Pr3liminares
4 Terror
Terror
A noite já come tudo que vê pela frente, e as estrelas opacas adormecem. Da estação de trem era como se uma grande lona obscura cobrisse o firmamento, ficando de luz apenas lâmpadas adoentadas e telas — informantes das horas, segundos, minutos. A chuva cessa agora, mas o estrago está aqui: barra da calça jeans molhada, a linha do trem com velocidade reduzida, o vento frio direto no nariz, bolsa pingando. Cruzo as pernas, checo o celular: nenhuma mensagem.
Teria caído no sono, se na solidão da noite, com dois gatos pingados na plataforma, algo não houvesse dado um tranco no meu coração. Eu não sei por quanto tempo ela estava ali, perto da escada rolante desligada. Quase escondida embaixo, no vão triangular, metade do rosto oculto na sombra. É. Eu a conheço. Bem construída, num talhe de modelo, o rosto oval, fino, os olhos rasgados — mas como?
Fecho forte os olhos, abri: lá está, sem dúvidas, é ela! Mordo os lábios, rio, a cara meio transfigurada, estava viva? Como?
Estremeço, o som do alto-falante avisando os problemas da linha, os passos dos que ousam andar pelo concreto da estação, aquele cheiro de chuva e barro, minha boca seca. Ela continua de pé, com a mesma roupa do último dia em que a vi, a mandíbula travada, os olhos mágicos que tanto amei fixados. Faíscas trituram-me vindas daquelas duas janelas vingativas. Não é a mesma, definitivamente. Mas como? E viva?
Desvio o olhar. Era o cansaço do trabalho que me colocava para o delírio; eu bem havia calculado que uma re-aparição seria improvável. Claro, é o dilema moral tomando conta (e essa hora da noite). Não estou arrependido, no entanto. Não. — Levanto uma sobrancelha, ajeito a jaqueta jeans e ergo a postura. O trem agora vai parando devagar, enquanto meu reflexo nas janelas da máquina aumenta e recua. Vivo. Sangue quente vibra em minhas veias. Sou um sobrevivente por direito.
Sem olhar para trás, embarco. Lá está, não disse? A escada rolante vazia. Suspiro, juntando os dedos uns aos outros. Fecho os olhos. A cabeça agora martela nos acontecimentos de umas semanas atrás. O descarte foi perfeito, nem velório pôde ter. Como um entusiasta da medicina e de hidrografia, eu sei o que estava acontecendo (além da minha satisfação) — e sinceramente, eu teria feito mais pelo meu prazer de justiça, mas eu tenho limites. Tenho limites.
O trem para na estação, arregalo os olhos. Lá está ela na outra face do vidro, com um olhar pior que o primeiro. Até morta me atormenta, como se fosse capaz de me ludibriar ou me enlouquecer. Dou um riso escarnecido, que pula as rugas em redor de meus olhos. Observo minhas mãos, grossas, jogadas em minhas coxas. Flashes daquela noite, da pólvora em meus dedos, do suor espalhado em minha camiseta, alegram minha mente.
Primeiro, não sabia nadar. Segundo, não havia se quer alguém por perto para puxá-la. Ela afundou com uma bala enfiada na boca, dor suficiente para que morresse engolindo barro. Quem ela achava que era? Se simplesmente foi quem foi por minha causa?
Ora, nada mais justo. O feito está feito, afinal, e minha estação vem chegando em poucos instantes. Desembarco, subo as escadas. Não havia o que temer. Na rua, coloco a cara no celular. Bem na ponte, embaixo uma fila de carros brilhantes, um esbarro.
— Perdão, perdão, — digo, — mas não é possível...
Essa mulher, de face sombria, eclipsada, desmanchando todo cabelo pelo asfalto como cobra trocando de pele. Eu te afundei. Afundei você para sempre! Grito, de costas para o parapeito da ponte; mas o delírio não está indo embora. O meu delírio não vai embora!
Um grito surdo trava em meu peito. Ela vai sorrindo e borbulhando, ácida, camuflada na lona de escuridão, calcificando cada centímetro de pele, uma massa branca matando-a como um monstro, sapa. Saponifica aqui, em minha frente, um nada, o nada.
Grito, corro, olho para trás. A última coisa que vejo é sua face desfigurada, pálida, queimando vingança em minha direção. Ela vem vindo, vindo para me afundar no ar, como fora afundada n'água!
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