Prazeres Sombrios - Indômita
10 Capítulo IX - Clã
Notas iniciais
Esse capítulo será dedicado à minha gêmea, que acompanha Leonor desde os três primeiros capítulos e que, quase me fez gritar, recomendou Indômita !! A mesma gêmea que me forçou a ir ao hospital quando bati a cabeça u..u Enfim... Obrigada por lerem e comentarem !!!
Boa leitura!! :D
CAPÍTULO NOVE
→ Clã ←
Eles passaram velozmente pela aldeia, atraindo a atenção das pessoas, que se encaminhavam para a fortaleza do castelo, já cientes da chegada do chefe. Duncan só os cumprimentaria quando estivessem no barmkin, onde estavam seus primos e onde acharia alguém que se encarregasse de costurar a ferida de sua esposa. Definitivamente, ele queria matar o viking outra vez. E de uma forma bem diferente. Os aldeãos se acumulavam no caminho, olhando atentamente para o Mensageiro da Morte de Edgar com uma inglesa nos braços. Duncan esporeou o cavalo, atravessando os portões abertos da muralha. Havia vários homens reunidos para recebê-los, mas nenhum possuía uma expressão contente. Mulheres se juntaram ao grupo, assim como crianças e idosos. Seus soldados o reverenciaram solenemente. Pelo o que estava vendo, os cavalos já tinham sido levados ao estábulo e a arca de Leonor também fora carregada para dentro. O castelo era uma fortificação que lhe enchia de orgulho sempre que a via. Duncan puxou as rédeas de sua montaria, parando no centro da multidão que os esperava.
Leonor abriu os olhos, piscando com sonolência, observando a seu redor. Ela parecia admirada com tudo, desde as ameias de pedra até a quantidade de aldeãos e soldados que estavam sob as ordens dos McGregor. Ele apeou e, com as mãos na cintura dela, desceu-a do cavalo. Ela acomodou o filhotinho nos braços e sorriu cordialmente para cada homem e mulher que se encontrava no barmkin. Os homens ficaram irritantemente boquiabertos, olhando sua esposa até o último fio do cabelo.
Aquela inspeção exagerada não era de seu agrado.
O velho Malcolm, capitão da guarda, aproximou-se deles, abrindo passagem por entre os ilhéus de Skye. Todos pareciam encantados com sua esposa e não escondiam isso.
-- Seja bem-vindo, chefe – disse Malcolm. Duncan assentiu com a cabeça.
-- Esta é minha esposa – disse Duncan duramente. A bomba vinha agora. Ele sabia que não a aceitariam bem por ser inglesa, ainda mais uma Knightley. Agradecia pela natureza forte de Leonor, ou ela não sobreviveria ao que estava prestes a acontecer. Também não adiantava prolongar o momento, era impossível não notar que ela era inglesa. Talvez o físico não demonstrasse tanto, mas ela não falava gaélico e seu inglês era puro. Como o inglês e o francês eram as línguas mais faladas, Duncan aprendeu algumas coisas em inglês, apenas ouvindo e repetindo. Sua gente também falava a língua, então deveria pedir que conversassem com ela em sua língua nativa. Ou seja, Leonor agora não estava compreendendo nada do que eles estavam falando em gaélico – Leonor de Westminster.
As expressões admiradas desapareceram, substituídas por um ódio antigo e profundo. O silêncio que se seguiu foi sepulcral, quase doloroso aos ouvidos – principalmente depois de se acostumar ao tagarelar de sua esposa. Duncan sabia o que eles estavam pensando, não havia margem para enganos. Leonor também sabia, não era idiota, mas também não se acovardou. Empinou o queixo e adquiriu a régia postura que ele conhecia como sendo um desafio a quem quisesse mexer com ela. Malcolm endureceu a expressão e abriu a boca para falar qualquer tolice, mas o olhar de Duncan foi o suficiente para silencia-lo.
Leonor olhou para cada um deles. Antes tinham parecido simpáticos e acolhedores, mas agora se mostravam a ponto de mata-la. Quem estava armado levou a mão ao punho de suas espadas, mas não atacaram. Todos estavam rígidos e furiosos, prontos para uma guerra, mas se continham apenas pelo olhar feroz e diabólico de seu marido. McGregor franzia suas sobrancelhas profundamente – o que já não era uma novidade e a ela não assustava nada – e direcionava aqueles olhos negros cujas pupilas não se viam bem dentro dos olhos do escocês de cabelos castanho-avermelhados. Leonor não queria causar uma briga por sua descendência inglesa – por ser orgulhosamente quem era. Seria ruim para o McGregor se seu povo se revoltasse por causa dela.
Teoricamente, o casamento fora feito para garantir a paz entre os clãs, não causar mais discórdia. Ela entendia o gaélico-escocês o suficiente para compreender o que os homens – soldados, pescadores, vigias – e as mulheres diziam a seu respeito. Cobra. Assassina. Eles se merecem: dois demônios. Leonor se manteve firme e imperturbável em seu lugar, fingindo não ouvir o que eles diziam. Seu marido não conhecia muitas coisas sobre ela e isso era uma grande vantagem.
No entanto, o desprezo que via nos olhos daquelas pessoas não lhe agradava nenhum pouco. Ela não tivera nada a ver com aquela guerra, apenas era a filha de Hugh de Westminster. Não lutara, não matara ninguém, nunca fizera mal a nenhum deles. Ainda assim, odiavam-na como se fosse seu próprio pai. Grunhiam obscenidades, murmuravam palavras odiosas a seu respeito. Cadela inglesa. Sim, ela era uma maldita cadela inglesa, e aí, o que eles iam fazer?
Forçou uma expressão solene, condescendente, fingindo admirar seu marido para não abrir a boca e responder cada um dos insultos. Já tinham deixado muito claro o quanto desejavam a cabeça dela em uma lança.
-- É um prazer conhecê-la, minha senhora – grunhiu o homem em um inglês quase arrastado, o sotaque gaélico bastante presente em sua voz de barítono – Sou Malcolm, o capitão da guarda de meu senhor.
-- É um prazer, Malcolm – disse ela amavelmente. O filhotinho gemeu em seus braços e o homem desceu o olhar lentamente para o embrulho escuro e molhado que ela carregava. Franziu as sobrancelhas, estreitando os olhos castanhos para o pequeno lobo. – Ele é lindo, não é? – Malcolm fez uma careta em discordância para ela e Leonor acabou rindo um pouco – Ele foi rejeitado pela mãe. Será que pode me arranjar leite, Malcolm? Ainda é muito novinho para comer qualquer coisa.
-- É um lobo, minha senhora – ele disse como se ela fosse uma idiota que não sabia o que aninhava contra o peito.
-- Malcolm – McGregor disse com uma seriedade de arrepiar os cabelos da nuca de qualquer um – Mais tarde teremos uma conversa. Minha esposa precisa de cuidados – e todos os olhares pousaram incomodamente na ferida em seu braço. McGregor elevou a voz para que até os franceses ouvissem o que ele estava prestes a declarar – A guerra entre os McGregor e os Knightley acabou. Minha união com Leonor de Westminster é o símbolo da paz que agora poderemos desfrutar.
Ninguém contestou sua palavra, mas isso não significava que houvesse alguém muito feliz. Tomando-a pelo braço bom, McGregor a guiou para as escadas. O castelo era impressionante, uma enorme fortificação de pedras erguida como um dragão, com seis gloriosas torres altas e pontudas em cada ponto cardial, cercada por uma muralha grossa e imperiosa e portões de madeira tão larga e pesada que ela não sabia sequer como se abriam. Subiram cada degrau até as portas duplas como um casal aparentemente feliz: ela, tola e ignorante do que diziam e ele, um poderoso chefe temido até por sua própria família. Quando seu marido empurrou as portas, o forte cheiro de cerveja preencheu suas narinas, queimando seus pulmões. Risadas encheram seus ouvidos. Havia uma longa mesa retangular no centro do salão cheia de pessoas – incluindo Mary, Tess, Fergus e Iain – comida farta e muita bebida à disposição. Parecia uma comemoração.
Leonor olhou para o recinto, completamente diferente do que estava acostumada a ver em castelos ingleses. Tapeçarias estavam penduradas nas paredes – em geral, retratos da família – e havia uma larga escada pétrea que levava a portas duplas de cipreste após uma plataforma com balaústre. Escadas bifurcadas que se uniam no segundo andar levavam ao que ela supôs ser o dormitório, com diversas portas e corredores que desapareciam nas paredes, longe de seu curioso olhar. Havia um candelabro de velas grande no teto alto. Não havia uma lareira no salão. Uma porta em arco levava para as cozinhas, onde turfa era queimada e mulheres transitavam apressadamente de seu interior para a mesa, levando bandejas com carne ou cerveja. Nada de estrado. Nada de mesa do lorde e mesa dos criados. Era apenas um cavalete para todo mundo comer junto. A parede da esquerda possuía duas tapeçarias – uma com o retrato medonho de Lachlan McGregor empunhando uma lança, montado em um garanhão marrom e outra com o brasão dos McGregor: dois leões rampantes com duas lanças cruzadas atrás deles – e entre elas havia um arsenal de armas. Ela teria pensado que era decoração, mas sabia que eram legítimas e que estavam prontas para o uso. Espadas, maças, lanças, arcos e flechas, facões, martelos, machados... Uma variedade absurda de armas mortíferas. Ela poderia ter sorrido ante a visão do aço pedindo para ser usado, mas o rosto demoníaco de Lachlan a fez estremecer e cravar os olhos na imagem. Não se lembrava de tê-lo visto na infância, mas sua mãe sempre o descrevera como um homem moreno, de longos cabelos castanho-escuros e lisos, o rosto deformado por uma cicatriz feita pela espada de seu pai e por um acidente que lhe queimara metade do rosto, alto e musculoso como um urso, de olhos negros e cruéis... Desumano era a palavra que o descrevia melhor. Não havia erro ao olhar para a tapeçaria. Todas as moléculas de seu ser gritavam que era o pai de seu marido. Sua mãe não errara ao descrevê-lo como uma besta saída das entranhas de Cérbero.
Ela ficou rígida. Foi aquele homem que matou seu pai. Aquela criatura medonha, que sorria ao matar uma pessoa. O pai do McGregor.
Mas ele não é igual ao pai. Desde que se conheceram, é bondoso contigo. Salvou sua vida quando poderia ter-te largado para os vikings e te deu o lobo. Que mais prova há da bondade de seu marido?
Leonor sabia que ele era um bom homem. Tivera absoluta certeza quando entregou o filhote em seus braços, quando se dispôs a dar um nome ao “filho deles”. Mas a sensação de que estava traindo sua família lhe causava uma forte dor no peito. Tio Richard queria sua felicidade, que tentasse ver naquele casamento a única oportunidade que tinha de ser feliz. Mas... Sempre havia um mas. Estava dividida entre dar uma chance ao McGregor e permanecer lutando contra o casamento. Vendo o rosto distorcido de Lachlan, ela percebeu que seu marido não se parecia em nada com ele.
Tolices! É um McGregor, esquece-o!
Leonor estava confusa.
Sua família ou sua vida?
Jogou todos os pensamentos ruins na Caixa de Pandora que era seu subconsciente e se concentrou na animação que preenchia o salão. Mary estava fazendo amizade com uma mulher alta e de longos cabelos ruivo-alaranjados encaracolados, Tess estava de pé conversando com uma alta mulher roliça e de cabelos grisalhos, Fergus ria com alguns homens e Iain ouvia o falatório de uma mulher morena e alta.
Aquela era uma terra de gigantes. Os homens eram grandes, as mulheres possuíam uma selvagem beleza que não dava margem à delicadeza... Leonor sempre fora considerada alta, mas parecia minúscula perto de todas aquelas pessoas gigantescas. A ruiva simpática que conversava com Mary olhou para seu marido e sorriu em um cumprimento, ainda falando com sua prima. Seus olhos ambarinos pareciam o próprio sol compactado em um rosto ovalado e marcado por delicadas sardas.
-- Aquela é Arianrhod – sussurrou seu marido em seu ouvido, referindo-se à ruiva. Ele a guiou para a mesa, onde havia dois espaços vazios na cabeceira. Quando pousaram os olhos em Leonor, o silêncio se abateu sobre a sala. Leonor estava desconfortável e não lhe agradava nem em sonho o asco nos olhos que a viam passar ao lado do McGregor. A ruiva, Arianrhod, ergueu-se e, sem reserva nenhuma, rodeou-o com os braços em um íntimo abraço. – É bom vê-la, Arian.
É bom vê-la, Arian. Sim, claro que era bom ver Arian, abraçar Arian. Beijar Arian também seria bom para ele?
Hormônios, controlem-se!
Leonor forçou um doce sorriso para a mulher, mas em seu interior o humor era muito mais macabro. Não gostava dessa sensação que a deixava mal-humorada, como se a criatura bela e ruiva como uma valkyria fosse culpada por todos os seus problemas. O culpado era Duncan. E o pai dele. E os reis que forçaram aquele casamento. Apartando-se de seu marido, a ruiva se voltou para ela com uma simpatia que azedou ainda mais o humor de Leonor.
-- Você deve ser a inglesa – disse ela. E você deve ser uma... porca. – Seja bem-vinda.
-- Obrigada.
McGregor a olhava como se tentasse reconhecê-la.
-- Meu nome é Arianrhod, mas pode me chamar de Arian. Sou irmã do Duncan.
Por algum motivo, aquilo a encheu de alívio. Sério que estava com ciúmes daquele bruto? Claro que não! Bobagem! Por que haveria de estar incomodada por ele ter uma amante? Era normal, certo? Todos os homens, exceto seu pai, tinham outras, até mesmo seu tio Richard. Leonor já o vira nos estábulos com duas criadas. Curiosa, tentara ver, mas Cain a achara e a proibira de ficar andando sozinha, ainda mais vendo coisas tão repudiáveis. Depois Tristan lhe dissera que todos os homens tinham amantes, porque eram mulheres fáceis e voluptuosas que não se aferravam a casamentos e a tola promessa de amor. Porque amor não existia, tudo era apenas luxúria.
Mas Leonor acreditava no amor. Vira entre seus pais, sabia que era bonito e eterno. Porém, não esperava encontrar isso no seu casamento. A julgar por sua incontrolável reação na caverna pouco mais cedo, desejava seu marido, o que não era ruim em certos aspectos, uma vez que não precisaria se forçar a parecer agradada com seus toques. O homem sabia deixar uma mulher explodindo de luxúria. Inimigo ou não, fizera-a sentir-se mulher, não uma menina. A união deles estava fadada a dar errado, mas o desejo tornava tudo menos terrível, apesar de permanecer atemorizante. E ainda havia a questão das amantes. Como mulher, Leonor não poderia reivindicar amantes, mas seu marido poderia ter um rebanho de ovelhinhas bem dispostas por copulação selvagem e desenfreada.
Ainda assim, feria seu orgulho.
Como chegara a pensar tudo aquilo, quando o início do novelo foi apenas o alívio por Arian ser irmã do McGregor?
Mas eles não eram parecidos em nada.
-- Arian, ordene a todos que falem em inglês. – disse McGregor. Leonor o olhou, surpreendida por sua atenção. Ele não precisava fazer aquilo, podia simplesmente permitir que ela enlouquecesse com os xingamentos. Arian ficou séria e assentiu solenemente com a cabeça. Era estranho saber que seus inimigos a estavam tratando tão bem, com a exceção dos aldeãos. Arian não a estava julgando por ser inglesa e filha de Hugh e McGregor estava se mostrando um bom marido. Talvez ela não devesse se encantar tanto por serem atenciosos, mas lhe agradava muitíssimo não ter de ficar em guarda, sempre buscando inimigos. Ele a olhou com uma ternura que ela nunca vira em seu rosto e isso fez seu ridículo coração palpitar animadamente – Deixe que Arian dê o leite ao seu filhote.
O filhotinho gemeu em seus braços, como se respondesse a pergunta dele. Leonor já amava aquela coisinha felpuda e se dentes desde que o pegara nos braços pela primeira vez. Era simplesmente lindo e não entendia como os outros não viam a beleza de seu lobinho.
-- Não – e sorriu para Arian – Por favor, permita que eu o faça.
Arian sorriu com cumplicidade.
-- Ele é uma gracinha. Nunca tivemos galgos, em compensação, teremos um lobo. Já o nomeou?
-- Não. Seu irmão – Leonor lançou um olhar raivoso para McGregor antes de se dirigir a Arian – não quer me ajudar a escolher. Se você quiser me ajudar...
-- Eu adoraria!
McGregor revirou os olhos.
-- Venha, esposa, temos um assunto a tratar.
A forma como ele disse aquilo fez um calafrio descer pela coluna de Leonor e Arian fez uma careta de surpresa quase em estado de choque. Antes que pudessem conversar mais, seu marido a levou para as escadas que levavam ao segundo andar, guiando-a pelo castelo que ainda lhe era totalmente desconhecido. As conversas no salão prosseguiram tranquilamente, assim como as risadas e a animação pela refeição. Leonor olhou para o filhotinho que despertara em seus braços, remexendo-se inquietamente, tentando abrir os olhos. Era tão novinho... Poderia morrer de hipotermia se ela não o esquentasse e o alimentasse adequadamente. Deveria ter muito cuidado com ele. Era grande, realmente, mas mais frágil que um bebê.
Ele a cutucou com o focinho, enterrando o rosto escuro e peludo em seu peito, buscando o aconchego e o calor que apenas uma mãe de sua espécie poderia dar.
McGregor abriu a terceira porta depois da escada da esquerda. Era um quarto espaçoso, com uma enorme cama com dossel, sua arca, uma mesinha redonda perto da janela, uma lareira de pedra luxuosa, uma tina de cobre atrás de um biombo de madeira e uma tapeçaria sobre a lareira, retratando a praia da Península de Trotternish. Leonor entrou, encantada com o luxo de seu aposento, observando as peles sobre a cama, cada detalhe perfeitamente organizado. Era surpreendente. Ela caminhou até a cama e deitou o filhotinho sobre ela, enrolando-o nas peles para aquecê-lo, acomodando-o o quanto podia.
-- Vou pedir a Arian que venha costurar sua ferida – disse McGregor. Ela virou o rosto para encara-lo. Ele estava encostado na soleira da porta, os braços cruzados diante daquele peitoral que faria um espartano parecer um frango depenado e pronto para ser cozido. Seu cabelo castanho caía ao redor de seu rosto, encaracolando levemente nas pontas, deixando-o bonito como um anjo vingador. – Fique a vontade.
E se retirou, fechando a porta atrás de si.
Leonor se deitou na cama, ao lado de seu filhote. Enquanto fazia suaves carinhos atrás de sua orelha, pensou em quando chegaria o resto de suas coisas. Ela queria seus livros por perto. Costumava escondê-los entre as roupas para seus primos não acha-los. Tristan costumava queima-los para castiga-la por sua língua ferina, então ela passou a esconder suas preciosidades onde ele jamais ousaria mexer. Agora, queria ter ao menos as Crônicas do Rei Arthur para ler. Seus romances estavam a um oceano de distância e sabe Deus quando chegariam.
O filhote lambeu sua mão e ela sorriu.
A julgar pelo quarto em que fora colocada, dormiriam em quartos separados. Seu marido estava deixando bem claro que não tinha nenhum interesse em criar um vínculo, em tentar fazer daquele casamento algo menos desagradável para ambos. Ele a procuraria sempre que desejasse se aliviar dentro dela, mas não haveria qualquer sentimento mais profundo entre eles. Leonor suspirou. Realmente tinha sido tola ao pensar que poderia se esforçar para dar uma chance a ele. E tinha acertado ao deduzir que o que havia entre eles era luxúria em sua essência mais crua e animal.
Fechou os olhos, abatida pelo cansaço da viagem. Ela tinha velejado, lutado contra vikings, nadado, cavalgado, salvado um lobo... Todas essas atividades estavam exigindo seu preço e a cama macia apenas aumentava aquela sensação letárgica de exaustão. Tirar um cochilo não seria ruim, ela precisava. Ao menos, em seus sonhos, não haveria um ilhéu bruto e moreno que, acima de tudo, era um McGregor que beijava desgraçadamente bem.
Muito enganada estava.
Mãos fortes e ásperas percorriam seu corpo em lentas e provocantes carícias, despertando cada célula de seu ser para uma experiência que ela nunca tivera e apenas ouvira falar. Todo o seu corpo parecia sensível, a pele ardendo de desejo a cada movimento daqueles dedos de guerreiro. Sua cintura foi moldada por suas palmas, que percorreram cada pedacinho dela para conhecer e gravar na mente a fogo cada curva, cada ponto de prazer. Leonor não sabia que tipo de reação em cadeia era aquela, mas uma carícia era o suficiente para despertar uma série de fatores luxuriosos, libidinosos, sem qualquer traço de decoro. Ela conhecia o toque daquela mão, já sentira uma vez, mas agora parecia diferente... Todas as sensações eram mais intensas que da primeira vez e a rendição parecia ser o mais correto a se fazer.
Aquelas mãos que a exploravam apenas a impeliam a ceder, a se deixar levar... E, Deus, ela queria muito. Nunca sentira nada tão pecaminosamente delicioso, irresistível.
Leonor acordou de repente, o coração acelerado no peito. Não estava acostumada a sonhos tão indecentes, ainda mais com um McGregor. Espreguiçou-se, mandando ao Triângulo das Bermudas qualquer lembrancinha de um pesadelo tão ridículo como o que tivera. O filhotinho de lobo estava encolhido e feito uma bolotinha peluda na curva de seu pescoço, aninhado e adormecido. Precisava dar um nome a ele – um que não fosse Discórdia – o mais depressa possível. Espreguiçando-se manhosamente, olhou para além da janela. O céu ainda estava escuro pela noite, o que a impediu de tentar adivinhar a hora. Seu estômago roncou. Há quanto tempo não comia nada? Desde o amanhecer. Sim, estava faminta o suficiente para comer um urso e pedir um alce de sobremesa.
Tentando não despertar o filhotinho, levantou-se cuidadosamente da cama, arrastando-se para o chão. De pé, esticou-se manhosamente, tentando acreditar que estava acordada. Alguém acendera o fogo para mantê-la aquecida e, a julgar pelo alívio em seu braço machucado e o curativo decente, também costuraram sua ferida enquanto dormia. Leonor nunca percebera que tinha um sono tão pesado até sua noite de bodas e a ideia de que alguém costurou sua ferida enquanto cochilava sem que ela despertasse foi a comprovação final. Ela era dormente, por acaso?
Tirou o vestido dificultosamente, deixando a roupa suja no chão. Estava louca por um bom banho, mas não incomodaria nenhuma criada por seu desejo uma hora daquelas. Contentou-se com um asseio desesperado com a água de uma terrina, esfregando sua pele até se sentir, pelo menos, higienizada. Cuidou de suas necessidades mais básicas e foi até a arca, buscando sua regata de linho limpinha e branca. Vestiu-a, quase suspirando de alívio por não estar tão suja pela viagem. Pegou uma escova e penteou mecha por mecha, controlando a juba revolta com um empenho divino. Por fim, voltou a enrolar o lobo nas peles e abriu apenas uma fresta da porta, espiando o exterior. Seu quarto tinha uma visão privilegiada do salão, o que também significava que qualquer um poderia espia-la também. Verificou que tudo estava silencioso e tranquilo – até os selvagens dormiam de vez em quando – e saiu do cômodo, os pés descalços tocando o chão frio de pedra.
Ela tinha de comer qualquer coisa ou acabaria devorando a própria mão para suportar a fome que lhe contraía os músculos estomacais. Sorrateira como uma cobra, Leonor pisou cuidadosamente, sem emitir um único ruído, dirigindo-se à escada. Pegaria leite para o filhote e jantaria sozinha nas cozinhas. Não deveria ser tão diferente das cozinhas inglesas, certo?
O silêncio da noite era tranquilo e o castelo estava incomparavelmente calmo. A mesa havia sido limpa, tudo era impecável em questão de organização e higiene. Leonor tinha certeza de que quem regia Dragon Seafront Castle era Arianrhod, uma vez que era a única parente viva do McGregor. Ela realmente fazia um ótimo trabalho.
Leonor passou pelo biombo, seguindo por uma entrada larga e em arco. Havia balcões de granito, uma longa mesa quadrada, um lavatório... Tudo muito polido e de uma qualidade incontestável. Havia uma fornalha grande – de pedra, claro – em um canto, onde queimava a turfa e cozinhavam para todo o castelo. Curiosa, Leonor percorreu a longa área, os pés sobre um chão coberto por juncos novos. Aquele era seu novo lar. Havia diversas frutas em uma cesta sobre a mesa, assim como pãezinhos em outra, todas de palha costurada. Leonor puxou uma cadeira e pegou um pão e um cacho de uvas. Não sabia onde guardavam as coisas ali dentro, mas sua fome a faria achar tudo. O pão era novo, apesar de não estar quentinho e crocante.
Amanhã, como senhora do castelo, teria tarefas a fazer. Não queria tirar de Arian seu dever, mas Leonor não era preguiçosa e era sua obrigação fazer aquilo. Talvez elas pudessem trabalhar juntas...
O que está pensando? Um McGregor jamais aceitará uma Knightley em seu seio familiar, mesmo que esteja casada com Duncan McGregor. Viu como te olham, Anna Leonor? Tratar-te-iam melhor se fosse uma leprosa. Desprezam teu sangue, teu nome e tua essência. O que pode fazer em um lugar assim?
O que sempre fiz de melhor: lutar.
Mas não é o suficiente.
Cala-te.
Ela comeu ensimesmada em caóticos pensamentos que lhe davam profundas enxaquecas. Assim que amanhecesse, pediria que preparassem a tina para seu banho e vestiria seu melhor vestido. Batalharia pelo respeito daqueles homens, mais por uma questão de orgulho e honra. Não era justo ser tratada como a escória da pulga de um galgo doente por uma guerra que não era exatamente sua. Aqueles malditos selvagens gigantes teriam de engoli-la até o fim da vida e ela estava determinada a enfrentar o desprezo deles corajosamente.
Anna Leonor de Westminster era uma guerreira nata, treinada pelos homens mais fortes que conhecia e tinha uma força de vontade superior a qualquer quilo de músculos desenvolvidos.
Ainda assim, o futuro incerto a assustava um pouco. A guerra entre as duas Casas poderia ter acabado, mas muitas outras batalhas estavam apenas por começar. Ela terminou de comer rapidamente, saciando-se e foi e busca de leite em qualquer lugar. Acabou abrindo uma porta que levava à dispensa, onde havia trigo, café e outros ingredientes que ela não reconheceu. Encontrou canela. Mas precisava de leite para o filhote e não estaca com muita vontade de confrontar as cabras para amamentar o lobo em plena madrugada.
Havia muitas coisas que seu marido ainda não sabia sobre ela, não apenas sua aptidão para aprender rapidamente vários idiomas. Talvez um dia, se ele merecesse, ela lhe daria algumas surpresinhas. Mas apenas se confiasse nele. Por enquanto, tudo o que podia fazer era permanecer odiando Lachlan e aquela maldita guerra por destruir toda a vida que ela tinha. Amanhã já estaria iniciando seu processo adaptativo, pondo em prático tudo para o qual nunca a treinaram. Era uma situação inovadora, um desafio que ela estava disposta a tomar e a vencer.
Achou leite em uma jarra e a pegou. Devolveria no dia seguinte, mas a prioridade era de seu filhote. Agora precisaria dar um jeito para fazê-lo beber sem se afogar. Cansada como estava, não percebeu que estava sendo observada e que esta pessoa mirava uma flecha em sua cabeça.
Notas finais
CAMPANHA: GANHE UMA VIAGEM PARA A ESCÓCIA MEDIEVAL PELO PREÇO JUSTO DE UM COMENTÁRIO!!! kkkkk
Obrigada por lerem e comentarem *ooo*
P.S.: Galgo é aquele cachorro magro e estranho que sempre aparece em filmes medievais aos pés do lorde, esperando ossos pra roer
Fale com o autor