Prazeres Sombrios - Indômita
11 Capítulo X - Caçada
Notas iniciais
Esqueci de dizer antes, mas BARMKIN em gaélico é pátio. É o típico pátio de qualquer castelo, onde os homens treinam, as pessoas caminham, enfim... Agora eu expliquei kkk Boa leitura!!
P.S.: Obrigada a todos que comentaram e favoritaram *oooo* Esse capítulo eu vou dedicar a uma amiga minha que chorou demais por não ter uma homenagem a ela kkkkk Quétzia, é pra você !!!
CAPÍTULO DEZ
→ CAÇADA ←
Leonor ouviu um zumbido que lhe era bastante familiar. Institivamente esquivou-se, ouvindo o baque de algo contra a parede. Olhou para o local do som, deparando-se com uma flecha cravada entre um bloco de pedra e outro. Estreitou os olhos. Sem dúvida alguma, não tinha sido disparada ao acaso, ninguém praticava uma hora daquelas, ainda mais perto de onde pudesse ferir alguém. Outro zumbido chamou sua atenção e ela se jogou ao chão, por pouco não sendo atingida por outra flecha. A porta da cozinha que levava aos fundos do castelo estava aberta e o exterior estava escuro demais para que pudesse ver alguma coisa. Esforçou-se para ver de onde vinham as flechas, mas não tinha tamanha capacidade. Antes que outra flecha fosse lançada, ela rastejou como uma cobra, apertando tanto a jarra de leite que poderia tê-la quebrado... Outra flecha foi disparada, dessa vez atingindo a jarra. O leite se espalhou por todo lado, o som dos cacos caindo ao chão quebrando o sepulcral silêncio que se instalara no castelo.
Deus, ela quase perdera a mão! Agarrou a flecha próxima e continuou rastejando o mais rápido possível, como seu tio a ensinara. Leonor deslizava sobre o chão frio como uma serpente, os sentidos em alerta máximo, usando os cotovelos para puxar o corpo adiante. Seu instinto de sobrevivência a guiava para um lugar seguro, aguçando sua audição ao máximo. O zumbido se repetiu, avisando-a de outro lançamento.
Mente fria, Leonor.
Seu tio a colocara em treinamentos reais muito piores, aquilo era brincadeira de criança. No entanto, não ver seu inimigo a deixava calculista, desconfiada como nunca estivera. Com os nervos à flor da pele e a mente de um predador, rolou para o lado, escondendo-se debaixo de um dos balcões. Estaria segura ali até o amanhecer. Então poderia caçar igualmente quem quer que estivesse tentando mata-la. Mesmo onde estava, flechas ainda foram disparadas para atingi-la, passando raspando por seu tornozelo. A pontaria de seu inimigo era boa, mas a posição dela dificultava tudo. Ela se sentou, encolhendo-se debaixo do balcão, ouvindo cada mínimo som que pudesse alerta-la da aproximação do assassino.
Ela poderia se perguntar: quem está tentando me matar?, mas obteria apenas uma resposta: todos do clã a odiavam. Qualquer um deles poderia estar tentando arrancar sua vida, fosse como fosse. Leonor não deveria estar surpresa, era de se esperar que algo assim fosse acontecer. Anos de ódio não desapareciam da noite para o dia, com ou sem um casamento para encerrar as intrigas. Ela já tinha ido preparada, por isso Rob lhe dera uma adaga chinesa que ganhara de um amigo. Ao menos ele tentara fazê-la esperar algo como um atentado a sua vida, mas Leonor ficara tão fixada em seu maldito marido que se esquecera do que provavelmente aconteceria. Edgar e Henrique não poderiam fazer mais que latir para o McGregor se ela, por puro acaso, aparecesse com uma flecha no meio da testa. Duvidava que o acusassem, seu marido era muito poderoso.
Diabos!
Esperava que ele não tivesse nada a ver com aquilo, ou ela seria capaz de cumprir a ameaça de arrancar a cabeça dele. Nunca mais deixaria a adaga em sua arca, começaria a tê-la acessível e pronta para o uso. As flechas pararam, o que a fez ficar ainda mais em guarda, preparada para avançar contra qualquer um que aparecesse. Segurou a flecha com força, determinada a usa-la de arma, a lutar ferozmente por sua vida. A calmaria não a relaxou nem de longe.
O que estaria planejando seu inimigo?
Ela seria capaz de passar a noite inteira ali se fosse necessário apenas para se certificar de que era seguro sair. A sensação de que uma armadilha fora armada arrepiava sua coluna como beijos gélidos em sua espinha. Se saísse, tinha certeza de que ele estaria lá fora, esperando-a pacientemente na escuridão.
Leonor olhou para a flecha em sua mão, avaliando-a. Era longa e com penas de ganso, igual a qualquer outra, mas o líquido viscoso em sua ponta em seta era o que tinha chamado a atenção de Leonor. Aproximou o nariz da substância e inspirou, fazendo uma careta ao cheiro amargo e asqueroso. Não se lembrava de conhecer uma erva que produzisse uma seiva com um odor discreto, mas extremamente ruim. Talvez fosse uma mistura, ou apenas uma muda que não conhecia. De todo modo, descobriria.
Se fosse veneno, não havia erro que alguém desejava mata-la. Mas se fosse apenas para fazê-la dormir... Bom, a primeira opção era mais crível, se levasse em consideração a abordagem de seu inimigo. Flechas não eram exatamente avisos. E para serem disparadas quando ela pisou na cozinha, só podia significar que estivera sendo observada há algum tempo.
Leonor adorava mistérios e aventuras, mas em livros – as aventuras na realidade também eram bem-vindas, mas aquela situação superava seus limites para aguentar emoções tão fortes e que resultariam em sua morte.
Sequer poderia dormir. Estava em guarda.
Quando fez menção de se mover, uma flecha pousou perto de seu pé, como um aviso para que ficasse quietinha se não quisesse morrer.
Certo. Ela podia muito bem lidar com aquilo, era só colocar a mente para funcionar, pensar em uma forma de voltar para o quarto sem ganhar outra ferida que necessitasse pontos.
Ela sentia o olhar de seu predador sobre si, apenas aguardando o momento oportuno para dar o bote. Rapidamente, ela pegou a última flecha que havia sido disparada e voltou a se encolher contra a parede fria. Era igual à outra que pegara, com o mesmo desprezível líquido viscoso na seta. Quebrou-as na metade, segurando as partes envenenadas como se fossem adagas, acuada e aguardando o ataque que a mataria. As outras metades ela deixou perto de si, caso necessitasse delas para lutar.
☺
-- Leonor. Leonor.
Leonor abriu os olhos, gemendo por causa de uma forte dor nas costas. Jesus. Se a tivessem atropelado com cem carroças estaria doendo menos. A posição na qual se encontrava fazia cada ligamento de suas vértebras chorarem de uma dor profunda enquanto se mexia, despertando do sono que acabara de se dar ao luxo de ter. Mal tinha amanhecido quando ela se rendeu involuntariamente ao cansaço. Seu sono era pesado e quem a acordava poderia ter sido seu assassino. Esperando ver um rosto disforme, com dentes tortos e podres, olhos vermelhos como o sangue e um hálito que indicava putrefação, aliviou-se misteriosamente ao deparar-se com austeros olhos negros. Saindo do torpor do sono, piscou para o McGregor, acordando por fim.
-- O que foi? – ronronou preguiçosamente, espreguiçando-se. Bateu a cabeça em algo duro e voltou a se encolher, fazendo uma careta para o teto... Todas as lembranças de sua terrível noite a atingiram como bofetadas, despertando todos os seus instintos, deixando-a alerta e ofensiva. Poderia ter rosnado para seu marido. Franziu as sobrancelhas e moveu as mãos, aliviada momentaneamente ao perceber que as flechas ainda estavam em seu poder. Ficou rígida.
-- Por todos os deuses, o que está fazendo aqui, mulher?
Ele não parecia nenhum pouco contente, quase irritado. Por que haveria de estar irritado com ela? Leonor quase morrera noite passada e era ele quem ficava aborrecido? Uma sensação opressora queimou em seu peito perigosamente. Não gostava nenhum pouco do tom de voz que ele estava usando, muito menos de sua expressão zangada, quando deveria estar perguntando se ela estava bem. Sequer deu importância às flechas que ela segurava e as que estavam espalhadas pela cozinha.
Leonor se arrastou para fora de seu esconderijo e mordeu a língua para não gemer de dor ao esticar a coluna. Foi um esforço sobre-humano manter-se régia e desafiante, quando cada molécula de seu ser estava sofrendo profundamente. Tragando asperamente a dor que a dilacerava, enfrentou corajosamente a raiva de seu marido, sustentando-se apenas na raiva por ele não estar preocupado. O que ele achava que ela estava fazendo, brincando de caçadora e atirando flechas nas paredes?
Estava óbvio que fora atacada. As flechas, ela escondida... Que mais provas ele quereria, sangue e cabeças? Uma testemunha que não fosse ela?
Argh! Por que era tão difícil lidar com ele?
E se foi ele quem ordenou a sua morte?
Não é estranho que ele queira voltar a ser solteiro. O casamento mal começara e eles já estavam desgastados por tantas discussões. No entanto, odiou saber que ele poderia ser o mandante. Ela não podia confiar em ninguém além de Mary e Tess.
-- Eu lhe dei um quarto, esposa, não há qualquer explicação viável para seu comportamento. Espero que tenha uma boa desculpa.
As pessoas que trabalhavam nas cozinhas observavam com olhos arregalados, temerosos, como se esperassem que ele a atacasse de repente e a matasse. Muitos esperavam por isso, e ainda assim, estavam horrorizados. Não sabiam o que pensar sobre encontrar a senhora do castelo dormindo debaixo de um balcão nas cozinhas e muito menos quando o senhor do castelo lhe direcionava uma fúria gélida e cruel. Empertigando os ombros com uma força que não possuía, ergueu o queixo petulantemente.
-- Não vou me explicar a você – vociferou ela, apertando as flechas para controlar seu terrível temperamento. O olhar ácido dele a chateou muito, mas não se permitiu abalar – Tire suas próprias conclusões do que há ao seu redor, é suficientemente capaz de pensar por si mesmo.
Dizendo isto, passou por ele e estava seguindo para a porta que levava ao salão, quando ele a segurou pelo pulso e a forçou a se virar para enfrenta-lo. Com certeza, mais feliz não estava.
-- Não me desafie – grunhiu McGregor. Por que ele simplesmente não juntava os fatos diante dele? Não, tinha de ser grosseiro antes de saber de qualquer coisa. Ela não lhe diria nada, não era mais de sua incumbência. – O que está fazendo nas cozinhas?
Os criados estavam pálidos. O cheiro de turfa queimada impregnava e aquecia o ar. E McGregor não estava nada disposto a ser mais delicado. Não podia esperar menos de um selvagem bruto e arrogante, mas mesmo assim, queria que ele não tivesse sido tão brusco com ela. Como acabara de despertar e suas costas doíam infernalmente, estava com o humor de mil demônios capaz de rivalizar com o dele.
-- O que você me viu fazendo? – rebateu ironicamente. Pelo tique em sua mandíbula, percebeu que estava ainda mais furioso e não seria uma surpresa se a esbofeteasse. Ele estreitou os olhos de forma ameaçadora, as sobrancelhas franzidas e a escuridão profunda e intensa de suas íris parecendo mortífera e fugaz.
-- Não ouse continuar com joguinhos.
-- Solte-me.
-- Vai aprender a controlar a sua língua, mulher.
-- Ou, o quê? Vai me bater? Ou, mandar que alguém tente um ataque mais direto? – esbravejou, jogando as flechas no chão com força. Elas estalaram. Todos os criados ofegaram e se afastaram, como se o ódio do McGregor o fizesse crescer imperiosamente de tamanho. Ele não desviou os olhos dos seus, como se não desse a mínima para as flechas.
Importava-lhe tão pouco assim?
Claro que sim. Ela era uma Knightley, por que ele haveria de simpatizar com ela? Era um pensamento ridículo e superava os limites do absurdo, mas Leonor queria ser importante para alguém. Mesmo com toda sua relutância em aceitar, esperava ter ao menos um casamento agradável. Agora, rogava para que sobrevivessem um ao outro. Tentaram mata-la noite passada e ele agia de forma indiferente. Talvez ele estivesse decepcionado por ela ter conseguido sobreviver. Não havia como buscar qualquer emoção naqueles insondáveis olhos de ônix, e isso a deixava incerta.
-- Talvez seu tio não lhe tenha dado a palmada que merecia – rosnou seu marido e Leonor recuou um passo, puxando irrefreavelmente o pulso, tentando se libertar dele. Se a esbofeteasse, ela o mataria. Ele intensificou o aperto a ponto de machuca-la, mas ela se recusou a demonstrar qualquer sinal de dor. – Não sabe respeitar ninguém além de si mesma e isso vai mudar.
-- Eu respeito quem merece meu respeito – cuspiu ela com desprezo. Ele se aproximou, intimidando-a com seu tamanho, com sua força e seu tom de voz baixo, frio e mortal, de gelar o sangue e arrepiar a alma de medo.
-- E você vai me respeitar, mulher.
-- Não pode forçar uma pessoa a respeitar outra.
-- Sim, eu posso, e logo verá como vai baixar esse narizinho orgulhoso.
-- Não vai me domar, bastardo. Homens mais dignos tentaram e falharam.
-- Ainda bem que nenhum código de honra me impede de adestra-la corretamente, não é?
-- O que quer dizer com isso?
Sem dizer nada mais, ele a puxou bruscamente e, agachando-se um pouco, jogou-a por sobre o ombro, erguendo-se em todo o seu tamanho e se dirigindo ao salão. Leonor amaldiçoou e esperneou, debatendo-se furiosamente como na noite de bodas. Odiava quando ele a subjugava com sua força de homem, mostrando a todos que era superior e que ela deveria se curvar obedientemente como todos os outros ante sua divina passagem. As pessoas no salão se voltaram com olhos arregalados ao ouvi-la praguejar injúrias. Esmurrou as largas e musculosas costas dele, mordeu seu pescoço com toda a força, chutou, sacudiu-se e tudo o que obteve em resposta foi um beliscão no traseiro diante de quem quisesse ver. Humilhada e menosprezada, viu como ele a levava pela escada sem poder fazer nada. Provavelmente a trancaria no quarto para espanca-la até que o chamasse de senhor meu marido e beijasse suas patas de asno.
Ela fez uma última tentativa de se rebelar e teve de afogar um grito de sobressalto quando essa mesma pata de asno apertou sua coxa e subiu em uma desrespeitosa carícia até suas nádegas, apertando-as a seu bel-prazer. Leonor se aquietou, o rosto em brasas de vergonha, furiosa por ter gostado de seu toque em algum momento de sua desgraçada existência. McGregor abriu a porta de seu quarto e entrou, fechando-a com o pé. Quando estiveram a sós, ele a colocou tão bruscamente no chão que os lavradores teriam parecido cavalheiros ao arremessar uma saca de arroz. Cambaleando, Leonor se agarrou ao poste da cama para recuperar o equilíbrio.
McGregor tinha uma expressão feroz, do tipo que faz qualquer um ter certeza de que ele estava pronto para matar o primeiro tolo que o provocasse apenas mais um pouquinho. Leonor não sabia o que estava acontecendo consigo mesma. Sentia uma entranha dor no peito ao saber que a ele ela não importava sequer uma pulga. Ele não estava preocupado com ela.
Ele parecia um leão confinado em um espaço muito pequeno, agitado e raivoso, descontrolado e explosivo. O maxilar estava tenso e todo o corpo estava rígido, os músculos contraídos ao máximo. Deus, ela não escaparia de uma surra hoje. Nervosa, Leonor mordeu o lábio inferior e levou uma mão à lateral do pescoço, sinal de que estava desconfortável. Não tinha medo dele, tinha medo do que ele podia fazer com ela.
-- O quarto não é de seu agrado, minha senhora? – zombou ele.
Argh! Por que tudo tinha de ser tão difícil?
-- Não zombe de mim. – ela pediu baixinho.
Toda aquela luta a estava exaurindo.
-- Não estou zombando de você – ele disse em um tom irônico cortante como o fio de uma navalha – Não sei se percebeu, esposa, mas nosso maldito casamento foi para encerrar tanto tempo de guerra. No entanto, você é a única que está lutando contra um inimigo inexistente.
Ela quase foi morta noite passada, e o inimigo era inexistente?
-- Não fale do que não sabe.
-- Sei mais do que pensa.
-- É mesmo? Então pode me dizer quem tentou me matar com uma flecha envenenada?
A careta que ele fez foi inesquecível. Seu cenho se franziu mais profundamente, e ela não sabia se ele duvidava de suas palavras ou se era um pequeno indício de preocupação por ela. Provavelmente era a primeira opção. De qualquer forma, McGregor estava ainda mais ameaçador e perigoso, muito perto de ser destrutivo. Ela daria todas as roupas só para saber o que ele estava pensando. Não sabia o que esperar dele.
-- Do que está falando?
-- O que acha que eu estava fazendo com tantas flechas na cozinha? – rebateu ela – Você é ardiloso e observador, McGregor, admira-me que tenha deixado passar. – estreitou os olhos e cruzou os braços diante do corpo – Ou, você tem algo a ver com isso?
Ele amaldiçoou e avançou para ela com passos decididos, com a graça impecável de um predador rondando sua presa, um felino impassivelmente perigoso, à beira de uma explosão violenta. Leonor recuou até bater as costas na parede, encurralada por McGregor. Intimidando-a com seu tamanho, ele a escrutinou sem reservas, baixando a cabeça para a dela. Leonor parou de respirar, mas não baixou a vista. Aqueles olhos negros eram hipnotizantes, como os olhos de uma serpente, que encantavam e atraíam antes de dar o bote. Ela colou as costas na parede e poderia ter-se fundido às pedras se fosse possível, de tanto que queria manter distância entre eles. McGregor segurou seu queixo com força o suficiente para machuca-la, mas ela se manteve imperiosa e inabalável, sustentando a fúria fria e imprevisível de seu olhar. Ele ergueu seu rosto para o dele, deixando-a rígida, sem saber o que esperar.
-- Eu não vou me defender para você – grunhiu ele, fazendo uma estranha corrente elétrica descer pela coluna dela em um arrepio sinistro – Julgue-me como bem lhe convier, mas não vou admitir que me menospreze, entendestes?
-- Eu não...
-- Minha paciência com você é curta, esposa – prosseguiu ele. Leonor se sentia apanhada em uma armadilha, uma lebre encurralada por um lobo faminto de sangue – Pense bem no que está fazendo.
Ele a largou e se afastou com os mesmos passos decididos e predatórios de antes, andando até a porta. O coração de Leonor batia desenfreado contra a caixa torácica.
-- O que está fazendo? – ela inquiriu saber quando ele fechou a porta e ela ouviu o barulho da tranca. Correu até a porta, o desespero por estar presa inundando todo o seu ser. Confinamento não. Ah, Deus, não! – McGregor!
-- Vai ficar aí dentro até amansar seu temperamento – disse ele do outro lado da porta em um tom de voz que proibia qualquer contestação – Pense em suas ações e depois nos falamos, esposa.
Leonor mordeu a língua antes de implorar para que não trancasse a porta. Ela não suportava ambientes fechados, deixavam-na louca, restringida. Ouviu os passos dele se afastando da porta como se sua salvação fosse levada em bora por um ocasional sopro do vento. Leonor encostou a testa na madeira, milhares de pensamentos colidindo em sua mente conturbada. Não era sua intenção acusa-lo de tentar mata-la. Ela estava furiosa – nem tinha mais certeza do por que, mas deu vazão aos sentimentos estúpidos, porque seu tio sempre dizia que raiva contida podia matar um homem e a ensinara a ser honesta consigo mesma – mas sabia, no fundo de seu coração, que ele não era culpado. Ela o conhecia há pouco tempo, mas esses últimos dias fizeram-na vê-lo além do diabo que diziam que ele era. Suas palavras eram cortantes, mas seus gestos eram bondosos – na maioria das vezes.
Ela não desconfiava dele. No entanto, fizera algo ridículo sem motivo algum e teria de se desculpar por ter errado.
Afastou-se da porta, andando de um lado a outro no quarto, irrequieta e sufocada. O cômodo nunca lhe pareceu tão apertado como agora. Seus passos retumbavam em seus ouvidos. Foi até a janela, escorando-se no parapeito. De onde estava, tinha uma visão perfeita da areia branca e do mar. Via a extensão das terras de seu marido, a Península de Trotternish em sua boa parte, mas a visão da imensidão azul a encantava. A bruma rodeava a ilha, mas isso só a tornava ainda mais bela. Misteriosa. Dramática como as montanhas.
Quanto tempo a manteria confinada?
☺
A aldeia estava sempre em movimento. Os aldeãos já tinham partido para pescar ou cuidar das ovelhas, as mulheres cuidavam das casas, ou teciam cestas e vestidos. Crianças corriam em animadas brincadeiras, seguidas por cachorros ou galinhas. Duncan já fizera a ronda para se certificar de que estava tudo bem e falara com a guarda que deixara responsável pelos aldeãos. Como tudo estava tranquilo, encomendou o que tinha ido fazer ali verdadeiramente e continuou a lenta cavalgada com Iain. Fergus e Malcolm cuidavam da cercania de suas terras e havia vigias em cada ponto cardial, com uma trombeta para dar o aviso de algum problema. Duncan gostava de ver tudo tranquilo e alegre, apesar de todos se afastarem rapidamente quando ele passava.
-- Acha que McDonald vai querer reivindicar suas terras de novo? – perguntou Iain.
Duncan ponderou antes de negar com a cabeça.
-- Ainda não. Ele não tem poder suficiente para me enfrentar nem se os McLeod o ajudassem e sofreu grandes perdas da última vez que tentou.
-- Como se McLeod fosse ajuda-lo em algum momento – replicou Iain, enquanto cavalgavam pela aldeia sem pressa. As pessoas cumprimentavam seu primo, mas não ele. – Há novos escudeiros alistados. Quer que os treine?
Duncan arqueou uma sobrancelha.
-- Eu sempre faço isso, por que a pergunta?
Iain esboçou um sorriso que respondeu perfeitamente à pergunta, mas que ele ignorou completamente. Não pensaria em sua maldita esposa nem sob ameaça de morte. Concentrado em seu trabalho, voltaram para o castelo. No barmkin, dezenas de jovens rapazes se reuniam, todos magricelas e empolgados. Eram muito novos, mas tinham uma determinação admirável. O burburinho de conversas paralelas findou quando os dois guerreiros se aproximaram em suas imperiosas montarias. Thor, o cavalo cinza de Iain, possuía a calma inabalável de seu dono. Eles olharam para a reunião no pátio. Precisariam de muitas espadas de madeira. Duncan gostava de escudeiros preparados, apesar de nunca ter carecido de um. Geralmente, o treinamento para soldado era o que vinha depois de ser escudeiro – Duncan fora o de Lachlan na tenra infância – mas ele sempre ensinava o básico do básico. Um escudeiro preparado podia matar um soldado experiente em uma guerra, ele sabia de primeira mão.
Ele e seu primo apearam, deixando os cavalos com Connor, o cavalariço. Cercados por rapazes jovens e esquálidos como de costume.
-- Comecem a correr – ordenou Duncan – Ao redor do castelo. Quem parar para descansar antes que eu mande terá de carregar baldes com pedras enquanto corre. Agora.
Imediatamente foi obedecido. Os trinta adolescentes começaram a correr desordenadamente pelo barmkin, circundando o perímetro do castelo como uma manada, seus passos sendo ouvidos de longe. Enquanto eles aqueciam, Iain e Duncan pegaram blocos de feno nos estábulos e posicionaram no caminho da corrida, pondo obstáculos. Torquill, o escudeiro de Iain, trouxe os bonecos de palha para o treinamento dos soldados, que já começavam a chegar também, acompanhando a corrida dos escudeiros. O aquecimento era crucial para as rodadas de exercícios instruídas por Duncan e todos eles sabiam perfeitamente. Podiam odiá-lo, mas reconheciam que era um bom chefe.
Seus pupilos tiveram de saltar sobre os diversos blocos de feno. Em alguns minutos, estavam todos suando e ofegando, mas não era hora de parar ainda. Duncan os levaria ao limite antes de permitir que descansassem por um minuto. Um rapaz se apoiou no muro do castelo, respirando desesperadamente pela boca. Iain chamou seu escudeiro e o mandou entregar dois baldes cheios de pedras, unidos por um bastão de madeira, para o rapaz que descumprira suas ordens.
O treinamento não servia apenas para fortalecê-los, mas também para desenvolver o sentido de honra e disciplina, como faziam os asiáticos. Quando deu o tempo, Duncan lhes deu um minuto para beber água e recuperar o fôlego. Não podiam parar de se mover para o sangue não esfriar.
Ordenou que fizessem flexões sem pausa, ou teriam de fazê-las com o balde cheio de pedras nas costas. Desta vez, ninguém parou antes do tempo. Satisfeito, Duncan ordenou que parassem depois de longos minutos. A manhã avançava rapidamente enquanto treinavam homens e rapazes. Depois de muitos exercícios, mandou que cada soldado fizesse uma dupla com um escudeiro. Enquanto eles se decidiam, ele, Iain e Torquill trouxeram as armas para os treinos e emparelharam os bonecos de palha.
Duncan era temido e respeitado por todos os seus homens e isso era bom. Tranquilo. Ao contrário do que o esperava dentro de um quarto.
O cenário estava pronto e todos já tinham formado duplas.
-- Peguem as armas – ordenou. Os soldados balbuciaram e os escudeiros correram para obedecer, levando espadas, escudos, lanças, arcos e flechas. Esperou que todos estivessem devidamente em seus lugares. – Quem está com espada e lança fica comigo. O resto fica com Iain.
Mais espera. Os grupos começaram a se dividir em um caos de pessoas, dividindo-se em duas frentes com seus respectivos instrutores. Iain levou seu grupo para o outro lado barmkin, enquanto Duncan organizava os seus em fileiras para cada tarefa. Suas espadas gêmeas estavam cruzadas em suas costas e Torquill segurava uma lança para ele. O sol estava alto no céu.
Não precisava dizer nada para atrair a atenção deles, estavam apenas esperando suas ordens. Duncan desembainhou apenas uma espada e iniciou uma sequência de movimentos: golpes precisos e retrocessos rápidos, atacando e defendendo ao mesmo tempo. Repetiu mais três vezes antes de parar e guardar a espada na bainha.
-- Repitam – ordenou. Imediatamente teve seu desejo realizado. Em sincronia quase perfeita, os soldados imitavam seus movimentos. Quando acabavam a sequência, faziam-na de novo. E de novo. Repetiriam até seus corpos estarem familiarizados o suficiente para executarem-no naturalmente. Na luta, não havia tempo para escavar a memória e se lembrar do que fazer, tudo devia ser mecânico e fatal. Logo, eles perderam a rigidez dos golpes e ficaram mais leves, ganhando uma fluidez natural que seria muito importante em uma batalha. Já tinha passado da hora do almoço quando Duncan permitiu que se sentassem. Mandou Torquill dizer a Arian que servisse água e comida aos homens e rapazes.
Pouco depois, criadas saíram como um enxame do castelo, trazendo odres com água e refeição para manter a todos de pé. Ainda havia alguns mais obstinados que permaneceram treinando, arremessando lanças para atingir um boneco de palha.
Duncan aceitou um odre e entornou o gargalo, molhando a garganta. A água foi um verdadeiro alívio.
Por algum motivo, as palavras de sua esposa retumbaram em sua mente de repente, enrijecendo-o. Tinham tentado mata-la. Em sua casa, ameaçaram a vida de sua inglesa intrépida e cabeça-dura. Duncan não permitiria que se repetisse e descobriria a todo custo quem ousara tentar mata-la.
Quando Arian disse que se assustara ao ver uma mão debaixo do balcão, ele estranhara. Mas quando soube que sua esposa era a dona da mão, já estava nas cozinhas antes que percebesse. Ela estava bem. O mais esquisito era que segurava duas flechas quebradas. A cozinha estava limpa de qualquer sinal de ataque e o irritou vê-la largada como um galgo no chão. Mas perdera a cabeça quando ela o contrariou, menosprezando suas ordens diante de seus criados, tratando-o como se fosse um menino, não um homem perigoso.
Não tinha a pretensão de doma-la como dera a entender, gostava desse fogo vívido que emanava dela, mas queria que ela o respeitasse e já não sabia mais o que fazer. Tentava ser gentil e ganhava agradecimentos momentâneos. Era grosso e recebia coices. Ela contestava suas ordens, enfrentava-o de frente sem titubear e era totalmente honesta ao expor suas crenças e revoltas. Mas se expressava rudemente e isso não era bom. Ele estava com raiva dela, claro. Não era correto que uma esposa possuísse tantas opiniões. Ela deveria ouvi-lo, respeitar suas decisões, não questionar tudo o que ele fazia. Era exasperante.
Em parte, trancara-a para não vê-la. Não sabia o que seria capaz de fazer com ela se perdesse a cabeça, porque estava muito perto de descobrir. E em parte, queria realmente que ela se acalmasse e visse que ele não estava tentando mata-la. Por Deus, acusara-o disso! A raiva tinha explodido em seu interior naquele momento. Duncan não tinha o costume de se explicar ante de ninguém, de justificar seus atos ou lutar contra os boatos que corriam a solta a seu respeito por aí. O incômodo em seu peito voltara ao ouvir sua acusação.
Ela ainda não tinha percebido que ele cuidava do que era dele? Dera sua palavra a Edgar que cuidaria dela e o faria. Sua palavra era tudo para ele, já que não tinha honra. Era o Mensageiro da Morte, uma besta desumana e sem coração, mas mantinha sua palavra a todo custo.
Mandando os pensamentos sobre sua esposa para longe, voltou firmemente para a realidade. Arian avançava pelo barmkin com uma criança seguindo seus passos. Um menininho de cabelos escuros e reluzentes olhos claros como os da mãe. Drustan correu pelo pátio a seu encontro. Ensimesmado como estava, não tinha percebido que os rapazes ainda brincavam com a lança. Duncan correu para seu irmão, vendo em câmera lenta como a lança arremessada errava o boneco de palha e prosseguia velozmente para Drustan. Ainda não tinha visto seu pequeno irmãozinho desde que chegara. O desespero controlado se instalou e seu peito. Em um único segundo, enquanto todo o pátio congelava, empurrou Drustan atrás de seu corpo e agarrou a lança no ar, partindo-a mecanicamente com o joelho.
O silêncio foi longo.
-- Vocês estão bem? – perguntou Arian, abaixando-se para se certificar de que seu irmão estava bem. O menino, rapidamente recuperado do choque e do medo, sorriu para Duncan em sua inocência.
-- Maninho, me ensina a fazer isso?
Sim, ele estava muito bem. Aliviado, Duncan revolveu os cabelos do pequeno.
-- Quando você tiver idade, talvez, mas agora, não seja tão precipitado – repreendeu. E Drustan o ignorou completamente, como de costume.
-- Iain disse que você tinha uma missão para vim, por isso vim correndo – disse ele animadamente. Duncan tentou ignorar os olhares de admiração de seus soldados. Era a primeira vez que o viam agarrar uma lança no ar e isso era incrível para eles. Para Duncan, era apenas um dos resultados de sua infância – O que quer que eu faça, maninho?
-- Cuidado com o que você o manda fazer – alertou Arian seriamente – Da última vez que lhe deu uma missão, a pobre Bessie encontrou girinos em sua touca.
Duncan repreendeu seu irmão com o olhar e o pequeno deu de ombros.
-- Não foi por querer – defendeu-se Drustan – Maninho disse que eu deveria me divertir longe das armas.
-- E você é tão obediente – ironizou Arian, dando um puxão de orelha no menino.
Duncan se ajoelhou para ficar da altura do irmão, tratando-o como o homem que ele desejava ser antes do tempo.
-- Ouça o que eu digo e siga ao pé da letra.
-- É muito importante? – indagou Drustan, os olhos brilhando de orgulho e ansiedade pela missão lhe seria designada.
-- Sim. É de suma importância e você deverá se empenhar ao máximo. Está pronto para seguir minhas ordens?
-- Homens – Arian revirou os olhos, mas acabou por sorrir.
-- Sim – respondeu Drustan, sorrindo de orelha a orelha.
Duncan disse exatamente o que precisava fazer.
Notas finais
Obrigada por acompanharem !
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