Possession
1 Prólogo – Um novo alguém
Notas iniciais
Os passos firmes, e um tanto ansiosos, anunciaram a sua presença enquanto descia a escada principal. Dio mexia nas abotoaduras prateadas de seu terno azul-marinho ao ser recepcionado pelo mordomo, na base da escada.
— Bom dia, Sr. Brando, o café já está servido e o Sr. Joestar o aguarda.
— Ah, como sempre... – resmungou, mal-humorado. Ultimamente, Sr. Joestar não fazia outra coisa além de fazê-lo contar tudo o que acontecia no tribunal. E agradar ao pai esgotava ainda mais a sua paciência. — JoJo está com ele?
Quando acordou, não encontrara o irmão ao seu lado. O procurou no outro quarto, mas não tinha indícios de que alguém estivera ali.
Imaginou que JoJo já estivesse fazendo companhia ao pai.
— Não, senhor. Ele se encontra na biblioteca, no momento. Temo que passou a madrugada inteira lá – dizia o mordomo.
Dio franziu o cenho, pensou que JoJo dormira à noite inteira em sua cama.
Não pode ser só a maldita pesquisa, pensou.
Por não ter ainda uma resposta plausível para o repentino afastamento de JoJo – que vinha acontecendo há algum tempo –, julgou ser o momento propício para descobrir o que acontecia.
Por fim, ignorou qualquer informação inútil que o criado italiano falava.
— Levei uma bandeja para...
— Já ouvi o bastante – Dio interrompeu, impaciente. — Sei exatamente o que fará JoJo sair de lá. Avise meu pai que, em breve, nos juntaremos a ele.
— Sim, senhor. – Ouviu do mordomo quando se afastou.
E tão logo, estava no caminho para a biblioteca da mansão.
Ajeitou com os dedos os cabelos dourados de maneira impecável e, por fim, o nó da gravata vermelho-vinho.
Passou pela porta que estava entreaberta e vislumbrou JoJo sentado à grande mesa, no centro do recinto, cercado por inúmeras prateleiras de livros e debruçado sobre papéis e mais alguns volumes abertos, além da “tranqueira” de pedra que o inspirou a ser arqueólogo.
Teve de admitir que gostou do que viu; a luz do sol invadia pelas enormes janelas e a presença do irmão melhorou a composição daquele cenário.
JoJo estava tão concentrado na pesquisa que pareceu não notar Dio se aproximar em um andar felino.
Posicionou-se atrás de JoJo, repousando suas mãos sobre os ombros largos e tensos do irmão.
Deu início a massagem, enquanto mordiscou de leve o lóbulo do outro, o tirando da imersão.
— A vontade de te castigar por preferir passar à noite aqui, é bem grande – Dio sussurrou ao pé do ouvido do irmão, arrancando-lhe um suspiro.
— É uma pesquisa importante. – Largou a caneta tinteiro e passou as mãos sobre o rosto para dispersar o cansaço. Ainda vestia a roupa que usou para dormir.
— Tome muito cuidado com o que vai dizer, JoJo – dizia enquanto se afastava para encostar-se na mesa, com os braços cruzados —, porque não zelarei seu sono uma próxima vez.
JoJo encostou-se na cadeira, preguiçoso, e encarou Dio com um sorriso singelo como agradecimento por aquela demonstração de afeto.
— Não se preocupe, isso não vai mais acontecer. – JoJo ficou sério, de repente, o que não passou despercebido.
— Depende do que quer dizer com isso. – Arqueou uma sobrancelha.
Eles nunca conversaram sobre o relacionamento proibido que levavam, o bom senso dizia que não deveriam levantar suspeitas com qualquer comportamento considerado inadequado por serem dois homens, além de irmãos de criação.
Obviamente, a sociedade, ainda que fosse uma época de grandes mudanças, não via com bons olhos um relacionamento incestuoso e homoafetivo, por isso a necessidade de mantê-lo em segredo.
Mas Dio não sabia o que se passava na mente de seu irmão desde quando passaram a ser sexualmente ativos.
Sentia-se cometendo um crime? Sentia nojo dele mesmo, ou por não aguentar mais a situação, se afastou? Ou a razão do afastamento era por finalmente estar aliviado por encontrar alguém de fora com quem pudesse se relacionar sem culpa?
Tinha medo de saber, admitia, mas não era ingênuo para descartar a possibilidade. Eram pensamentos que traziam a Dio uma sensação desconfortável, saída de seu âmago.
— Temos que conversar sobre tudo – JoJo dizia ao se levantar, com voz serena e sem condenação.
Dio foi tomado pelo ímpeto; se aproximou de forma bruta, segurando as partes íntimas de JoJo por cima da calça e o empurrando de volta para cadeira.
Nada passava na sua mente, nem mesmo a razão do que fazia, recusando-se a pensar sobre os riscos que corriam se fossem pegos.
O beijo lascivo e violento que Dio desferiu em seguida, foi correspondido, para seu alívio, arrancando um gemido mais audível de JoJo.
Contudo, Dio teve o rosto segurado por aquelas mãos, com o maior cuidado do mundo, fazendo-o se afastar, finalizando aquele beijo agressivo, antecipadamente.
— Não, Dio... – dizia com a voz embargada. Voltou as mãos na do outro que estimulava sua ereção, afastando-a também. — Não podemos mais fazer isso.
A raiva tomou conta de Dio, que desferiu um soco certeiro no lado esquerdo do rosto de JoJo.
— Eu decido quando parar. Não você! – Sua voz estava alterada, como se estivesse rouca.
Se precipitou atacando novamente, mas teve o golpe aparado; JoJo segurava seu punho com força, agora, erguido da cadeira.
Dio partiu para a violência, dando chute no abdômen de JoJo ao puxá-lo para si e desferiu mais um soco, um gancho de esquerda, para derrubá-lo.
JoJo ficou desnorteado, deu alguns passos para trás, mas conseguiu se recompor e revidar com um soco muito rápido, pegando Dio desprevenido.
Gotas de seu sangue espirram pela mesa quando Dio se amparou no móvel, evitando desabar, e, assim como JoJo, testemunhou a máscara de pedra reagir ao sangue.
Espinhos saíram de sua orla, fazendo-a pular na mesa com o novo formato.
— O quê?! – Dio ouviu JoJo exclamar atrás de si.
E, nesse momento de distração, Dio pegou a máscara com a intenção de ferir JoJo com aqueles espinhos expostos.
Pela primeira vez, depois de anos, sentia um forte arrependimento de não tê-lo matado quando teve a chance.
Mas o irmão mais novo conseguiu segurar, outra vez, os punhos de Dio, fazendo-o soltar a relíquia.
Dio esperneava quando foi posto sobre a mesa, para ser contido, e fazia de tudo para se soltar daquele aperto.
JoJo manteve as mãos do irmão acima da cabeça, e, talvez, para surpresa de ambos, simplesmente o beijou, como última opção de pará-lo.
A raiva ainda conduzia Dio à violência, mas ele quase perdeu o fôlego quando se deu conta da ereção de JoJo, assim como a própria, roçarem-se ainda dentro das roupas quando ele se encaixou entre suas pernas.
Correspondeu ao beijo e as investidas por um momento, transbordando sua raiva e desejo mesclados, buscando aquele contato tão quente e prazeroso que fazia seu coração derreter.
Agarrou a camisa de JoJo a ponto de rasgar a costuma do braço. E mordeu com força o lábio inferior do irmão, que se afastou rapidamente com a mão na boca, exclamando de dor.
— Quem você quer enganar, JoJo? Você é uma aberração... – Igual a mim, quis dizer. Limpou o sangue do canto da boca com as costas da mão, e se afastou da mesa. Chutou a máscara caída no chão, já com os espetos retraídos, para perto de JoJo. — Mas minta para si mesmo se isso te faz se sentir melhor, ainda que seja inútil.
— Não estou mentindo, você não entende? Eu amo você... Dio... só não podemos continuar assim! Não podemos sequer dizer abertamente como nos sentimos sem sermos condenados por crime! Diga se estou mentindo, droga!
Dio não via condenação ou repugnância no olhar de JoJo, havia preocupação genuína. Ele tentou se aproximar e Dio foi quem evitou o contato físico.
E, de fato, JoJo não estava mentindo; na Grã-Bretanha, a legislação persecutória realizou inúmeros julgamentos por sodomia nas últimas décadas. Assumir um amor não convencional era condenatório para ambos os lados. E a família poderia cair em desgraça. Dio era advogado, sabia muito bem disso.
— Está dizendo que está com medo, a essa altura? Que a consciência pesou? Não seja patético... Seu pai está nos esperando para o café da manhã, a porta da biblioteca está praticamente aberta, qualquer criado podia nos ver agora mesmo, mas você não pensou nisso quando me pegou na mesa! – E o silêncio se fez presente.
JoJo suspirou, resignado, e recuperou a máscara do chão, analisando brevemente sua estrutura.
Para Dio, a conversa estava encerrada. Não havia mais a necessidade de sequer perguntar sobre quem surgiu na vida de JoJo e o fez sentir-se culpado pela relação amorosa com o irmão adotivo.
Sua boca começou a doer, repousou a mão no local, e teve a intenção de sair da biblioteca, deixar aquele idiota com a porcaria que tanto tinha sua atenção.
Caminhou alguns passos e seu punho foi segurado. Virou-se para ver JoJo ainda mais preocupado e certamente arrependido pelo soco. Dio conseguiu se soltar.
— Dio... por favor...
Não esperou por qualquer desculpa, Dio saiu da biblioteca, batendo a porta.
✩
À noite, uma chuva torrencial caía, mas não impedira que Dio descarregasse sua raiva para ferir os sentimentos de JoJo.
O álcool em seu organismo não permitiu que fosse cauteloso numa chuva forte com relâmpagos e trovões enquanto andava em campo aberto.
Se um raio não o parasse agora, nada mais o pararia, assim pensou.
Os gritos chorosos foram bem abafados pelos trovões e um saco de pano ao se afastava da mansão.
E quando finalmente chegou ao lago, Dio não sentiu remorso ao afogar aquilo que lutava arduamente para sobreviver.
As marcas das presas que ficaram em seu braço desde a adolescência, eram um lembrete de que, um dia, Danny deveria pagar com a vida o que causou.
Ao finalizar, soltou o pobre animal morto para dentro do lago.
Em dado momento, o corpo de Danny afundou e Dio tomou o caminho de volta.
Caminhou até a entrada da mansão, a passos lentos, e viu JoJo na janela do quarto. Não pôde discernir a expressão que ele fizera ao percebê-lo no meio da chuva, mas apostou consigo mesmo que o irmão viria acudi-lo.
A porta da frente foi aberta e JoJo saiu de lá, às pressas.
— Céus, Dio! Onde esteve? Vamos entrar! – Ele estendeu a mão e Dio a segurou, para puxar e abraçar seu irmão, em seguida. JoJo só retribuiu, ainda receoso. — Vamos, Dio... senão ficará doente.
— Eu já estou, JoJo – disse ao se afastar o suficiente para depositar um beijo cálido nos lábios do irmão, em meio a chuva.
Dio presenciou JoJo engolir em seco, que não demorou para ceder às tentações que pareciam perturbá-lo, afinal, ele segurou com força a mão de Dio e o puxou para dentro da mansão o mais rápido possível.
Havia malícia naqueles olhos azuis que há anos deixaram de ser puramente inocentes. E um sorriso atrevido se fez presente nos lábios de Dio.
Ambos passaram pelo saguão e seguiram para o quarto do mais novo, quase correndo.
Ao se trancarem lá, Dio teve sua boca invadida num beijo desesperado que sabia que seria o último.
Removeu o terno ensopado de seu corpo e JoJo ajudou-lhe a retirar a camisa branca junto com a gravata.
O som da respiração ofegante dos irmãos pela breve corrida e por não conterem mais o desejo, deixava a atmosfera ainda mais selvagem e luxuriante.
Sentiu o aconchego das mãos quentes do moreno perpassarem por suas costas gélidas, causando-lhe arrepios na nuca, onde JoJo parou uma das mãos e puxou o seu dourado cabelo para trás.
Dio deixou um gemido escapar, quando, sedento, JoJo avançou contra o seu pescoço, chupando-o, marcando com os dentes sua pele alva.
Era inebriante tê-lo tão feroz, propalando lascívia e cedendo ao desejo de ter seu corpo por inteiro.
Só alimentava a ideia de que JoJo cometeria o maior erro de sua vida rompendo aquele laço, mas Dio tentou dissipar qualquer pensamento desestimulante que não fosse parte daquela loucura que estava prestes a acontecer, porém, seria tão bom trazer lucidez ao irmão...
Queria poder dizer abertamente como me sinto, JoJo, mas se o que está acontecendo agora não for o suficiente para você, não me verá mais exposto assim... nunca mais.
Então, foi conduzido à cama e se deixou desabar, deitando-se atravessado no colchão.
A bebida estava o afetando. Suspirou admirado pela visão de JoJo removendo o próprio roupão, revelando o que os treinos e os campeonatos de futebol americano fizeram naquele enorme corpo; tão definido, tão cheio de vida e exalando beleza e sentimentos profanos pelos poros.
Dio o provocou, deslizando com as mãos em seu próprio corpo enquanto rebolava levemente o quadril, insinuando-se.
JoJo se posicionou entre as pernas do irmão mais velho e tomou seus lábios num beijo demorando e tão carregado de desejo que arrancou gemidos guturais dos dois.
A pressão de seus corpos contra as virilhas também colaborou bastante, a ereção já estava incomoda dentro das calças.
JoJo finalizou o beijo, mas trilhou cada pedaço daquela pele pálida que o interessava com leves chupões e mordiscadas; iniciando pelo lóbulo, passando pelo pescoço, chegando aos mamilos para deixá-los entumecidos, até parar com as carícias no meio do abdômen.
Dio fechou os olhos para curtir as sensações proporcionadas enquanto JoJo mexia na braguilha de sua calça para retirá-la com brutalidade.
Riu abafado pela pressa do outro, mas arfou alto quando teve o falo abocanhado, sentindo-se apertado no fundo da boca de JoJo.
— Ah... alguém está... tentando se redimir... – dizia em meio aos leves gemidos manhosos.
Acariciou os cabelos preto-azulados e úmidos de JoJo e, eventualmente, os puxava conforme sua excitação aumentava.
Dio arqueou o corpo quando a língua circulou sua glande, espalhando o pré-gozo evidente enquanto foi penetrado por um dedo molhado, que massageou seu ponto fraco.
JoJo realmente estava muito empenhado e Dio se deliciava, gozaria ali mesmo se deixasse.
De repente, foi surpreendido ao ser virado de bruços e ter a sua entrada estimulada com a língua ávida e novamente com mais dedos precisos do mais novo. Aquilo estava difícil de aguentar.
Empinou o quadril para ter ainda mais contato, mas JoJo não demorou mais naquelas prazeirosas preliminares, se posicionou e roçou o próprio membro naquela natureza, para forçar, aos poucos, a invasão.
Dio não conseguiu evitar a expressão sôfrega e reagir contra a cada tentativa de JoJo em penetrá-lo, contudo, era o que ele mesmo buscava; ser completamente preenchido, aniquilar o vazio mesmo que temporariamente. Embora estivesse bastante estimulado e com saliva, nada evitava a terrível sensação de ser rasgado ao meio.
JoJo chegou a sibilar ao lograr a metade de seu pênis ser engolido pelo esfíncter do loiro, e foi ainda mais difícil impedir sons guturais saírem quando iniciou as lentas estocadas.
As lágrimas brotaram dos olhos âmbares-amarelos, e Dio se odiou por isso, depois, odiou JoJo por tudo o que sentia.
Mordeu o próprio lábio inferior ao ter a próstata finalmente estimulada com afinco, ainda que a dor não diminuíra. Virou o rosto meio de lado para observar a expressão de JoJo.
Sua cintura, nesse momento, foi segurada com força e as estocadas aumentaram o ritmo.
Não soube dizer se era verdade ou se estava sendo ludibriado pela bebida, mas Dio vislumbrou o quanto JoJo se odiava por não ter se controlado.
Ele se arrepende... mesmo agora... ele se arrepende.
Com a mão livre, Dio começou a se masturbar com vontade, e ofegava cada vez mais alto. Estava chegando ao seu limite. Mesmo se quisesse, não conseguiria prolongar mais. Sentiu os músculos das coxas tremerem, contraiu os de sua entrada para deixar JoJo ainda mais sufocado.
— Oh, Jona...than... – chamou, enquanto erguia-se sobre os joelhos, parando de se masturbar e sendo segurado pelos braços por JoJo, que voltava a estocar com vontade.
O som de peles se chocando acompanhava os gemidos de ambos.
Dio pendeu a cabeça para trás quando seu orgasmo o arrebatou. JoJo veio logo em seguida, abraçando-o por trás, com força e grunhindo ao pé do ouvido.
Permaneceram nessa posição somente para buscar os lábios um do outro, novamente.
A respiração descompassada dificultava um beijo mais prolongado, mas isso não os impediu.
Desabaram na cama, ainda mantendo a penetração. Dio sentiu a pressão que o corpo de JoJo fazia sobre o seu.
Sentiria falta...
— E quando acordarmos... – Dio balbuciou — fingiremos que nada disso aconteceu. E que nada disso nunca aconteceu.
JoJo apertou o abraço, escondendo o rosto na dobra do pescoço de Dio, mas nada disse. Sendo embalados pela respiração, ambos caíram no sono.
✩
Passado uma semana, Dio andava atarefado no tribunal enquanto JoJo estava ocupado com a pesquisa e também com o desaparecimento de Danny, que tomou um bom tempo nos primeiros dias, quando ele iniciara uma busca. Fazendo com que os irmãos sequer se encontrassem.
Se JoJo considerou que Dio cometera alguma atrocidade com o cachorro, ele preferiu não confronta-lo. Afinal, essa briga já não traria Danny de volta.
O cadáver fora encontrado no fundo do lago; inchado e levemente putrefato. E soube que JoJo enterrou-o próximo do ulmeiro, à beira do lago. O mesmo lugar que fora beijado, pela primeira vez.
Foi a confirmação para Dio que JoJo, a princípio, entendera a mensagem subliminar.
Porém, seu amado irmão levou a dama da qual se apaixonou, para conhecer a família Joestar, o que poderia ser uma afronta.
Nesse dia, Dio chegou mais tarde na mansão, após o jantar, e JoJo fez questão de apresentá-la pessoalmente para ele.
Ele estava o desafiando, ainda que Dio não desse a mínima para isso... até ouvir o que saiu da boca dele:
— Dio, apresento a você a minha futura esposa, Erina Pendleton.
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