Precipício
8 Oito
Notas iniciais
Meu Deus, é surpreendente como chegamos até aqui
É como se tivéssemos caçando todas aquelas estrelas
Quem é que está dirigindo carros pretos luxuosos?
Máscara da Morte acordou com um sorriso no rosto. Não só recebera a notícia de que teria alta hoje ou mais tardar amanhã (mesmo que ficasse com medo e ansioso por voltar ao Santuário, havia se decidido que era, sim, uma das melhores notícias dos últimos tempos o fato que sairia do hospital) como não se sentia só agora. Não estava só. Agora ele tinha Aiolia.
Falando no leonino, ele não se encontrava no quarto no momento, então o canceriano esperou pacientemente que retornasse, olhando para o teto murmurando uma canção qualquer. Ficou lembrando-se de todas as coisas que o médico lhe informou na conversa que tiveram na noite anterior, após pedir Aiolia em namoro, e se sentiu idiota por não ter feito isso antes. Agora sabia o quê faria (provavelmente) com relação à incontinência urinária e fecal e a disfunção erétil. De qualquer forma, eram problemas que tinham solução. E também tinha toda aquela história dos cuidados que teria que tomar de agora em diante, mas não era nada que o desanimasse. Sentia-se feliz na verdade ao saber que seria 100% capaz de cuidar de si mesmo, completamente independente. Com uma ajuda da cadeira de rodas, estaria preso a ela, mas não dependeria de ninguém. Ninguém.
Foi quando estava com um sorriso meio maníaco no rosto, saboreando sua futura independência, que Aiolia entrou no quarto. O leonino sorriu de volta, divertido.
– Feliz, é?
– Bastante.
Aiolia se aproximou, beijando o namorado — Falei com a Saori e parece que ainda vai demorar alguns dias até a sua cadeira de rodas chegar.
– Uhm.
– Já tem uma alugada te esperando na Casa de Câncer.
– Na Casa de Câncer? — o italiano perguntou confuso — Achei que teria aquele negócio de "Vila dos Cavaleiros de Ouro" e tal...
– Vai ter sim, mas está em construção — Aiolia suspirou fundo e continuou — Parece que você ainda vai ficar um tempo sem sair de casa.
Máscara passou as mãos pelo cabelo, nervoso — Não gosto da ideia de ter que pedir ajuda para sair, mas tudo bem... Eu acho.
Aiolia anuiu, sabendo muito bem que o canceriano se sentiria como um pássaro preso em uma gaiola estando rodeado de escadas. Olhou no relógio, já quase hora do almoço. Tinha tempo o suficiente apenas para ajudar Máscara a fazer sua higiene matinal e então, após comer, levá-lo para começar uma série de procedimentos médicos que foram explanados na noite anterior, como a sonda.
Apesar de ser a primeira manhã em que eram namorados, não havia mudado muita coisa com relação aos dias anteriores, já havia ali um sentimento de compreensão e amizade que não surgira de uma hora para outra. Era como se o namoro tivesse começado tacitamente, sem um pedido verbal, surgido do acordo mútuo mudo, fruto de sentimentos verdadeiros e reais, tendo sido o pedido apenas uma formalidade visivelmente desnecessária.
Por isso o dia passou como se fosse outro dia comum no hospital, com o adendo da felicidade duradoura por parte de Máscara da Morte, contagiando Aiolia com sorrisos só a ele dirigidos.
Tudo isso diminuiu um pouco com a chegada da noite, da alta e de Aiolos, que viera junto de Tatsumi de carro para poder levar o canceriano para casa. Máscara da Morte estava ansioso, jogando alguma coisa no videogame portátil, tentando se acalmar. Aiolia não sabia muito bem o que dizer, suas tentativas foram infrutíferas, então decidiu por permanecer quieto e apenas apoiar o namorado caso alguma coisa acontecesse.
Então quando Aiolos chegou ao quarto, viu Aiolia entediado, apoiando-se nas malas e Máscara na cadeira de rodas do hospital quase jogando o portátil na parede, gritando alguma coisa em italiano.
– Se eu fosse você eu me acalmava, cara. — Aiolos disse com calma — O coitado do aparelho fez nada.
Máscara voltou sua atenção ao sagitariano, irritado — Melhor o portátil que você.
– Ok, não está mais aqui quem falou... — Aiolos riu. Imaginava se toda essa irritação era ansiedade e medo disfarçados — Prontos?
Aiolia e Máscara anuíram. Já haviam resolvido as questões administrativas e financeiras com o hospital e apenas esperavam Aiolos. Desta feita, caminharam em silêncio até o carro, onde Tatsumi esperava no volante, sendo acompanhados por uma enfermeira. Aiolia acomodou o namorado no assento do carona, tentando passar um pouco de calma, enquanto Aiolos guardava a bagagem.
– Vai ficar tudo bem, amor.
– Eu sei.
Partiram rumo ao Santuário em silêncio. O cosmo do canceriano oscilava, demonstrando todo o medo e ansiedade que sentia, que já haviam ultrapassado a felicidade anterior. Os irmãos calaram-se por motivos distintos: Aiolos temeroso por dizer algo que deixasse o companheiro de armas em uma situação ainda pior e ensaiando um pedido de desculpas e Aiolia por que sabia não adiantar nada e nem sabia o que dizer. Se alguém dissesse algo, soltaria Relâmpago de Plasma a torto e a direito e ponto.
Quando Tatsumi parou o carro ainda estavam do lado de fora dos portões do Santuário, como os três cavaleiros esperavam, apesar de que Máscara da Morte tinha esperanças de que fossem descer aos pés da escadaria de Áries.
Foi, ainda em silêncio, que deixou Aiolia o pegar no colo cuidadosamente enquanto Aiolos segurava as malas. Tinha chegado a hora de ir para casa e nunca se sentira tão idiota.
– Pronto, amor? — Aiolia perguntou carinhosamente, enquanto Aiolos levantou uma sobrancelha e gesticulou "me explique depois" sorrindo — Ou quer esperar um pouco?
Máscara da Morte suspirou fundo, fingindo calma — Vamos lá.
Não havia muitas pessoas no caminho até as Doze Casas. Já era noite, portanto fora do horário movimentado de treinamento, pelo o quê Máscara agradeceu. Não queria que outros o vissem sendo carregado por Aiolia (isso por que a cadeira de rodas que usava era do hospital e ficou por lá, enquanto a sua ainda não havia chegado e a alugada estava em Câncer), mas acabou por ser inevitável. Encontraram dois ou três cavaleiros de prata e alguns soldados e servos até chegarem às escadarias de Áries, que o olhavam curiosos e riam com escárnio ou sentiam pena e então viravam o rosto com medo.
Por mais frágil, inútil e triste que estivesse se sentindo e por maior que fosse sua vontade de chorar, o canceriano vestiu sua máscara de indiferença e fingiu estar tudo bem. Fingiu que aquilo não o afetava, fingiu que não se sentiu só, fingiu não ligar para os rumores acerca do acidente. Fingiu não querer chorar.
Fingiu ignorar aquilo tudo.
Fingiu não precisar de ninguém.
Fingiu pensar que não merecia.
Então quando começaram a subir as escadas, agradeceu por saber que encontraria poucas pessoas até Câncer, se tivesse sorte. Era importante o fato também de que não veria Afrodite, mas não poderia fugir do pisciano para sempre, ainda mais sendo a parte errada da (ex) relação. Havia também a possibilidade de Afrodite estar visitando alguma das Casas de baixo apenas para vê-lo sendo carregado por Aiolia e descarregar aquele olhar de superioridade inocente que só ele sabe fazer.
É, de todas as pessoas, ele não queria encontrar Afrodite.
Os pensamentos do italiano foram interrompidos com chegada em Áries, que foi tranquila — Mu já os esperava na porta, sorridente.
– Como está, Máscara? — o ariano perguntou, genuinamente preocupado. Particularmente, ele achava excessiva a hostilidade com que foi recebida a notícia do acidente e posteriormente da deficiência do canceriano. Não que Máscara fosse a mais bela das flores, longe disso. Só não era a coisa certa a fazer, sendo o italiano merecedor ou não — Aposto que com saudades de casa.
– Estou bem, Mu, grazie.
Aiolos deu um riso sem graça para Mu ao ouvir a resposta seca e triste do italiano, perceptível por mais que ele tentasse se mostrar forte. Aiolia suspirou fundo. Não sabia se Aiolos havia contado sobre ter visto Máscara chorando. Apostava que sim, vendo a cara de Mu.
– Se não se importa, Mu, a gente vai continuar subindo.
– Tudo bem, Aiolia.
Continuaram o caminho em silêncio, mesmo quando em Touro. Aldebaran apenas anuiu em silêncio pela passagem, sabendo que não era o momento correto de dar boas vindas. Além de ser uma situação delicada, nunca fora muito amigo do canceriano e era óbvia a vontade de sair dali logo que ele emanava.
Máscara da Morte agradeceu mentalmente por Aldebaran não ter puxado assunto ou mesmo conversar. Não sabia se conseguiria falar agora, a cada passo que Aiolia dava por si, cada passo mais próximo que ficava de casa, o aperto na garganta e a vontade de chorar aumentava.
Em gêmeos, foram recebidos por Kanon. O geminiano os olhou curioso, dando um meio sorriso irônico.
– Quem te viu, quem te vê, Máscara da Morte.
– Cai fora, Kanon.
Ante a provocação de Kanon, Máscara da Morte endureceu o olhar, fingindo irritação e não tristeza, por mais que esta transparecesse pelas lágrimas não caídas. Por mais que Aiolia tentasse lhe defender e ficasse irritado, não ia adiantar muita coisa ou fazer as palavras voltarem. Já ia tentar dizer algo, mesmo que as palavras saíssem embargadas e trôpegas, mas foi "salvo" por Aiolos. O sagitariano girou os olhos, parecendo irritado, segurando a bagagem com um braço e colocando a mão livre no ombro do geminiano.
–Cale a boca, sim?
O geminiano riu alto enquanto os outros três subiam.
Não havia muito que fazer, certo? Só continuar subindo as escadarias e torcer para que o futuro se torne mais fácil.
E continuar subindo, subindo, subindo, sentindo todo aquele aperto no peito, aquela tristeza profunda e realização de que é real. Quando chegasse em casa, sentaria em uma cadeira de rodas. E quando precisasse sair, pediria ajuda. E pediria ajuda de qualquer maneira, pois ainda não é independente.
E aguentar os olhares e provocações toda vez que saísse.
Máscara da Morte achava que era forte. As lágrimas grossas que rolavam de seus olhos agora lhe diziam o contrário. Ele era fraco.
Fraco por precisar de ajuda, fraco por ter afastado todos de si, fraco por se julgar superior, fraco por não aturar as provocações de queixo erguido, fraco por chorar, por querer ter morrido, por querer morrer e por ter causado tudo isso.
Ele era fraco.
Foi se martirizando e sentindo tudo aquilo que sentiu quando descobriu da paralisia — sentimentos que descobriu que não tinham saído, apenas foram varridos para debaixo do tapete e agora estavam aqui novamente — que sentou na cadeira de rodas alugada, no hall de entrada dos aposentos particulares do Templo de Câncer, que sentiu todo o peso do futuro nos ombros e se permitiu falar.
– Agora é seguir em frente, não é? — Máscara disse secando as lágrimas — não há nada para fazer.
– Podemos fazer uma festa de comemoração a sua volta. — Aiolia disse, tentando animar o namorado — Ou se você quiser podemos nos aventurar no fogão para desintoxicar da comida de hospital.
– Não acho que alguém venha em festa aqui, Aiolia... — volveu Aiolos, se arrependendo imediatamente — Digo... A casa está uma bagunça.
Máscara da Morte riu. Certo, a casa estava uma bagunça, exatamente como havia deixado antes, com o adicional de toda aquela poeira e já estremecia ao imaginar o estado da cozinha. A visão que tinha do hall não era animadora. Sabia que não era isso que Aiolos quis dizer de verdade, mas o sagitariano tinha razão: Ninguém viria.
– O que acha de fazermos uma faxina, Aiolia, Aiolos? — o canceriano respondeu animado — Tenho ajuda?
Feliz em ver o namorado animado, Aiolia anuiu animadamente, sendo seguido por Aiolos. Além da limpeza, tinha toda a disposição dos móveis que teria que ser mudada, além de tirar tapetes e adaptar o possível até a mudança para a casa nova. A faxina seria boa também para Máscara se redescobrir em um espaço que já lhe é comum.
– Então por onde começamos?
Aiolia sorriu. Faria de tudo para ajudar o namorado.
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