Ânsia

Eu saio de casa e bato o portão forte. Está enferrujado e faz um barulho terrível no meio da madrugada quase amanhecida. Tinha chovido a noite passada, então o asfalto está úmido e o ar muito fresco. Não tem um só ser na rua para pegar o ônibus. Minha barriga revira. Fungo. Respiro fundo. O sol está querendo explodir no meio das nuvens; algo em mim também para eruptir. O barulho dos meus passos, dos pássaros, do vento, o cheiro de chuva, cada folha remexida pelo vento; tudo a minha volta mais vivo que nunca – algo vai acontecer.

Eu balanço a cabeça. Eu deixei minha mãe em casa, ajoelhada na cama, orando. Estou indo trabalhar para ajudar pagar as contas, e tá todo mundo sufocado. O céu amanhecendo é um assassino. O cheiro do ônibus me dá náuseas. Quando eu sento, algo aperta meu peito. Não estou nada bem. Não está nada bem. Mamãe estava orando. Sempre pedia que me guardasse. O jornal é cruel. Eu tinha visto um caso antes de dormir, perto de casa, menina da minha idade, alguém sumiu com ela. Alguém sumiu com ela.

Desço do ônibus. Morta provavelmente. Ando pra rua do trabalho. Talvez o corpo esteja nesse pedaço de matagal aqui. Uma sombra atrás de mim. O que foi seus últimos momentos? Pode ser qualquer uma de nós. Tem muito tempo que esse cara tá andando na mesma direção que eu. Eu tô sozinha. Pode ser realmente que tenha chegado meu dia de acompanhar a garota, de ter as fotos na Internet para todo mundo ver. De saber como é. Náusea. De ir embora assim. Estou tonta. Minha mãe sempre orou, não vai acontecer nada. Mas sinto cheiro. Cheiro de sangue, cheiro de morte — assassinato.

Ajoelho na calçada e meu café da manhã se vai pelo chão. Tem um homem com a mão no meu ombro. Digo que me solte, engasgo e levanto pra correr com o corpo feito de papel. Ele grita, eu atravesso e algo muito forte me toma. Ouço buzinas, passos ao redor. Minha garganta molha. Vejo o borrão de um rosto falando comigo, mas eu não entendo. Sinto umas mãos invadindo meus bolsos, alguém discando no telefone, o mundo névoa nos meus olhos. Não tem como mover um músculo, nem engolir essa água borbulhando na minha garganta. Que será que houve? Murmuro, e eu não sei se escutam. Ouço. Um zunido. Alguém diz que estavam vindo, rápido. Estavam vindo.