Prazeres Sombrios - Indômita

9 Capítulo VIII - Dragão de frente ao mar


Notas iniciais
Minha formatura foi ontem *-----* Fiquei tão feliz que tive de postar um capítulo kkkk E uma amiga minha está me ensinando russo, o que é mais um motivo de alegria pra atualizar a história xD
Dava pra esconder um cadáver no meu vestido, saias demais xDD'' Enfim... Obrigada pelos comentários. Eu sei que estou sendo incompetente por não responder a todos, mas tive uma semana realmente agitada. Domingo, minha mãe foi atacada por um sphinx estressado em uma exposição de gatos, passamos o dia na emergência e ela ainda tá se recuperando. E quarta-feira eu sofri um acidente de carro. Mas sou muito ruim pra morrer e voltei pra perturbar todos vocês hahaha
Enfim.... Boa Leitura!!

CAPÍTULO OITO

Dragão de frente ao mar

Definitivamente, ela não se arrependeria quando arrancasse a cabeça do maldito bastardo arrogante. Riria sobre seu ridículo cadáver e faria de suas entranhas um colar. O asqueroso ser que se denominava seu marido sequer se dignara a lhe dirigir uma de suas divinas palavras, pois estava ocupado demais cavalgando gloriosamente diante da pequena comitiva que se dirigia ao castelo McGregor. Eles tinham esperado umas duas horas até o barco irlandês com os cavalos e sua arca chegar e demoraram mais meia-hora para colocar a arca nas costas do boi que seu tio mandara para ajudar. O filho da mãe recebera um generoso dote por ela e ainda ganhara um boi.

Leonor estava se sentindo uma vaca vendida ao diabo. O infeliz não dizia qual caminho tinham de tomar e permanecia circunspeto como se só existisse sua ilustre pessoa no mundo. Ela quis rachar seu crânio a pauladas, mas foi controlada e tratou de conversar com Mary e Fergus, até mesmo riu das reclamações de Tess. Mas isso não amenizava sua raiva pelo indivíduo. Ele a tinha beijado. Não de forma seca como no casamento, mas com uma ardente fúria que ainda a fazia vibrar de emoção.

E isso não era bom. Ele era um McGregor, não um ser humano. Não um homem. Um bruto selvagem, um cavalo – ou, melhor dizendo, um boi desesperado para acasalar com a vaca que comprara. Ela realmente estava se sentindo assim. Sua autoestima morrera afogada quando pediu ajuda a um McGregor.

Homens! Criaturas medonhas que querem empalar seus desejos no corpo de uma mulher. Seria gratificante se meu marido tivesse três chifres, mau-hálito e um dente pendendo sobre uma língua bifurcada. Assim eu quebraria seu cabeção com uma pedra com mais alegria.

Iain e Fergus arregalaram os olhos para ela. Droga. Sério que tinha falado seus pensamentos em voz alta? Mary estava rindo com Tess e seu amaldiçoado marido permanecia perdido em seu mundo de ouro. Era provável que vivesse em uma nuvem rosa e fofinha, longe de qualquer complicação cujo nome começava com L e terminava com R.

Eles estavam sobre o lombo de um cavalo há muito tempo e a viagem a estava cansando absurdamente. Sentia dor no traseiro, entre as pernas, na coluna, nas coxas e até na alma. Estava disposta a aguentar tudo em silêncio, pois sabia que ele a humilharia de novo se lhe pedisse alguma coisa.

Que raça desprezível você é, McGregor...

Aquela pervertida criatura alienígena jamais a tocaria outra vez. Ela cortaria a garganta antes de deitar com ele outra vez. Ele provou seu corpo na noite de bodas e ela sangrara como um porco com a garganta degolada. Não permitiria que a tocasse outra vez, não importava o que acontecesse. Teria de força-la se quisesse ao menos um abraço.

Mas um abraço levava a um carinho, e um carinho a um beijo e um beijo a... Um murro no nariz aquilino e cinzelado daquele porco depravado. Não deveria toca-la. São inimigos. Ponto. Nada mais. Ela jurou que arrancaria a cabeça dele e o faria sorrindo e cantando alegremente nos verdes prados ensanguentados da Ilha de Skye. Oh, sim, não teria piedade! Seu marido uma ova! Aquilo era um castigo, uma praga das Parcas sobre seus ombros.

Leonor olhou ao seu redor, admirando a paisagem que a cercava. Montanhas se erguiam diante deles como dragões sentados e a espera do momento oportuno de decolar em um voo rasante por entre as nuvens carregadas. A Península de Trotternish tinha uma beleza surreal, como um cenário de conto de fadas, mas a bruma que a rodeava a deixava sinistra, quase tenebrosa. Eles estavam subindo por uma estradinha irregular de pedras e o terreno incomodava Vento Selvagem, mas sua égua também não ousava reclamar. Leonor ouvia o ulular de mochos, o assobiar do vento e a doce e tranquilizante canção do mar, o que a relaxava como nada mais o fazia. Os acidentados escarpados que rodeavam a baía eram altos e ela já buscara visualmente algum que não a impedisse de saltar para nadar, encontrando um que por muito pouco não ultrapassava seus limites humanos. Sabia que a água era gélida de doer só pelo vento que lhe adormecera a pele.

Sua ferida estava doendo, pulsando e incomodando a ponto de ela querer chorar. Voltara a sangrar após o beijo, mas ela não dissera nada a ninguém. Quando chegassem ao castelo, pediria a Mary para fazer os pontos. Olhou para o braço. O tártan do McGregor estava empapado de sangue, agora novo também. Ela trincou os dentes e ergueu o queixo, a cabeça rodando pela tontura. Sentia-se enjoada, mas tinha de se manter firme até o final.

Controlando-se apenas com a força de seu orgulho ferido, continuou cavalgando a passo lento com o grupo, rogando a Deus que chegassem logo ao castelo. Ela nunca desmaiara na vida, mas sentia sua primeira vez muito próxima.

A bruma foi ficando mais densa, quase lhe impedindo de ver adiante, mas ela era capaz de reconhecer a forma das costas de seu marido. Seguiu-o, tonta e com fraca. Suor frio escorria por sua testa, pregando sua franja ao rosto. Leonor estremeceu de frio e se encolheu dentro de seu vestido. Estava se sentindo cada vez pior, mas não podia fraquejar. Estavam quase chegando e não seria motivo de atraso para ninguém por causa de uma bobagem.

Ela apressou sua montaria para ficar mais perto de Mary e de Tess para não se perder do grupo; imperiosa como uma rainha e fraca como um bebê. As mulheres conversavam e às vezes, falavam banalidades apenas para passar o tempo com algo divertido. Leonor forçou um sorriso, dissimulando qualquer indício que desse a notar seu mal-estar.

A subida finalmente parou e o caminho se tornou parcialmente plano. Quando a bruma amenizou um pouco, Leonor viu o contorno de árvores altas como gigantes que cobriam totalmente o céu de sua visão. Por Deus, eles estavam indo para onde?

Sua ferida lhe dava pontadas, desviando-a da distração que desesperadamente buscava. Doía horrivelmente. Ela titubeou sobre os arreios, ameaçando cair para frente quando sua visão momentaneamente escureceu, mas recuperou-se rapidamente antes que alguém visse. Tentou respirar mais tranquilamente. Ela estava bem. Tudo era psicológico. Sentiu algo quente escorrer por seu braço. Droga. O tártan estava tão encharcado que já não suportava mais o sangramento. Se tivesse sorte, ninguém veria.

De repente, ela ouviu o som de água. Como estavam muito acima do mar, não era da praia. Deveriam estar perto de alguma corredeira. Mas também não pediria a seu marido para regar as plantasaliviar o dragão, como dizia Will – não pediria nada a ele. Estava ferida, com a bexiga cheia e muito cansada. Sentia-se esgotada para qualquer tarefa.

-- Chegaremos antes do anoitecer – disse Fergus animadamente – Dragon Seafront é uma fortaleza impenetrável, cercada por uma aldeia populosa e com uma vista perfeita para o mar. Vocês vão adorar. Não demora mais que uma hora de cavalgada até a praia.

E ele continuou falando com orgulho de sua moradia. Leonor não ouvia mais, estava muito ocupada se esforçando para manter a consciência e não urinar sobre a sela. Permanecia tão rígida quanto um pau, mas chorava lágrimas de sangue por dentro. O tagarelar de Fergus já não era capaz de distrai-la. A exaustão e a perda de sangue a chamavam para a inconsciência, assim como as moitas a chamavam para o alívio.

Por todos os deuses, odiava seu marido. Criatura repugnante. Odiava-o ainda mais por ter gostado de seus beijos, porque era pecaminoso, errado, proibido. Espero que meu útero descame até a última célula por você, meu querido marido...

Precisava se lembrar sempre de quem ele era: um McGregor.

Ai, que dor!

Ela seria mais simpática se eles parassem por cinco minutinhos.

Fergus falou por um tempo que lhe pareceu uma semana, mas foram apenas alguns minutos, quando Leonor ouviu um fraco choramingar. Aquilo a despertou de seus problemas insignificantes.

Silêncio. Será que ouvira certo?

Estava se recriminando por estar enlouquecendo quando ouviu outro choramingar. Era como um gemido, um... Ouviu vozes e risadas de crianças. E o choramingar se repetiu junto com as risadas. Era um som distante, mas alcançável. Olhou para a comitiva e abriu a boca para ordenar que parassem, mas o choramingar sôfrego alertou todos os seus instintos mais protetores. Sem pensar duas vezes, Leonor puxou as rédeas de Vento Selvagem e apeou sem necessitar da ajuda de ninguém. Afagando rapidamente a crina branca de sua égua para acalma-la, disparou em uma louca carreira por entre as árvores, seguindo o som da água e dos gemidos.

Duncan estava ansioso para voltar para casa. Seu castelo estava a apenas alguns minutos de distância, assim como a aldeia. Estava com saudade de seu trabalho, mas não poderia dizer com tanto afeto sobre sua gente. Seu povo o temia demais, sequer era capaz de ver tudo o que ele fazia por cada um dos aldeãos. Estavam cegados pelo pavor de sua reputação e do sangue que nutria suas veias. Ser filho de Lachlan McGregor tinha poucas vantagens e muitos problemas, alguns que por anos foram irreversíveis. Porém, ele queria estar de volta. A viagem de seu casamento fora estressante e cheia de emoções que ele desprezaria tranquilamente, sem qualquer esforço.

Mas havia alguém para quem ele queria voltar em seu castelo. De todas as centenas de pessoas que estavam sob sua proteção, apenas uma era sinceramente importante para ele, apesar de cada aldeão ser como uma parte de seu corpo.

Sentiu uma inquietação atrás de si e um silêncio muito estranho. Sempre que estava calmo demais, significava que sua esposa estava aprontando alguma coisa. Ele se virou sobre os arreios, fazendo a contagem da comitiva para ter certeza de que estava todo mundo. Um, dois, três... Franziu as sobrancelhas. Contou outra vez. Sim, faltava a bendita esposa inglesa. A égua não estava ali, tampouco sua dona.

Por todos os pregos de Cristo, onde estava ela mais uma vez? Será que ele teria de viver em constante estado de estresse? Nunca haveria paz? Puxou as rédeas de seu cavalo de guerra e se voltou para o caminho, com a esperança de encontra-la.

-- O que foi? – indagou Iain.

-- Leonor – o nome dela explicava tudo – Siga em frente, encontro vocês em breve. Quero que Fergus recolha a égua dela.

Iain assentiu solenemente, sem fazer qualquer pergunta ou tentar ser invasivo. Esse era um dos motivos para Duncan gostar dele. Esporeando sua montaria, Duncan cavalgou como um possesso pela estrada, os olhos varrendo habilmente a estrada de cascalho. Nunca que aquela maldita poderia ficar quieta. Ela nunca lhe dava um segundo de paz. Até agora, nesses três dias de convivência, o único momento no qual ele não franziu as sobrancelhas e teve uma crise de dor de cabeça foi quando a beijou. Até então, a paz era um conceito desconhecido por sua pessoa, um enigma distante, inalcançável. Seu cavalo resfolegou com impaciência e ficou um pouco inquieto, sinal de que a égua estava por perto.

Muito bem. Teria uma conversinha séria com sua esposa. Muito séria. Ele queria distância entre eles, mas de um modo menos distante. Jesus, sua cabeça parecia que ia explodir. Leonor iria mata-lo sem precisar da espada. Uma morte muito dolorosa e extremamente lenta.

A égua estava parada no meio da estrada, como se esperasse o retorno de Leonor. Não havia como se, ela realmente estava esperando por Leonor. Ela relinchou e seu cavalo resfolegou, cabeceando. Duncan parou sua montaria com um puxão das rédeas e ficou atento a qualquer som que indicasse o paradeiro de sua esposa. Ele duvidava que alguém a tivesse atacado. Se um saqueador foi tolo o suficiente para leva-la, já deveria estar implorando clemência a Deus. Sem dúvida alguma, o pobre coitado estaria pensando que já se redimira de todos os seus pecados só com a companhia dela. Se Duncan visse alguém com as orelhas podres de tão desgastadas, era porque tinha estado ao lado de sua esposa por três minutos.

Ele esporeou o cavalo e se embrenhou na mata fechada, cavalgando como um possesso. Seus ouvidos estavam captando uma vozinha auditivamente dolorosa e bastante familiar, assim como estranhas vozes infantis e um gemido sôfrego. Ao longe, Duncan viu uma corredeira e três meninos sujos de terra da aldeia. Agitavam as mãos e falavam alguma coisa. Ele puxou as rédeas e apeou antes de esperar o cavalo parar, a fúria sendo exalada por suas narinas. As crianças se viraram e arregalaram os olhos, tremendo e se encolhendo de pavor. Estavam com tanto medo que congelaram. Um deles urinou.

-- O que está acontecendo aqui? – indagou. Não amenizou o tom de voz, o que apavorou ainda mais os meninos. Que se danassem, ele queria saber onde se metera sua esposa. Leonor levaria uma boa sova no traseiro por estar fazendo tudo isso com ele.

-- A... A mo...moça che...chegou de repente – gaguejou um deles, os joelhos tremendo tanto que pareciam que iam se partir a qualquer momento – e... Ve...veja!

Ele apontou para algo atrás de Duncan. Ele se virou, imaginando qualquer tipo de situação em que ela poderia estar envolvida e não deveria ter se surpreendido ao ver que não acertara nem passara perto: Leonor estava com as saias erguidas até as coxas – amarrara-as no quadril – mostrando suas exuberantes e torneadas pernas firmes para quem quisesse ver. Suas sapatilhas estavam largadas na terra, enquanto ela entrava na corredeira sem qualquer medo, segurando-se em um galho fino da árvore mais próxima e esticando a outra mão para pegar uma sacola.

Uma estranha sacola que gemia.

-- O que tem naquela sacola?

-- Um filhote de lobo – respondeu o segundo menino, escondendo-se atrás do primeiro. Duncan estreitou os olhos para eles e o primeiro urinou como o terceiro – Foi rejeitado pela mãe! – explicou-se o menino rapidamente – Nasceu muito maior que os outros filhotes e é o único dentre os cinzas que é preto.

-- E a mãe deles mata nossas ovelhas! – disse o terceiro garoto.

-- Por isso tentaram sacrifica-lo?

-- Ele morreria de qualquer forma, provavelmente morto por algum javali – prosseguiu o segundo menino. O primeiro congelara no mais puro terror – A mãe se recusou a amamenta-lo e o pai tentou comê-lo. Estávamos em cima da árvore e vimos tudo. A moça não deveria tentar salvar criatura mais estranha. Ele é feio.

Duncan compreendia bem o pensamento dos meninos. Não tentavam fazer maldade, apenas queriam encerrar com o sofrimento do filhote. Mas também compreendia sua esposa. Ele não sabia que ela seria capaz de se arriscar por um animal que já deveria estar morto, mas... Ela também se arriscara por ele. Lutara como uma leoa pela vida dele e pela própria, por que lhe parecia admirável que tentasse fazê-lo por um filhote de lobo rejeitado pelos pais?

Ele suavizou a expressão.

-- Voltem para suas casas, está tudo bem.

-- Sim, senhor!

Os três saíram correndo aos tropeções. Duncan só se voltou para sua esposa quando eles desapareceram por entre as árvores. Sentiu certo respeito por ela e aquela pressão desconfortável no peito retornou. Ela estava se esforçando por uma causa perdida e essa força de vontade obstinada também lhe deu vontade de tentar. Sua dor de cabeça sumiu enquanto andava para a corredeira, tirando as botas de caça e entrando na água. O galho se partiu e ela oprimiu um grito, mas sobressaltou-se quando Duncan a segurou para impedi-la de cair na água e ser levada por ela. Leonor se virou para ele e arregalou os olhos.

Ele estava com um braço ao redor de seu quadril, sustentando-a com seu corpo, sentindo suas costas contra seu peito. Ela era suave e isso o fazia se sentir enorme e destrambelhado. A dor em sua virilha lhe alertou de que outra parte de seu corpo também gostava dela.

Gostava? Não, isso era exagero. Suportava se encaixava melhor.

Aprumou-a contra si, tentando não parecer malicioso.

-- Eu... – ela desviou o olhar para o saco que gemia na água, amarrado por uma corda em um frágil tronco que ela não poderia alcançar a não ser se nadasse até o meio da corredeira, onde era mais fundo e mais forte. Seus olhos pareciam cheios de lágrimas pelo filhotinho, mas a determinação férrea a impedia de chorar. O filhotinho morreria se não fizessem nada. – Deixe-me, McGregor! Não importa o que você diga também, vou salva-lo!

-- Por que acha que estou na água com você?

Ela arqueou as sobrancelhas, momentaneamente surpresa. Segurando-a pela cintura, ele a ergueu e a colocou na terra, onde era seguro. Leonor tentou protestar, mas Duncan era firme.

-- Espera! McGregor...

-- Fique aí, eu pego o filhote.

Ele não arriscaria a segurança dela. Cuidava muito bem do que lhe pertencia.

À medida que avançava, a água ficava mais forte e mais funda, ameaçando leva-lo. As pedras machucavam seus pés e escorregavam, tentando derruba-lo. Ele era grande e pesado, o que lhe dava a vantagem que Leonor não possuía. Quando chegou à metade da corredeira, a água lhe cobria até a cintura e o puxava com uma força quase superior a sua própria. Esticou a mão para pegar a sacola com o filhotinho e a ergueu, ouvindo um gemido quase aliviado. Levou a outra mão ao cinto em seu kilt e puxou uma adaga, usando-a para cortar a corda. As pedras cederam e Duncan quase escorregou. Não conseguia acreditar que Leonor estava uma pilha de nervos atrás dele. Voltou a guardar a adaga no cinto e a sacola se abriu, revelando uma criaturinha realmente estranha e peluda. Era grande para um filhote, mas não possuía dentes e sua pelagem escura era arrepiada. Estava encharcado e tremendo, quase miando. Duncan apertou a criatura contra o peito e andou cuidadosamente o caminho de volta. Mais uma vez, as pedras cederam e ele por muito pouco não foi levado pela água. Sentiu-se aliviado ao pisar em terra.

A água o gelara até os ossos. O pequeno lobo se aninhara a ele, buscando o calor de seu corpo, o fofinho molhado e frio contra sua pele. Antes que pudesse pensar muito a respeito, Leonor se lançou contra ele, rodeando seu pescoço com os braços e se pendurando nele, depositando beijos em sua bochecha. Ela sorria graciosamente, abraçando-o com uma ternura que fez aquela pressão em seu peito esmagar seu coração de tão forte que foi. Ninguém jamais fizera aquilo com ele, despertando estranhas reações em cadeia no mais profundo de seu ser. Ela mexia com ele a um nível que não compreendia.

-- Obrigada – ela disse, pressionando os lábios mais uma vez em sua bochecha. Ele ia devolver o abraço quando ela se afastou, as bochechas enrubescidas. – Meu Deus, obrigada, McGregor.

-- Tome. É seu.

Ele lhe entregou o filhotinho. Leonor arregalou os olhos e surpresa, mas sorriu amavelmente quando o lobo gemeu. Segurou-o em seus braços como se fosse um bebê, aninhando-o, oferecendo seu calor e seu amor incondicionalmente da aparência do filhote gigante. Era o tipo de expressão que Duncan sempre quis receber de alguém, mas que sabia que nunca receberia. Ela afagou o pelo negro.

Ela seria uma mãe estupenda. Corajosa, amorosa... Tudo que ele não tivera.

Desconfortável, ele se afastou, indo na direção de seu cavalo. Salvara uma criatura estranha e lhe presenteara, já fizera muitas boas ações hoje. Agora, deveriam ir para o castelo e descansar alguns minutos antes de assumirem suas tarefas. Estava prestes a pegar as rédeas de seu cavalo, quando Leonor apareceu ante ele como uma assombração. O lobinho já dormira em seus braços, completamente seguro e...

Ela estava com a ferida sangrando. Por que ele não notara antes? Ele costumava ser mais observador. Leonor estava pálida e sangrando, provavelmente muito perto de desmaiar, o que o fez se perguntar de onde tirara forças para entrar naquela corredeira.

-- Ajude-me a dar um nome para ele – pediu ela, sorrindo timidamente.

-- Coisa – disse ele sem pensar, mais preocupado com a ferida dela. Precisavam partir agora para costurarem essa ferida.

Ela franziu as sobrancelhas.

-- Falo sério.

Ele sabia disso.

-- Não sei que tipo de nome se dá a um animal. – confessou por fim.

-- E o seu cavalo?

Ele estava se sentindo idiota com aquela conversa.

-- É apenas cavalo.

-- Certo... Mas ele terá um nome e você vai me ajudar. Pense que é seu primeiro filho. Que nome daria a ele?

Duncan a segurou pela cintura e a ergueu, sentando-a sobre a sela, ouvindo o timbre saudável de sua voz com... alívio? Talvez. Agilmente se sentou atrás dela, tomando as rédeas do animal, sentindo seu quadril entre as coxas. Queria deitar com ela, não podia negar. O desejo chegava a ser doloroso. Tentando não ficar muito próximo para não assusta-la com sua masculinidade, direcionou-os para a floresta mais densa, buscando a estrada outra vez.

Será que toda vez que se encontrassem, ela estaria molhada?

Conheceram-se quando ela saía do mar e iniciavam a vida de casados quando ela saiu da corredeira. Sempre tinha água envolvida.

Mais uma vez, sentiu-se impelido a provoca-la.

-- Discórdia – falou por fim. Ela fez uma careta.

-- Está brincando. Nunca botaria o nome de um filho seu de Discórdia.

-- Dor de Cabeça.

-- O quê?

-- É o que eu sinto desde que te conheci, moça.

Ela reprimiu um sorriso, mas seus olhos mostravam travessura.

-- Eu tenho o dom, Will sempre disse isso. Vamos, pode fazer melhor, McGregor.

-- Não consigo ver isso como um filho.

Ela sorriu brincalhona.

-- Mas ele parece tanto com você! Acho que você é o pai.

Duncan arqueou uma sobrancelha provocantemente.

-- E você é a mãe?

Ela hesitou, mas não caiu na brincadeira como ele esperava.

-- Creio que sim. Então, qual é o nome dele?

-- Escolha um nome, qualquer um está bom.

-- Você não me ajuda, sabia?

-- Não sirvo para isso.

-- Mentiroso. Vou colocar um nome inglês então.

Ele suspirou.

-- Tudo bem, você ganhou – desistiu ele, esporeando o cavalo pela estrada. Tinham de chegar o quanto antes para que a ferida dela fosse tratada adequadamente, antes que infeccionasse ou coisa pior – Vou pensar em um nome para a coisinha.

E ele estaca incrédulo consigo mesmo, porque realmente estava disposto a tentar pensar em algo para nomear o filhote horroroso. Talvez devessem batiza-lo de Susto.

Ela se recostou em seu peito e fechou os olhos, sustentando o filhote como se realmente fosse um filho, extremamente cuidadosa e amável. Ele apoiou o queixo no alto de sua cabeça, inspirando o aroma de canela que exalava dela. Leonor parecia relaxada e segura em seus braços. Acomodou-a em seu corpo, segurando-a para que não caísse enquanto o cavalo trotava pela estrada. Estava começando a nutrir respeito por sua esposa, mas era o sentimento máximo que poderiam nutrir um pelo outro. Ela não simpatizava realmente com ele, a não ser quando era uma situação de alto risco, como quando foi ferida pelo viking. Ou agora. Mas ele estava bem como nunca estivera ao tê-la aninhada em seus braços, então aproveitaria bem a sensação de paz o quanto durasse.

Apertou-a contra si, sentindo seu corpo em cada fibra de seu ser. Ela se acomodou inocentemente, enterrando o rosto em seu peito. Mesmo sobre a camisa de linho, ele podia sentir como ela estava quente pela febre. Uma dor em seu peito o incomodou. Ela estava com muita febre e sangrava. O alívio não chegou nem quando, por fim, chegaram a Dragon Seafront Castle.

Notas finais
CAMPANHA CORAÇÃO FELIZ: UM REVIEW PELA SAÚDE DO CORAÇÃO DO ESCRITOR *OOO*