Precipício
17 Dezessete
Notas iniciais
Diga-me o que você quer ouvir
Algo que agradará aos seus ouvidos
Cansado de todas as falsidades
Então vou entregar todos os meus segredos
Desta vez
Aiolia não sabia o que mais doía: era se olhar no espelho e ver o estado lastimável que se encontrava ou ver Máscara da Morte feliz? Parte de si gostava de ser o porto-seguro do ex-namorado, de ser a pilastra que o mantinha são e machucava de uma forma egoísta e mesquinha vê-lo tão bem.
Enquanto Máscara estava melhor, fazendo acompanhamento psicológico e sorridente, tão diferente do rabugento e violento de antes do acidente e do melancólico e cheio de culpa, Aiolia se afundava em bebida e autopiedade.
Mesmo depois de um mês, o leonino não havia procurado o outro. Não era justo, era? Se se sentia mal por ver o ex bem, se continuava num processo de autodestruição motivado não pelo arrependimento de ter mentido, mas por ter tudo acabado em decorrência da mentira.
De certa forma Aiolia se arrependia sim, na verdade. Mas o arrependimento só veio quando já amava Máscara da Morte... Não era um arrependimento válido, era? Se de início mentiu para “ensinar uma lição” ao outro e manteve a mentira mesmo depois de saber das seqüelas, mesmo depois de se apaixonar... Fazia sentido se arrepender? Fazia diferença?
Por sua vez, Máscara da Morte via o afastamento de Aiolia com indiferença. Ainda amava o leonino e estava disposto a dar uma segunda chance se Aiolia estivesse igualmente disposto a não o trair novamente. Mais do que ninguém, o italiano sabia que as pessoas mereciam uma segunda chance, mas não ficaria esperando feito um cachorrinho a volta do grego.
Isso fez com que a cada dia que passasse fosse ficando mais difícil se reaproximar. Era como se o tempo fosse distanciando e endurecendo as palavras, como se “dar um tempo” fosse sinônimo de “fim de relacionamento”.
Máscara da Morte sorria enquanto cuidava dos aprendizes. Desde que decidira “andar com as próprias pernas” e começara o tratamento psicológico parecia que os pequenos o respeitavam mais. Era como se a culpa de tanta indisciplina por parte deles fosse das atitudes autodestrutivas do mestre e não de, especificamente, Máscara ser cadeirante. Perceber isso foi como uma injeção de auto-estima, ver que agora as crianças o ouviam, obedeciam e até pediam ajuda.
Hoje fazia o treinamento na companhia de Camus, mas já o fizera sozinho algumas vezes, coisa que era impraticável antes. E também estava começando a ver melhoras no treinamento que fazia com Shaka, estava conseguindo um controle de cosmos formidável e tinha conseguido se manter em pé (com ajuda de apoios laterais, por poucos segundos e com muito cosmo envolvido), mesmo que depois tivesse ficado exausto por dias.
E tudo isso estava acontecendo depois que havia terminado com Aiolia. Era como se Aiolia fosse uma âncora, o estabilizando e o impedindo de seguir em frente. Mas Máscara não precisava de alguém que o estabilizasse – precisava de companhia para viajar.
Assim, ainda que fosse inevitável, Máscara da Morte procurava evitar Aiolia. Agora que estava do lado traído da relação, depois de todo aquele histórico de relacionamentos falhos, sentia um misto de obrigação de perdoar e raiva profunda. Não sabia o que faria se encontrasse o leonino, então o ignorava.
Por meses conseguiram manter a distância, até que parecia que o relacionamento era página virada. Com Máscara da Morte cada vez melhor, física e psicologicamente e Aiolia cada vez mais ausente, raramente ficando no Santuário e se voluntariando para um número ridículo de missões, soaria natural que ambos partissem para outra e, por mais que tivessem sido importantes um para o outro, aquilo tinha passado e não voltaria mais.
Era uma noite nublada e friorenta e, nesse dia em especial, Máscara da Morte estava irritadiço e taciturno, sozinho na arena do Coliseu, rumando para casa depois da fisioterapia. Era o dia que faria dois anos desde que ficara paralítico e, somando os cinco meses de coma com os seis de relacionamento que tivera com Aiolia, fazia exatos 13 meses que estava solteiro. Máscara olhou o céu e sentiu o vento frio e se apressou para chegar em casa. Até sair do Coliseu a estrada ainda era de terra e andar com a cadeira de rodas em meio à lama era uma tarefa quase impossível.
— Caspeta.
Maldizendo sua sorte, o italiano sentiu as gotas de chuva bater fraco, começando uma chuva fina e esparsa. Antes que pudesse apressar o passo e chegar em um terreno de mais fácil locomoção, a chuva fina engrossou, fazendo com que o chão virasse um mar de lama grossa empoçada e trechos de lama fina e escorregadia. Empurrando a cadeira de rodas com cuidado, não demorou a atolar.
— Precisa de ajuda? – perguntou Aiolia, sem graça. Havia acabado de chegar de uma missão e rumava ao Décimo Terceiro templo quando viu Máscara da Morte. Estava planejando se esconder até que o outro passasse, mesmo que isso fosse vergonhoso, mas não conseguiu se conter quando viu que ele precisava de ajuda – Sei que você não quer me ver, mas...
O canceriano arqueou as sobrancelhas, rindo – Quando eu disse que não queria te ver? – fez uma investida um pouco mais forte e se desatolou, continuando o caminho sem olhar diretamente para o leonino – Eu disse que não queria um relacionamento com você se você não fosse sincero. Quem desapareceu foi você.
Aiolia seguiu ao lado, caminhando devagar – Eu sei. Eu admito que errei e que a culpa é minha, Ettore.
— Nada que eu não saiba – continuou seguindo com dificuldade, irritado – O que você quer, Aiolia?
— Eu passei todo esse tempo pensando em você, Ettore. Eu... – Aiolia apertou o passo, parando em frente a cadeira de rodas, forçando Máscara a parar – Me ouve, ok? – vendo que Máscara da Morte permaneceu calado e desgostoso, continuou a falar, imaginando o silêncio como anuência – No início eu não achava que merecia uma segunda chance e depois o tempo foi passando e eu não sabia como me aproximar.
— E por que agora, Aiolia?
Aiolia não sabia o que responder. Por que agora? É por que vira o cara que ainda amava depois de tanto tempo? Era a culpa, por ver que ele precisava de ajuda? Era efeito da chuva forte que caía, do cansaço da viagem ou do peso que ainda sentia no coração?
— Eu não sei. Também não sei como conversar, não sei o que eu tenho para dizer ou se eu vou conseguir ser o que você precisa. – saindo do caminho, continuou. – Não vou te forçar a nada, muito menos a me ouvir. De verdade, só vim oferecer ajuda, se você quiser.
Cada vez mais forte, a chuva praticamente impedia a locomoção de Máscara da Morte devido ao terreno lamacento, escorregadio e acidentado. Realmente precisava de ajuda até chegar em um local melhor, mas por que justo Aiolia apareceu para lhe ajudar?
— Tudo bem.
Com um sorriso largo, Aiolia segurou Máscara no colo, carregando a cadeira junto, como costumava fazer antes. Não tinha perdido o jeito, mas reparou como já havia tanta diferença entre o torso e as pernas do italiano. Os braços estavam mais firmes e mais bem definidos, muito mais do que já eram, ao passo que as pernas já estavam atrofiando. Reparou também que Máscara havia ganhado de volta todo o peso que perdera por conta daqueles dias ruins. Seguiram em silêncio, até chegar em uma estrada acidentada de pedra, mas de mais fácil locomoção do que o barreiro de antes. Colocou o ex de volta na cadeira para só então quebrar o clima ácido que se formou.
— Prontinho.
Agradecendo em silêncio, Máscara girou a cadeira e seguiu para a Vila Dourada, local que agora todos os cavaleiros de ouro moravam. Achava que tinha esquecido e que não tinha mais esperanças de Aiolia mudar e se arrepender, mas só de conversar com ele depois de tanto tempo viu que era mentira. Ainda tinha esperança que Aiolia fosse voltar e que fosse diferente. Também queria que ele não fosse tão covarde e que não fugisse. Mas se fugir e se esconder era o caminho que Aiolia escolheu, que assim fosse.
— Só isso que tem para dizer, Aiolia?
Aiolia olhou Máscara da Morte de longe, indeciso. Sabia que aquela era a última oportunidade que tinha de fazer a coisa certa, mas não sabia qual decisão era essa. Deixava Máscara ir livre e ser feliz sozinho ou com outra pessoa ou se dava uma oportunidade de ser feliz? Fechou os olhos, se lembrando daquelas palavras magoadas que Máscara lhe disse tantos meses atrás e que, mesmo bêbado, nunca conseguiu esquecer.
Quando você estiver preparado para ser sincero, você volta.
Se tivesse que ser sincero e se entregar, Aiolia pensou, seria com todas as dúvidas e dores que tinha. E se fosse fazer a coisa certa, não poderia escolher um caminho como em um visual novel. Não haviam outras oportunidades e Ettore não era um personagem de jogo, perfeitinho, um caminho a escolher ou uma escolha a ser feita.
Tanto Ettore quanto Aiolia eram pessoas passíveis de erros e, de tanto errar e sofrer, Máscara só queria que Aiolia fosse verdadeiro e o encarasse de frente, mesmo que isso significasse assumir todos os erros e culpa horrendos que carregava.
— Quando eu menti, Ettore, eu não te amava. – Aiolia disse, se aproximando do outro em meio à chuva e se ajoelhando em frente quando chegou perto – Eu me arrependo de não ter te contado antes quando vi que te magoava, mas não da mentira em si, entende? Eu aprendi a te amar e ainda te amo, de verdade. Juro não mentir ou te enganar de novo por que te amo, mas não posso mais que isso.
Máscara da Morte sorriu de lado. – E você levou treze meses para perceber isso?
— Eu diria que sou um idiota.
— Leone, não podemos voltar de onde parou. O tempo passou, o amor esfriou, a mágoa cresceu. – Máscara da Morte puxou Aiolia pela camisa e o beijou de leve, sentindo mais o gosto da chuva que dos lábios do outro e se afastando rapidamente quando viu que Aiolia correspondia. Era um beijo simbólico e que, mais que luxúria ou amor, significava outra coisa. – Não tem como voltar de onde estava, eu não sou o mesmo, nem você ou nossa relação.
— É um não então? – Aiolia disse, se sentando na rua, desolado – Eu esperava por um “não”, não fiz por merecer diferente.
— Não é um não. É um recomeço.
Fale com o autor