Power High
22 Arco 3 Capitulo 1 - Extroyer
[Ivon Zolotoy ]
Eu estou em uma sala cirúrgica no centro de Berlim... eu estou congelando. Tem seis agulhas enfiadas no meu corpo, duas no pescoço, uma em cada perna e uma em cada braço. Meus olhos estão pesando assim como meus pensamentos.
Dois meses antes...
[Elena Starkov]
— Ivon Zolotoy Lev. – Foi anunciado no microfone para logo em seguida Ivon se juntar aos formandos. Estávamos eu, Tom, Connor, Kyle e Sohye assistindo a ele. Nunca me cansaria de o vê-lo vestido de terno.
Alguns minutos depois estávamos com ele do lado de fora do auditório de Power High. Tom e Connor não paravam de o encher de perguntas, tais como quando ele iria começar a trabalhar na Alians, se ele ia ter alojamento ou se iriam pagar estadia.
— Semana que vem. – Ouvi Ivon responder, ele estava diferente, os cabelos estavam mais compridos que de costume, penteados para trás dando um ar mais maduro. – Meu trem sai já na terça-feira de manhã.
— Então temos trabalho a fazer no seu quarto. – Todos me olharam com sorrisos maliciosos. – Eu quis dizer em relação a empacotar as coisas dele.
-Acho que vão empacotar outra coisa. – Connor provocou.
— Imbecil. – Mostrei o dedo para ele. – Devíamos começar já.
— Pode ser. – Ivon concordou sorrindo. – Não esqueçam de continuar treinando na minha ausência.
Ivon havia começado a ensinar algumas técnicas de sambo para os rapazes, ele ficou mais acessível após os jogos, então pode passar alguns conhecimentos. Já eu continuei meu treinamento sozinha.
— Vou manter eles na linha. – Tom sorriu para meu namorado. – Eu prometo.
— Estou contando com você. – Ivon encarou o menor. – Vamos?
— Vamos. – Afirmei pegando- o pelo braço.
[Ivon Zolotoy Lev]
Eu estava atrás das cortinas, o traje que a empresa me deu era até que legal.
— Você sai em alguns minutos garoto. – Sombra me tirou dos devaneios. Graças a ele eu comecei tão rápido, atualmente como herói de terceira classe eu só poderia agir sobre supervisão de um profissional de primeira classe ou segunda. – Nervoso?
— Não. – Encarei o detalhe azul no tronco do traje que era inteiramente preto exceto por essa parte. – Qual é a do detalhe azul?
— Foi a pedido meu. – Ele apontou para o mesmo símbolo que era pequeno ao lado direito do peitoral do seu traje. – Meu ajudante pessoal.
— Entendi. – Não acho que precisava ser tão grande, mas okay.
— E é com grande honra e orgulho que a Alians apresenta o mais novo herói profissional... uma salva de palmas para Extroyer.
Passei pelas cortinas e muitas câmeras começaram a lançar seus flashes. Eu havia chegado no primeiro nível para ser o herói número um.
____________________________
— Extroyer, vamos! – Sombra ordenou.
— Detalhes. Pedi o seguindo a caminho da garagem.
— Explosão de gás nas docas, missão de resgate.
— Vamos.
Não era a primeira operação de resgate que eu havia sido designado. Só mais um dia na vida de herói profissional. Montamos nas motos e seguimos até as docas.
Estava pior do que eu pensava, a base do guindaste estava estável, por conta do calor muitas cargas haviam caído e o fogo estava bem intenso. Absorvi o tungstênio de meu cinto de materiais e coloquei a máscara de gás que me foi dada.
— Vou começar a procurar pelos sobreviventes, você tenta estabilizar a estrutura do guindaste. – Assenti positivamente. – Boa sorte.
Sem demora fui até o guindaste absorvendo o mesmo. Comecei a criar grandes estacas de metal para apoiar contra a base até determinada altura para prevenir uma queda precoce.
— Central, estabilidade do guindaste. – Falei pelo comunicador.
— Chance de queda diminuiu em vinte e sete por cento, vá ajudar o Sombra.
Corri pelas cargas encontrando alguns sobreviventes que aos poucos fui levando aos pontos seguros estratégicos. Meus olhos continuavam sempre alertas ao guindaste que podia romper a qualquer momento. Em uma das balsas pude ver três pessoas em meio ao fogo.
— Sombra estou indo até uma das balsas. – Avisei.
— Entendido, já chego até você, estou com alguns aqui.
Corri freneticamente até a beirada do cais e saltei me dando um impulso com uma estaca de metal que saiu das pontas dos meus calcanhares, me lançando até a balsa. Comecei a limpar alguns destroços para abrir caminho, mas um barulho metálico me tirou a atenção. O guindaste começou a cair e para o meu azar bem em cima da balsa aonde eu estava.
-Merda. – Reclamei ofegante na água. Procurei pelos sobreviventes e não os enxerguei. Mergulhei para continuar a busca. Eles estavam lá, afundando presos aos restos da balsa. Comecei a nadar em direção ao fundo o mais rápido que eu podia.
— Extroyer sua resistência pulmonar não é suficiente volte para cima. – A central falou através do comunicador.
Desobedecendo a ordem, segui nadando até o máximo que conseguia. Já sentia meus pulmões se encherem de água... não posso parar eu pensei antes de tudo escurecer.
Em um movimento súbito eu saltei de onde eu estava.
— ONDE? – Gritei vendo sombra e a equipe de paramédicos.
— Já estamos na agência, se acalma. – Sombra pediu me mostrando dois dedos. – Quantos dedos?
— Dois. – Bati em sua mão me levantando. – Os marinheiros... eu consegui?
— Não... – Um dos paramédicos respondeu. – Se o seu pulmão quase não aguentou, imagina o daqueles coitados...
— Que Deus os tenha. – Sombra falou.
— Eu falhei? – Aquela ideia não batia em minha cabeça... ela espancava. Cada célula e cada neurônio doíam naquele instante. – Não é possível... eu...
— Ei garoto. – Meu mentor segurou meu rosto com uma das mãos. – Nem sempre dá pra salvar todo mundo... você fez o máximo que pode.
— Não foi suficiente. – Esbravejei. Eu não podia... eu não... – O fracasso não é uma opção. – “Você vai desistir?” – NÃO SENHOR! – Gritei.
— Ivon. – Um tapa na cara me despertou da paranoia. – Vai pro alojamento e descansa. É uma ordem.
O encarei de cima abaixo antes de me levantar.
— Sim senhor.
Como deixei isso acontecer? Como é possível? Eu poderia ter melhorado a estrutura do guindaste... podia ter sido mais rápido na balsa, eu... falhei. Chegando no alojamento me sentei no pé da cama com a cabeça entre as mãos.
— Elena. – Peguei o celular no criado mudo e comecei a discar. Após três toques ela atendeu. – Alô, alô.
— Oi, sou eu. – Confirmou. – Aconteceu alguma coisa?
— Eu falhei. – Silêncio, o maldito e absoluto silêncio. – Eu não consegui.
— Seja mais específico. – Pediu.
— Eu não consegui salvar os marinheiros. – Ralhei. – Eles morreram e eu vou ter que colocar isso no relatório...
— Ei, ei! – Minha namorada esbravejou do outro lado da linha. – Você não tem como salvar todo mundo.
— Por que todo mundo tá dizendo isso?
— Ivon, ninguém é seu pai para querer que tudo sempre dê certo cem por cento das vezes... tá tudo bem. Toma um banho e descansa.
— Mas eu podia ter feito mais, eu podia...
— Não podia! – Me Interrompeu. – Nem o comandante consegue salvar todo mundo... e tá tudo bem, estamos sujeitos a falhar.
— Eu...
— Me liga mais tarde, depois de descansar. Te amo.
— Não, espera, alô, alô? – Lancei o aparelho contra a parede. – Merda!
Faz quatro horas que estou na piscina da agência. Meu recorde embaixo d’água foi sete minutos sem ter que subir.
— Aumentando a capacidade pulmonar? – Alita, a manda chuva. – Tem um minuto?
— Tenho. – Saí da piscina e peguei a toalha jogada no banco.
— Tenho observado você desde a semana passada. Sei que anda abalado com o que aconteceu nas docas e que tem mostrado um trabalho excelente, não sei se como forma de tentar se redimir. – Ela fez uma pausa me encarando. – Não comigo ou com a empresa, mas consigo mesmo.
— Eu não... – Não tinha resposta para tal afirmação. – Só quero atender a expectativa.
— Isso você faz sem problemas. – Ela sorriu arrumando o sobretudo cinza. — Mas minha visita não é por motivos de advertências ou relatórios. Tenho uma proposta para você. – Ela apontou com o braço. – Podemos?
— Sim. – Peguei meu roupão e caminhei com ela. – Que tipo de proposta.
— Não sei se você sabe disso, mas seu sistema imunológico, é incrivelmente resistente e adaptável. Isso explica seu histórico de nunca ter ficado doente na vida. – Ela cuspiu um argumento que eu sinceramente, já sabia. Então a proposta dela tem haver com meu DNA, talvez criar uma vacina para algo. – E recentemente eu consegui uma aprovação para algo interessante e que tem oitenta e sete por cento de chance de ser bem sucedido, se aplicado a você.
— Aonde quer chegar? – Questionei.
— Vou ser direta, Extroyer. – Ela parou no meio do corredor. – Me foi concedido uma autorização para o amplificador de poderes e eu quero que você seja o espécime. Claro que você receberá uma promoção se aceitar, subirá instantaneamente para herói de segunda classe e com isso todas as regalias que esses mesmos têm.
— E seu eu recusar? – Perguntei.
— Segue com sua vida normalmente.
— Por que eu? – Encarei seus olhos apreensivos.
— Seu sistema adaptável é perfeito para a absorção de nutrientes e químicas presentes no que iremos usar. Estou pedindo sua genética emprestada para algo que não só irá favorecer a agencia, mas também você. – Ela deu as costas. Espero sua resposta em uma semana ou menos.
— Sim senhora. – Confirmei.
Seria uma grande responsabilidade nas mãos... eu posso morrer, como posso ficar mais forte. Posso subir de classe ou nunca ser o herói número um. Minha genética pode suportar o processo, mas antes de qualquer decisão, preciso fazer algo primeiro.
— Eles o que?
— Sim, me ofereceram uma promoção se eu aceitar ser submetido ao processo. – Expliquei novamente.
— Você recusou não é? – Já vi que ela não gostou da ideia.
— Linda, seria a promoção mais rápida da história das agências...
— E você pode morrer. Lembra dessa parte? – Ela deve estar arrancando os cabelos nesse exato momento.
— Tem só vinte e três por cento de chance de eu morrer, os números estão a meu favor... eu posso ficar mais forte, mais rápido. Eu diminuo as chances de fracasso.
— Precisa parar de basear suas decisões por conta de uma única razão.
— Você faz isso desde que te conheço e eu não fico jogando isso na sua cara. – Sei que é golpe baixo, mas pensei que de todos, ela seria a primeira a apoiar a ideia.
— Você... – Silêncio. – Quer saber Ivon, faz o que quiser. Se você morrer eu é que não vou chorar no seu túmulo.
Ela desligou. Controlei a raiva pra não quebrar outro celular.
Fiquei jogando a bola antiestresse a tarde toda, pensando se eu realmente deveria fazer o procedimento. Está claro que eu quero fazer, mas...
— Chamada de Connor. – O projetor holográfico falou.
— Atender. – um holograma de Connor de óculos junto com o Tom a apareceu no leito do quarto. – Não é uma boa hora.
— O assunto é sério. – Tom tomou a iniciativa. – Ouvimos a sua conversa com a Elena.
— Isso é preocupante. – Me sentei na cama.
— Nós vamos direto ao ponto. – Connor se aproximou. – Quando é que você vai parar de ser o soldadinho quadrado e começar fazer o que quer?
— Como é? – Indaguei.
— Ivon, veja bem. – Meu amigo americano ajeitou os cabelos para trás com as mãos. – Você sempre viveu em obedecer as leis do seu pai... agora você é adulto e escolhe por você. A Elena não é seu comandante. Faça o que achar certo, cria suas próprias convicções.
No fundo isso fazia um sentido absurdo, talvez eu só estivesse esperando a aprovação de Elena por não ouvir muito meu pai nos últimos meses. Não posso procurar um general, um comandante ou qualquer figura superior para me dizer que estou certo. É hora de agir. Levantei de supetão deixando a projeção de Connor e Tom para trás. Obstinado abri a porta da sala de Alita sem bater.
— Já tenho sua resposta. – Ela me encarou assustada. – Pode agendar o procedimento, vou ser seu rato de laboratório.
Fale com o autor