Precipício
11 Onze
Notas iniciais
Sentado direito, muito deprimido
Eu não gosto muito do meu ritmo, oh, então
Aiolia suspirou fundo e olhou para o céu. Era tão exaustivo os baixos emocionais de Máscara da Morte e ao mesmo tempo tão reconfortante ficar com ele. O leonino sabia que Máscara não tinha culpa do que estava sentindo, mas era inevitável absorver tanto sentimento negativo. Esperava sinceramente que o namorado superasse essa fase difícil o mais rápido possível e pelo bem de ambos.
O leonino não sabia o que fazer para animar Máscara da Morte, que desde a briga com Shaka na tarde anterior tinha se demonstrado diferente do normal, mesmo levando em conta o "normal depressivo".
De fato, depois que Aiolia o levara para casa, Máscara da Morte se enfiou em baixo de uma coberta no sofá e dormiu. Na manhã seguinte, não tinha ânimo, coragem, vontade ou que o valha para sair de lá. Mesmo agora com o sol quase se pondo, sair do sofá se limitou a trocar a sonda uma única vez das várias necessárias, mesmo quando Aiolia o lembrava do fato. Não sentiu fome, não deu explicação para ninguém de seu comportamento e nada parecia bom o suficiente. Nenhum jogo, nenhum programa de tv, nenhuma comida ou bebida, nenhum treinamento e nenhuma companhia, não que alguém além de Aiolia o tenha procurado.
Aiolia de fato havia ido várias vezes durante o dia e tentado animá-lo de diversas formas, desde as normais no dia-a-dia do casal, como ver filmes e séries, preferencialmente adaptados de quadrinhos, jogar videogame e comer porcaria, a coisas “inusitadas” como dar um passeio no parque, ir à praia ou visitar alguém.
Todas as tentativas foram inefetivas, o que resultou em um Aiolia em um misto de tédio e tristeza ao lado de Máscara da Morte, que passara o dia todo deitado no sofá, recusando qualquer oferta ou ajuda, olhando para o teto. Nesse momento eram assim que se encontravam – Máscara como passara o dia todo e Aiolia sentado na poltrona, vendo algum programa irrelevante na televisão.
– Ocupado?
O canceriano tremeu ao reconhecer a voz. Se virou para o encosto do sofá, escondendo o rosto. Talvez se ignorasse completamente a presença do outro e a irritante voz desdenhosa ele fosse embora. Por que, de todas as pessoas no mundo, o virginiano era a última que gostaria de ver agora.
Parte de Aiolia não gostava de ver Shaka ali, sendo essa a parte ciumenta, acreditava Aiolia ser ciúmes de Máscara da Morte. Outra parte estava se perguntando o quê o virginiano fazia ali e ao mesmo tempo se sentia muito deslocado, ao passo que Shaka, ao percebê-lo no cômodo, corou de leve e disfarçou elevando o queixo.
– Ettore, vou deixar vocês dois sozinhos. – Aiolia chegou perto do namorado e o beijou com carinho, recebendo muxoxos como resposta. Máscara não queria ver ninguém no momento e Shaka poderia esperar conversar com as paredes.
– Eu não vim discutir – continuou Shaka, com o tom de voz baixo e desviando o rosto, depois da saída de Aiolia. Máscara não havia se movido ou emitido resposta, então continuou – É só que... Eu fiquei preocupado por você não aparecer hoje e Camus disse que não foi no treinamento também.
A verdade é que Shaka tinha passado a noite anterior e a manhã de hoje pensando em toda essa situação e havia decidido ser mais civilizado com Máscara da Morte e quem sabe pedir desculpas, mas todo o seu ensaio do quê diria e como conversaria com Aiolia quando o mesmo perguntasse o quê aconteceu foram inúteis depois de o italiano não aparecer para o treino da tarde, tendo apenas Aiolia mandado um recado por Camus de que Máscara não estava se sentindo bem, o que é normal devido à atual condição do outro.
– E então?
Máscara permaneceu calado, tentando digerir o fato de que Shaka estava preocupado consigo e que esse provavelmente era o mais perto de um pedido de desculpas que conseguiria junto com todo o amargor do dia. Era difícil de engolir. Era mais fácil virar a cara e fingir que não tinha ouvido nada, tentar ignorar a presença do outro, que só reforçava tudo aquilo que sentia.
Afrodite suspirava na porta dos fundos da Casa de Câncer. Tinha se acostumado com aquela entrada, sempre sorrateiramente, Ettore sempre com medo de que descobrisse. E agora... Dane-se. Dane-se. Dane-se. Agora outro entrava pela porta da frente. Dane-se, dane-se, dane-se. Por mais que repetisse como um mantra, dane-se, não conseguia ignorar de todo. Por mais que se deliciasse com as conseqüências daquela noite e saísse como vitorioso e ao mesmo tempo sangrava por dentro pelos mesmos motivos, o mantra, dane-se, não conseguia apagar o fato de que o sueco não era tão importante assim. Passara anos pela porta dos fundos, enquanto Aiolia já tinha adquirido o direito de entrar pela porta da frente.
No geral, não sabia o motivo de estar ali, encarando a porta de madeira. Já tinha sentido o cosmo de Aiolia sair, o de Shaka que permanecia e o tristonho do ex-namorado (ou ex-amante? Nunca soube se fora o traído ou se era só mais um bonequinho que o italiano usava).
O que Afrodite encontrou na sala não foi muito diferente da cena que havia quando Aiolia a deixou. Máscara ainda se esforçava para ignorar Shaka, que tinha o resto de seu orgulho massacrado.
– Shaka. – cumprimentou o pisciano, cordial. Sorriu de leve ao se dirigir ao dono da casa – Máscara da Morte.
– Afrodite... O que faz aqui? – perguntou o virginiano, confuso. Sabia que o pisciano tinha relações com Máscara, mas não sabia que essas ainda perduravam, mesmo agora Máscara da Morte namorando Aiolia. – Veio ver o namorado?
– Não te diz respeito – Afrodite respondeu seco – E você, o que faz longe de sua morada?
Mesmo quando estava sozinho Máscara da Morte queria se enfiar em uma cova e morrer por asfixia, em dias normais. Tentar ignorar o que acontecia à sua volta, olhar para o encosto do sofá e fingir que nem Shaka e muito menos Afrodite estavam ali não parecia funcionar. Então, por mais que quisesse negar a realidade, se virou e se sentou no sofá com certa dificuldade, olhando com desgosto para os outros dois cavaleiros ali presentes e tentando inutilmente apagar os caminhos das lágrimas e o rosto amarrotado de passar o dia deitado.
– Shaka, obrigado por ter se preocupado – Máscara começo, ignorando Afrodite – Quando eu estiver me sentindo melhor eu volto a te procurar.
– Se quiser posso vir aqui, se ficar mais fácil – volveu Shaka. Nem o virginiano entendia o motivo de ser tão solícito com o outro, achava ser pena ou outro sentimento parecido. Em sua mente, estava sendo humilde e prestativo, e Máscara da Morte não merecia. – Se você não se importar.
– Pode ser. – respondeu o italiano. Shaka vir era realmente uma boa, o poupava de muita humilhação ao pedir Aiolia (e por vezes Camus, quando voltavam do treinamento dos aprendizes) o carregasse – Agora se me dá licença...
– Tudo bem.
Shaka saiu sem falar nada, confuso e doído, enquanto deixava Afrodite com Máscara da Morte. Ao que parecia, teria outra noite não dormida, de tanto pensar e descobrir por que pensava no canceriano.
– Olá, Ettore. – Afrodite não esperou por uma resposta. Sabia que não receberia uma. Apenas se sentou ao lado do namorado, do ex-namorado ex-amante, da pessoa que fez parte da sua vida por tanto tempo.
Máscara da Morte evitava o olhar de Afrodite, que permanecia calmo e lindo como em todas as noites que tiveram. Hoje, mais do que em qualquer dia, a diferença entre a leve delicadeza de Afrodite e a brutalidade, agora apenas uma sombra, escondida por detrás de uma névoa densa de tristeza e solidão, de Máscara da Morte se tornava ainda mais evidente.
–.-.-.-
A situação do namorado estava desesperando Aiolia, que não imaginava ser tão fundo o precipício que Máscara estava caindo e não sabia o quê fazer.
– E agora não sei o quê eu faço, Mu.
– Eu nunca imaginaria você e o Máscara da Morte namorando, é engraçado — Mu disse, rindo, então ficando sério — Eu nunca lidei com uma situação assim. Por que não busca ajuda profissional? Se você acha que esse "poço" em que ele está não é normal, tem que buscar ajuda.
– Ele precisa é que as pessoas parem de hostilizar ele. — Aiolia volveu sério — Não é engraçado ou um castigo tudo o que aconteceu.
– Sabe que eu não imaginei que isso ia continuar por tanto tempo. — Mu suspirou pesado e continuou — Eu já esperava, mas isso beira o ridículo.
A verdade é que não tinha um caminho simples para que as coisas melhorassem. Ou um caminho em si. Era mais como uma trama complicada de pistas a ser seguidas para achar o baú do tesouro, para no final descobrir que o tesouro consistia em ser capaz de sair para buscá-lo.
E reconhecer que você precisava de alguém que lhe desse o mapa era primordial.
Era fácil dizer é só hoje. Não é nada. Foi culpa minha. Faz sentido eu me sentir assim. Não é como se eu não merecesse. As pessoas tem razão, eu só estou querendo chamar a atenção. Eu não preciso de ajuda, não sou tão fraco.
Nem Aiolia e muito menos Máscara da Morte achavam que era necessário um mapa e alguém que o ensine a lê-lo. Enquanto o leonino acreditava não ser nada demais para precisar de tanto e que tudo se resolveria com menos hostilidade, o canceriano não conseguia conceber precisar de mais ajuda, então ignorava e acreditava que realmente merecia todos aqueles ataques, ofensas, risos e piadas.
Teria sido muito melhor ter morrido, o italiano pensava. Eu posso dar um jeito nisso, é fácil.
Talvez fosse mais fácil enxergar as soluções por um viés neutro e exterior ao problema, pois Mu notava os sinais claros de que Máscara precisava de ajuda.
– Você precisa voltar pra lá e ficar ao lado dele, Aiolia.
–.-.-.-
Ficaram em silêncio por um bom tempo, Afrodite e Máscara da Morte. Um silêncio tão diferente do que estavam acostumados, aquele gostoso pós sexo em que esqueciam por um momento todos os problemas que vinham da relação. Agora era pesado, recheado de toda aquela tristeza que Máscara da Morte emanava e tudo aquilo que Afrodite sentia e não conseguia botar pra fora.
O canceriano sabia que naquela noite não havia sido ele a se machucar mais. Certo, era ele quem carregava as seqüelas físicas, mas imaginava e agora tinha certeza que todo aquele tempo que passou no hospital, consciente e inconsciente, e agora que já voltara para casa, tinham sido muito piores para o pisciano e que provavelmente a dor que Afrodite carregou e carrega agora era bem pior que qualquer uma que Máscara da Morte pudesse carregar.
– Afrodite... Eu... – o italiano começou, se recostando no sofá, enquanto Afrodite se apoiava nos joelhos com o antebraço, se afastando – Eu sinto muito.
– Não precisa sentir – disse Afrodite, olhando para o chão, encarando os pés inertes do outro – Eu não sei se sinto alguma coisa, então não precisa sentir.
– Eu...
– Deixa eu falar – o loiro interrompeu o moreno, ríspido. Finalmente tinha conseguido começar a expor seus sentimentos e agora o faria ouvir – Eu não vim dizer como me senti ou se eu sei ou não ou em que nível o quê você fez. Eu não me importo, de verdade. Eu sofri durante muitos dias por causa disso, você me devastou, naquela mistura de preocupação e martírio, ódio e pena, por causa daquela noite. Não quero que você pense que gosto do jeito que você está, por que eu não gosto. Mas não por que sou altruísta e gosto de ver bem as pessoas à minha volta, mesmo as que me machucaram. Mas é que eu me sinto culpado por você estar assim, como se a culpa fosse minha e de alguma forma eu podia evitar tudo o que aconteceu e parte de mim acreditava na ilusão de quê se você não tivesse batido de moto naquela noite eu continuaria fingindo não saber e seríamos um casal feliz na bênção da ignorância.
– Eu quero te ver bem por que sou egoísta – Afrodite continuou, dessa vez enxugando as lágrimas e encarando o canceriano – Eu quero te ver bem por que te ver mal me faz muito mal, faz mal àquela memória da pessoa doce que você era na minha memória. Eu vim aqui hoje por que eu tinha tanta coisa para desabafar, tanta coisa que eu senti nesses meses, tanta coisa que eu queria evitar e acabei por transformar meus sentimentos em uma bola de neve empírica. Eu tentei tanto te ignorar, Ettore. Tentei por que eu não sentia que as coisas estariam acabadas até que eu falasse com você, a gente não chegou a terminar de verdade, eu não quero nada inacabado na minha vida, não quero terminar um relacionamento de forma tácita e guardar meus sentimentos, então estou soltando tudo, seja para ficar ao vento ou entregar a você o fardo de carregá-los.
– Eu te perdôo, Ettore – Afrodite disse com calma, segurando Máscara da Morte pelo queixo e depositando um beijo leve – Mas eu te perdôo para deixar meu coração livre e leve, eu te perdôo por me perdoar.
O cavaleiro se levantou, o olhar altivo e o semblante muito mais leve do que quando entrara pela porta dos fundos – Mas, Ettore, agora acabou.
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