Precipício
5 Cinco
Diga-me o que você quer ouvir
Algo que agradará aos seus ouvidos
Aiolia se afastou do outro, olhando direto nos olhos escuros de Máscara da Morte. Estava apoiado no travesseiro com a mão esquerda, com Máscara deitado na maca, em um ângulo que lhe permitia uma visão um pouco melhor. O sol se punha e o quarto escurecia, fazendo uma sombra engraçada e a luz dos olhos de Aiolia dançar. Ambos mantinham os lábios entreabertos, incapazes de dizer alguma coisa, em parte por não saber qual seria o passo correto a dar agora, em parte por que fitar os olhos um do outro parecia uma prática deveras deliciosa.
Foi Máscara da Morte quem interrompeu o momento, se sentando na maca com a ajuda dos braços, apoiando com o esquerdo e puxando Aiolia pelas costas com o direito, até que ambos os braços falharam na força e os cavaleiros caíram deitados na maca em um baque abafado, Aiolia deitado em cima do outro com apenas a metade superior do corpo.
– Isso tudo é pra me mostrar seu varetão, Ettore?
Máscara da Morte não respondeu ao comentário risonho do outro, mas o beijou, segurando o rosto de Aiolia com ambas as mãos, olhando os olhos verde brilhantes novamente. Não era um beijo simples e delicado como o anterior, era um beijo contraditório, ao mesmo tempo receoso e ávido por mais.
Enquanto se beijavam, Aiolia terminou de subir em cima da maca, ficando de quatro e se apoiando nos joelhos e nas mãos. Após um tempo que não soube precisar, se afastou, sorrindo.
– Quer tentar, cara?
– Não sei se vai funcionar... — Máscara sorriu de volta.
– Você pode ser o passivo se não funcionar.
– Mas não sei se vou sentir alguma coisa sendo passivo, Aiolia.
– A gente ainda pode tentar... Não vai saber se não testar.
– Você tá doido por isso, não é?
– Bem, estou. — Aiolia riu alto, beijando então de leve os lábios do outro — Vai me dizer que você não está?
– Eu também quero, eu só... — Máscara mordeu o lábio inferior, desviando o olhar — Eu só estou com medo de não subir e depois quando a gente tentar comigo por baixo...
– Mesmo se ativo você já vai ficar por baixo, cara.
– Mesmo comigo por baixo eu não sentir nada — o canceriano ignorou a interrupção, voltando a olhar o leonino — É bem capaz de não dar certo nas duas posições, Aiolia. Eu não sei se estou preparado para isso.
– Mas não é certeza.
– É provável.
– Mas não é certeza.
– Arre, Aiolia! — Máscara vociferou baixo, girando os olhos em seguida — É, não é certeza.
– Se não der certo nas duas posições a gente tenta outra coisa.
– Você tá parecendo um namorado insistente que não transa há meses.
– Insistente e que não transa há meses sim. Mas você é só um casinho, bem longe do status "namorado".
Máscara da Morte riu, beijando Aiolia novamente — Se não der certo e eu me afundar em autopiedade e chorar como uma garotinha a culpa é sua.
– Também levo crédito se for a melhor da sua vida?
O canceriano suspirou — É melhor não, tá?
Sorriu triste, sendo imitado por Aiolia.
– Tudo bem, eu entendo. — Aiolia saiu de cima da maca, se sentando na poltrona ao lado — Não é o melhor momento.
– Você vai ser minha primeira opção depois que eu descobrir se sobe ou não — Máscara da Morte riu — Bateu um arrependimento de não ter te agarrado antes...
– Pare de provocar, senão te agarro agora — Aiolia se levantou, ficando de costas para o outro — Vou tomar banho agora, já volto.
O que se seguiu foi provocação pura e simples. O canceriano sabia que o leonino não ia desistir tão fácil, então não se surpreendeu com Aiolia se despindo no meio do quarto, fazendo poses provocativas como em um strip-tease, forçando os músculos bem delineados de propósito e empinando a bunda quando se abaixava. Ficou nu em pelo, sem ficar de frente.
Isso teve um efeito devastador no italiano. Ele se excitara muito e só conseguia pensar em fazer sexo com Aiolia... Mas não era o que aparentava seu pênis. Como imaginara, por mais excitado que sabia que estava, isso não teve efeito sobre seu membro e constatar seu medo foi devastador. Seu humor se esfriara na hora, como um balde de água fria, e tudo o que queria fazer era abraçar o travesseiro e chorar.
– Aiolia, vai tomar banho.
O grego tinha feito o show com o intuito de ver se o italiano ainda ficava ereto, sem no entanto calcular possíveis consequências disso. A verdade seja dita: Aiolia se viu atraído fisicamente por Máscara da Morte no meio da tarde (fruto da "seca", acreditava ele) e não conseguiu pensar em muita coisa depois disso. Talvez se tivesse pensado não arriscaria e esperaria um pouco antes de insistir, mas pensar e esperar não era seu forte. Então o leonino foi tomar banho alheio a todos os sentimentos que havia despertado no outro.
Enquanto Aiolia estava fora, Máscara segurou as lágrimas como pode. Ficou se repetindo espere para falar com um médico primeiro como um mantra, tentando se acalmar. Mesmo assim, quando Aiolia retornou do banho já vestido, o leonino foi capaz de ver toda a devastação e lágrimas não caídas por parte do italiano.
– Ah, cara... Poxa... — o grego chegou perto do outro, genuinamente preocupado — Você me mandou tomar banho por que não subiu, não é? Perdão, cara, eu jurava que era por que você estava com medo de tentar...
– Não foi nada, Aiolia... Eu só não...
Aiolia não deu margem para que Máscara da Morte terminasse a frase e o abraçou forte. Muito mais que sexo ou ajuda, ele percebeu, Ettore precisava de um amigo e de compreensão.
– Não se preocupa com isso, tenho certeza que é temporário e se você precisar os médicos tem um jeito de fazer subir. — A garganta de Aiolia apertou quando sentiu ser abraçado de volta, forte, e as lágrimas caírem em seu ombro. — Pode chorar, cara, eu tô aqui...
Aiolia sabia serem essas lágrimas muito mais que pela ausência de ereção. Era por toda a solidão que o outro sentia, todo o sentimento de inutilidade e todo esse tornado que virou a vida pelo avesso. Os dedos segurando a camisa, apertando ainda mais abraço, pediam mais por um amigo que por um companheiro de cama.
E Aiolia estava disposto a ser esse amigo.
Tempo depois, minutos que pareceram horas de choro intranquilo, Máscara da Morte se afastou do abraço de Aiolia, com os olhos e face vermelhos, dividido entre sentir vergonha ou se sentir mais próximo de Aiolia por conta do episódio.
– Obrigado, Aiolia.
– Não foi nada. — secou as lágrimas de Máscara da Morte e continuou — Amigos são para essas coisas.
– Eu não sei o que dizer agora.
– O que acha de acabarmos com todo esse chororô distraindo a cabeça?
– Não sei... — Máscara passou as mãos pelo rosto, tentando desfazer a cara de choro — Além dessa TV aí não tem muito mais o que fazer.
– Tem meus quadrinhos.
– Não dá pra ler de dois, Aiolia.
– Podemos dar uma saída então, para distrair — disse o leonino se levantando de onde havia sentado na maca — O que acha? Ficar preso no quarto não ajuda muito.
Máscara ponderou por um minuto, não tendo dificuldades em decidir o que queria — Tudo bem então.
De qualquer forma, o italiano pensou, se eu quiser ir a algum lugar agora vou precisar da cadeira de rodas. Não é como se eu pudesse evitar, e ficar preso no quarto realmente não ajudaria.
O grego colocou o outro na cadeira de rodas com cuidado, dessa vez buscando transmitir uma aura mais leve e tranquila que a de manhã, quando o italiano sentara na cadeira pela primeira vez — Aonde quer ir?
– Não sei, não conheço nada aqui.
– Uhm... — Aiolia olhou para Máscara da Morte e o viu olhando para cima, acertando a posição da cadeira de rodas, e agachou em frente ao mesmo — Aqui tem uns jardins legais, mas você não tem cara de quem visita jardim.
– Seria minha última escolha — Máscara riu — Não tem um lugar que dê para fugir?
– Do hospital?
– Não me parece má ideia.
– Não, cara, vai que acontece alguma coisa e você sei lá?
O canceriano girou os olhos, divertido — Não vai acontecer nada "sei lá" comigo, bichano.
– Mas se acontecer eu quem me ferro, siri. — Aiolia se levantou e continuou — Vamos só dar umas voltas e conversar então.
– Tudo bem.
E sorriram.
Até saírem de dentro do hospital e irem até os jardins — visita inevitável, mesmo sob os protestos italianos — caminharam em silêncio, com Aiolia empurrando a cadeira.
– Aqui não é bonito?
– É sim, mas ainda é um jardim e jardins são chatos.
O jardim do hospital era um campo amplo, com caminhos largos para pedestres e cadeirantes e bancos aqui e acolá, ao lado de amontoados cuidadosamente podados de arbustos que floririam em certa época do ano. Havia espaços gramados também, interrompidos por uma ou outra árvore frutífera, como macieiras, oliveiras e pés de romã. Como já escurecera, o local estava iluminado por um punhado de postes, deixando o local sob a penumbra.
Aiolia estacionou a cadeira perto de um banco e embaixo de uma lâmpada, entre botões de azaléias e uma árvore que não saberia dizer qual era dada a má iluminação.
– Você precisa ver isso aqui de dia, cara.
– Não sou muito fã de jardins — Máscara da morte disse — A não ser que tenha tipo aquelas flores pretas e em forma de caveira.
– Não quer aquela com cheiro de defunto não? — Aiolia riu — Deve te fazer sentir em casa.
– Mas minha casa não cheira a defunto. — o italiano arqueou uma sobrancelha e continuou — Não sei de onde tiraram isso.
– Das cabeças na Casa de Câncer, talvez.
– É possível. — Máscara riu.
– Falando nisso, por que colecionar cabeças, cara?
Máscara ficou silente por um momento, receoso — Não sei explicar.
– Não precisa dizer se não quiser.
– Não é isso, eu só... Eu acredito... Acreditei... Acreditava... Sei lá, não sei o que pensar mais. — o italiano gargalhou e continuou — Sabe, as pessoas precisam ser fortes para aplicar a justiça. Mas meus métodos ficaram meio abalados depois de todo aquele lenga-lenga em Hades e virarmos purpurina. Não sei o que pensar.
– Se arrepende?
– Não.
– Faria de novo?
– Não sei.
– Como você se sentia?
– Forte e poderoso. Como eu não havia sido... E como eu não me sinto agora.
– Hum... — Aiolia repousou os braços no encosto do banco e olhou para o outro — Não é um hobbie que eu aprovo.
– Não é como se eu colecionasse cabeças para aplacar o tédio, Aiolia.
– Eu ainda não entendo. Devíamos proteger as pessoas, não machucá-las.
– Eu também não entendo, leone. Só me fazia sentir bem. Como uma droga. Mesmo que você saiba não ser benéfico, não adianta.
– Fazia?
– Tentei depois de revivido e não foi a mesma coisa.
– Deve ter uma relação com algo que aconteceu na sua infância — Aiolia disse despreocupado — Vai ver que te faltou só amor e carinho.
O leonino imitou um coração com as mãos, vendo Máscara da Morte franzir o cenho.
– Isso tá parecendo um talk show, Aiolia.
– Não precisa responder — o grego volveu sem graça — E pode me perguntar as coisas que quiser, não é como se soubéssemos muito um do outro.
– Ok então, leone – o italiano começou — Por que cargas d'água você acreditou quando disseram que seu irmão era traidor, se o conhecia tão bem?
– Acho que para... Para as outras pessoas me aceitassem. Era mais fácil que não me discriminassem por ser irmão do traidor se eu também cresse nisso — Aiolia olhou para cima, suspirando — Foi inconsciente, sabe? E parece que não deu muito certo.
– Crescer sozinho deve ter sido duro.
– Me diga você, que também não era exatamente popular.
– Por que de repente estamos falando de mim de novo?
Aiolia riu gostosamente. Máscara era uma pessoa boa com quem conversar, por que então não havia conversado assim com ele ainda? Também era claro que o outro não queria falar do passado e Aiolia sentia o mesmo. Então o leonino mudou de assunto, sorrindo.
– Já leu "A queda do Morcego"?
– Quadrinho?
– É. Batman. — Aiolia deu de ombros. Sabia que Máscara não era um grande fã de quadrinhos então não ia entender muito do que dissesse e a essa saga em especial não era muito animadora, ao menos não dada as circunstâncias — De qualquer forma, devíamos voltar.
– É... — Máscara se sentia cansado, fisicamente por conta da fisioterapia e emocionalmente por conta da enorme carga de emoções que o dia lhe proporcionara. Sair um pouco para espairecer realmente fora efetivo e aquele aperto e vontade de chorar desapareceu e a isso agradecia Aiolia. Se não fosse o leonino, sabia que estaria ainda mais afundado em amargura. — Obrigado, Aiolia.
Aiolia estava já andando de volta ao hospital, empurrando Máscara da Morte, e parou de supetão. Sorriu por saber muito bem por que o outro agradecia e ficou feliz por coisas tão simples terem sido tão importantes. Imaginou se a falta de alguém a quem contar transformou Máscara da Morte naquele homem que conheceu e já desaparecia agora e que homem ele tornaria e queria estar lá para ver. — De nada.
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