Ideação

Tem uma árvore que dá para ver da janela de casa. Passo a madrugada no parapeito olhando para ela e imaginando algumas coisas. Na maior parte das vezes, essas coisas são cheias de fascinação; afinal, aqueles ramos estão ali há centenas de anos e continuariam a estar mesmo após muitos anos do meu enterro. Na outra maior parte das vezes, imagino qualquer pessoa vindo ali, de supetão, rasgando a madrugada, para se enforcar.

Eu não sei como faria para impedir essa pessoa. Seria possível gritar? Daqui da janela aquela alma me ouviria? É difícil dizer, porque eu nunca fiz um teste de som e de qualquer forma nem faria. Não tenho ninguém que fique do outro lado, na árvore, enquanto eu grito. Esse tipo de coisa não se faz mais. De todo jeito, eu posso chamar a polícia. Estou vendo da janela do meu quarto essa pessoa selando seu destino numa árvore, vocês podem fazer algo? E provavelmente a pessoa morreria, porque só tem duas viaturas na cidade.

O que fazer, então, para evitar?

Porque qualquer dia desses alguém iria ali dar fim em alguma coisa. E eu estou um pouco preocupado em estar pensando nisso todas as noites, olhando para a árvore. Eu deveria estar fazendo outras coisas, por exemplo, jogando, conversando, preparando o trabalho de amanhã, mesmo que todas essas coisas me deixem exausto. Mas a árvore, não, e tudo de imaginário que nela eu crio, é energia.

Outro dia, penso que talvez antes de alguém chegasse outro alguém ou um raio e pusesse fim à vida da própria árvore, bem antes que alguém a usasse como instrumento para algo. Seria triste, porque eu não teria mais o que olhar. Também muitos casais que deviam usar o tronco como apoio das costas iriam ficar sem um encosto, e os pássaros, se vivem pássaros ali, teriam de mudar de casa. Uma árvore faz falta, não faz?

Fico pensando se eu faço falta como ela faria; e não encontro uma resposta positiva, nem uma resposta negativa. Eu faço aquilo que eu tenho de fazer e nada mais. Eu sorrio, rio e fico quieto quando mandam e isso é o suficiente para todo mundo. Na verdade, mandam-me tanto silenciar que um dia se me calo mesmo, não notariam. E essa conclusão me soa como uma resposta negativa.

Assim, na minha janela eu olho para árvore e entendo que quem rasgaria a madrugada, bem antes de qualquer raio conseguisse, seria eu. Um dia, meu fim, na árvore.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.