Precipício
15 Quinze
Notas iniciais
Eu vou revelar todos os meus segredos
— Mu, o quê acha que eu devo fazer?
O ariano olhou o amigo com os pontinhos irritados, querendo socar a cara dele furiosamente. Aiolia era um idiota – Ainda pergunta? Claro que você tem que contar pra ele!
— E deixar ele pior do que já está? – Aiolia bebericou o chá gorduroso que Mu serviu para os dois, fazendo uma careta de desgosto – Não acho que saber disso vai deixar ele muito feliz. E desde ontem, quando encontramos com o Afrodite, ele está no fundo do poço.
— Independente de ele ficar triste ou não, você tem que contar para ele. Diz respeito a ele, idiota! Você devia ter contado desde o momento em que ele acordou no hospital! – ligeiramente irritado, Mu bebeu o resto do chá e se serviu de mais, mordendo os biscoitos amanteigados furiosamente – Além do mais, ele precisa de um psicólogo.
— Não acho que ele vá concordar, Mu...
— Não perguntei se ele vai concordar – Mu se levantou, bebendo a xícara de chá quente em um gole só e pegando mais biscoitos no armário – Você tem que levar ele, ele querendo ou não. E fazer ele ver que precisa de ajuda.
Aiolia suspirou fundo. Se sentia culpado pelo atual estado de espírito de Máscara da Morte. Perdeu várias oportunidades de contar a verdade e via o namorado cada vez pior. Nada do que fazia dava resultado e não sabia mais o quê fazer.
Os dias que se passaram até a mudança de Máscara da Morte para a casa nova se passaram lentos e morosos, com Aiolia se martirizando e indeciso. Máscara voltara a se trancar no quarto e se deixar jogado na cama, tendo repetido aqueles dias de visitação diária de Shaka e Camus para os treinos e de Aiolia, várias vezes ao dia. Na mudança, foi necessário que Aiolia, com a ajuda de Aiolos, Mu e Shaka, empacotar os pertences pessoais do canceriano.
Máscara da Morte estava mais leve e não falava há dias e se comportou como uma boneca de pano quando Aiolia o pegou no colo para sair do Quarto Templo em caráter definitivo e, até entrarem na casa, com Aiolia já empurrando a cadeira de rodas do namorado, Ettore não havia dito uma única palavra, mesmo com os esforços do grego.
— Ettore... Vamos conhecer a casa. – Aiolia disse em uma falsa animação – Ainda tá sendo organizada sua mudança, mas dá para você rodar por aí à vontade.
A nova casa, assim como todas as outras 11 idênticas, era totalmente adaptada para uma cadeira de rodas, com portas e corredores largos e com apoio, assim como cômodos amplos, janelas mais baixas e reforço metálico na parte inferior das portas. Os móveis também eram projetados especialmente e as tomadas e interruptores da casa seguiam a altura de alcance de Máscara da Morte.
Os cômodos em que mais havia diferença eram o banheiro e a cozinha. O primeiro, além do piso antiderrapante e barras de apoio, espelhos inclinados e vaso sanitário elevado, para facilitar a transferência para a cadeira de rodas. Já a cozinha possuía bancadas mais baixas e com a área de baixo livre para melhor encaixe da cadeira de rodas.
Máscara sabia que devia ficar feliz com a mudança. Ele estava, de verdade. Mas simplesmente não conseguia reagir ou fazer algo diferente de olhar para o nada e se afundar em um poço sem fim de mágoa e desesperança.
Aiolia estava dividido entre pesaroso e irritado com as atitudes do italiano. Queria esfregar a cara dele na parede e mandar virar gente, ao mesmo tempo que queria abraçá-lo e dizer que estava tudo bem. Precisava seguir o conselho de Mu e, além de contar a verdade que sabia, arrastar o idiota para um psicólogo.
— Máscara, nós temos que conversar.
— Não é uma ao hora, Aiolia.
— Você vai me ouvir nem que seja a força.
Máscara da Morte ergueu a sobrancelha em dúvida, cansado demais para reagir – Uh?
A sala estava vazia, então Aiolia aproveitou o ensejo e se sentou em um caixote em frente ao namorado. Respirou fundo e disparou, antes que desistisse de falar ou Máscara explodisse em irritação. – Você não estava em alta velocidade quando bateu de moto. A moto foi destroçada, não dava para ver a velocidade que você tava. O caminhão que te bateu não te viu, o motorista estava sonolento. O sinal ainda estava amarelo, não estava vermelho. A culpa do acidente não foi sua. Nem da morte da sua amiga. Você não estava em alta velocidade. Você não atravessou o sinal.
Máscara demorou vários segundos antes que conseguisse processar a informação. Tentando agir melhor com o namorado, diferentemente do que faria costumeiramente, daria a oportunidade de Aiolia se explicar – Como você sabe disso, Aiolia? É verdade? Por que não me contou antes?
Aiolia quase vacilou ao ver o olhar lacrimoso, raivoso e contido do canceriano – Eu vi o acidente, eu tinha ido de carro para o bar te buscar, Shion tinha nos convocado para uma reunião de emergência, mas você não respondia pelo cosmo. Fui eu que chamei a polícia e o hospital e te acompanhei desde o primeiro momento.
— Por que você mentiu? – Máscara da Morte já chorava. De raiva, de alívio e de mágoa. Queria matar Aiolia e se sentiu ainda mais irritado com o leonino quando percebeu que não conseguiria.
— Eu... Eu não gostava de você. Eu também não sabia que você tinha tido seqüelas. Foi o que eu disse para a polícia, eu queria só que você tivesse um susto... Sei lá... – respondeu se levantando, passando nervoso as mãos pelo cabelo espesso – Mas daí no hospital... Me falaram que você tinha ficado paralítico e eu fiquei sem saber o que fazer. Eu tinha decidido te contar a verdade quando você acordasse, mas... Eu estava tão irritado e eu não... Eu não pensei que...
Máscara da Morte riu alto, cínico, enxugando as lágrimas. Era estranho sentir alívio nesse momento, um sentimento agridoce misturado com tristeza – Sai da minha casa, Aiolia.
— Ettore, eu... Amor...
— Saia. – volveu incisivo – Pra fora. Não me faz te expulsar daqui na base do soco. Não quero te mandar pro inferno.
Aiolia já sentia o cosmo irritado do outro e sabia que ele estava se contendo para não ser violento. Sabia que tinha sido um idiota desde o começo e devia ao menos respeitar a decisão de Máscara da Morte – Quando quiser conversar é só me chamar.
— Vai pro inferno, Aiolia. Vasa.
Máscara da Morte rodou a cadeira e deu as costas, deixando um desconsolado Aiolia para trás.
Nenhum dos dois falou com ninguém sobre a briga naquele dia, apesar de que ficou perceptível que algo tinha acontecido. Máscara da Morte parecia mais animado e irritadiço e lembrava muito quem ele era antes, ao passo que Aiolia andava distraído e cabisbaixo, mas fingia estar tudo bem.
Então, naquela noite, enquanto Aiolia se afogava em ouzo e chocolate, se recusando a contar para Aiolos o motivo da briga, Máscara da Morte recebeu a visita que esperava.
— Olá, Di. Vai querer comer? – disse animado. A briga com Aiolia e organizar a casa tinha renovado seus ânimos e seu apetite. Toda aquela apatia e tristeza profunda desapareceram e deram lugar a um ódio e mágoa imensos. E tinha que reconhecer, essa casa nova era muito mais cômoda, sem nem comparação – Sopa de lentilhas.
— Se não for incomodar – respondeu Afrodite, se sentando em uma cadeira e recostando os cotovelos na mesa – Brigou com o Aiolia, não é? Me chamou para substituí-lo?
— Não. Nem consigo uma ereção, Afrodite, eu hein. – Máscara da Morte girou os olhos, bufando – Queria te pedir desculpas oficialmente. E te fazer rir um pouco, Aiolia me fez de idiota assim como eu te fiz várias vezes.
Afrodite relaxou na cadeira, rindo – Ora ora, então agora você sabe como eu me sentia! – se levantou abrindo a geladeira e pegando uma garrafinha de água, bebendo na boca e dando de ombros – Obrigado, isso faz eu me sentir melhor. Mas de qualquer forma, ele não vai se chatear por eu vir aqui no mesmo dia em que brigaram?
— Não namoramos mais, ele não tem o que sentir.
— E contou para ele isso? – volveu Afrodite, voltando a se sentar – Sabe, tem que informar a outra parte quando um namoro acaba.
— Tsc. Amanhã falo com ele.
Em silêncio, Afrodite se levantou e ajudou o ex namorado a servir a mesa – Você sabe que ainda te odeio.
— Mentira, você ainda me ama – respondeu brincando e servindo ambos – Mas ao menos essa briga funcionou para me dar uma injeção de ânimo.
— Verdade. Te amo, mas ninguém precisa saber disso – disse enquanto começava a comer – Está tão delicioso como da primeira vez que provei. Sua habilidade culinária me surpreende, Ettore. Mas, sério, você para mim é águas passadas. E eu sei que é recíproco. E isso pode ter te dado um ânimo, mas você tem que ir a um psicólogo.
Mascara suspirou fundo, comendo. Uma parte de si sabia que tinha que visitar algum médico responsável por isso e a outra parte tentava ignorar solenemente os sintomas de que não estava nada bem. Afrodite era a primeira pessoa que o mandava visitar um psicólogo e isso deixava a parte que acreditava um pouco mais forte – Se voltar como antes eu vou.
Afrodite sorriu. Se alguma forma parecia que as coisas estavam como antes. Não um “antes” relacionado ao relacionamento que tiveram, mas quando ainda eram só amigos e isso bastava. Se perguntava se poderiam voltar a isso e se Aiolia se importaria (por que não descartava o grego totalmente da vida de Ettore. Era só a primeira briga e provação do relacionamento dos dois, não acreditava ser um “não” definitivo).
— Promete me chamar se precisar de alguma coisa?
Máscara sorriu, percebendo o tanto que sentira falta de Afrodite e como ele era diferente de Aiolia. Chamara o pisciano ali não só para pedir desculpas, mas para se distrair. Tinha certeza que, se ficasse sozinho, se desmancharia em lágrimas e já havia chorado muito desde que acordara no hospital. E agora se recusava terminantemente a chorar outra vez. Ainda mais por receber de volta do destino toda a mágoa que causou um dia.
— Prometo.
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