#POV do Ryan#

Após ler atentamente a carta de Brendon, fiquei sem dar a devida resposta por alguns dias, porque alguns pontos na carta mexeram realmente comigo, como só o verdadeiro Urie conseguia fazer. Eu decidi agir, mesmo que a carta dissesse que o melhor era conversar. Nesses dias sem contato com Urie, o da minha época, ficava cada dia mais estranho, cada dia mais distante, e eu já estava desesperado porque nada parecia ser suficiente para que ele dissesse o que estava acontecendo conosco, mas ele se calava. Sempre se calava e me jogava longe de sua vida.

Esse era meu conceito de romantismo indo pelos ares.

Eu decidi tomar e enquanto tirava a roupa para fazer isso, eu percebia que o dia estava mais estranho que o comum, que nesse dia eu não deveria ter sequer acordado. Na parte de baixo do chalé, Brendon recebia Spencer, Jon, Shane, Zack e suas respectivas namoradas. Ela, Sarah Orzechowksi, veio também. Eu não conseguia ficar muito tempo perto daquela cena, ainda mais com o Brendon bebendo e rindo tão desenfreadamente que daqui de cima escuto sua diversão.

De repente, Brendon entra babado no quarto. Ele já havia se despedido de todo o pessoal e eu continuava enrolando no banho, resmungava coisas aleatórias que eu não conseguia ouvir ou prestar atenção. Decidi ignorar completamente, afinal, desde sempre aprendi que não se deve dar ouvidos a bêbados, até que ele veio o mais rápido que pôde, se apoiando em móveis, para se debruçar no vaso e pôr toda aquela bebida para fora.

“Droga!” Exclamou ele, baixinho, sem sequer fazer menção em me pedir algum tipo de ajuda. Suspirei encarando a cena que me era tão familiar.

“Tá tudo bem?” Franzi o cenho, realmente preocupado, e o outro não tirava a cabeça de dentro do vaso. “O que há contigo, B?”

“Eu só bebi demais com a galera, Ross.” Respondeu rude e eu revirei os olhos. Agora eu tinha mais certeza que tinha algo errado com ele e eu era, de alguma forma, o culpado. “Vai me censurar por isso também?”

“Não, Brendon.” Suspirei cansado. “Tem aspirina aqui ou eu vou ter que ir comprar?”

“Não precisa fingir que se importa comigo.” Urie falou fraco, tentando se levantar, mas não conseguiu fazê-lo. Tirei um frasco de aspirinas do armarinho, apoiando-o na pia ao que torci os lábios de forma desapontada. Cruzei os braços em frente ao peito, entristecido. “Eu já bebi demais outras vezes e me virei sozinho.”

Assenti para a última frase e saí do banheiro, para descer. Fiz um pouco de café bem forte e quando voltei, ele ainda estava na mesma posição, sentado de cabeça baixa, em frente ao vaso. Entrei no banheiro e lhe entreguei as aspirinas e o café. B assentiu fraco em agradecimento.

“O que é que há de errado com você, hm?” Voltei a perguntar quando me sentei ao seu lado, no chão, em posição indiana. “Eu tenho tentado cuidar de você, e não é só hoje, e você tem me afastado cada vez mais.”

“Você não se importa.” Brendon bebeu o café numa careta e em seguida a aspirina. Encolheu os ombros, tentando não se sentir enjoado. Eu não estava sequer vestido, apenas uma toalha enrolava minha cintura. “Só se importa quando eu to nu na tua frente, e você quer sexo. Você quer transar comigo agora, Ryan?”

“Há quanto tempo eu não procuro você pra sexo, Brendon?” Perguntei meio defensivo.

“Última vez foi ontem, com aquelas flores que você me mandou.” Respondeu, suspirando.

“Eu não te mandei flores porque queria transar com você.” Falei um pouco irritado. “Mandei flores porque eu te a--”

“Shh, não fala do que você nem sabe sentir.” Ele falou me interrompendo. “Você é focado demais em si mesmo pra amar algo ou alguém que não esteja em sua jurisdição.”

“Tanto faz.” Encolhi os ombros, mais para não aprofundar a discussão que não querer falar o que eu penso. “Por que você bebeu?”

“Porque eu quis, Ryan.” Falou erguendo os ombros com descaso.

O surto de Brendon estava mexendo mais comigo, mais do que eu já estava mexido por causa das cartas e principalmente da última. Talvez isso me fizesse vê-lo com outros olhos. Ele agora mostrava com palavras cortantes o que estava sendo “encoberto” pelo B do futuro. Não havia mais jeito de consertar isso aqui. Tudo o que eu fazia por amor era visto como um jeito novo de conseguir sexo. Eu não queria isso de qualquer jeito. Era isso e doía mais do que eu imaginava.

And if you only hold me tight, E se você apenas me segurar firme, We’ll be holding on forever. Nós ficaríamos abraçados para sempre.

Acariciei sua perna na tentativa desesperada de fazê-lo compreender que estava errado sem usar palavras. Que eu era capaz de senti-lo mexendo no mais profundo da minha alma. Aonde nenhum outro havia conseguido chegar, mas no lugar de compreender meu gesto, Urie recolheu a perna com dificuldade. O ajudei a ir pra cama e deitei-me ao seu lado, com um pouco de dificuldade. Fechei os olhos e a voz de Brendon veio me torturar por várias vezes.

“Quer que eu te leve pr’um hospital?” Perguntei baixinho, fraco, mas não menos preocupado com o bem estar dele.

“Eu só bebi demais, Ryan. Eu vou sobreviver a isso.” Falou baixinho, se ajeitando na cama e na pilha de travesseiros em suas costas. Assenti contra a vontade. Girei os olhos com tamanha rigidez e contei mentalmente até dez. Então, falei:

“Eu vou dormir na sala.”

“Faz como bem entender.” Respondeu. “Eu não ligo.”

“Você precisa descansar e você sabe que eu não durmo quando a gente briga.” Expliquei, encolhendo os ombros e já levantando da cama para pegar algumas cobertas, papel, caneta, violão, fones e os olhos de Brendon me seguiam curiosamente.

“Não, fica aqui.” Falou baixinho. “Eu vou pra lá se te incomodo tanto.”

Não respondi com palavras, apenas discordei com a cabeça e fui andando devagar para a porta de saída, visivelmente frustrado. Não era assim que uma história de amor deveria terminar, não era assim que eu imaginava que Urie se sentisse. Talvez o Urie sensível que eu montei na minha cabeça estava me mostrando que ele não era mais aquele das minhas lembranças e acredite, isso doía.

“O que houve, Ryan?” Falou, talvez porque me viu demonstrar minha frustração.

“Eu não sei exatamente.” Encolhi os ombros. “É só um sentimento bobo que surgiu em mim. Eu só queria--”

“Queria o quê, Ryan?” Suspirou e eu mantive o silêncio por mais alguns minutos. A irritação voltou a incomodar Brendon e esse deu um suspiro maior, mais pesado. “Eu não sei porque eu ainda insisto com você.”

Eu pude sentir uma corrente de ar frio passar por minha espinha com aquelas palavras. O coração parou de bater um momento e logo em seguida começou a disparar, acima do que o normal causado pela presença de Brendon. Não só por ver que meu garoto estava em um estado deplorável, mas por ter imaginado que, em outras palavras, ele dizia “Acabou, Ryan”.

“O que você quer dizer com isso?”

“Você sabe o que eu quero dizer com isso, Ross.” Falou ainda irritado. “Achei que a gente estava junto nessa sem segredos, cara, mas você esconde tudo de mim.”

“Eu não tenho segredos pra você.” Falei baixinho, meio desacreditado no que estava ouvindo ali. Na verdade qualquer coisa era viável depois do lapso de tempo e de eu conversar com dois Brendon Urie “diferentes”.

“Ryan, eu não tenho tanta certeza.” Falou frustrado. “Você tem feito coisas das quais eu não me deixa participar. Quando você não está escrevendo pra um cara qualquer, está pendurado no telefone, ou me paparicando para ter apenas um pouco de sexo. Eu não funciono assim; carinho e sexo.”

Eu fechei os olhos por um único momento. Eu não sabia exatamente se sentia dor ou se agradecia a ele por estar sendo sincero comigo como há muito tempo não era. Na verdade, uma tristeza maior do que eu estava costumado me invadiu. Assenti quando meu organismo absorveu cada palavra dita, formulou a frase. Eu havia sentido o peso de palavras duras e mentirosas.

“Está certo, Brendon, você conseguiu.” Falei levado pela tristeza repentina que corroia meus órgãos dolorosamente. Era óbvio que nenhum de nós queria o fim de tudo aquilo, mas estava previsto e eu precisava pedir desculpas por ter fracassado. Por manter uma esperança acesa e, principalmente, por manter o futuro exatamente como ele é agora. Horrível e insalubre. Insuportável e frio. “Acabou pra nós, Brendon.”

“Como?” Arqueou a sobrancelha. “Ryan, n-não é assim que se resolve um problema. Não é pra ser tão... xiita.”

Suspirei negando com a cabeça enquanto olhava para Brendon, sustentando minhas lágrimas dentro de meus olhos. Voltei alguns passos, pondo minhas coisas na cama para poder olhar diretamente em seus olhos. Me sentei ao seu lado, apoiando a mão sem maldade em sua perna.

“Você ficaria com alguém que não acredita em seus sentimentos, mesmo quando eles são os mais sinceros possíveis, livres de qualquer segunda intenção?” Falei baixinho. “Que não confia em você?”

“Eu confio em você.” Falou baixinho. Eu assenti.

“Que bom, Brendon.” Sorri fraquinho. “Não é só carinho e sexo para mim. Está um nível acima disso, num ponto tão avançado que você não consegue decifrar.” Ao dizer aquelas palavras, encerrei o assunto. Estava tão ferido que a partir daquele momento eu não ia conseguir falar absolutamente nada. Nem sequer arrumar minha cama no sofá. Eu precisava desabafar. Deitei do outro lado da cama em silêncio e esperei Brendon dormir.

Eu desabafei na carta-resposta. Eu desabei como nunca havia feito com ninguém. Eu precisava de um abraço, mas naquele momento, até as palavras rabiscadas de Brendon me faria bem, porque ele estava pronto pra me ouvir.

— # —

B,

Talvez agora eu te dê coragem para ligar para o Ryan da sua época. Se você está bem mais crescido, mais interessante, mais apaixonante agora, eu devo estar assim também, não acha? Bom, nesse momento não importa em nada.

Eu deveria trocar você por você mesmo? Isso pode ser traição? Não, Brendon, não seja ridículo. Eu não estou te trocando por ninguém ainda, embora tantas coisas tenham acontecido nesses dias que eu estou sem escrever.Eu não sei se a sensação de não me ter é pior que a sensação de te ter deitado ali, naquela cama, e não poder te abraçar, porque estou ferido demais para me preocupar com você que dorme de forma tão serena.

Peço perdão, um milhão de vezes, não só porque eu demorei a escrever novamente, mas porque as coisas aqui vão de mal para pior. Eu queria poder te passar notícias melhores de 2009, mas eu não posso. Eu não sei mentir para você.

Hoje, pela manhã, Spencer, Jon, Zack, Shane, suas respectivas namoradas e a Sarah Orzechowski vieram aqui. Eles trouxeram muita bebida e começaram a falar besteiras que não me agradaram, então eu fiquei no quarto todo o dia, tocando. Porque, você sabe, bebidas me irritam. Quando todos foram embora, pela noite, você vomitou e quando eu tentei te ajudar, você vomitou algumas palavras em mim.

Nessas palavras, você simplesmente destruiu qualquer possibilidade que eu tinha de ficar com você. Você destruiu tudo, de verdade, sem querer colocar a culpa toda em você, porque eu realmente achei que estávamos bem. Há algum tempo atrás você me indicou uma música da No Doubt, com essa mesma banda, quero dizer o que eu sinto agora. “Don’t speak, I know what you thinking. I don’t need your reasons, don’t tell me ‘cause it hurts.” Você me magoou muito nessa noite, tanto que eu não sei se um dia eu terei alguma recuperação. Essa carta tem o objetivo de dizer que eu desisto de você, oficialmente. Simplesmente eu não posso – e no momento, com a cabeça quente, — nem sei se quero mais mudar isso. Melhorar nosso futuro.

Era isso, Bden, que você queria evitar que acontecesse? Se for, poderia ter me dito com melhores palavras, numa situação menos desprezível. Eu passei por muita coisa nessa minha vida, mas nada doeu tanto quanto as suas palavras. Não precisa fingir que confia e acredita no meu sentimento, eu sei que você é um excelente mentiroso.

Me desculpe,

Ryan Ross.

ps: Sim, isso é um adeus.

— # -

Notas finais
'brigada. that's all. :3