Pra-eterum
3 Capítulo III - Penas
Notas iniciais
As penas desvanecem em divergência aos corvos...
A visão se turva durante alguns instantes. Posso perceber o vislumbre de um pretérito distante, conjugado em reatamentos mês a mês.
Há uma dualidade na perspectiva de um lobo que, no fim do inverno, pouco antes do início do equinócio, olha para o céu e vê um corvo o sobrevoar.
Você me trazia o sabor do vento, misturado ao desconhecido. Muito se dizia sobre Capricórnio e Gêmeos, e posso afirmar que, nesse sentido, dissentimos.
Brigas homéricas nos aguardavam em idas e vindas de um relacionamento não ortodoxo.
Sua personalidade era estranha a mim, como eu era estranho.
Atuamos numa pantomima desleal. Dizíamos palavras pelo simples prazer em machucar. Eu me recordo de escolhermos litigar, mesmo em sintonia pura e rara; devíamos gostar, ou, ao menos, assim me recordo.
A memória, contudo, pode ter começado a falhar.
Nós nos servimos de certa forma. Analisando melhor, nossa divergência causava certo desígnio de nossas vontades.
É estranho perceber que estivemos juntos por tanto tempo. Mesmo com a acrimônia, o exórdio de uma junção tão casual resultou num arquétipo particularmente singular.
Fomos metafísica enquanto brincávamos de adolescentes. Nossas conversas durariam horas e horas, ou simples minutos. Não importava. O gosto de confabular sobre o tempo ou o vento era gostoso enquanto tinha tua boca para apreciar.
Um amor como o nosso? O quanto podia durar? Uma estação, talvez, ou umas doze. Seria sempre inverno, e estaria sempre frio, todavia.
O voo e resplendor de suas asas negras, ó elegantíssima Mulher Corvo, mostravam marcas profundas de feridas silenciosas e horizontais.
Fiquei feliz quando soube que meu uivo, ainda tímido, te salvou aquela noite.
E gostei do fato de ter sido assim contada a nossa história.
Comigo te prometendo algo que jamais conseguiria cumprir, e você aceitando tal oferta, ainda sabendo da minha inoperância fática.
Considero-te o fator derradeiro de todas as minhas escolhas posteriores, e passei a entender cada dia mais o seu significado em minha frágil existência.
Por um lado, escuro e frio era só o céu; eu cheguei a pensar que nosso amor nunca fosse morrer. O que, de certa forma, não é uma mentira, visto que ainda não aconteceu.
Em algum momento, nosso dissentimento diluiu e evaporou. Estávamos, então, separados de verdade...
Mas eu ainda admiraria, meio bucólico;
as penas de um corvo, desvanecendo enquanto caem.
~Gabriel.
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