Precipício
4 Quatro
Notas iniciais
Pensei que você tivesse me visto piscar
não, eu estive à beira do precipício, então
Não faltava tanto assim para que Máscara da Morte tivesse alta, o que o deixava ansioso, ainda mais por que hoje seria o dia em que usaria uma cadeira de rodas pela primeira vez — iria a outra ala do hospital fazer fisioterapia (a primeira sessão que não seria no quarto) e tiraria as medidas para sua cadeira de rodas. Pelo que o médico havia lhe dito, sua recuperação rápida beirava o milagre, o que o canceriano atribuía ao fato de ser um Cavaleiro de Atena.
De qualquer forma, esperava que todo esse "milagre" também operasse sobre sua medula. Seria legal, não seria? Recuperar os movimentos depois de uma lesão completa e voltar a andar. Não ficar preso à cadeira de rodas.
Mas era idiotice pensar nisso. Nada disso aconteceria. Teria que aprender a conviver com a deficiência, com todos os julgamentos e com tudo aquilo que vinha no pacote. Imaginava se a sensação de humilhação passaria com o tempo. Ou se se agravaria com o uso da cadeira de rodas, ter que olhar para cima para dialogar com o mundo.
– Aiolia, cara, posso te perguntar uma coisa?
– Pode.
– Por que você tá aqui?
Aiolia ficou reticente, olhando a expressão de dúvida de Máscara da Morte. Não tinha escolhido estar ali, era verdade. Havia meses que não saía do hospital, viera como acompanhante poucos dias após o acidente e havia se tornado "babá em tempo integral". Mal via a hora do canceriano levar alta e se ver livre disso.
– Já te disse, me escolheram para ficar aqui.
– Não teve escolha?
– É.
Máscara da Morte não queria transparecer tristeza e nem dependência de ninguém. Mas nunca estivera em um momento tão triste de sua vida e se viu tão dependente e só.
– Por que não saiu então? — Máscara continuou — Podiam ter chamado uma enfermeira.
– Mestre Shion disse que você se sentiria melhor com algum amigo, já que você não tem família.
– Mas você não é meu amigo.
– Eu sei.
Máscara fechou os olhos, nervoso — Então por que está aqui, porra?
– Quem mais estaria?
– O Afrodite, talvez...
Aiolia suspirou pesadamente. Estava em dúvida se sentia pena ou se dizia "bem feito". Máscara da Morte só estava colhendo o que havia plantado. E ninguém além de Atena ter aparecido para visitação após ele ter acordado, e apenas uma vez, só confirmava isso.
O fato é que o leonino não sabia o que dizer. Abrir a boca para deixar as coisas ainda piores?
– Ele não viria, não é? — Máscara disse com os olhos marejados — Ninguém viria.
– Eu vim.
– Foi obrigado.
– Por que não deixa isso de lado? — o leonino se levantou da cadeira onde estava e começou a andar em círculos no quarto, até parar em frente à Máscara, com as mãos na cintura, irritado — Por que não se concentra em não se sentir só daqui pra frente?
– E como faço isso se nem visita eu recebo, porra?
– Eu já não disse que eu tô aqui, cacete?
– Não é a mesma coisa. Você não queria estar aqui. — Máscara enxugou as lágrimas não caídas e continuou — Eu também não quero.
– Por que não faz diferente daqui pra frente? — Aiolia se sentou ao lado do outro na maca, colocando uma das mãos na coxa inerte do canceriano, que olhou e riu amargo — O que acha de aproveitar que eu estou aqui 24 horas por dia e tentamos nos dar melhor?
Aiolia não sabia exatamente porque havia dito aquilo. Nunca fora fã do canceriano e tinha certeza que não daria certo, então por quê? Talvez fosse a aura de tristeza pesada e densa que o italiano emanava, talvez toda a animosidade de anos houvesse se transformado em amizade ou era apenas compaixão. Seja lá o motivo, os dados haviam sido lançados.
– Pode ser.
Aiolia estender a mão, no que trocaram um cumprimento amistoso e sem graça. Deram meio sorrisos, não era exatamente o tipo de situação confortável. Não se impõe amizade. Mudar a nomenclatura de "companheiros de armas" para "amigos" não diferia na prática. Diferia?
De qualquer forma, Máscara da Morte estava receptivo e então Aiolia se esforçou nos minutos seguintes para ser amistoso, ao mostrar para o outro os quadrinhos que havia trago para o hospital. O canceriano se mostrou uma porta no assunto "HQ", fazendo Aiolia rir (muito) toda vez que fazia uma pergunta, o que fez Máscara lembrar sua paixão por videogames e caçoar Aiolia por não distinguir os jogos de Sega dos de Super Nintendo.
– Vem cá, Aiolia, como você faz com suas coisas?
– Como assim?
– Sabe, roupa limpa e tudo mais.
– Ah — o leonino começou, guardando as revistas em uma mochila — Aiolos vem aqui uma vez na semana. Ele te visita todas as vezes.
– Oh.
Máscara da Morte não sabia como reagir, já que pelo que Aiolia dissera, Aiolos já devia ter vindo. Ficava feliz por saber que alguém o visitava ou triste por não ter visto esse alguém depois de ter acordado?
– Aiolos não veio essa semana por que Shaka veio.
– Uhm.
O que significava que Aiolos vinha por Aiolia, obviamente. Máscara deu de ombros. Não é como se ele não soubesse.
Não tiveram muito tempo de continuar — o relógio já batia a hora em que a fisioterapia estava marcada e uma enfermeira já entrava com a cadeira de rodas padrão do hospital, para que Máscara da Morte utilizasse, que o canceriano fez uma careta ao ver. Logo enxotou a enfermeira de lá, dizendo que Aiolia o ajudaria. De humilhação que sentia, já bastava um.
– Pronto?
– Não.
Máscara cerrou os dentes, ansioso e preocupado. Sentar naquela cadeira de rodas era um passo muito grande, um passo que o aterrorizava e não estava disposto a dar. Queria adiar esse momento para sempre, mas o quê faria? Passaria o resto da vida em cima de uma cama?
– Ah, dane-se. — Máscara desviou o olhar continuou — Acho que estou pronto.
Aiolia suspirou pesado, segurando as costas de Máscara da Morte em um ângulo quase reto, no que o outro reclamou de tontura. Então segurou as coxas com firmeza, tendo Máscara da Morte abraçado os ombros do grego.
Aiolia sentou Máscara da Morte com cuidado na cadeira, arrumando os pés e as pernas do mesmo em uma posição confortável.
O canceriano olhou para cima, suspirando — Acho que vou ter que me acostumar com a vista.
Aiolia não sabia o que responder, então ignorou o comentário — Quer que eu te empurre?
Já estava em uma cadeira de rodas, mas não queria empurrá-la. Dar um passo de cada vez era necessário e sair se empurrando agora era mais do que Máscara da Morte conseguia aguentar. Já bastava de carga emocional por hoje.
– Vá em frente.
Aiolia seguiu empurrando Máscara, que estava calado. Não era um silêncio muito confortável, interrompido apenas pelos suspiros pesados e os resmungos que partiam do canceriano, que demonstrava seu nervosismo apertando o braço da cadeira, além de seu cosmo estar visivelmente alterado.
– Se acalma um pouco, cara. É só uma cadeira de rodas, não é o fim do mundo...
– Aiolia, para. — o leonino parou de andar, segurando a cadeira de rodas. Olhou para baixo o por trás, direto nos olhos de Máscara da Morte com uma expressão de dúvida — Que foi?
– Por que me mandou parar?
Isso nem mesmo o italiano saberia responder. Ser empurrado daquela forma o fazia sentir impotente e fraco. Já dependia de outras pessoas de um modo geral e agora deixaria que Aiolia fizesse uma das poucas coisas que poderia fazer sozinho? Por mais doente, nervoso e emocionalmente exausto que estivesse, teria que enfrentar as coisas uma hora. Por que não tudo de uma vez?
– Obrigado pela ajuda, Aiolia, mas eu mesmo empurro.
Aiolia soltou a cadeira, no quê Máscara colocou suas mãos no apoio e começou a empurrar, devagar e receoso — Não é tão difícil.
– Viu? Não precisava ficar tão nervoso.
– É por que a parte difícil, Aiolia, não é empurrar um dia. Difícil é ter que empurrar a vida inteira.
O leonino ficou silente, no que o canceriano continuou andando em frente. Tudo bem, não era uma situação confortável, mas o quê diria? Não havia nada a dizer, nada correto, justo ou reconfortante. Era melhor ficar calado.
Ficaram em silêncio por todo o percurso, até quando chegaram ao local onde a fisioterapia seria realizada e Aiolia sentou e ficou observando Máscara da Morte. O canceriano estava com cara de poucos amigos, fazendo cara feia para cada exercício e cada tentativa falha. A carranca aumentava ainda mais quando via alguém fazer o mesmo que não conseguia e Aiolia sabia toda essa irritação ser fruto dos sentimentos de frustração e incompetência.
Horas depois, já na hora de voltar para o quarto, o leonino se aproximou do outro, lhe dirigindo a palavra quando viu a fisioterapeuta se afastar.
– Como foi?
– Normal.
– Uhm. — Normal não era exatamente como Aiolia definiria. E, se fosse sincero, nem Máscara da Morte. Normal só significava que o canceriano estava bem, obrigado, só que não. Ele estava exausto, triste, amedrontado, irritado e se sentindo inútil. Nada estava normal e normal não voltaria a ser. -Vai empurrando ou quer ajuda?
– Pode empurrar. — Máscara fez um muxoxo de um misto de irritação e tristeza e continuou — Meus braços estão doendo e eu... Eu não me lembro a última vez que estive tão cansado.
– Imagino.
– Não vejo a hora de sair dessa merda.
– Do hospital?
– É... — Máscara passou as mãos pelos cabelos espessos enquanto era empurrado por Aiolia — Eu ainda não... Eu não... Ah, cacete, esquece.
Aiolia riu — Como dizem por aí, você perdeu o varetão da vida. — Aiolia parou a cadeira e olhou para baixo, direto nos olhos de Máscara — Mas daí é só substituir o varetão, ao invés de procurar.
– O que andou bebendo, leone? — o italiano acompanhou o riso, encarando os olhos verdes vivos. — O que quer dizer?
– Eu quero dizer que você está se sentindo assim pois está perdido, perdeu o rumo, sabe? — Aiolia voltou a empurrar a cadeira e continuou, risonho — Mas ao invés de achar o rumo que você tomava, ache outro caminho a seguir.
– Faz sentido, cara, mas não é tão fácil — Máscara continuou — Eu não consigo achar outro caminho a seguir, sabe? O baque foi... Foi grande demais.
– Então faça seu próprio caminho e continue de onde parou.
– O que deu em você hoje, Leão? — o italiano sorriu enquanto olhava para Aiolia — Tô precisando de um teco dessa erva aí.
– Abusa, Máscara da Morte, que eu vou abusar de você na hora do banho.
Ettore enrubesceu, confuso se Aiolia queria mesmo dizer o que tinha entendido e não soube precisar se tinha gostado ou não da ideia, muito menos se, literalmente, sentiria algo com a prática. De qualquer forma, se manteve calado. Qualquer coisa que dissesse deixaria as coisas ainda piores.
– Por que ficou calado?
– Nada.
– Foi algo que eu disse? Oh. Ah. Eu não... Foi mal, cara.
Para Máscara da Morte não parecia que Aiolia tinha percebido o que dissera ou que "foi mal, cara". Parecia uma das milhares de vezes em que Aiolia dizia uma coisa sem querer ou dava uma indireta proposital. Deu de ombros. Não era como se não conseguisse se defender. Ademais, já tinha muito tempo desde sua última vez e, dada as circunstâncias, a próxima seria como uma segunda "primeira vez" e estava deveras curioso (e temeroso) a respeito disso.
– Falando nisso, Máscara...
– Diz.
– Acha que você conseguiria ficar ereto por agora?
– Quer testar?
Certo. Aiolia queria dizer aquilo e parecia querer aquilo. Não que ambos saibam realmente se a coisa funcionaria ou não ou se um realmente quis dizer o que o outro entendeu, seja por interpretação extensiva, brincadeiras ou subjetividade. Na dúvida, permaneceram calados até chegarem ao quarto, onde Máscara foi informado que a partir de hoje o banho não seria mais em leito.
De repente, ficar nu perto de Aiolia parecia vergonhoso. Aiolia sorria divertido, dando a impressão de que tudo era uma brincadeira e não, porra, tá maluco eu e você transando?
A verdade é que Aiolia não sabia por que havia dito aquilo, sendo que qualquer interpretação extensiva havia sido proposital. Achava Máscara da Morte muito gostoso, mas não iria além disso. Por Atena, nem sabia se o canceriano curtia outros caras!
(e, caso essa conversa tivesse sido antes do acidente, Aiolia e Máscara da Morte já estariam aos tapas)
Aiolia terminou de ajudar Máscara a tirar a roupa, para depois transferi-lo de cadeira. Provavelmente o italiano seria capaz de tomar banho sozinho e o grego ficava feliz em ver um pouco de independência.
Não tão feliz quanto Máscara, que ficou exultante quando se viu fazendo algo sozinho. As únicas partes em que precisou de ajuda, mesmo assim após diversas tentativas, foi ao trocar entre a cadeira de banho e a comum e para vestir a cueca e as calças. Tentou ficar por uns minutos fora da cama, mas estava cansado. Imaginava se cada dia que passasse conseguiria um pouco de sua independência de volta e sorriu.
– Que sorriso bobo é esse?
– Acho que as coisas estão melhorando.
– Achou seu varetão então, Máscara?
Era difícil saber se Aiolia percebia o quanto provocava. Em tempos normais Máscara já teria atacado o leonino e mostrado que seu varetão estava firme e presente, mas dada as circunstancias era difícil precisar o próximo passo. Por isso achou ótimo quando foi surpreendido por um beijo doce de Aiolia, ainda em dúvida sobre qual rumo isso tudo teria.
Por outro lado, Aiolia sabia no quê isso daria, não resistindo depois de ver Máscara tomando banho sozinho. Tinha recém descoberto (mais precisamente algumas horas atrás) que tinha um puta tesão por cadeirantes e ver o velho novo amigo sorridente e com o cabelo úmido foi muito mais do que podia segurar.
E o beijou. E depois aprofundou o beijo.
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