Power Rangers: Esquadrão Z
48 A Verdadeira Fúria Selvagem (Parte 1)
Notas iniciais

Era uma das ocasionais missões noturnas, daquelas que eram chamados altamente inesperados de emergência que arrancavam os Rangers do conforto de seus lares para enfrentarem desafios em meio às intimidadoras trevas da noite. Mas nas idades que possuíam, os heróis já não se detinham pelo medo do que se ocultava sorrateiramente no escuro. E se algo justificasse plenamente uma recaída a esse medo pueril que tão facilmente se supera com o tempo? Mesmo jovens corajosos e dotados de grandes poderes não estariam imunes a isso.
Os cinco Rangers saltavam em supervelocidade pela reserva florestal naquela noite de lua cheia. Pararam numa área relativamente aberta com uma vegetação meio baixa contendo com rochedos e pequenos morros.
— A leitura atingiu o pico nesse território. — avisou Damian.
— Mas não há sinal de ninguém além de nós. — apontou Zoe.
— Pessoal, liguem os faróis. — recomendou Austin — Essa zona é cheia de grutas e cavernas, o nosso alvo pode ter se escondido e ocultado sua presença, talvez pensando em nos pegar de surpresa. — ligou os faróis do capacete ao que os demais fizeram.
— Eu não tô gostando nem um pouco dessa missão. — resmungou Tim — Ah, eu odeio fazer isso a noite, ainda mais com esse suspense todo.
— Não tá com medinho do escuro, né, Tim? — perguntou Jessie — Aproveita que a noite tá linda com essa lua enorme ou pede pra Karen colocar uma música que você gosta pra tocar no seu capacete e você se sentir melhor.
— Boa ideia, daí os pensamentos ruins viram passado. Ei, Karen, põe aí um som maneiro pra me acalmar, uma música bem relaxante. — pediu o Ranger Azul.
— Tipo aquelas que os bebês normalmente ouvem para dormir. — brincou Damian gerando risadas no grupo. Porém, o retorno do sinal de perigo os deixara alertados, a ridadaria cessando bruscamente.
— Galera, atenção, ele voltou! Pode vir de qualquer parte, fiquem ligados. — orientou Austin em posição combativa, os heróis praticamente de costas uns aos outros.
Um borrão roxo luminoso como néon irrompeu das sombras a uma velocidade desafiadora de prever ou acompanhar, os atacando de todos os lados como se tivesse acabado de se multiplicar. Os heróis recebiam os golpes com faíscas salpicando dos uniformes.
— Nossa... Mas que rapidez! — disse Damian gemendo com os ataques ferozes.
O borrão subiu o rochedo mais alto dali e se materializou no topo em uma figura humanoide que sugeria uma ligeira familiaridade notada.
— Alguém andou jogando muito Fruit Ninja. — falou Tim queixando-se de dores pelo corpo fumaçando leve.
— E ficou incrivelmente bom nisso. — adicionou Damian na mesma condição.
— Lá em cima! — apontou Jessie.
— Se eu tô olhando bem... Aquilo é um Power Ranger? — percebia Zoe, intrigada com a figura espectral de uniforme roxo.
— Quem é você? — perguntou Austin com severidade no tom.
— Ainda é meio cedo pra descobrirem. — disse o agressor com uma voz soturna e monstruosa, logo desaparecendo num borrão veloz.
— Meio cedo pra descobrirmos?! O que isso quer dizer? — temia Zoe.
— Não importa, só temos que dar o fora daqui, senti que ele é um oponente que não estamos prontos pra encarar. — disse Austin — Venham, vamos! Desliguem os faróis!
O quinteto prosseguiu, saindo daquela área menos arborizada e se embrenhando na floresta fechada onde o luar penetrava pouco.
Um corte vertical de espada de luz amarronzada os barrou atingindo-os bruscamente e causando explosões de faíscas que os derrubaram.
— Droga, ele quer brincar de pique-esconde conosco!? — falou Tim levantando.
— Isso é tudo menos brincadeira. — disse Austin levantando e procurando o autor do ataque — Apareça de onde estiver!
Um borrão marrom viera rapidíssimo e avassalador por entre as árvores, passando pelos Rangers desferindo golpes tão violentos e dolorosos quanto os anteriores, parecendo se mover em zigue-zague enquanto atacava gerando faíscas pelo ares. Os heróis caíram de joelhos tentando se apoiar, gemendo em dor.
O borrão se moveu para o topo de um rochedo mais plano que dava acesso a parte mais elevada da área, tomando a forma humanoide que sugeria ser um outro Ranger.
— Esse é diferente... — disse Jessie levantando-se com o apoio de Zoe.
— Mas deu um sacode na gente que nem o outro. — disse Tim.
— Você aí, por que subiu? Não temos medo! — disse Austin.
— Então por que fugiram como gazelas asustadas? — questionou o estranho Ranger de cor marrom num tom de voz similar ao outro.
— Ele nos chamou de gazelas?! Que abusado! — repreendeu Tim — Peraí, gazela é o quê? Um animal?
O Ranger que atacara anteriormente ressurgiu a direita do parceiro feito um borrão. Ele fizera uma pose ameaçadora emanando uma aura púrpura e sombria que se moldou na forma de um morcego acima dele. O outro também posou de modo intimidador, sua aura marrom crescendo ao tomar a forma de um urso feroz.
— Se preferem ficar se exibindo então vamos contra-atacar! — definiu Austin — Rangers, agora, disparar!
Os heróis sacaram as pistolas Z e dispararam simultaneamente, a chuva de lasers atingindo a dupla maligna causando explosões potentes de faíscas. Contudo, a fumaça dissipou dando a entender que desapareceram.
— O quê? Sumiram?! — disse Zoe.
— Então nossos tiros não passaram de cortina de fumaça pra eles! — pontuou Damian.
— Seria bom demais pra ser verdade se fossem fantasmas e tivessem virado poeira. — falou Jessie.
— Cheguei a pensar nisso aí. — revelou Tim.
— Não, não são fantasmas. — disse Austin com preocupação — São reais, pudemos senti-los nos ferindo como nenhum outro adversário.
— Mas aquela técnica é só nossa. Já fizemos aquilo tantas vezes que perdi a conta. — declarou Tim, sentindo-se indignado — Será que somos tão lentos pra apanharmos de um ataque que deveria ser só da gente?
— A velocidade deles era sem igual. — ressaltou Damian — Combinada a uma força de ataque efetivo como aquela, dificilmente teríamos aberturas fáceis pra derruba-los.
— Será que podem mesmo copiar tudo que fazemos em combate? — teorizou Zoe, tensa.
Austin entrara em contato com Dickerson pelo comunicador na pulseira coberta pela luva esquerda.
— Sr. Dickerson, o que significa isso? Quem eram aqueles caras?
O mentor se entreolhou com Karen transmitindo nitidamente apreensão.
— Crianças, eu... Não criei novas células de morfagem, eles não são Rangers oficiais da Intercorp. E mesmo que fossem, jamais os colocaria para testa-los sem aviso prévio de que é um teste, eu iria preparar vocês pra um poder acima do que já enfrentaram.
— Se não vieram da Intercorp... Só podem ter vindo de um alguém que infelizmente conhecemos. — disse Austin voltando-se aos amigos — Lokknon, sem dúvidas.
***
12 horas antes
No início daquela manhã estudantil, Jessie se dirigia a biblioteca da Angel Grove Middle School carregando uma pilha de livros a serem devolvidos, sentindo cansaço devido ao peso daqueles grossos volumes de capa dura. Mas ao dobrar para o corredor que conduzia diretamente a sala, a loirinha acabou esbarrando num garoto de camisa roxa e calças jeans moletom, os livros caindo e se espalhando na colisão.
— Ei, qual é? Olha por onde anda! — resmungou o garoto tocando na testa.
— Nossa, foi mal! Te machucou? — preocupou-se Jessie afastando livremente a mão dele que cobria parte do rosto. Ao ver a face do rapaz, um sorriso espontâneo se desenhou na dela. — Oi, eu, ahn...
— Tá tudo bem, nem doeu tanto, foi só uma... pancadinha. — disse ele também sorrindo amigável — Caramba, você vinha trazendo esse montão de livros? Muito pesado pra uma garota carregar. — agachou-se para ajuda-la a recolher. Jessie também o fez dando olhadelas a ele.
— Pois é, eu tava em dívida com a biblioteca. Vim logo devolver antes das provas finais, estavam comigo faz um tempão. E que papo é esse de muito pesado pra uma menina?
— Nossa, as mulheres mudam de assunto tão rápido. — disse ele com uma pequena pilha — Tá, tô te zoando, não esquenta. Eu sou o Mason. — estendeu sua mão direita.
— Pode me chamar de Jessie. — disse ela apertando a mão do aparente novo amigo — Meus amigos me chamam assim, bem...
— É, legal... Jessica é muito formal, não acha?
— Verdade, meus pais as vezes me chamam assim... quando querem meter uma bronca.
— Haha, os meus falam meu nome completo quando me chamam atenção pra conversar os assuntos na categoria "coisas que o Mason fez, mas não foram provadas".
— Hehehe, você parece levar numa boa os puxões de orelha dos seus pais. — disse Jessie, simpática. Semicerrou os olhos — Sabe, eu nunca te vi por aqui no colégio... É novato?
— Transferido, na verdade. Opa, acho que isso causa uma impressão ruim, né?
— Não, imagina, eu não tenho nenhum tipo de preconceito com transferidos, apesar de muitos dos que conheci terem uma certa fama de mau. É o seu caso?
— Só a fama, vai por mim. Sabe, me sinto expulso nem só do colégio, mas de toda Los Angeles.
— Estudou em Los Angeles?! É minha terra-natal. — revelou ela com entusiasmo.
— Que sorte a minha esbarrar logo com uma conterrânea. — falou Mason contente pelo destino.
— Sorte minha também porque encontrei alguém pra dividir o peso desses livros comigo.
— Eu acabei de voltar da biblioteca. Posso voltar lá, podíamos ficar até o sinal tocar lendo alguma coisa de filosofia ou história.
— Hum, é amante de leitura assim como eu? É, tô vendo que vamos passar um bom tempo juntos. — falou ela caminhando lado a lado com ele.
— De leitura sim, agora de estudar... — disse ele levantando uma sobrancelha.
— Hahaha, eu já tava imaginando.
— Eu vim com um amigo meu, o nome dele é Flint. Estudamos juntos no 6⁰ ano.
— O 6⁰ ano?! Me diz que estão na classe A.
— É nessa que nos matriculamos, nossos pais também são muito amigos.
— Ai, maravilha! Tomara que vocês passem de ano e fiquem pro próximo aqui. E cadê ele, seu amigo? Ele também é transferido?
— Pois é, o Flint e eu... fomos expulsos juntos, a gente se envolveu num lance complicado, mas nada muito sério.
— Não quer falar sobre isso, né?
— Gosto mais de falar de histórias fictícias. A realidade já é chata e cansativa demais. — disse Mason abrindo a porta da biblioteca — Primeiro as damas.
— Oh, valeu. — disse Jessie, sorridente ao entrar.
Enquanto isso, Zoe estava na arquibancada da quadra aberta estudando. Até que a aproximação espalhafatosa de Brock e Stuart arruinou toda sua imersão no conteúdo.
— Olha a rifa solidária, minha gente! — bradava Brock — Por tempo limitado hein! Compre seu número antes que seja tarde e uma pessoa fique na miséria total!
A dupla se aproximou da Ranger Rosa, um em cada lado dela, a aborrecendo.
— Aí Zoe, tá afim de colaborar com a nossa rifa? — pedia Stuart a direita dela.
— Vocês não tem mais o que fazer do que sair por aí anunciando uma campanha que talvez não convença ninguém?
— Qual é, gatinha? Um número da nossa rifa é baratinho, só uns dez dólares. — falou Brock.
— Dez dólares?! Olha, do que entendo por rifas, os valores costumam ser bem menores que esse. Mas afinal o que estão sorteando?
— Uma camiseta novinha dos Power Rangers, versão exclusiva que o Earl fez. — disse Stuart mostrando a peça.
— Eu tenho certeza que o Earl não concordaria em entregar uma camisa que ele poderia vender sozinho. — disse Zoe os fitando com suspeita — O que tá por trás de toda a arrecadação?
— Ahn... É que o Brock tá precisando de um videogame novo e a mãe dele foi demitida do emprego... — revelou Stuart, desconcertado. A justificativa para o sorteio causou revolta em Zoe a fazendo levantar.
— Só podem estar brincando comigo! Rifas costumam ser feitas pensando em ajudar pessoas em situações financeiras. Brock, a sua mãe tá passando por uma e você só se importa consigo mesmo! Eu vou voltar pro colégio.
Zoe descera, mas foi segurava pelo braço por Brock
— Opa, não sem antes pagar por um número.
Stuart pegara o diário da Ranger Rosa quando ela estava distraída com Brock.
— Ou senão a gente revela todos os segredinhos desse diário. Deixa eu ver aqui...
— Meu diário! Devolve isso, Stuart! — disse Zoe tentando se soltar — Brock, me larga, tá me machucando!
— Uh, disso aqui eu não sabia! Hahahahahaha! — disse o valentão de cabelo franjado, soltando sua risada histérica.
— Escolhe um número e vai ter seu diário de volta! — pressionou Brock.
— Não podem me obrigar a participar de uma rifa inútil como essa! — rebateu Zoe.
Mas a marra da dupla foi fragilizada com uma voz de autoridade.
— Solta a garota, sua rolha de poço ambulante. — disse um garoto de cabelo preto bem rebaixado e usando camisa marrom atrás de Brock — Ela tem razão, essa rifa é inútil... assim como vocês. — foi se aproximando sem temor.
— Aí, de onde tu saiu, ô magrelo? Não vem se meter conosco ou vai tomar bifa na cara. — ameaçou Brock.
— É, bifa na cara! — repetiu Stuart.
O garoto rira consigo mesmo em deboche.
— Vocês não entenderam, né? Eu não tô pedindo pra vocês soltarem ela. Eu tô mandando.
Brock e Stuart se entreolharam e desataram a gargalhar com escárnio.
— Ele tá mandando na gente, Stuart!
— Endoidou, hahahahaha!
— Hum, então vocês gostam do jeito difícil, né? Que beleza, pois eu também. — disse o novato que os surpreendeu ao sacar do bolso da calça jeans um canivete suíço retirando uma lâmina.
— Oh, oh, peraí, cara... — estremeceu Brock olhando a ponta da lâmina com medo estampado na face — Não íamos fazer nada com ela, só forçar a comprar um número!
— Ou vocês a soltam e devolvem esse diário ou eu juro que vou... — disse o rapaz que se moveu em menção a perfura-los com a pequena faca para intimidar. A dupla recuou, largando Zoe e o diário no chão, correndo atemorizados.
— E se eu vê-los perturbando qualquer outra menina vão se ver comigo, ouviram bem? — ele logo virou-se para Zoe — Cê tá legal?
— Ah, tô sim, eu nem sinto medo desses idiotas, são uns panacas, como uma amiga minha costuma falar. — respondeu Zoe mais tranquila, apanhando seu diário — Eles são do 6⁰ ano-A, estão sempre implicando com todos.
— Eita, então eu vou ver as fuças mal-encaradas dele a manhã toda. — disse o garoto, frustrando-se.
— Você é novato?
— Sim, na verdade fui transferido de um colégio de Los Angeles junto com um amigo meu.
— Transferido normalmente é sinônimo de expulso. — ressaltou Zoe, o fitando meio insegura — Mas OK, seja bem-vindo a Alameda dos Anjos. — a Ranger Rosa virou as costas para caminhar de volta ao prédio do colégio.
O garoto prestativo logo se colocou frente a ela, barrando o caminho.
— Não vai nem me agradecer por ter te salvado?
— Não é como se você não fosse mal-encarado que nem eles.
— Ah, é mesmo, minha arma secreta. Foi mal se isso te deixou assustada, eu uso pra me defender de babacas que nem aqueles dois.
— Acho que não é uma forma saudável de lidar com pessoas iguais a eles. Violência só gera mais violência.
— Mas às vezes termina com vidas salvas, como a sua. Vamos, um obrigado não vai queimar sua língua.
Zoe deu uma revirada de olhos achando graça.
— Tá bom, meu destemido salvador: Obrigada. Mas cuidado com essa navalha, armas também ferem quem as usa.
— Acredita que tem horas que eu me esqueço disso?
— Oh, eu acredito sim, hehehe. Já que seremos da mesma classe... — disse Zoe estendendo sua mãe direita — Sou a Zoe.
— E eu o Flint. — disse ele apertando a mão dela.
Após o toque do sinal, os Rangers foram alguns dos primeiros a entrar na sala de aula. Jessie e Zoe mostravam-se radiantes.
— Ei, posso saber que carinhas de felicidade são essas? — perguntou Austin as garotas.
— Conheço bem esses olhares e suspiros... — disse Damian.
— É que ganhamos dois novos colegas. — disse Jessie — Conheci um deles e... Nossa, foi a primeira vez que eu gostei de um garoto mais do que qualquer outro. O nome dele é Mason, foi transferido de Los Angeles, achei ele um fofo me ajudando a levar a montanha de livros de volta pra biblioteca.
— O Flint também é transferido do mesmo colégio junto com o Mason. Apesar do jeitinho esquentado e meio marrento, ele consegue mostrar um lado doce e amigável. — contou Zoe — Ele me salvou do aperto que passei hoje com o Brock e o Stuart me forçando a participar de uma rifa ridícula valendo uma camiseta dos Power Rangers em troca de dinheiro pra comprar um videogame novo pro Brock.
— Que manés. — comentou Tim — Era pra ser o contrário essa rifa: um videogame sorteado pro Brock comprar um monte de camisas novinhas e jogar fora aqueles mulambos que ele usa sempre.
Os Rangers não seguraram a risada com a tiração de sarro do Ranger Azul.
— Mas peraí, meninas: o fato deles serem transferidos não deixou vocês meio desconfiadas? — questionou Austin — Já vi muitos que foram expulsos e mandados pra cá que se apresentaram como bonzinhos, daí dias depois mostraram quem realmente são.
— Austin, são novatos, dá uma chance. — disse Jessie.
— E cadê eles? Só tô vendo as mesmas caras que a gente vê todo santo dia. — falou Tim correndo oso olhos pela sala.
— Cadê o Owen, isso sim. — disse Damian — Ele sempre é um dos dez primeiros a chegar.
— Talvez ele tenha ido bisbilhotar a sala da Srta. Webb pra investiga-la. — disse Austin.
— Será que ele conseguiu? — queria saber Jessie, ansiosa.
— Vamos saber agora, olha ele vindo aí. — disse Tim apontando para o fotógrafo amador entrando na sala e se dirigindo aos amigos com tensão cristalina no semblante — E aí, loirão? Sucesso?
Owen dera um joinha com um aceno positivo cabeça, mas a expressão tensa mantendo-se.
— Eu já tava ficando preocupada, pensei que você tivesse sido pego em flagrante e levado pra diretoria. — disse Zoe.
— Pela sua cara, tá óbvio que descobriu alguma coisa. — falou Austin — Owen, o que você viu lá?
O Ranger Verde sentou na sua carteira frente a da de Austin e virou-se aos amigos.
— Conta logo antes que ela venha. — pedia Jessie, sedenta pela informação.
— A Srta. Paddleton está aqui no colégio... presa. — revelou Owen em tom baixo, gerando assombro nos demais.
— Como assim presa? — indagou Zoe — Aonde? Na sala da Arianne?
— No armário dela. Aliás, dentro de uma daquelas bonecas de porcelana. É uma boneca igualzinha a ela. Foi sinistro.
— Ah, deve ter sido um presente carinhoso do diretor Brewster pra Arianne em homenagem a Srta. Paddleton. — especulou Tim — Não é?
— O que embasaria essa suposição? — questionou Damian franzindo a testa para o amigo.
— Se toca, Tim, elas nem se conheciam. — disse Jessie.
— E mesmo que fossem conhecidas, era mais fácil o diretor encomendar uma boneca pra se lembrar da Srta. Paddleton na sala dele. — adicionou Zoe.
— Owen, você falou que tem certeza dela estar presa na boneca. Então... essa boneca falou com você? — perguntou Austin cada fez mais curioso.
— A boneca não, a própria Srta. Paddleton. — destacou Owen — De alguma forma, ela foi aprisionada lá dentro.
— Será que a Arianne é algum tipo de... bruxa? — teorizou Jessie — Sequestrou a Srta. Paddleton pra garantir uma vaga de professora substituta?
— E lançou um feitiço que a prendeu nessa boneca? Hum, não sei, não. — duvidou Damian — Essa história tá muito nebulosa. Uma descoberta que só gerou mais questões.
— Mas e aí, Owen, o que houve depois? Vocês conversaram? — indagou Austin.
— Ela implorava pra alguém tira-la de lá, até perguntei se era ela e ela disse sim e... O sinal tocou e eu saí correndo.
— Seja lá o que tiver acontecido, uma coisa é certa: a Arianne não tem boas intenções e pode ser uma usurpadora vigarista. — declarava Austin, olhando sério para os amigos.
Flint e Mason entravam na sala juntos conversando bem-humorados.
— Ali eles chegando. Ei, Mason, aqui! — chamou Jessie acenando.
— Flint! Venham, tem duas cadeiras vagas bem aqui. — convidava Zoe gentilmente.
— Eu não esperava essa hospitalidade toda. — disse Mason aproximando com o parceiro.
— Já tô me sentindo em casa. — disse Flint.
— E aí, rapazes, sejam bem-vindos. — disse Austin estendendo sua mão — Sou o Austin, prazer.
— Essas danadinhas já falaram de nós, né? O prazer é nosso. — falou Mason apertando a mão do Ranger Vermelho, em seguida Flint o fizera.
— Verdade, elas nos deram uma boa prévia sobre vocês. Sou o Damian, prazer em conhecê-los. — disse o jovem gênio cumprimentando com apertos de mãos.
— Sempre bom fazer novos amigos, a gente tá se amarrando nesse colégio. — falou Flint.
— Eu sou o Owen, o fotógrafo particular da turma. — disse o Ranger Verde dando toques nas palmas das mãos deles — Não se esqueçam de virem falar comigo na saída pra combinar o melhor dia e horário pras fotos de vocês no anuário.
— Mal chegamos e já vamos entrar pro anuário? Maneiro. — disse Mason, surpreso.
— Mesmo nos 45 do segundo tempo, vocês são parte da grande família aqui, bem-vindos. Eu sou o Tim, vocês parecem ser legais. — disse o Ranger Azul dando soquinhos nas mãos deles.
— Te digo o mesmo, gostei da jaqueta. — elogiou Flint — Aí, cadê a professora? Se tiver chegado, que venha logo. Se tiver faltado, melhor ainda.
Arianne viera com seu típico desfilar altivo, mas naquele dia seus passos eram firmes com os saltos pisando forte. A professora virou-se aos alunos com um mau-humor transparente, largando seu pesado fichário na mesa num baque surdo.
— Hoje, assim que cheguei, me deparei com uma surpresa bem desagradável naquele muro de pichação. — disse ela, olhando mordaz para os alunos, seu tom autoritário e severo segurando a atenção de todos — Uma caricatura tosca, pra ser mais exata. Que fique ciente o autor dessa travessura de que isso, além de ridicularizar a imagem de um professor, é vandalismo. E como tratamos vândalos aqui nessa escola? Sentenciando a duas horas de detenção!
— Ela é braba. — disse Flint com sorriso sacana e mascando um chiclete — Do jeito que a gente gosta, não é Mason?
— Pode crer. — respondeu o outro na carteira adiante.
— Mas não parece ser o bastante, então deixo ao encargo do diretor decidir o que acontecerá com esse infrator depois dessas duas horinhas comigo nesta sala após o fim do expediente. Agora é o momento da verdade vir a tona. — disse ela aproximando-se da turma — O responsável que se apresente ou... teste extra pra casa.
O silêncio ensurdecedor da classe a irritou profundamente.
— Então serão dois testes. Vamos lá, quero ver se o culpado vai continuar na sombra.
Austin notou dois garotos rindo discretamente, ambos se contendo pra não explodirem na gargalhada que os entregaria. O líder engoliu a saliva com uma ideia absurda em mente como uma via aparentemente conveniente para esclarecer o mistério em torno de Arianne.
— Ótimo, três testes. Estou gostando de ver, criaram vontade de estudar. Essas vésperas de provas finais estão surtindo o efeito esperado.
— Peraí, não é justo fazer a turma inteira pagar pela omissão do culpado, se é que ele está aqui. — protestou Damian.
— Quem quer que tenha feito aquele desenho horrível, fez hoje e com muita inspiração e humor duvidoso. E o autor está sim aqui. Serão quatro testes? Vamos lá, dou-lhe uma... dou-lhe duas...
— Fui eu! — disse Austin levantando-se para o espanto dos amigos e colegas — Sim, eu... Eu quem pichei o muro pra tirar onda com a senhora. Mas escondi as latas de spray.
— Austin, o que você tá fazendo? — perguntava Jessie, aflita.
— Esse é meu plano. — disse Austin entortando a boca para falar discreto.
— Ah, foi você, Austin... Tirar onda?! Chama aquela barbaridade de tirar onda? Confesso que estou bastante desapontada, você me parecia um dos menos piores daqui. Eu me sinto... traida. — falava Arianne de modo dramático — E a traição vem sempre de quem menos se espera. É uma pena, mas terei que condena-lo a detenção e nem pense em sair escondido quando o sinal tocar ou pedirei ao diretor que cancele suas provas, o que consequentemente acarretará... — inclinou-se para frente ajeitando os óculos — ... em repetência imediata. — afirmou com satisfação.
— O Austin é inocente! — manifestou-se Tim — Cara, o que deu em você? Comeu cereal vencido com leite estragado?
— Pra quê assumir essa culpa? — questionou Zoe.
— Vai manchar seu histórico por uma coisa que você não fez. — alertou Owen.
— Qual o sentido de ser um bode expiatório? — perguntou Damian, confuso.
— Pessoal, confiem em mim, eu sei o que tô fazendo. — tranquilizou Austin, mantendo a calma.
— Ele confessou abertamente e dentro das normas escolares ele será devidamente punido. — decretou Arianne — E se mais alguém advogar a favor dele, irá acompanha-lo. Ei, você aí, aluno desconhecido. — voltou-se a Flint — Se livre desse chiclete, é proibido comer em sala.
— Mas eu não tô comendo, tô mastigando, dá um desconto. — rebateu Flint, indiferente.
— Você e esse aí na sua frente são os transferidos de que me falaram, certo?
— Sim, mas... E daí? Relaxa, é só um chiclete. — disse Mason em prol do amigo.
— Mas o barulho de mastigação me enlouquece, então livre-se dessa coisinha grudenta e nojenta agora ou os testes extras serão passados aos dois!
— Tá, tá legal, poxa vida! — disse Flint, aborrecido, tirando o chiclete da boca e o levando para baixo da carteira. Porém, Arianne pigarreou forte com seu ar totalitário estendendo a mão direita aberta para que ele lhe entregasse a goma de mascar. A contragosto, Flint o fizera, mas dando batidinhas que fizeram grudar o chiclete achatado na palma da mão de Arianne que expressou nojo profundo.
— Menos um ponto na sua média. — disse ela, a voz trêmula, logo virando as costas.
— Aí, cara, mandou bem. — disse Tim rindo do ato audacioso do novato. Flint bateu sua mão na dele.
— Quem não mandou bem foi o Austin. — apontou Owen — Cara, o que foi aquilo?
— Eu vou me aproveitar disso pra tentar resgatar a Srta. Paddleton. — revelou Austin em voz baixa. Arianne estava de costas raspando o chiclete da mão sobre a lixeira, ouvindo a conversa e sorrindo de canto maliciosamente.
— Alô-ô, esqueceu o que significa detenção, Austin? — disse Jessie — Ela vai não te deixar sair nem pra ir ao banheiro.
— Ah, vai sim. Não tá escrito no regulamento do colégio impedir o aluno em detenção de fazer necessidades.
— O problema é que ao mesmo tempo que ela preza pelas normas escolares, ela cria as próprias e ninguém teve coragem de denuncia-la quanto a isso. — ressaltara Damian.
— Olha, será que dá pra vocês explicarem que lance é esse? — perguntava Mason com curiosidade — Quem é Srta. Paddleton? E por que ela tem que ser resgatada?
— É nossa professora original. — disse Zoe.
— E se ela é a original, essa daí é o quê? A falsa? — indagou Flint.
— Provavelmente sim. — respondeu Austin fitando Arianne com seriedade.
***
Lokknon como habitualmente fazia na extensa parte de seu tempo, observava os Rangers através do visualizador multifocal. Naquele instante, a tela exibia os heróis se entrosando com a dupla de novatos durante o intervalo no refeitório em um papo descontraído.
— Me dá náuseas vendo esse fedelho do Ranger Vermelho agindo como se não estivesse encrencado, pensando que sua punição começa e termina nessa detenção, mas que tolo. — disse Lokknon vindo de outro compartimento da nave trazendo uma taça cheia do seu licor púrpura ao caminhar até seu trono — Mas em compensação Aracna está a um passo de conquistar um morfador... — sentou-se confortável — ... e não podia ser ninguém melhor que o líder tão benevolente, mas não menos estúpido.
— Dessa vez eu admito que fiquei surpreso pelo Ranger Vermelho. — disse Mudok de pé assistindo aos heróis — Mas pra mim Aracna só foi agraciada com um mero golpe de sorte.
— Sorte, acaso, destino, não importa. Ela está com a faca e o queijo na mão, pronta para me trazer o morfador que poderemos clonar em cinco novos para formarmos nossa própria equipe de Rangers que levará Dickerson e toda a Intercorp a ruína da qual nunca irão se reerguer.
Barooma tinha uma notícia meio ruim a dar:
— Mestre, lamento informar de que não é possível obtermos cinco morfadores a partir de um!
— O quê? E você resolve me contar isso apenas agora, Barooma?! — disse Lokknon, irritando-se.
— Deixe-me explicar, milorde: o transmutador permite que somente dois morfadores gêmeos se derivem de um original! Eles levarão uma carga que proporcione um nível substancial de energia da rede de morfagem para coloca-los numa patamar inigualável acima dos Rangers!
— Mas tanta energia precisa ser muito bem administrada e contida para não provocar danos críticos no usuário. — disse Mudok — Os morfadores são basicamente canais que transportam a energia da rede de modo seguro. O que pode estabilizar um grau tão elevado de energia para garantir que não hajam falhas?
— Eu já sei. — disse Lokknon se empertigando — Nosso gás lobotomizador. Se o fundirmos com a energia da rede, esses super-morfadores não terão trabalho dobrado de manter a energia estável. Ótimo, está tudo entrando nos eixos nesse plano brilhante! — tomou um gole do licor.
— Se temos um limite de apenas dois usuários... — disse Mudok — Quem serão nossos alvos?
— Hum... Vejam esses dois novos garotos da escola dos Rangers, olhem o quanto estão firmando um vínculo de amizade com eles. — observou Lokknon que se inclinou com o olhar fixo em Flint e Mason — Isso me deixa temeroso quanto a Dickerson que pode enxergar neles potenciais novos Rangers para me dar mais dor de cabeça. É preciso nos prevenirmos. São eles que eu quero.
— Barooma vai cuidar de preparar as câmaras de gás. — definiu Mudok — Enquanto eu esperarei Aracna vir com o morfador para iniciar o trabalho de baixar os dados e aplica-los nos modelos físicos.
— Barooma, já que esteve trabalhando nas células que já estão prontas, ainda não me disse quais serão as cores desses Rangers. — disse Lokknon tocando num detalhe imprescindível.
— Ahn... Eu ainda não havia me decidido quanto a isso, senhor, me desculpe! Mas asseguro que estão prontas só esperando os morfadores!
— Então trate de decidir logo, agora que ligará as câmaras de lobotomia. — ordenou Lokknon, severamente — Nada de cores já existentes nos Power Pirralhos ou parecidas, devem ser cores que transpareçam e realcem o quão terríveis e ameaçadores eles serão, hahahaha, já posso até imaginar!
No colégio, o toque do sinal para o fim das aulas daquele dia gerou uma tristeza partilhada entre os Rangers enquanto eles guardavam suas coisas para irem embora.
— Não se esqueçam, crianças, exercícios das páginas 78 a 85 pra amanhã na minha mesa. — dizia Arianne com dureza, apagando a lousa.
— Austin, você... vai ficar legal? — perguntou Jessie, sensibilizada.
— Duas horas afundando no tédio só olhando o tempo passar. — disse Zoe — Vai aguentar?
— Tá tudo bem, é sério. Eu vou sobreviver. Pra tudo existe a primeira vez.
— Ficar aqui sozinho com ela nessa sala no maior silêncio... — disse Tim, lamentando — Cara, cuidado pra não enlouquecer.
— Sem problema, a única coisa que ela não vai poder calar é o meu estômago roncando.
— Tem certeza do que pretende fazer? — indagou Damian.
— Se tiver coragem, vai fundo. — disse Owen — Vamos ficar na torcida.
— Beleza. Encontro vocês lá no Earl?
— Vamos almoçar lá pra te esperar depois que terminar essa penitência. — disse Jessie.
— O Flint e o Mason vão nos acompanhar. — afirmou Zoe.
Austin seguiu-os até a porta e se despediu. Flint e Mason vieram atrás.
— Aí, maninho, vê se aguenta o tranco. — disse Flint o tocando no ombro.
— Se quer uma opinião de profissionais em detenções, melhor não dormir. — avisou Mason.
— Se bocejar, é fim de jogo. — alertou Flint.
— Ahn, vocês já ficaram de detenção uma vez?
— Uma vez? Hahahah. — disse Mason olhando para seu parceiro — Fala aí quantas foram, Flint.
— Tá achando mesmo que eu contei?
— Rapazes, vocês não vem? — chamou Zoe no corredor.
— Vamos indo nessa, Austin. A gente se vê mais tarde. — disse Mason saindo com o amigo.
— Ah, OK. Espero que gostem da comida do Earl, ele é o melhor mestre-cuca da cidade.
Arianne baixava suas unhas crescidas para arranhar o quadro negro, fazendo Austin se retrair de olhos fechados e dentes cerrados em incômodo pelo som rascante.
— O tempo do castigo se iniciou há dois minutos. Pro seu lugar, Austin. — mandou ela ajeitando seus pequenos óculos.
Austin virou-se a ela a encarando sério, logo retornando a sua carteira. Arianne sentou a sua mesa e o fitou.
— Não posso nem ao menos ouvir música com os meus fones pelo celular?
— Não, nada de distrações. — decretou Arianne, abrindo uma revista de moda enquanto comia um salgadinho de milho.
Austin bufou encostando-se na cadeira, batendo os dedos na mesa de leve. Com o passar do tempo, ficava em várias posições possíveis estando com os quadris colados e doloridos naquela carteira. Num dado momento, um ronco soou da sua barriga, chamando a atenção de Arianne.
— Ops, foi mal. — disse ele, sorrindo nervoso — Será que eu podia ligar pro meu pai avisando que tô em cárcere privado aqui?
— O diretor já avisou. — respondeu ela, seca e sucinta.
Aracna logo relembrou estar na pele de uma personagem e tomou urgência. Levantou e caminhou até Austin.
— Precisa me entregar seus pertences, de preferência aqueles que possam fazê-lo sentir que o tempo passa muito depressa. Vamos, eu sei que tem algo além do seu celular.
Austin sentiu um arrepio na barriga a fitando tenso.
— O meu minigame? Eu não trouxe. Só meu celular. — disse ele cedendo o aparelho.
Arianne deu uma risadinha fechada e fingida.
— Não tente me enganar, mocinho. Minha intuição é um detector infalível de mentiras.
— Também é um detector de metais? Porque eu juro pelos meus avós que eu não trouxe.
— Esse atrevimento é intolerável! — disse Arianne, zangada, virando-se para voltar a mesa — Vou descontar pontos da sua média.
— Tá legal, tá legal, eu menti! Toma. — disse Austin que retirou seu morfador do bolso da calça. Arianne voltou-se a ele, cravando os olhos interesseiros no morfador com um sorriso discreto. Fora até ele e o pegara com gosto.
"Droga... Tomara que ela não ponha nos achados e perdidos pra me devolver só amanhã", pensou ele, temeroso.
Já no Earl, a descontração era imensa entre os Rangers interagindo com os novatos da classe.
— E um brinde às novas amizades. — disse Mason erguendo seu copo de suco de laranja.
Os sete bateram de leve seus copos uns nos outros num brinde amistoso, todos como numa comemoração.
— Então essa história parece ser bem cabulosa, né? Uma professora sequestrada pela substituta e mantida refém escondida na sala dela. — disse Flint tomando um gole do seu suco.
— Parece trama de filme de terror, né? O Austin vai tentar tirar isso a limpo hoje. — disse Zoe.
— Ah, foi pra isso que ele assumiu a culpa pela pichação. — falou Mason comendo batatas fritas — Eu bem que desconfiava, ele parece muito certinho e bonachão pra fazer aquilo.
— Não vão nos dizer que foram vocês, né? — indagou Tim.
— Ô cabeção, se orienta: foi o primeiro dia de aula deles lá, não tinha como eles saberem quem e como era a Arianne. — disse Damian perto do amigo.
— Ah, é mesmo. Não liguem, meu cérebro as vezes não pensa direito.
— Com as vezes ele quer dizer quase sempre. — disse Zoe em provocação brincalhona, gerando risadas entre os amigos.
— Gente, vou pedir a conta. — disse Jessie levantando — Vai todo mundo rachar, né?
— Não, deixa conosco. — falou Mason.
— Pois é, vocês nos receberam tão bem que é justo fazer isso em troca. — disse Flint — Foram os únicos que nos deram as boas-vindas além das placas da rodoviária.
Zoe não conteve a risada junto de Tim e Owen.
— Você é demais, Flint. Sinto que... vamos mesmo ser grandes amigos. — disse a Ranger Rosa sorrindo.
— É, eu também te achei o máximo, Zoe. Tem tudo que eu gosto numa garota e muitas vezes falta em mim.
Owen olhou para ambos sentindo uma pontada de ciúmes como uma agulha espetando, tomando seu suco tranquilamente por fora mas inquieto por dentro.
Jessie foi até o balcão falar com Earl.
— E aí, Earl? Quanto ficou?
— Ahn, deixa eu ver... — verificou ele na calculadora — Uns 15 dólares.
— Ah, que bom. Acho que o Flint e o Mason juntos fecham a conta.
— Disse Flint e Mason? Aqueles ali de camisa roxa e marrom? — perguntou o cozinheiro, olhando-os curioso.
— Sim, eles são novos na cidade, entraram hoje no colégio, estudam na nossa turma. São bem legais, o Mason então... Um colírio. — olhou para ele, suspirando — Mas a assanhada da Cindy já ficou de olho nele. Enfim, valeu, Earl. Já te trago.
— Ei, loirinha, espera aí. — chamou Earl levantando a curiosidade dela — Volta aqui, tem que saber um lance sobre esses dois. Sabe que eles foram transferidos, né?
— Sim, mas... Qual o problema? Nem todo transferido é delinquente, Earl.
— Aí que você se engana, filha. Esses dois viraram notícia no mês passado. Não ficou sabendo do incêndio na escola Don Martino em Los Angeles? Até a polícia se meteu. Evidências apontaram eles como principais suspeitos.
— Suspeitos, Earl, não culpados. Todo mundo é inocente até que se prove o contrário, não é?
— Fala isso pra gasolina e pro querosene achados nos armários deles. Se eu fosse você, não ficaria muito íntima deles, não.
Jessie virou o rosto para eles, os fitando numa contida insegurança despertada. Na detenção, Austin despertou sobressaltado na carteira da sala, suando frio na testa. Arianne estava serrando as unhas e pareceu indiferente.
— Bons sonhos? — indagou ela com infâmia.
— Tive um baita pesadelo... Já acabou?
— Não, fique bem aí sentadinho, restam ainda trinta minutos.
— Meia hora?! Ah, que droga. — reclamou, logo lembrando de sua missão — Olha... Será que eu posso ir no banheiro? Não vou fugir, se é o que pensa.
— Hum... Está muito apertado?
— Tá quase na pontinha e é melhor você me deixar ir porque o zelador já foi embora e...
— Tá bem! Vá, mas volte em dois minutos ou vai pra diretoria onde será punido com mais rigor.
— Obrigado. — Austin levantou e saiu apressado da sala — Estranho ela não ter reclamado de eu dormir no castigo. Achei que fosse proibido.
Mas ao invés de se encaminhar ao banheiro masculino, passara reto se dirigindo a sala de Arianne e olhando para os lados.
— Barra limpa. — disse ele, logo abrindo a porta e entrando — Owen disse que tava no armário... — localizou a porta onde ficava a prateleira — Deve ser aqui. — puxou a maçaneta, abrindo devagar — Nossa... — vira a boneca de Paddleton — Srta. Paddleton?
— Hã? Quem está aí? Por favor, responda!
— Sou eu, professora, o Austin. Tá tudo bem, vim tira-la daqui. — disse ele ao pegar a boneca — Acabou, a senhora voltará pra classe.
— Austin, é você... Eu me desculpo por todas as vezes que fui dura demais com você. Obrigada, é um rapaz integro, um genuíno herói.
— Valeu, mas falando assim me deixa sem jeito.
Mas logo que virou-se, Austin deparou-se com Arianne parada barrando o caminho.
— E eu falando assim você fica como?
— É ela! Austin, não a enfrente! — alardeou Paddleton.
— Não sei o que fez pra Srta. Paddleton acabar desse jeito, mas com ela na palma da mão você não fica mais! — disse Austin, impetuoso.
— Me devolva... essa boneca... agora! — exigiu Arianne, subitamente movendo-se para arrancar a boneca das mãos de Austin que a driblou correndo para fora da sala.
O Ranger Vermelho corria sem olhar para trás de volta a sala, trancando a porta.
— Estamos seguros aqui.
— Melhor conferir de novo. — disse Arianne de pé atrás dele com as mãos na cintura. Austin foi recuando para a direita — Me devolva a boneca.
— Tenta tirar das minhas mãos. — desafiou Austin — Você deve ser mesmo uma bruxa.
— Bruxas são horrendas, eu sou lindamente uma princesa, seu pirralho atrevido!
— Quer saber? Tive uma ideia.
Arremessou a boneca pela janela aberta. O receptáculo de porcelana despedaçou no chão, a prisioneira saindo como um fumaça luminosa laranja. Paddleton materializou-se, tocando no rosto e no corpo, chocada.
— Estou livre?! Livre... Estou livre! — deu alguns passos a frente — Finalmente livre! — bradou alegremente, erguendo os braços.
Austin barrou o caminho de Arianne.
— Daqui você não passa.
— E eu com isso? Ela não me interessa mais mesmo. Eu só pretendia ficar até o fim desse ano com ela de enfeite no meu armário. Ela devia me agradecer pois se eu a tivesse levado ao mestre, coitada...
— Peraí, mestre? Ah, esquece, eu só não entendi porque me deixou dormir se era proibido!
— Mas é. Só que naquela altura eu finalmente deixei de me preocupar com isso aqui. — disse Aracna desfazendo sua farsa, a aparência real de cima a baixo se revelando — Voilá!
— Aracna! Como eu fui tão...
— Idiota de não perceber antes? Sim, concordo. Se serve de consolo, nem seu amigo Ranger Preto descobriu antecipadamente. Iaaa! — disparou um raio da mão direita, Austin numa cambalhota ao lado desviando das faíscas que estouraram forte. Ele avançou pulando pelas carteiras para tentar desferir chutes nela. Num tobi-geri a empurrou contra algumas carteiras.
— Pra quê tudo isso? Que armação tava por trás desse disfarce?
— Se eu contar, vai estragar a surpresa. — disse ela que reergueu depressa, girando para aplicar um chute que o derrubou. Austin caiu meio afastado dela — Sorte sua que as câmeras da sala estão desligadas, do contrário não poderia usar seu precioso morfador.
Austin levantou com dor no ponto agredido, posicionando-se para lutar.
— Se eu pega-lo, você já era.
— Fique a vontade, eu não tô afim de brincar pra te impedir. Tchau, tchau. — disse Aracna que teleportou-se de volta a Lokknon.
Austin correu para pegar o morfador sobre a mesa da professora. Ao chegar de inesperado na Central de Comando, ele foi adiante expressando seu choque pela situação.
— Austin, visita-surpresa?! — disse Karen virando-se para ele na cadeira giratória — O que nos traz?
— A julgar pela sua cara, não deve ser notícia das boas. — notara Dickerson aproximando-se dele — O que houve?
— Precisam chamar os outros imediatamente. É sobre a Arianne, a nossa professora substituta. Tem alguma coisa grave acontecendo ou está prestes a acontecer. — declarou Austin passando o senso de emergência.
Dickerson e Karen entreolharam-se sérios e deram acenos positivos de cabeça. Na Cantina do Earl, o papo bem-humorado dos Rangers com a dupla novata chegava ao fim.
— E foi um festival de gases pra todo lado, essa pegadinha do laxante não podia ter acabado melhor, hahahaha! — dizia Mason, rindo a beça junto aos novos amigos. Jessie sorria de modo forçado, só movendo o canudo do seu suco pela metade.
— Aí, galera, acho que tá na nossa hora de vazar. — falou Flint levantando — Passou das duas, nossos pais já devem estar armados de cintos.
— Ah, já vão mesmo? Logo quando eu tava afim de saber mais histórias hilárias. — lamentou Zoe.
— Amanhã a gente conta mais. — prometeu Mason.
— Tem outras que foram tão bizarras... — disse Flint com ar risonho — E nojentas. — fizera careta de nojo.
— Haha, caras, vocês são de longe os melhores novatos que já conhecemos esse ano. — disse Tim — Curti demais trocar ideia com vocês, amanhã podíamos repetir a dose. Que tal?
— Combinado então. — disse Mason — Aí Jessie, essa é minha parte da conta. — botou cédulas sobre a mesa.
— Tá, pode deixar, eu vou entregar pro Earl. Tchau, meninos, foi super legal esse papo.
— Foi mesmo, até amanhã gente. — disse Mason despedindo-se e andando.
— Falou rapazes, falou garotas, até amanhã. — disse Flint dando joinhas e uma piscadela.
Após ambos saírem, Jessie soltou o ar pela boca.
— O que foi, Jessie? Você nem terminou seu suco de ameixa, justo seu favorito. — apontou Zoe, curiosa pelo astral meio baixo da amiga.
— Depois que você voltou do balcão, falou menos que o Damian na conversa toda. — disse Tim.
— Ei, só pra constar, eu não interajo muito com quem acabei de conhecer, preciso de tempo pra me adaptar as novas relações. — explicou Damian.
— Sabem o que é? O Earl me deu um tremendo balde de água fria sobre o Flint e o Mason.
— O que ele te disse? — quis saber Zoe.
— No mês passado, aconteceu... — porém, o toque dos comunicadores interrompeu a fala — Pausa para o plantão de notícias. — a Ranger Amarela atendeu — Na escuta, Sr. Dickerson.
— Crianças, venham logo, o Austin está aqui.
Os quatro saíram dali e foram para o corredor próximo da entrada sem ninguém a vista.
— Vamos nessa. — disse Jessie. Apertaram os botões de teleporte, virando pilares de luzes nas suas respectivas cores, logo chegando a base.
— Pessoal, não fazem ideia do quanto eu fico aliviado em ver vocês. — disse Austin indo até eles.
— Tá parecendo que ficamos um bocado de anos sem nos vermos. — falou Tim.
— A detenção prejudicou sua percepção de tempo? — brincou Damian.
— É que eu tive um pesadelo horroroso onde eu perdia vocês pra dois inimigos poderosos, parecia até o fim do mundo, o céu escuro de tanta fumaça, a cidade toda pegando fogo...
— Nossa, que horror. — disse Jessie — Peraí, isso significa que você dormiu na detenção?!
— Como a Arianne não aumentou o tempo? — indagou Zoe.
— É dela que eu quero falar.
Owen indagara:
— Mas aí, Austin? Foi sucesso ou... sufoco?
— Os dois. Querem saber quem realmente era a Arianne esse tempo todo? Era a...
Caminhando por uma área do subúrbio pouco movimentada, Flint e Mason dobraram para um beco largo visando um atalho para chegarem em casa.
— Vamos por aqui, dá pra cortar pra nós dois. — disse Mason.
Entretanto, Flint notara um objeto preto em forma de prato voando meio longe.
— Mason, acredita em OVNI?
— Que pergunta mais sem noção, cara. Estamos numa cidade que é atacada por aliens de domingo a domingo, até os famosos Power Rangers do Esquadrão Z salvarem o dia.
— Pois seria uma boa eles virem salvar a gente agora, porque tá vindo pra cá! — apontava Flint, alarmado.
— Corre! — disse Mason. A dupla correu adiante, mas foram barrados por um grupo de Psycho-Bots vindos do beco a direita — Caramba, ferrou! São aqueles robôs que os Power Rangers dão o maior duro pra se livrar!
O disco veio ligeiro sobrevoando, ficando acima deles. Ao emitir sua luz azul, levou ambos a olharem para cima. A luz os abduziu. Ao caírem na sala central da nave de Lokknon, se inquietaram.
— Que lugar é esse? — indagou Mason levantando assustado.
— A gente foi abduzido por aquele disco voador, cara! — dissera Flint, aturdido — E você é quem? Deixa eu adivinhar: o vilão brabo do pedaço.
— Isso foi um elogio? Prevejo que a lobotomia será um grandioso sucesso, já estão cientes da minha realeza de imperador.
— A gente já viu você na TV, deu um discurso ameaçando todo o planeta. — recordou Mason — A propósito, nave maneira. Mas não seremos seus hóspedes.
— Que troço é lobotomia? — questionou Flint.
— Peraí... Se eu não tô enganado, já ouvi essa palavra antes. Tem a ver com mexer nos cérebros das pessoas pra apagar memórias e coisas do tipo. — destacou Mason, sentindo temor máximo.
— É basicamente isso que acontecerá a vocês. Psycho-Bots, levem-os para as câmaras!
Os robôs os agarraram agressivos, puxando-os.
— Ei, me larga, vão rasgar minha camisa nova! — vociferava Mason.
— Me solta, seus desgraçados, vou quebrar essas caras de lata de vocês! — dizia Flint, transtornado. Lokknon acenava para eles.
— Até mais, meus futuros soldados de elite.
Na Central de Comando, o clima era de desesperadora incerteza sobre o motivo pelo qual Aracna se disfarçou.
— A Aracna... — disse Tim, desolado, encostando na mesa de vidro — Era a Aracna esse tempo todo! Ah, que porcaria, me apaixonei pela pessoa errada!
— Não é muito diferente de você com a Cindy. — disse Zoe o tocando no ombro para consola-lo.
— E fomos tão cegos. — disse Jessie ainda chocada — Tô me sentindo uma tapada.
— Todos nós fomos tapeados, dividimos a frustração de não ter sequer especulado a Aracna como suspeita n⁰ 1. — disse Damian.
— Mas pelo menos você libertou a Srta. Paddleton, Austin. — disse Owen — Mandou super bem, minha admiração por você só cresceu.
— Sem o incentivo de vocês talvez eu não tivesse ido tão longe, ela podia ter me pegado.
— Podia, mas não quis. — avaliou Karen, pensativa — Fora o fato dela deixar você dormir na detenção que já é bem estranho por si só. Ela não se importava mais com o disfarce quando te flagrou na sala dela, já tinha conseguido o que queria.
— E ainda tem esse pesadelo que tá me atormentando até agora. Pessoal, vocês... acreditam em premonição?
— Quando a mamãe e eu saímos juntos no carro, ela nunca fica do mesmo lado que um caminhão carregando toras de madeira porque viu um filme que falava de premonições. — comentou Tim — Pode ser real, vai saber.
— Não há evidência científica que comprove os sonhos como vislumbres do futuro. — adicionou Damian.
— Austin, que ameaça havia exatamente nesse sonho? — perguntou Dickerson.
— Eram dois inimigos, não deu pra ver direito a aparência deles, estavam andando no meio do fogo. Por falar no fogo... — Austin tinha flashes do pesadelo — Tinha de duas cores diferentes, roxo e acho que a outra era marrom.
— Sonhos tem essas doideiras. — disse Jessie.
— Não se estresse por isso, foi só um sonho, nada mais e nada menos. — minimizou Zoe.
— Mas desde que acordei... a sensação de que algo muito ruim vai acontecer não tá passando. — desabafou o líder, temeroso — Temos que nos preparar pra tudo.
Na nave de Lokknon, Mason e Flint eram jogados nas câmaras de gás, dois tubos meio ovais situados numa sala ampla repletas de grossos cabos elétricos e painéis de controle. As câmaras foram fechadas, os prisioneiros batendo desesperadamente.
— Inicie! — ordenou Mudok a um Psycho-Bot que estava frente ao painel pelo qual acionou a liberação do gás. Raios correram pelos cabos até as câmaras, os gases nas cores roxo e marrom preenchendo os interiores. A dupla tossia de início até os tubos serem ocupados pelos gases que passaram a piscar raios e relâmpagos, inclusive as faíscas elétricas saltando fora dos tubos.
Aracna e Barooma vieram apressados, o espaço tomado num show de luzes piscantes. As mãos dos garotos bateram nos tubos se apoiando... estando cobertas por luvas pretas.
— O mestre está perdendo um espetáculo! — disse Aracna, empolgada.
O gás se dissipava rápido e as câmaras em seguida foram reabertas. Os dois novos Rangers existentes saíam uniformizados.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Bem-vindos a guerra, soldados. — cumprimentou Mudok.
A dupla de Rangers malévolo parou diante deles, Flint socando leve a palma da luva esquerda e Mason em posição combativa com os punhos cerrados. A concretização do pesadelo de Austin nascia para se expandir de maneira catastrófica.
CONTINUA NO PROXIMO EPISÓDIO
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