Dropstopia

1.

Vão querer saber se já sorri hoje. Não interessa tanto a inutilidade do processo, eu não quero ter uma equipe médica invadindo meu quarto mesmo. Meus livros lá entregariam de vez minha doença, e todos sabem — dou uma garfada — que doentes aqui caminham sem volta. Eu tenho de bater a meta do mês, também. Suspiro e a comida trava na garganta. Virada para eu mesma. Os outros que sempre contagiam os outros me oferecem olhadelas preocupadas. Atrás de mim, tem no refeitório um folheto amarelo de neon, vivo demais para este lugar morto — grita: DROPS DISPONÍVEIS NO POSTO MAIS PRÓXIMO.

Remexo no bolso da calça e tiro a cartela de DROPS. Peguei no posto de gasolina, uma mulher com bonezinho do governo me ofereceu com tanto gosto, daí se eu recusasse mais olhares estranhos choveriam para mim — então guardei. Não mastiguei nada ainda. Um colega do trabalho mascava muito, era barulho de teclado e nhec infernal. Disse que é melhor que sexo, um prazer muito grande num chiclete. Toda sua timidez afundada nos dentes, sobrava um gordinho piadista e simpático. O chicle da felicidade, ele dizia todo santo-dia.

A guloseima foi milagrosa, na verdade. Há vinte anos, dizem, o sistema rolava ladeira abaixo. O mal do século eram dezenas de pessoas exaustas e sem esperança. A empresa que patenteou o DROPS ficou muito rica. Salvou metade da economia e refreou ímpetos revolunáticos. Simplesmente o genial chicle que cala mentes.

Sobre isso, eu já cansei de falar na sala da casa do Sílvio, da minha vontade de mascar e calar a cabeça. A casa dele é uma das poucas que sobraram enfiada no meio de um monte de tipuana. Por isso nosso grupo faz o clube do livro lá. Velharia de gente adoentada. Na prefeitura, estávamos registrados como um clubíscuo, claro. Com o tempo, ficava fácil discutir com o ruído de som alto. Uma ambulância que passasse na rua não bateria em nossa porta. Algo íntimo demais se passava ali, que fossem amores ou ideias.

De todo jeito, desse disfarce vinha metade da minha meta do mês. O resto eu cumpria religiosamente com amigos do trabalho. Contagiam-se uns aos outros é o lema dessa droga faz sete anos. Enfim, decido. Vou na reunião mais tarde — guardo o chicle no bolso.

Sílvio está certo sobre a dor ser obrigada a ser sentida. O gordinho do chicles, que não parece mais tão piadista assim, lança-me um olhar e eleva o celular até a orelha. Também almoça no refeitório. Ah, sei que é uma reação química. Sabe-se se lá se a bula desse chiclete nos diz quanto tempo um coração aguenta vazio. Levanto e vou descartar minha marmita. Um frio esquisito na barriga me atormenta. A Jéssica e ele também procuram descartar o almoço deles. Ela ri e dá uma cotovelada no cara: a Bibi precisa de um chicle, né?

(Bibi de Bianca).

O Sílvio que criou o apelido. O velho me trata que nem criança. Dezoito anos para ele era cedo, para mim quase eternidade. “Verdade, Jéssica. Sinto a desanimação daqui”. O gordinho comenta, ou assim acho que faz. Junto as sobrancelhas. O chicle dá ressaca emocional; mas não se preocupe; passa rapidinho.

2.

Mesmo com a grande sensação de liberdade que esta cidade dá, sorrio — não sei, não. Entro na pequena repartição DROP. Sílvio disse que a ideia é oferecer dezenas de opções das mesmas coisas para alimentar a ilusão de livre-arbítrio. Eu concordo. É minha terceira vez no mesmo posto e isso é uma droga.

Aguardo na sala de espera e pego a cartilha azul em cima da estante. Um chicle ao acordar, outro depois do almoço, depois um na janta. Estou com a mesma jaqueta de ontem, não dormi e nem tomei banho. Era só mascar que dava para fazer essas coisas. Por que eu fico me torturando assim, se o mundo já tem tudo que resolve. Eu sou jovem. Eu entenderia. Não precisaria ir na ambulância. Não preciso ir com eles.

“Vi aqui que você recebeu uma denúncia anônima”. Ela me olha por cima dos óculos. Os olhos dizem “terceira vez”. “Você usa os chicles com a frequência recomendada na cartilha?”

Fico em silêncio. Não é necessário falar quando sabem de mim mais do que eu mesma poderia.

“Você visita um clubíscuo também”. Ouço o barulho da língua e dos dentes mascando. Som de caneta deslizando no papel e som de dedo batendo em teclado. “Tem uma linha e você está cruzando. Eu já passei por isso”.

“Quando a ambulância vêm. O que acontece lá?”.

Ela suspira. “Não parece óbvio?” e coloca um chicle sobre a mesa. “É simples. O DROPS serve para que você viva melhor. Temos uma nação por conta dele”.

Fico olhando para a caixinha de chicle e só imagino que ela serve para saciar minha vontade de arte e de infinito pelos neurônios e sinapses, não pela verdade. O que tem de imoral nisso? Eu sei que essa gominha dissipa tudo que me assombra. Não é o gosto não é a minha boca que saliva agora, mas é meu coração que disparou na droga do visor que ela checa com atenção.

“Faça as honras de mascar agora”. Ela volta e começa a desembalar o chicle para mim. “Você terá um dia longo amanhã. Precisará de silêncio”.

3.

Eu já sorri hoje sem saber o motivo. O refeitório do trabalho está mais colorido, a comida me atrai, um arco-íris fundido no antigo nevoeiro. A denúncia deu certo, então. Jéssica e o gordinho estão na minha frente, também comendo, falando entre mastigadas. A gente só queria o seu bem e estamos aqui para te dar força, afinal, a gente sabe que a vida não é nada fácil. Dizem isso com a honestidade brutal de quem realmente acredita no bem que faz. Filosofam sobre a ambulância e o fato de não ser uma punição; mas apenas uma solução para os incorrigíveis, e que eu não precisava chegar naquele ponto de rompimento com a vida — que é difícil sim — mas que é valiosa também.

“Também não é bom se meter com gente que nem o Sílvio. Você sabe que eles mexem com o que não presta”.

Julgam que o chicle me amansou. Eu tento julgar o que dizem, presa numa dissonância de revirar o estômago. Como suportar um doce tão amargo que é isso, de sentir a felicidade mais artificial correndo nas veias? O chicle que cala mentes sufoca meus neurônios com um travesseiro velho e o quase cadáver custa a desmaiar e deixar a vida. Eles conhecem Silvio de outro departamento. O que era mexer com o que não prestava? Ler poesia e ter delírios revolunáticos? Eu ando para cima e para baixo – do trabalho pra casa – aquele clubísculo acende uma chama tão breve e esse chicle, meu deus, um clarão tão minúsculo. Uma nação? Temos uma nação? Não me sinto de parte alguma.

Jéssica abre o chicle mais o gordinho. O aperitivo após o almoço. Levanto e digo que preciso ir ao banheiro. Vomito a comida na privada e um alívio completo nas entranhas me toma, como se tirado um forte veneno do meu corpo. Olho para meu rosto pálido e fundo no espelho desse lugar cinza. Molho as bochechas, esfrego as palmas na face para confirmar que eu estou ali. Lembro da fala da mulher. Uma linha que eu cruzo.

4.

De novo Sílvio está aqui e discursa. Está de pé em minha frente, pisando no meu tapete, deixando minha noite mais miserável que o normal. Tem a cópia da minha chave. Eu confio nele, mas estou cansada. Ele tem energia e quer saber. Os dois sob a luz de um abajur, olhando uma pilha de livros e de chicle. Quando eu digo que não quero ter aquela conversa não se contém. “Eles fizeram você mascar? Te ameaçaram?” permaneço em silêncio “Bibi, eu já vim aqui. Eu estou irritado. Eu estou preocupado. Não é possível que estejam entrando no teu sistema assim, garota!”.

Qual impulso revolunático Silvio projeta em mim? Eu lamento estar destruindo um projeto.

“Não tem nada a ver com sistema” digo “fui denunciada algumas vezes e a sirene já tá me rondando faz tempo. Não vou lá e ferrar com a vida de vocês”.

“Tá usando o chicle?”

“Tô seguindo a cartilha”.

Sílvio suspira um palavrão e aperta os próprios dedos com força. Ganha um misto de líder e pai na escuridão. A voz balança um pouco, é um sopro de empatia forçada. Quero que ele vá embora e me deixe em paz. Mascar ou não mascar não é mais uma questão para mim. Ir ou não ao clube, menos. Eu preciso de silêncio, como a moça disse. Preciso de silêncio.

“Você sabe que isso é mentira, não? Que atrás do arco-íris tem um nevoeiro, não sabe?” repetindo lemas do clube. “Mascar essa droga é desnecessário. Nós queremos outra coisa, nós queremos muito mais do que um químico no sangue. Estamos aqui por tudo que é humano, por esses livros que estão aí na sua cara!”.

Quantas vezes eu fui incentivada por essas palavras e agora são ecos batendo no vazio. “Esquece. Tá na hora de você ir embora. Não vou mais ao clube. É tudo que precisa saber”.

“Bibi, não há problema algum em se desviar! E eu sei que está pensando nos motivos, quem sabe por que não saímos por aí e colocamos fogo nos chicles e reconstruímos bibliotecas e fazemos barulho. É que agora é hora de cultivo!”.

“Sílvio, pela última vez: está na hora de você ir embora”.

Algo chama atenção dele no meu tom de voz. Eu não sei. Um frio veio congelando minha barriga. Ele era insistente e talvez decidisse não sair dali até tirar mais outras palavras de mim. Sorrio para ele. Vou dar uma oportunidade, vou mostrar mais para que ele não se choque tanto amanhã.

“No começo eu queria mascar e depois eu queria bater a realidade de peito aberto e fazer algo para mudar. Eu estou cruzando uma linha, por isso essa é a última chance de você ir embora”.

A resposta de Sílvio começa, mas se mistura ao som da noite. Uma sirene ronda e vê. Ao longe, uma ambulância muda, em vermelho e azul, rondaria sob nossas nucas — doente e louca.

“Bibi, você tá de brincadeira, não é possível!” Sílvio balança meus ombros e grita.

Fugir? Por que eu fugiria de quem eu mesma chamei?

Fecho os olhos.

"Que venha todo silêncio do mundo, Sílvio".