Pra-eterum
7 Capítulo VII - Fogo
Notas iniciais
O fogo ascende da sua caixa de fósforos...
A primeira vez que nos encontramos fora em um desencontro fadado ao fracasso. Meu querer bucólico restava substituído por minha aspiração ao desconhecido, ou pelo novo.
Talvez, fosse isso o que fosse, era você, tragando um cigarro escuro e soprando uma fumaça que, em epítome, fora minha libertação.
Seguir pela primeira vez um desejo de fazer errado, de estar errado, era como caminhar por entre os solos não germinados do meu hipocampo.
Por um instante ou triz, eu quis estar assim, para que tu viesses e me guiasses através de sua dúbia trajetória.
Consciência era meu óbice nessa aquiescente epopeia, todavia, criei fendas sinápticas simpáticas a tua causa, e me deixei bebericar um pouco dos licores da tua boca. O palato agro do álcool foi um deslinde para meus sabores favoritos e, por um incrédulo segundo, eu desejei só a isso tomar.
Eram breves os momentos ao teu lado, aos quais esbocei curtas anedotas que contavam um pouco sobre meus verdadeiros anseios a você relacionados.
Quando a primeira estrela brotou no céu, eu só não a enxergava mais, tudo o que via parecia um sobrestamento, um décor emoldurado de noite, algidez e paixão.
Ah, o fogo emergia quente em antítese ao frio vento; ele sorria dos fósforos que você trazia no bolso de seu jeans rasgado, e aqueciam pouco enquanto brincávamos de “eu nunca...”.
Sob a égide de um crepúsculo primaz, eu te pedi um trago. Dê-me um cigarro, diria Oswald de Andrade, mas eu apenas saboreei o fruto do seu câncer amargo.
Foi como sentir uma doença se infestando em meu corpo, meio morto; submergi dúvidas enquanto a nicotina fazia seu tour erga omnes em minhas veias, artérias e pulmões.
Ora criada uma força inefável que me fazia querer te beijar. Optei pelo seguro de carícias contidas e, deitados no meio-fio de uma rua vazia, eu ouvia a noite rosnando em sua natureza crua.
Instantes antes de nos despedirmos, você balançou uma caixinha provocando um barulho de quase chacoalhar. Confesso que me senti apavorado com a metafísica da paixão, que era metáfora de uma chama que deixava bitucas de cigarro ao chão...
Então, sua caixa de fósforos causou um estampido,
e o calor do fogo se materializou,
devia ser paixão ou um sentimento perto do desejo
o que você me deixou.
~Gabriel.
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