Power Rangers: Esquadrão Z

35 Nas Garras do Gato (Parte 1)


Notas iniciais
Sinopse do capítulo A nova invenção de Mudok ganha vida, a qual atende pelo nome de Nekovolt, um gato androide que se recusa a obedecer os comandos de seu tutor. O novo inimigo representa um desafio maior do que os Rangers imaginavam, dado o poder de absorver suas energias. Tenha uma ótima leitura (e que o poder o proteja)!

Habitualmente, Lokknon se orientava pelo fuso-horário estadunidense a fim de manter-se antenado em cada passo dado pelos seus pequenos arqui-inimigos coloridos, embora muitas fossem as vezes em que a estafa e o estresse o levassem sonolento para a cama algumas horas mais cedo do que gostaria. Naquela atípica noite, uma instabilidade elétrica chacoalhava a nave como num terremoto, as luzes em Led e néon piscando e tremulando. Aracna e Barooma nunca haviam partilhado tanta tensão juntos.

— Mas o que tá havendo? Eu tava quase colocando minha máscara de skincare quando de repente a nave começou... — disse Aracna tentando andar em meio ao tremor — ... a sacudir desse jeito! Barooma, me segura! Aaah!

A princesa aracnídea caiu sobre o colega cientista que a empurrou de leve.

— Desgrude de mim, Aracna! Precisamos avisar ao mestre de que a nave está sofrendo uma oscilação de energia alarmante!

— E se ele já souber? Ninguém conseguiria dormir com esse tremor todo!

— Não importa, ele precisa do nosso apoio agora! Mas isso é estranho demais, os geradores nunca apresentaram falhas! — disse o cientista que foi acompanhado de Aracna pelo corredor que levava ao quarto do imperador.

Lokknon movia de um lado para o outro na cama de luxo, dormindo com seu traje costumeiro e mantendo o capacete. O pisca-pisca das luzes do quarto deu lugar a explosões que salpicaram faíscas simultaneamente, o despertando sobressaltado.

— Estamos sob ataque?! Não é possível! — disse o imperador olhando em volta — Barooma! — berrou ao chamar pelo subalterno se levantando da cama. Aracna e Barooma seguiam aos trancos e barrancos pelo corredor.

— Barooma, cuidado, se equilibra! Você pisou no meu pé! — reclamou ela.

Nesse instante, o abalo se suspendeu bruscamente, mas junto a isso veio um apagão de energia que os mergulhou em trevas

— Aaaah! Apagou tudo, não quero andar por aí às cegas! — abraçou o cientista num ato instintivo — Barooma, você será meu guia, afinal o escuro nunca foi um problema pra sua visão.

— Como é escandalosa! Está bem, segure em mim e vamos até o mestre, mas sem fazer estardalhaço!

— A sua voz já é um estardalhaço, seu velho de lata. — retrucou ela tocando no ombros do cientista que tornava a caminhar. No meio do trajeto, porém, esbarraram em Lokknon que vinha do corredor a direita. O imperador apontara o facho de uma lanterna grande a eles, lhes dando um bom susto.

— Aí estão vocês! Por que não foram me acordar antes que aquele tremor me fizesse pensar que estávamos sendo atacados?

— Mil perdões, mestre! — disse Barooma — Nossa locomoção foi afetada pelo abalo que essa oscilação elétrica provocou!

— Mas e o Mudok? Ele não pode estar tão tranquilo enfurnado naquela oficina repleta de lixo metálico. — disse Aracna — Ele talvez tivesse chegado primeiro até o mestre.

— Teria sim... A menos que estivesse diretamente envolvido nisso. — deduziu Lokknon — Sigam-me, vamos até os aposentos dele.

O imperador prosseguiu apontando a luz meio azulada da lanterna para pouco mais adiante, seguido pela dupla subalterna. Acessaram a oficina de Mudok, cautelosamente adentrando no recinto. Lokknon foi passando o facho de luz pelos cantos, a curiosidade tinindo.

— Mudok? Sabemos que está aí, apareça. — ordenou o imperador em tom severo.

Uma faísca elétrica amarela se lançou da escuridão até a lanterna, apagando-a instantaneamente bem como a danificando no vidro.

— Que raio foi esse? Quebrou a lanterna do mestre num piscar de olhos! — disse Aracna — Alguém acende uma luz, por favor! Eu me sinto claustrofóbica nesse escuro!

Um par de olhos amarelos e brilhantes surgiu diante do trio que reagiu em susto barulhento.

— Vocês estão em choque? Hihihihi! — disse o ser misterioso que apresentava um branco sorriso animalesco.

— O que é essa coisa? Sendo bem sincera, acho que exagerou no clareamento dental. — apontou Aracna atrás de Barooma.

As luzes da oficina retornavam. Mudok foi visto voltando de uma porta. A figura animal se esclareceu frente a Lokknon e os demais.

— Mestre, não esperava que o senhor pudesse acordar com os efeitos da absorção de energia do meu novo projeto. — disse o androide se aproximando — Peço desculpas pelo incômodo.

— Chama isso apenas de incômodo?! Você causou uma turbulência na nave somada a uma instabilidade na energia fazendo com que eu me enganasse e você sabe muito bem como eu odeio me enganar! — repreendeu Lokknon — E tudo para alimentar seu novo bicho de estimação.

— Lamento que tenha parecido um alarme falso de ataque, mas meu filhote aqui prescisava ser abastecido.

— Filhote? Você é pai desse gatinho feioso aí? Sempre achei que você preferia cachorro. — comentou Aracna despertando antipatia no gato robótico preto com listras amarelas — E ele se chama...

— Nekovolt! — disse Mudok com austeridade a ela que recuou um pouco, ressabiada.

— Mestre Mudok, tenho sua expressa autorização para eletrocutar essa dama nada fina? Ah não, o cabelo dela já faz parecer que tomou um belo choque, hahaha. — zombou o gato, irritando-a profundamente.

— Esse bichano atrevido falou do meu cabelo! Ninguém caçoa do meu cabelo! — disse Aracna se impondo a fim de enfrenta-lo.

— Acalme-se, Aracna! Fique onde está, não seja tão intempestiva, ele é apenas um gato robótico que precisa ser instruído com boas maneiras.— assinalou Lokknon a barrando — Mudok, você o adestrou corretamente ou não?

— Nekovolt está seguramente em meu poder de autoridade, mestre. Sua servidão a mim representa a garantia da vitória sobre os Rangers. O mecanismo de absorção funciona sistematicamente em etapas que uma vez concluídas o fortalecem a um novo nível. — explicou Mudok — Mostre a eles, Nekovolt.

— Vejam, eu acabei de ganhar minha terceira vida depois que fiz esse jantar saboroso com a energia desse lugar. — disse o gato-androide mostrando seu contador de vidas no pulso esquerdo. Lokknon o analisou mais incisivo.

— Então ele pode conquistar nove vidas que nem um gato terráqueo? — perguntou Aracna.

— A cada absorção significativa, uma nova vida o tornará mais forte. Quando atingir a nona e última vida, ele será absolutamente invencível. — dissera Mudok, a autoconfiança elevada.

— Ele me parece ligeiramente familiar... — disse Lokknon o rodeando e o olhando de cima a baixo.

— Sim, é lógico, ele remete fisicamente ao gato robótico provindo de outro mundo que esteve lutando com os Rangers durante a convergência dimensional! — disse Barooma.

— Correto, lembrem-se que eu havia roubado a urna na qual ele foi selado pelo Ranger Vermelho do outro universo. Eu o elevei a um patamar superior ao que foi demonstrado antes. Suponho que nem os truques tirados da cartola do Dickerson salvarão suas crianças da humilhante derrota. — disse Mudok.

— Meow-meow, já tô com fominha de novo. — disse Nekovolt esfregando as mãos.

— Acho que é uma hora bastante apropriada para Nekovolt se alimentar de fontes elétricas abaixo de nós. — sugeriu Lokknon, otimista.

— A localização está no seu banco de dados pré-instalado. Sabe o que deve e onde deve fazer. — falou Mudok ao gato-robô.

— Positivo e operante, capitão! — disse Nekovolt batendo uma continência de modo exagerado.

— Obtenha sua quarta vida, mas não enfrente os Rangers de imediato caso venham, deve alcançar a potência total para deixa-los apavorados com seu poder. — orientou Mudok.

— Eu poderia entender isso até de trás pra frente ou com as letras desordenadas. Até loguinho, família! — disse Nekovolt que logo teleportou-se.

— O poder dele me faz lembrar de outro cara que você criou, Mudok... — disse Aracna.

— Voltaikus. Reciclei partes dele para atribuir a Nekovolt uma capacitação de eletricidade numa escala muito acima do que sua antecessor fez. Unindo isso ao potencial de drenagem de Schrondnyah, o tornei incrível.

— Espero que não esteja superestimando um novo possível fracasso, Mudok. — disse Lokknon andando próximo do androide como se circundasse-o — Juro que interdito esse laboratório se Nekovolt não disser a que veio em todas as categorias. Fui claro?

— Sim, mestre, entendido. — disse Mudok um tanto nervoso — Garanto que ele é fora de série.

***

Na Terra, mais precisamente na Alameda dos Anjos, os Rangers planejaram a noite para curtir uma badalação que se distanciava da rotina. Acompanhados de Earl, a turma se divertia ao som de uma banda de pop rock local numa casa de show relativamente lotada. O público na faixa dos doze aos dezoito anos vibrava com os solos de guitarra e vocais, balançando bastões coloridos de luz. Como os Rangers, não haviam menores desacompanhados.

— Nossa, os caras mandam esse sonzaço e só fazem sucesso aqui na cidade!? Eles merecem mais reconhecimento! — disse Austin.

— Pois é, maior injustiça! — disse Tim — Earl, você é nosso anjo da guarda por essa noite!

— Verdade, tá sendo a noite mais divertida que do ano até agora! — disse Zoe — E merece crédito extra por convencer o Damian a vir!

— Pelos amigos se faz qualquer sacrifício e aqui estou eu em pleno show de rock me sentindo um pouco mais velho. — disse o Ranger Preto expressando contentamento com a festa.

— Valeu, crianças, vocês precisavam sair do marasmo. Pra vocês terem uma ideia, um deles é filho de uma velha amiga minha hein! — disse Earl, animado com a apresentação.

— Sério? Qual deles? — indagou Jessie.

— Aquele ali, o que tá tocando baixo. — apontou o cozinheiro com o bastão laranja.

— Ah, tô vendo! Ele é um ótimo baixista! — disse Austin.

— Além de ser um gatinho. — elogiou Jessie — Tô pensando em ir pegar um autógrafo. Vem comigo, né, Zoe?

— Claro, afinal quem vai te segurar caso você desmaie de tanta emoção? — disse a Ranger Rosa abraçando a amiga de lado e balançando para cima seu bastão rosa.

— Isso apura os ouvidos de quem não sabe apreciar uma performance de baixo. — disse Damian — E aí, Tim, ainda pensa que baixistas são inúteis numa banda?

— Que nada, vocês abriram meus olhos! Quer dizer, meus ouvidos! — respondeu o Ranger Azul, arrancando risadas dos demais.

Nekovolt parara frente a uma rede de alta tensão, contemplando os vários cabos e transformadores.

— Mas que visão paradisíaca estou tendo aqui! Eu acho que vou fazer morada fixa nesse planeta! Até os estalos dos fios são excitantes! Tak-tak-tak-tak! Hahahah, eu vou amar isso!

Se reduziu em arco voltaico, serpenteando pelo poste e logo pelos fios que conectaram os transformadores de voltagem acima de 36 kV, o padrão natural das redes municipais. Se expandiu para a cadeia elétrica geral daquela área, seus raios amarelos preenchendo os fios. O blecaute afetou a casa de eventos onde ocorria o show da banda MMPR — uma sigla com as iniciais dos integrantes. O apagão causara alvoroço na plateia e um empurra-empurra se iniciou com boa parte buscando a saída dali.

— Ah não, blecaute logo hoje?! — disse Tim, atemorizado — Que saco, alegria de pobre dura pouco!

Os comunicadores tocaram de inesperado.

— Droga... — disse Austin — Pessoal, todos juntos. — falou um pouco baixo — Façamos uma corrente, um tocando no outro. Eu sei onde fica a saída de emergência.

— Mas e o Earl? — indagou Jessie.

— Ele vai ficar bem, quando voltarmos dizemos que estávamos perdidos. Agora vamos, rápido. — disse o Ranger Vermelho.

— Crianças, cadê vocês? — chamava Earl desesperado à procura dos Rangers esbarrando em pessoas aleatórias na escuridão em meio ao alarido — Ah meu Deus, eles se perderam de mim ou eu me perdi deles... Crianças!

A turma saíra pela porta indicada por Austin usando as luzes dos bastões para alcança-la.

— Você nos provou que tem uma boa memória fotográfica, Austin, parabéns. — disse Damian fechando a porta de ferro.

— Sem uma luzinha dessas não teria sido tão fácil. — disse o líder que logo atendeu ao chamado, os demais se aproximando para ouvir — Na escuta, Sr. Dickerson.

— Rangers, se encaminhem até a rede elétrica mais próxima de onde estão. A faísca que causou o blecaute tem uma semelhança de atividade com Voltaikus que vocês enfrentaram há algumas semanas. Se apressem. — disse o explorador ao lado de Karen na Central de Comando.

— Será que o Mudok criou uma versão nova do Voltaikus ou recriou ele como antes? — perguntou Zoe.

— Só vamos descobrir ficando cara a cara com o novo ladrão de energia. — disse Austin sacando seu morfador e a célula. Os outros também o fizeram e se posicionaram — Ninguém por perto, OK. Prontos? É hora de morfar!

— Touro Ônix!

— Tubarão Cobalto!

— Arraia Rósea!

— Águia Flavescente!

— Leão Escarlate!

Os heróis chegaram em saltos super-velozes até a rede de alta tensão que situava-se num campo de grama meio seca perto de uma estrada de mão dupla. Averiguaram, se separando a curtas distâncias. A corrente elétrica em arco voltaico veio avassaladora pelos fios.

— Galera, ele tá vindo, cuidado! — disse Austin voltando sua atenção ao raio amarelo que se dirigia a eles perigosamente. A faísca elétrica saltitou entre eles, logo atacando-os de modo a fazê-los sentirem o choque na pele, os derrubando facilmente com explosões no corpo.

— Como são carentes de energia os maiores heróis da Terra! — disse Nekovolt que se lançou em raio para o alto — Confesso que tô decepcionado! — caíra sobre o chão perto de um condomínio barato num beco tomado por gás fréon saindo pelos bueiros. Os Rangers correram um tanto trôpegos até ele.

— Se esse for o Voltaikus parecido com o que enfrentamos, ele voltou ainda mais forte, sem dúvidas! — disse Austin.

— Pode crer, meu peito tá queimando de tão tremendo que foi esse choque! — reclamou Tim tocando no ponto ferido.

— Foi tudo tão rápido, nossos reflexos nem deram conta de desviar! — disse Zoe.

— Ainda tenho por mim que seja algo totalmente novo, mas inteiramente baseado no Voltaikus! — disse Damian.

A silhueta de felino antropomórfico se erguia devagar em meio ao vapor branco. Olhando mais atentamente, os Rangers fizeram uma outra associação com um inimigo recente.

— Não pode ser... — disse Zoe.

— Ele voltou?! — falou Jessie, pasma.

— Mas como pode ser possível? — questionou Damian.

— Esse miserável não tava enjaulado? — disse Tim.

— Não posso acreditar... — disse Austin dando uns passos adiante — Schrondnyah?!

Nekovolt virou-se para eles exibindo seus ferinos olhos brilhantes amarelos.

— Não! Eu não admito ser chamado por outro nome que não seja... — se deslocou em forma de raio, caindo próximo dos Rangers que se afastaram em saltos — Nekovolt! — falou ao retornar a sua forma física.

— É outro cara! — disse Tim.

— Mas parece muito com o Schrondnyah! — disse Jessie — De onde você veio?

— E eu devo satisfações a vocês? Por que não chegam mais pra provar do meu chocante charme felino? Vocês vão adorar!

— Que se dane quem você seja! Rangers, atacar! — bradou Austin que avançou primeiro, desferindo chutes com giros que eram defendidos com maestria pelo gato-robô. Nekovolt o repeliu apenas num golpe de mão ao barrar um chute, levando Austin a girar verticalmente no ar e cair em latas de lixo.

Zoe e Jessie vieram em seguida num chute quádruplo, mas, sem que pudessem atingi-lo, foram derrubadas por raios elétricos disparados das mãos dele que causavam explosões de faíscas nos uniformes. Damian e Tim avançaram bravamente, primeiro o Ranger Azul o empurrando com um chute nas costas, mas Nekovolt dera um impulso com um pé na parede e realizou um salto para trás, atacando-o ferozmente com as garras estando de ponta a cabeça. Damian disparou lasers com a pistola Z, aparentemente o acertando. Porém, Nekovolt deu cambalhotas para ataca-lo diretamente, logo aplicando um chute duplo que o mandou contra uma parede.

— Damian! — disse Austin vindo atacar Nekovolt com um chute num salto, mas o gato-robô barrou o pé direito do líder com apenas uma mão e o girou deitado, logo lançando um raio que o mandou direto contra uma escada de incêndio, as faíscas estourando no impacto.

Usando de suas armas pessoais, os heróis atacavam quase que simultaneamente, o oponente elétrico esquivando das garras raptotas e das barbatanas cortantes, logo depois chutando habilidosamente Tim e Jessie que estavam em direções opostas. Austin saltou para a direita mandando, quase que de ponta a cabeça, uma boa sequência de tiros do detonador Max, causando explosões de faíscas em torno de Nekovolt que o fizeram recuar levemente. Zoe logo viera saltando de uma escada do condomínio para atacar com seu ferrão de arraia num golpe por trás, porém o gato robótico virou-se rapidamente e agarrou o ferrão, logo tascando um golpe com as garras da outra mão que partira a arma.

— Quebrou o meu ferrão! — exclamou ela, atônita.

— Seu papai não tem grana pra te comprar outro? Que peninha! — zombou Nekovolt que desferiu mais golpes rápidos com as garras de ambas as mãos contra a Ranger Rosa, o último a jogando ferida ao chão. Damian batera sua marreta no solo de concreto, produzindo uma forte onda de terra. Contudo, o gato-robô a parou com somente seu pé direito — Tenta mandar uma tsunami de terra da próxima vez, se é que consegue, hehehe!

O gato-robô se desfez em energia e foi ziguezagueando como raio atacando os heróis como fizera de início, criando um show pirotécnico de faíscas estourando e eletricidade.

— Rangers, agrupar! — ordenou Austin falando em tom cansado devido às feridas. O time se reuniu frente ao gato-robô que se materializou novamente — Se ficarmos juntos, talvez a gente não sofra tantos danos.

— Podíamos combinar nossas armas pra ver se esse gato panaca é detonado de vez. — disse Jessie.

— Fiquem onde estão, seus pestinhas! — mandou Nekovolt que disparou seus raios amarelos contra os Rangers. Mas tais descargas possuíam uma função distinta. Os heróis queixavam-se com gemidos e gritos.

— Eu sinto minhas forças... esgotarem! — disse Austin ficando de um único joelho.

A drenagem de energia dos Rangers proporcionava a Nekovolt um abastecimento altamente substancial que o fazia rir.

— Subiu, subiu, meu nível subiu! Consegui! — comemorou ele, logo cessando os raios e conferindo seu contador de vidas no qual o número três deu lugar ao quatro — Minha quarta vida tá bem aqui, não pensei que a conquistaria tão depressa e tão facilmente! E eu achando que vocês eram fraquinhos de energia, crianças! Continuem comendo legumes e verduras!

Os Rangers caíram exaustos e desmorfaram em simultâneo. Um doloroso sentimento de impotência se dividiu entre eles.

— Até a próxima, pirralhada! Obrigado por me servirem esse banquete! — disse Nekovolt que logo desapareceu em eletricidade.

— Não! — disse Austin batendo sua mão direita fechada no chão em raiva — Isso não tá acontecendo, nós perdemos mais feio do que nunca!

— Ele drenou nossa energia com uma precisão que acho até ser superior ao Voltaikus. — disse Damian levantando com Tim.

— Ele é melhor do que o Voltaikus no lance de energia, mas mostrou que é melhor do que a gente em tudo. — lamentou o Ranger Azul.

— Eu mal consegui desviar dos golpes dele, movimenta aquelas garras numa rapidez que é muito difícil de acompanhar. — disse Zoe apoiada em Jessie — E ainda por cima partiu meu ferrão de arraia ao meio.

— Amo gatos, só pra constar, mas aquele dali me deixou furiosa. Riu da nossa cara como se fôssemos piada. — disse Jessie.

— Austin, e aí, o que fazemos? — perguntou Damian.

— Pois é, deixamos o Earl sozinho lá no Angel Grooves. — disse Tim — Melhor a gente voltar, não?

— Mas não podemos voltar e aparecermos assim... — disse Jessie soando entristecida — Arrebentados, sujos e feridos.

— Vamos dizer amanhã que ficamos tão assustados com o blecaute que decidimos ir embora. — sugeriu Zoe.

— E nossos pais nos ligaram pedindo pra voltarmos imediatamente. — adicionou Damian — Agora eu não sei mais, não é uma justificativa convincente o bastante.

— Vamos voltar pra lá e explicamos ao Earl que fugimos e nos perdemos até encontrar o caminho de volta. — disse Austin que passou a caminhar tentando disfarçar suas dores físicas.

— Austin, tá tudo bem com você? — perguntou Jessie, suavemente preocupada.

— Eu tô ótimo. Aquele gato não abalou meu espírito de luta, ele vai precisar fazer mais do que só absorver nossos poderes pra nos destruir completamente. — disse o líder que parou ao fim do beco — Melhor irmos logo.

— Quando ele fica desse jeito... — disse Zoe observando o amigo.

— Sinal de que essa luta deixou ele arrasado por fora e principalmente por dentro. — falou Tim em voz baixa perto da amiga.

— Pessoal, vocês vem ou não? — chamou Austin com impaciência. Os demais foram até ele, parando ao seu lado — Beleza, vamos nessa.

Os cinco apertaram os botões de teleporte ao mesmo tempo. Pararam próximos da saída de emergência, dando de cara com Earl que surgiu milésimos após eles virem como pilares de luzes coloridas.

— Earl! Que susto você deu! — disse Tim.

— Susto tive eu agora! Onde é que vocês estavam metidos, galerinha? Procurei por vocês no meio da multidão feito um louco e vocês pareceram ter evaporado! — disse o cozinheiro vindo até eles com latinhas de energético vazias.

— É que... É que, sabe, ficamos tão alarmados com o blecaute que... — disse Jessie, nervosa — Continua você, Zoe.

— Não tivemos outra opção senão fugir. Pensamos que a luz não voltaria ainda hoje.

— Daí corremos e nos perdemos... — disse Damian.

— E aqui estamos nós de volta pra terminar de ver o show. — completou Austin.

— Odeio ter que dizer isso, mas vão ter que esperar sete meses até eles voltarem.

— O show já acabou?! Diz que é mentira, Earl. — disse Jessie, chateada.

— Pois é, turminha, pior que eles já se mandaram, tinham outro show marcado na Costa dos Arrecifes. Sinto muito, vocês perderam a melhor música no final. Homenagearam os Power Rangers, foi incrível.

— Nossa, que demais. — falou Austin com um fraco sorriso e um semblante que denotava certa tristeza.

— O que aconteceu com vocês durante esse sumiço? — questionou Earl, notando as manchas de sujeira nos rostos — Parece que voltaram de uma guerra.

— Foi bem complicado. — disse Zoe — Mas não se preocupa, estamos todos bem, já passou.

— É, sobrevivemos a essa noite. — disse Damian.

Earl fizera uma cara de desconfiança com olhar semicerrado e lábios comprimidos para cada um deles. Mas de repente alterou a expressão para um sorriso e olhar brincalhões.

— Tudo bem, crianças, acredito em vocês. Me contem mais amanhã lá na cantina, vocês devem estar super-cansados, então... — disse Earl que fora até seu carro estacionado a poucos metros — Melhor leva-los pra casa. Adivinhem qual o primeiro passageiro voltará?

— Ei, eu quero ser o primeiro a chegar em casa, minha mãe deve tá com a cinta na mão me esperando no sofá porque fugi pela janela. — disse Tim andando até ele junto aos outros.

Austin ficou parado estando reflexivo com o confronto desastroso em que foram rebaixados a meras baterias de energia. Damian parou para chama-lo de volta ao presente.

— Austin, vem logo. — chamou o Ranger Preto.

— Ah, sim... Já tô indo. — disse Austin logo se dirigindo aos amigos.

— Cê parecia fora do ar. — comentou o jovem gênio à esquerda dele — É sobre a luta, não é?

— Eu tô bem, Damian. Aquilo não doeu tanto assim pra me fazer duvidar da minha própria força. Espero que estejam tranquilos com isso, não quero parecer que tô intimidado com aquele gato pra não contagiar vocês, é sério.

— Sem problema, amigo. No que me diz respeito, eu não senti que fomos feito de gato e sapato. — afirmou o Ranger Preto tocando o amigo no ombro rumo ao carro de Earl que buzinou esperando a dupla entrar.

***

Na manhã seguinte, a Angel Grove Middle School se preenchia de burburinhos acerca de uma decisão partida do prefeito após o blecaute da noite anterior.

— Racionamento!? — disse Jessie recebendo um panfleto de Cindy que estava acompanhada de suas inseparáveis fiéis escudeiras, Kate e Lindsey — Pra ser honesta, não acho que seja pra tanto.

— Reclama com o prefeito e não comigo. — retrucou Cindy, o cenho franzido.

— Ei, Cindy, não se esqueceu do festival de teatro, né? — perguntou Kate.

— Não me digam que vocês três pretendem participar. — falou Jessie, incrédula.

— Não como atrizes, mas como juradas. — disse Lindsey soando soberba.

— Mas é trágico que a sua precisará ser remarcada, Jessie. — disse Cindy com ar debochado na sua língua ferina.

— Quem te disse isso, garota? — indagou Jessie já com a paciência ao limite — Racionamento nenhum pode mudar a data da minha peça.

— Então fale com o diretor e pergunte a ele, provavelmente não vai me desmentir. — respondeu a patricinha.

— Obrigada pela dica, a palavra dele é bem mais confiável mesmo. — disse Jessie fechando a porta do seu armário com força.

— Mas cuidado com a expectativa, Jessie. Se o prefeito decidir prorrogar o racionamento de energia, seu espetáculo pode acabar sendo... — respirou fundo para dizer com um sorriso cínico — ... cancelado.

— Cindy, dá o fora daqui porque senão eu juro que cancelo essa sua carinha de princesa.

— Ui, como ela tá de mau-humor hoje. — rebateu a patricinha que se afastou com as amigas para concluir a panfletagem.

Zoe se aproximou da loirinha tendo acabado de chegar.

— Tá sabendo da novidade sensacional? — perguntou Jessie mostrando o panfleto.

— Chato, né? Sua peça de teatro corre risco de nem ser ensaiada.

— Poxa, é um musical, o gênero que eu mais gosto e minha primeira peça que escrevo. — reclamou Jessie, apreensiva. Austin viera até as meninas e se encostou nos armários, pensativo — Austin? O que é que foi, tá tudo bem?

— Desde o fim daquela luta horrorosa que tivemos ontem você ficou meio estranho. — apontou Zoe — Pode falar se quiser desabafar. Todos nós nos sentimos péssimos.

O líder bateu de leve sua mão esquerda cerrada no armário atrás e voltou-se as garotas.

— Aquele gato desgraçado não sai da minha cabeça, ele nos humilhou de uma forma muito canalha. Isso não pode ficar assim.

— E nem vai, a gente dá o troco quando ele aparecer de novo, relaxa. — disse Jessie, determinada.

Tim e Damian vinham do outro lado.

— Galera, tive pesadelos terríveis com aquele tal de Neko não sei o quê. — relatou o Ranger Azul.

— Nekovolt. — recordou Damian — Potencialmente o pior adversário que já enfrentamos desde a primeira morfagem.

— Vocês estão bem? Fomos bem surrados ontem a noite. Eu ainda tô sentindo minha pele formigar. — disse Austin.

— Acordei com meu corpo todo dolorido. — disse Jessie — Mas tomei um analgésico que meu pai também usa e só assim pra ter disposição de vir aqui hoje. Estamos em racionamento de energia, sabiam?

— Bom pra conscientizar a população sobre consumo sustentável. — disse Damian.

— Menos pra Jessie e a peça dela. — contrariou Zoe — Tomara que possamos derrotar logo aquele gato pro racionamento não se estender.

— Acho difícil, por mais que eu confie nas nossas habilidades. — falou Austin — Vocês viram bem, ele sugou nossa energia pra ganhar mais uma vida. E ele já tinha três.

— Igual o Schrondnyah quando absorvia a juventude das pessoas. — disse Jessie.

— Espera, vocês não lembram que o Mudok tinha roubado aquela caixa do Koichi onde ele foi preso? — relembrou Tim.

Um estalo de compreensão evidenciou tudo para Austin.

— A urna... Foi isso, tinha me esquecido que o Mudok pegou a urna antes do Koichi ir embora pro universo dele. — disse o líder — Bem lembrado, Tim.

— Mudok deve ter realizado experimentos com o Schrondnyah e o mesclado ao sistema de Voltaikus em algum modelo protótipo. — aferiu Damian, pensativo quanto a ação do androide.

Zoe manifestava uma memória refrescada.

— Tô lembrando de outra coisa, gente: o Schrondnyah tinha uma espécie de vírus dentro da programação dele que seria ativado caso ele completasse as nove vidas. E se o Nekovolt for aquilo que o Schrondnyah se tornaria dominado pelo vírus?

— Mudok pode tê-lo feito chegar às nove vidas pra ativar o vírus e daí fazer as experiências mecânicas pra transforma-lo no Nekovolt. — palpitou Austin — Dois monstros em um só.

— Mas o que será que acontece se o Nekovolt consegue as nove vidas? — indagou Tim, temeroso.

— Eis a pergunta de um milhão. — disse Damian.

— Que faremos de tudo pra que não seja respondida. — disse Austin — Estão comigo? — indagou, estendendo a mão direita. Os demais colocaram as suas umas sobre as outras.

— Sempre estaremos. — disse Jessie.

— Power Rangers até o fim. — disse Austin com uma firmeza inspiradora.

Enquanto isso, Lokknon estava jubilante com o resultado agradável de Nekovolt em sua primeira missão de campo na Terra.

— Eu poderia ver essas imagens em looping eternamente! — disse o imperador saboreando seu licor púrpura — Nekovolt, você fez justiça ao símbolo do meu império em uma noite o que ninguém jamais fez em anos!

— Eu me convenceria disso se ele estivesse sóbrio. — disse Aracna em voz baixa perto de Barooma.

— Mas ele está. É incontestável a destreza com que Nekovolt levou vantagem sobre os Rangers. — disse o cientista.

— Até você vai pagar pau? Achei que nossos pensamentos estavam sintonizados, Barooma. — disse Aracna rudemente com um leve empurrão no sakorguiano.

— Mestre, quero pedir sua autorização formal para que Nekovolt repita a dose de absorção. — disse Mudok — Ficou bastante claro que a energia dos Rangers promove uma escalada mais rápida no número de vidas.

— Não me peça pra autorizar, Mudok, você toma as decisões em relação a Nekovolt sendo você o tutor instrutivo dele. — disse Lokknon — Quando estiverem prontos, ataquem os Power Pirralhos à vontade. Mas isso também depende de você, Nekovolt. Alcance sua meta em pouco tempo, você provou que é mais do que capaz.

— Obrigado, mestre Lokknon. — disse Nekovolt fazendo uma reverência cortês — É um prazer indescritível ser tão bem assessorado por um general de honra como meu pai.

— Você... me chamou de pai? — disse Mudok parecendo surpreso.

— Ué, você me criou, não foi? Você é Gepeto e eu o Pinóquio. Mais que pai e filho, somos almas gêmeas. — dizia o gato-androide entusiasmado.

— Eu... Eu fico bem lisonjeado com essas palavras, Nekovolt. Verdadeiramente.

— Ah, você não vai chorar, né? Quer um lencinho? Ah não, você não precisa pois não tem lágrimas! Hahahaha! — disse Nekovolt pegando um pano pequeno branco e fingindo enxugar o rosto de Mudok — Deixa eu lustrar sua careca.

— Não, não precisa, eu estou bem, Nekovolt, eu não preciso, pode deixar, pode deixar. — disse Mudok o conduzindo de volta a oficina — Vamos.

— Tem certeza? Que tal um oleozinho de peroba? — insistia Nekovolt entrando no corredor.

— Não acham que esses dois tem uma sinergia espontânea e promissora? Eu nunca me senti tão satisfeito com um plano de ação antes. — disse Lokknon.

De volta a oficina, Mudok estava à frente de Nekovolt entrando primeiro.

— Admito que fico muito grato, mas não é necessário que me chame de pai.

— E eu também não quero ser chamado de filho! — disse Nekovolt que de modo rasteiro disparou um raio pelas costas contra Mudok, o mandando contra uma mesa de ferramentas que caíram barulhentas — Chocado por isso? Hihihihi!

— O que pensa que acabou de fazer? — perguntou Mudok, levantando detrás da mesa, faíscas elétricas salpicando das costas — Eu sou seu criador, me deve obediência irrestrita!

— Eu lá devo algo a você! Depois que eu obter minhas nove vidas vou cair fora da sua aba!

— Não vou tolerar esse atrevimento... Você foi baixo e traiçoeiro, isso é desonroso, não foi o que lhe programei a fazer, sua máquina repugnante!

— Quem se importa com honra? Eu quero mais é curtir a vida que você, generosamente, me deu, só que do meu jeito e sob as minhas regras!

— E é assim que retribui minha generosidade?

— Você não me manteve com as nove vidas que eu consegui na minha antiga encarnação! Agora vou ter que trabalhar um dobrado pra recuperar meu potencial máximo lutando com aqueles fedelhos de roupinha colada!

Nekovolt desapareceu em teleporte como energia elétrica. Mudok ficou a imaginar uma aparente falha que deixara ocorrer no processamento relativo às memórias de Schrondnyah.

— Ele se lembra... Não pode ser, ele reteve as lembranças do seu eu anterior! — disse, batendo a mão direita fechada na mesa — Maldição!

Após as aulas, os Rangers haviam ido direto a Cantina do Earl comerem algo antes de almoçarem em suas residências. Zoe verificava fotos numa rede social pelo celular junto aos amigos sentada ao balcão.

— Olha, gente, o Owen acabou de postar as fotos que ele e o pai tiraram lá de Galápagos. — disse ela, logo mostrando a tela aos outros — Uma mais maravilhosa que a outra.

— Caramba, esse lugar é surreal de tantas paisagens. — disse Austin — Pra mim os dois já venceram esse concurso.

— Argh, que lagartixa grandona é essa? — perguntou Jessie expressando repulsa — Tá mostrando a língua... Será que é venenosa?

— É uma iguana terrestre natural das ilhas Galápagos. Eu achei incrível. Não só essa, todas as fotos são dignas de ganhar o troféu. — disse Zoe, encantada com as imagens.

— O Owen se divertindo nesse paraíso e a gente aqui na maior pindaíba. — disse Tim.

— Apoio total essa viagem, mas sem ele aqui realmente ficamos um tanto indefesos nesse momento atual. — disse Damian.

— Um tanto nada, estamos ferrados se não tivermos uma estratégia pra detonar aquele gato. — retrucou Jessie, tomando um suco.

— Pessoal, concentrem-se no que temos ao nosso dispor. — recomendou Austin — O Owen faz muita falta, é verdade, mas devemos lembrar que o Nekovolt pode se fortalecer quanto mais vidas ele ganha. Será que ele teria mais sorte?

— Pensando nisso, fico também nessa dúvida se com o Owen do nosso lado seria diferente. — declarou Zoe, incerta.

Os comunicadores tocaram os deixando em pronto alerta. Austin, abafando o toque da pulseira com a mão, levou os amigos até o corredor de entrada onde não avistaram ninguém em perigo de proximidade.

— Ninguém a vista, OK? — disse o líder, logo atendendo o chamado — Estamos na escuta.

— Rangers, venham depressa, temos que conversar sobre o bichano malvado. — disse o explorador.

— Já vamos. — disse Austin. Os heróis apertaram os botões de teleporte em simultâneo, logo chegando a Central de Comando em pilares de luzes.

— O gatinho travesso ligado nos 220 volts ou bem mais que isso resolveu alvejar uma hidrelétrica, fica a dez minutos do observatório. — disse Karen.

— Ele tá afim de conquistar mais uma vida. — disse Austin.

— Eu devia ter preparado vocês depois que Mudok tomou de assalto a urna contendo Schrondnyah, mas as ocupações no laboratório jogaram isso pro porão mais fundo da minha memória. — disse Dickerson se aproximando.

— O senhor vem se ocupando com o quê lá dentro ultimamente? — perguntou Jessie.

— Em breve saberão. Mas por enquanto foquem em impedir que esse Voltaikus aprimorado faça um estrago mais amplo na cidade.

— Não tem como entrar em contato com o Owen e pedir que ele aproveite uma brecha enquanto o pai dele não está por perto? — perguntou Austin.

— Seria ótimo, mas sabemos como o pai dele é rígido. — relembrou Zoe.

— Terão que confiar na sincronia em equipe, não se sintam dependentes do Owen apenas porque um inimigo se mostrou mais forte do que um monstro qualquer. — aconselhou Dickerson olhando para cada um deles seriamente.

— E se acontecer de novo? — indagou Tim — Ele mandar aqueles raios sinistros que absorveram nossa energia e nos fizeram voltar ao normal.

— Deixem comigo, crianças, eu fiz a leitura da eletrostática que ele utiliza para liberar e drenar energia. O computador diferencia as correntes ligado ao detector de atividade anômala. — informou Karen — Assim, posso avisa-los quando ele soltar a descarga de drenagem.

— Valeu, Karen. — agradeceu Austin — Apesar do desfalque com o Owen, somos sortudos em termos você e o Sr. Dickerson dando uma força pra levantar nossa moral que ficou bem pra baixo depois da luta de ontem. E vamos pro segundo round. — sacou a célula e o morfador tal qual os demais — Prontos? Hora de morfar!

— Touro Ónix!

— Tubarão Cobalto!

— Arraia Rósea!

— Águia Flavescente!

— Leão Escarlate!

Os trabalhadores da hidrelétrica eram afugentados pelo vigor caótico de Nekovolt em fazer estripulias perigosas na forma de raio enquanto ficava rindo como uma criança zombeteira. O gato-robô alcançou torres de energia do lado de fora, escolhendo uma delas para iniciar sua refeição. Cravou suas garras na torre estando virado para a direção em que os homens corriam em pânico e iniciou o processo, seu corpo se imbuindo de eletricidade com faíscas pelo corpo.

— Aaah, que delícia de energia! Hahahaha! — alvejou os funcionários da usina — Sumam daqui seus idiotas, esse playground agora é todinho meu! — falou disparando raios elétricos dos olhos que explodiam faíscas em torno dos homens, alguns caindo ao tropeçar e até se ferindo com os estouros.

Austin vinha com sua Beast Cycle a uma larga velocidade, logo saltando ao passar por uma rampa e disparando lasers da moto diretamente contra Nekovolt.

— Deixe-os em paz! — bramiu o líder.

O gato-robô fora atingido com fortes estouros de faíscas pelo corpo, logo caindo da torre. Os demais Rangers se aproximavam pilotando suas respectivas Beast Cycles orientando os técnicos da usina a abandonarem aquela área por tempo indeterminado. Nekovolt parecia estranhamente quieto. Com o dissipar da poeira do solo, os heróis puderam ver que o mesmo jazia caído inerte e de bruços.

— Austin, você acertou ele em cheio! — disse Tim.

— Acorda, Tim, o mesmo inimigo que nos deu aquela surra não cairia pra disparos de laser. — contrapôs Jessie.

— Tem razão, Jessie, seria fácil demais! — disse Austin — Anda, seu gato ridículo, levanta daí e para de se fingir de morto! A nós você não engana!

Nekovolt subitamente levantou com ar brincalhão.

— Voltei do além, crianças! Sentiram saudades?

— Ele é muito metido a engraçadão, mas só consegue ser patético. — disse Zoe.

— Hahaha, tô morrendo de rir, seu gato feioso. — disse Tim — Conta agora a do papagaio.

— Rangers, vamos ronda-lo! — ordenou Austin avançando novamente com a Beast Cycle. As motos passaram a circunda-lo em movimentos precisos, desviando umas das outras enquanto faziam o cerco fechado — Acabou pra você, Nekovolt! Se tentar escapar, vamos te pegar!

— Vocês tem amnésia ou são burros de nascença? Eu posso me transformar em pura eletricidade e como se não se bastasse tenho uma vida recém-ganha que me tornou mais forte! — disse Nekovolt, logo girando feito um pião eletrizado, cavando um buraco no solo arenoso e se enfiando nele.

— Ué, pra onde ele tá indo? — indagou Tim.

— Se emburacou embaixo da terra que nem uma broca! — disse Damian.

— Se dispersem, ele pode atacar de qualquer parte! — mandou Austin, botando forças nos guidões da moto ao transitar pela área.

— Mas como vamos saber de que ponto ele nos atacará? — questionou Zoe, acelerando com sua moto.

— Se sairmos dessa zona e entrarmos na usina, ele não terá como nos pegar de surpresa vindo de baixo! — explicou Austin.

Mudok observava do alto do prédio da usina.

— Pirralhos covardes, batendo em retirada. Nekovolt, se pretende obter mais uma vida, não se apresse tanto, faça-os sofrerem.

Mas antes que os Rangers encurtassem a distância até o complexo da usina, Nekovolt liberava suas descargas do subsolo em um ataque que atingia simultaneamente os heróis pegos em explosões fortes e flamejantes que os levantavam das motos — estas imediatamente desativadas. Os Rangers caíram rolando.

— Ele transformou o solo num campo minado. — disse Damian tentando se reerguer com dores.

— Tenho mil e uma utilidades que nem esponja de aço! — disse Nekovolt retornando para a superfície rodando em seu próprio eixo.

— Vamos te mostrar que temos outras mil pra acabar com você! — desafiou Austin reerguendo-se.

— Pelo jeito vocês não vão muito longe, estou a milhas e milhas de passos a frente! — zombava Nekovolt — Se querem que eu seja sincero, eu não tô nem um pouco disposto a brigar com vocês, só quero me fartar de energia até bater minha marca total de vidas e me tornar o rei desta cidade! Não, talvez do mundo todo!

— Tá sonhando muito alto! Mas quanto mais alto você sonha, mais próximo da queda você fica! — retrucou Austin — Pistolas Z!

Os Rangers sacaram as pistolas e dispararam ao mesmo tempo vários tiros de laser que explodiam faíscas tanto em torno quanto no corpo de Nekovolt, o fazendo recuar levemente.

— Vocês só tem isso? Mal me faz cócegas! — minimizou o gato-robô que concentrava energia no seu núcleo gerador. Karen fizera contato.

— Rangers, a voltagem da energia concentrada nele foi drasticamente alterada. Ele vai disparar a carga reversa para drenar energia, cuidado!

— Valeu por avisar, Karen! — disse Austin — Pessoal, toquem em mim, rápido!

Os demais tocaram suas mãos direitas nos ombros do líder, aguardando o ataque. Nekovolt lançara das mãos as descargas amarelas que visavam drenar a energia dos heróis.

— Barreira Z! — disseram os Rangers em uníssono. Com a partilha de energia, o emblema do Esquadrão Z no peito de Austin se projetou como um grande holograma multicolorido. Os raios atingiram o escudo pesadamente, mas a princípio não causando danos consideráveis.

— Não podem se esconder atrás de um poderzinho defensivo, vão chegar ao limite! — pressionava Nekovolt, aumentando a potência dos raios.

— E daí? Você também não tem? — questionou Austin.

— Eu? Eu posso fazer isso aqui o dia todo, tenho energia pra dar e render! E pelo que vi não preciso gastar tanto dela pra dar uma lição em vocês, pestinhas!

— Austin, a gente tá sendo... empurrado! — alarmou Jessie sentindo os pés arrastarem no solo.

— Ele empregou mais força na ofensiva! — disse Damian no outro lado.

— Só mandem mais energia, muito mais! — pediu o Ranger Vermelho.

— Mais do que já mandamos? Assim a gente se esgota, cara! — disse Tim.

— A barreira pode não suportar toda essa carga, estamos em clara desvantagem! — disse Zoe.

— Não tenham dúvidas disso, hahaha! — disse Nekovolt que fortificou a potência das descargas de modo que a Barreira Z apresentasse fissuras que cresciam a cada segundo.

— Vai quebrar... — disse Tim sentindo-se exaurido.

— Não se formos até o máximo! — persistiu Austin — Vocês conseguem!

— Desculpa aí, amigo... — disse Damian, estafado — Mas pra mim já deu.

— Já demos tudo que tínhamos! — lamentou Zoe.

O escudo holográfico logo se despedaçou como vidro estilhaçando, os raios penetrando nos Rangers como agulhas que provocavam choque elétrico e em concomitância sorviam suas forças. Porém, uma intervenção surpreendente desfavoreceu a absorção de Nekovolt.

— Já chega! — gritou Mudok saltando de onde estava e pousando bem próximo de seu gato de estimação, logo o agarrando nos braços — Você vem comigo! — teleportou-se com ele. Os Rangers caíram de joelhos, dando suspiros de cansaço e gemidos de dor.

— Como não desmorfamos? — indagou Tim — Ele já meteu o pé?

— Alguma coisa apareceu pra interromper a drenagem. — disse Jessie — Alguém viu o que era?

— Foi rápido demais, além dessa tortura nos desorientar. — respondeu Zoe.

— Eu acho que vi o que era... — disse Damian se recompondo — Aliás, quem.

— E quem do nada apareceu pra nos salvar? — perguntou Austin.

— O único que conseguiria tirar o Nekovolt do nosso caminho com tanta facilidade... — falou o Ranger Preto — Mudok.

Os outros reagiram espantados.

— Por essa eu nunca esperaria. — disse Jessie.

— Será que os dois andam brigando e o Mudok resolveu cortar o barato dele só pra mostrar quem é que manda? — especulou Tim.

— Bem mais provável do que ele simplesmente ter virado pro nosso lado. — disse Zoe.

— Mudok impedindo o filhote dele de drenar nossa energia... — falou Austin, reerguido, pensando na inusitada ação do general de Lokknon — Alguma coisa nisso tá muito estranha.

Mudok levara seu filho cibernético para o terraço de um prédio industrial. Nekovolt se desvencilhou dele com rebeldia e virou-se apontando sua garra indicadora.

— Essa foi a primeira e a última vez que você suspende minha drenagem como se desligasse um aspirador só puxando a tomada! Eu tava quase conseguindo, mas você tinha que vir pra estragar tudo só porque eu te ataquei mais cedo!

— Eu fiz aquilo visando salvar sua vida, seu cretino mal-agradecido! — rebateu Mudok — Programei intervalos seguros entre as drenagem que você deve seguir à risca!

— Uma listinha de regras suas? Eu me recuso e fim de papo! — disse Nekovolt que virou as costas.

— Não dê as costas pra mim! — disse Mudok o pegando no ombro e virando-se frente a ele — Uma sobrecarga poderia ter acontecido se eu não chegasse a tempo, você explodiria!

— Eu teria uma vida a mais, a minha quinta vida, se não fosse por você e seu gênio controlador!

— Eu quero controla-lo para evitar que saia da linha! Como seu criador exijo que obedeça as minhas regras se quiser chegar a nove vidas com segurança!

— Será que seu chefe cabeçudo não tá assistindo a essa nossa discussão? — indagou Nekovolt com um dedo no queixo, pensativo.

— O mestre não nos vigia, a menos enquanto combatemos os Rangers. Por que pergunta?

O gato-robô começou a andar rondando Mudok.

— Ele ficaria muito frustrado se soubesse que o general dele é um incompetente sem pulso firme pra lidar com o ser que ele mesmo criou.

Num acesso de fúria, Mudok sacou sua espada de metal negro, virando-se e apontando-a para o pescoço do gato-androide.

— Se me colocar em descrédito diante do mestre, eu juro que corto fora sua cabeça!

— Também não vamos apelar pra brutalidade! — disse Nekovolt com as mãos levemente erguidas numa postura pacifica — Eu só quero propor uma troca favorável.

— O que você quer, afinal? Se for pra garantir seu silêncio, estou aberto.

— Assim que eu gosto, uma aliança de verdade. OK, direto ao ponto: você me dá algum recurso que possa me fazer chegar a nove vidas sem risco de sobrecarga e eu mantenho as aparências pro lorde Lokknon continuar achando que o criador domina e o gato obedece.

— Um intermediário para possibilitar drenagens seguras em curtos espaços de tempo... — dizia Mudok pensando no assunto — Eu tenho algo que reservei a você, inicialmente era pra ser utilizado após as absorções, mas como não tenho escolha...

— Hehehehe, eu adoro ganhar brinquedo novo! O que é hein? Me fala! — disse Nekovolt esfregando as mãos em ansiedade.

***

À noite, os Rangers se reuniram nas proximidades do observatório astronômico, no alto de uma colina que proporcionava uma vista panorâmica da cidade e a imensidão dos vários pontos de luzes noturnas. O intuito principal era aguardar um vindouro ataque de Nekovolt aproveitando-se da passagem de um cometa.

— O cometa estará visível dentro de uma hora. — estimou Damian olhando pelo telescópio.

— Agora é torcer pra que um certo gato irritante não arruíne o momento. — disse Zoe sentada numa pedra ao lado de Jessie.

— Não vamos esquecer que o Lokknon fica de olho em tudo que fazemos. — disse a Ranger Amarela — Na certa já mandou o Mudok dar a ordem pro gatinho maldoso dele pra fazer a gente perder o cometa.

— Olha, eu tô super afim de ver também o cometa passar, mas a proteção da cidade tem que vir antes disso, galera. — orientou Austin.

— Além de que podemos vê-lo com maior resolução pelo meu telescópio. — adicionou Damian ajustando a ótica da lente.

— Mas é que ver no céu e daqui dessa vista ótima dá muito mais emoção. — opinou Jessie.

— Ainda mais porque não há tantas luzes urbanas acesas por causa do racionamento. — disse Zoe contemplando o céu — Dá pra olhar as estrelas mais nítidas.

— Aí, Damian, já tá na hora de passar a vez, né? Também quero dar uma espiada. — pedira Tim terminando de tomar uma latinha de refrigerante e amassando-a. Ao jogar no chão gramado, recebeu um olhar reprovador de Zoe que pegou a latinha e a jogou num cesto de plástico.

— Essa lixeira que eu trouxe não foi pra enfeitar a paisagem. — disse ela com sorriso de canto.

— Ops, foi mal. — desculpou-se Tim sorrindo de nervoso.

Um objeto não-identificado cruzava a atmosfera, sendo detectado por Karen ainda frente aos monitores da Central de Comando àquela hora. Um colosso de metal negro cuja cabeça possuía orelhas de gato aterrissou impactante no centro da cidade, aterrorizando cidadãos próximos.

— Conheçam meu mascote de ferro, Nekogigawatt! O gatão que vai chocar essa cidade! Hahahaha! — dizia Nekovolt no cockpit do robô enorme. Moveu os braços do gigantesco homem-gato feito a sua imagem e semelhança e abriu as mãos — Meu jantar está servido! — apertou um botão, acionando a drenagem a um nível absurdo.

Os raios amarelos saíram das pontas dos dedos do robô, alcançando todas as redes de alta tensão distribuídas pela cidade. Uma drenagem em larga escala era concretizada, a energia se convertendo a Nekovolt através do robô gigante.

— Estou me sentindo um gato épico! — disse ele, recebendo toda a eletricidade fornecida a Angel Grove.

Os Rangers se alarmavam ao verem os pontos de luzes na extensão da cidade se apagando área por área.

— Caramba, olhem pra isso! — disse Tim, surpreso.

— A cidade inteira... — disse Zoe, pasma.

— Tá sofrendo um apagão. — completou Jessie.

— Talvez o pior da história. — comentou Austin, encarando assustado o blecaute mergulhando a cidade em trevas.

— É aquilo ali! — apontou Damian vendo pelo telescópio — Há um ser gigantesco no centro da cidade... — voltou-se aos amigos — É o Nekovolt, agora em tamanho família.

O gato-androide comemorava a drenagem que garantiu sua quinta vida.

— Eu tô tremendo de emoção! Tenho cinco vidas, finalmente! Hoje sou o rei da noite, ninguém me segura! Ouviu isso, papai?

Mudok via e ouvia através de seu pager dentro da oficina, logo esmagando o aparelho furiosamente com uma mão. Nekovolt ria em excitação frenética colocando a Alameda dos Anjos numa crise já considerada histórica.

CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO...
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