Precipício
16 Dezesseis
Notas iniciais
Não tenho razão
Não tenho vergonha
Não tenho família
Que eu possa culpar
Só não me deixe desaparecer
Vou te contar tudo, então
No dia seguinte, a última coisa que Máscara da Morte queria era procurar Aiolia. Seus olhos lacrimejavam num misto de raiva e alívio quando lembrava do dia anterior e tentava ao máximo ignorar o impulso de chorar alto, se sentindo traído.
Máscara da Morte suspirou, resignado. Mal tinha um dia da briga com Aiolia e já sentia falta do leonino. Acordar sozinho naquela casa era solitário e só aumentava sua vontade de chorar, o que aumentava sua irritação em níveis alarmantes. Se recusava a chorar por Aiolia. Olhou os aprendizes treinando, finalmente ordenados e disciplinados e agradeceu a Camus pela ajuda. Nunca teria conseguido controlar aqueles moleques sozinho e reconhecia que quase todo o trabalho fora feito pelo aquariano.
Camus estava ao seu lado, sentado em uma pedra, relaxado. Ultimamente Camus sempre se abaixava ou se sentava quando estava por perto e Máscara da Morte se sentia grato por isso.
— Camus, como você agüenta brigar com o Milo?
— Eu não agüento – Camus riu – Brigou com o Aiolia?
— É, ele... – Máscara da Morte estava dividido se se abria com Camus ou não. Seria bom ter uma segunda opinião no assunto e não poderia contar com Afrodite para isso. Também não tinha mais ninguém, e, fora o ex e o (ex) namorado. Bem, ele não tinha nada a perder. Talvez apenas o resto do seu orgulho se não conseguisse se segurar e começasse a chorar ali, na frente de Camus e no meio dos aprendizes – Ontem ele me disse que ele viu o acidente. O meu acidente.
— Ah, sim. – anuiu, para então se levantar e dar novas ordens para os aprendizes, que obedeceram de imediato. – Foi ele que avisou de seu acidente aqui no Santuário.
— É, só que ele mentiu.
— Mentiu?
— É. Ele disse que eu estava em alta velocidade, bêbado e atravessei o sinal – Máscara suspirou, segurando a raiva e o choro – Mas era mentira. Ele viu o acidente e mentiu. A culpa do acidente não foi minha.
O francês assobiou, espantando. – Sacrébleu. Não é uma mentira pequena.
— Daí tivemos uma briga ontem. Eu não sei o que fazer.
— Pessoalmente falando, eu teria dificuldades de lidar com isso. Para não falar que eu hipoteticamente faria o Milo engolir cada uma das agulhas escarlate e posteriormente o prenderia em um esquife de gelo, eu digo que eu reagiria mal. – Camus deu uma pausa, como se pensando no que falar em seguida, antes de continuar – Mas eu diria que não é seu caso, já que não sabe o que fazer.
Máscara sentia que merecia a mentira de Aiolia então, mesmo que estivesse irritado com isso, entendia o leonino e queria perdoar. E também gostava de Aiolia e queria fazer certo na relação dos dois. Então se sentia dividido e perdido. – Eu achei que você encararia de boa isso.
— Ah, não. Eu tenho um limite. Eu agüento as brigas idiotas por ciúme para ter sexo depois por que amo o Milo, mas ele me sufoca muito. Mentiras, de qualquer tipo, já é uma coisa que eu não suportaria. Ainda mais uma dessa.
— Eu não sei o quê eu faço, Camus.
— Já conversou com ele? Depois da briga.
— Não.
Camus não esperou uma resposta e se levantou. Com uma frase curta, liberou os aprendizes do treinamento da manhã, se virando para Máscara da Morte depois que se encontraram sozinhos. – Vou te levar até Leão, vem.
O canceriano ergueu uma sobrancelha, confuso. Camus era estranho.
E Shaka também era. Neste momento, o virginiano estava sentado no sofá da sala de Aiolia, ouvindo as lamúrias bêbadas do amigo e já quase perdendo a paciência. Tinha chegado à conclusão de que tinha um apreço excessivo por ele e acreditava estar sendo bem sucedido em esconder o fato.
O que Shaka não esperava, no entanto, era que ver Aiolia lamentar te machucaria tanto. Sabia que não tinha chances com o amigo enquanto esse estivesse namorando. Parte de si nem queria ter uma chance, na verdade. Shaka sabia que não sabia nada de romance e isso o assustava e o afastava de tal. A outra parte queria descobrir, experimentar e, no momento, consolar Aiolia.
Mas em uma coisa as partes de Shaka eram unânimes: ele não merecia alguém que já gostava de outro. E era isso que o impedia de avançar em um emocionalmente instável e bêbado Aiolia.
— O que acha, Sha? – disse Aiolia, tropeçando nos próprios pés, não caindo por conta dos reflexos de Shaka, que se levantou e pegou o amigo antes que o mesmo fosse parar no chão. – Eu não queria magoar ele.
— Mentira. Queria sim – vociferou o virginiano, sentando Aiolia no sofá e tirando o copo de ouzo da mão dele – Você arrependeu, é diferente. Agora lide com suas escolhas como um homem. E já chega de beber.
— O que eu faço? Eu amo ele – parou de falar para recostar a cabeça nas mãos, se sentia tonto, e então Aiolia continuou – Eu acho. Mas eu não tenho coragem de... Eu não tenho coragem, Shaka.
Shaka abriu os olhos e observou Aiolia. O grego estava em um estado alcoólico vergonhoso e lastimável, que fazia Shaka torcer o nariz e se perguntar por que gostava daquilo. Ainda assim estava ali o ajudando e servindo de ombro amigo. Passando por cima do seu orgulho, ouvindo lamúrias sobre uma outra pessoa e controlando seus impulsos mundanos. – Aiolia, você é realmente um covarde detestável. – Neste exato momento, Shaka percebera algo que era tão claro que tinha se recusado a ver. Foi como se tivesse visto claramente na sua frente aquilo que estava enterrado lá fundo, e entendeu.
Amava Aiolia havia tempos e isso era fato certo. E nunca se importara em ter um avanço romântico com ele por também amar o ver feliz e era por isso que ajudava Máscara da Morte e, por Atena, até começava a o considerar amigo. Fazia Aiolia feliz.
Mas Aiolia não estava feliz agora, por culpa da própria ignorância, e por isso Shaka se irritava.
De fato, o virginiano estava a um ponto de praticar certos atos de violência com o leonino, mas teve o pensamento interrompido quando entraram pela sala Camus e Máscara da Morte, o francês empurrando a cadeira de rodas.
Aiolia, até então em um estado meio bêbado e catatônico, olhou o italiano como se fosse uma espécie de miragem e sorriu, para depois começar a chorar baixinho ao ver a cara de poucos amigos dele.
— Ettore, eu...
— Não me chama de Ettore, Aiolia. – começou Máscara, vendo sua irritação subir ainda mais ao ver o estado deplorável do grego – Não quero que me chame assim.
Camus suspirou, passando a mão pelos cabelos e então puxando Shaka – Vamos esperar lá fora. O Aiolia vai precisar de você depois.
Se vendo sozinho com o até então namorado, Aiolia se levantou e caminhou lentamente para onde Máscara da Morte estava, se sentando no chão em frente à cadeira de rodas depois de se desequilibrar. Máscara da Morte suspirou. Não seria tão difícil.
— Aiolia, eu vim aqui fazer a coisa certa. – começou, levantando o rosto de Aiolia e enxugando as lágrimas – Non ho mai mentito¹ para você. Nem omiti nada propositalmente. Voi tem sido o pilar que tem me sustentado, Aiolia, mas eu não posso usar outra pessoa de sustento. Como io fico se voi ruir? – Máscara não ligava se Aiolia não fosse lembrar depois ou não entendesse o grego misturado com um italiano solto. Tampouco havia preparado um discurso, não fazia idéia de onde aquelas palavras o levariam – Capisce? Io preciso aprender a me levantar sozinho, não literalmente. Io ti agradeço de verdade por esse apoio que voi me deu. Ti amo, de verdade, leone. Io quero fazer certo. Então quando... – Máscara da Morte parou e respirou, se controlando e tentando falar em um grego claro para que Aiolia entendesse e continuou – Quando você quiser fazer certo. Quando você não quiser mais mentir para mim ou me forçar a algo que eu não estou preparado e sim, eu estou falando de sexo – completou quando viu que seria interrompido por Aiolia, ao lembrarem-se das duas tentativas frustradas, que, no geral, foram motivada forçadamente por Aiolia – Quando você estiver preparado para ser sincero, você volta. Por que eu me recuso a ser o errado da história de novo.
Máscara da Morte respirou e saiu. No pátio, antes que Shaka e Camus perguntassem, respondeu – Demos um tempo, ainda que eu não saiba se ele vai se lembrar amanhã.
— Ele vai. – começou Shaka – Faço questão de esfregar na cara dele. – sorriu e continuou – Vou ficar com ele agora pela manhã, mas à tarde apareço na sua casa nova. Até mais.
Sorrindo, Máscara e Camus se despediram, com Camus pegando o canceriano no colo e se preparando para descer as escadas.
Em silêncio, Camus sentiu lágrimas molharem seus ombros.
Em silêncio, Shaka entrou na sala de Leão, encontrando Aiolia chorando, agarrado a uma almofada.
Aiolia não esqueceria.
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