outras pessoas.

Shaka não viu quando foi parar no chão e Máscara só percebeu o movimento que fez quando se viu em cima de Shaka, ambos deitados no chão. O canceriano apertava Shaka contra o chão e o virginiano ria, passado o susto.

– Agora ficou irritado, Máscara?

Máscara da Morte evitou ofender Shaka por saber ser exatamente isso que o outro esperava: Uma reação raivosa, ofensas e agressões. Ao fazê-lo só iria dar razão à Shaka.

O indiano parou de rir quando viu o italiano sério e lacrimoso. Máscara não queria e não iria chorar na frente de Shaka, mas, de certa forma, ver as lágrimas não caídas amoleceu o cavaleiro de virgem, que desviou o olhar, mordendo os lábios.

– Não é engraçado, Shaka — Máscara respondeu com a voz embargada — Está me vendo rir? — Shaka permaneceu calado, no que o canceriano continuou — Agora ficou mudo? Shaka, não é educado não responder as outras pessoas.

Ao ouvir seu comentário sarcástico voltar contra si, Shaka saiu do estado penalizado de espírito e se enraiveceu de repente. Abriu os olhos e olhou fundo nos de Máscara da Morte e ficou se perguntando o quê diabos Aiolia tinha visto nele.

– Você não vale a pena.

– Não é o que Aiolia acha.

Foi nessa hora — em que Máscara da Morte praticamente esganava Shaka com a força do olhar e lutava piamente para não mandar o outro literalmente para o inferno — que Aiolia chegou.

Longe de pensar que dois caras um em cima do outro se encarando nos olhos era uma cena romântica — para o leonino mais parecia a prévia do próximo capítulo de uma série sobre assassinatos — Aiolia passou a mão pelos cabelos, risonho.

– Ettore... — ao ver que tinha ganhado a atenção do namorado, continuou — Vamos para casa. Eu sabia que não ia dar certo.

Enquanto Aiolia se equilibrava entre carregar Máscara e a cadeira de rodas ao mesmo tempo — habilidade adquirida com a prática — reparou em Shaka se sentando e enxugando os olhos.

– Tá bem, Shaka?

O indiano ignorou o outro, permanecendo em silêncio. Havia muito que pensar.

Da parte que lhe tocava, agora Máscara estava feliz, indo para casa e na companhia de Aiolia, realmente não havia muitas coisas passíveis de acréscimo. Chegando à casa do leonino, já adaptada, Máscara rodou a cadeira em direção à cozinha, tentando se desvencilhar da enxurrada de perguntas que um naturalmente curioso Aiolia deixaria sair.

– O quê aconteceu lá, Ettore? — Aiolia perguntou, se sentando em uma cadeira e observando o namorado encarar o interior da geladeira — O Shaka não estava normal.

– Tch. Você sabe que não me dou bem com ele — o canceriano deu ré, fechando a geladeira, com duas latas de refrigerante no colo, estacionando a cadeira de frente ao leonino — Tava demorando acontecer, leone. — Aiolia permaneceu em silêncio, esperando o outro completar — Shaka não é a pessoa mais educada do mundo.

O leonino percebeu o orgulho ferido e imaginava o que Shaka havia dito. É, certo, Shaka sabia ser intragável quando queria.

Assim como sabia ser simpático e prestativo e como essa faceta "bondosa" era a que normalmente se mostrava para Aiolia, era difícil entender o motivo de ser sempre a faceta oposta oferecida a Máscara da Morte.

– Eu não entendo o motivo.

Máscara da Morte sabia muito bem o porquê, mas não ousava contar ao namorado. Primeiro por que Aiolia acreditava piamente Shaka ser arromântico e assexual (“ele não parece ser do tipo que se apaixonaria e não o imagino na cama com alguém”, no que Máscara respondeu “por que você imaginaria o Shaka com alguém na cama?”, não obtendo resposta). No geral, Ettore sabia que Aiolia não acreditaria se contasse que Shaka carregava um caminhão por ele e que esse era o motivo de tanta animosidade para com a digníssima pessoa do canceriano. Verdade seja dita, tecnicamente Máscara não tinha uma prova, na base sua desconfiança era tão infundada quanto as dúvidas de Aiolia quanto a arromanticidade e a assexualidade do virginiano.

O canceriano parou perto de Aiolia e lhe entregou uma das latas de refrigerante, praguejando baixinho não poder tomar álcool por causa da medicação que ainda tomava.

(de fato Máscara imaginava que não conseguiria beber novamente, mas ignorava esse sentimento e colocava a culpa de sua abstinência nos remédios. No fundo, se sentia um frouxo por não querer álcool e somado com a impotência, que ele esperava ser temporária, só aumentava a sensação de que ele era muito menos homem do que quando do acidente)

– A gente pode conversar com o Mestre Shion para parar suas sessões com o Shaka — disse Aiolia, abrindo uma das latinhas — Podemos inventar uma desculpa qualquer se você não quiser falar do comportamento dele.

– Não — Máscara respondeu, sorvendo a bebida — Mesmo que o Shaka seja intragável, as sessões são úteis.

Aiolia sorriu. — E o treinamento com Camus e os novos aprendizes?

– O Camus é legal. – respondeu, desinteressado — Ignora completamente minha existência.

O leonino suspirou, sem saber o que dizer. Sabia que Máscara estava à beira de um colapso. Sabia, pela boca de Milo, que os treinamentos eram tudo menos legais ou desinteressantes. Era um inferno de moleques desregrados, uma horda de aprendizes que se desentendiam por conta da variedade linguística todo o tempo, fazendo vez ou outra questão de frisar tacitamente que eram mais do que Máscara da Morte, seja subindo em cima de uma pilastra ou árvore quando Camus não estava perto ou fazendo coisas pequenas como correr em direção a um terreno acidentado ou anguloso, volta e meia ofendendo Máscara da Morte em seja lá qual é a língua natal do moleque em questão, no que o canceriano invariavelmente entendia, seja por entender em diferentes níveis a língua falada ou por uma questão de contexto.

E Máscara da Morte tinha razão. Camus fingia que Máscara não existia. Camus permanecia impassível enquanto Máscara fingia o mesmo, inutilmente tentando esconder seu cosmo alterado e sua vontade de ir para casa e chorar e matar todo e qualquer ser vivente na Terra.

Aiolia sabia disso.

– E os aprendizes?

– O de sempre.

Máscara sentia no momento uma mistura de vontade de se afogar em álcool e vontade de efetivamente se afogar em água ao se jogar de um penhasco em direção ao mar. Bem teatral. Nunca em toda sua vida se sentiu mais miserável e medíocre e cada momento que passava longe de casa era mais uma prova de que todo o mundo lá fora era um lugar perigoso e hostil. Quando parava para pensar não sentia que seu problema era efetivamente a paraplegia, mas tudo à sua volta que já estava lá e só veio à tona por conta dela.

Precisar de uma cadeira de rodas no momento era o menor de seus problemas.

Se afastando da cozinha para afastar seus pensamentos alcoólicos e os que o direcionavam a um corte horizontal com a faca na pia, Máscara rodou em direção à sala, sendo seguido por Aiolia.

O leonino fazia de tudo para ajudar o namorado, mas não tinha ideia do que fazer ou se o que fazia era efetivo. Então passava todas as noites com Máscara da Morte, abraçados no sofá vendo um filme ou um seriado ou na cozinha experimentando uma nova receita para então desistir do resultado desastroso e fazer macarrão instantâneo. Vez ou outra Aiolia percebia o olhar tristonho e vazio do namorado e inventava piadas e motivos para fazer o outro sorrir nem que fosse um pouco e exteriorizava todo e qualquer elogio e “eu te amo”, “você é muito importante para mim” que podia e toda vez que algum fato passado vinha à tona, Aiolia ignorava todo e qualquer erro do canceriano e só relevava as partes que faziam Máscara se sentir melhor, nem que para isso tivesse que aumentar uns detalhes.

Máscara sabia de tudo que Aiolia fazia. Não entendia muito bem por que Aiolia fazia tanto com tão pouco tempo de namoro precedidos por tantos anos de animosidade, mas ignorava esse detalhe. O leonino era a única parte de seus dias que o fazia se sentir minimamente melhor e a única pessoa que se permitia chorar quando já não agüentava mais, mesmo que essa parte não acontecesse com freqüência.

Era meio que por causa de Aiolia que Máscara não tinha dado ouvidos às tentações vindas da voz afiada da faca da cozinha, ainda que não soubesse por quanto tempo a voz de Aiolia seria a que ouviria.

Notas finais
:D Espero que tenham gostado. Vou postar o próximo o mais rápido possível, não quero demorar muito a postar capítulos. Fiquem sabendo que não abandonei a fic! Eu fiquei muito feliz com cada comentário, acompanhamento e favoritos! Muito obrigada mesmo! Até a próxima!