Possession

2 Capítulo I – O Veneno


Notas iniciais
Eu estou muito ansiosa e ando ultimamente bem emotiva. Talvez, penso eu, que isso reflete no capítulo. Em todo caso, espero que goste! Boa leitura!

Sentia o veneno em suas veias, em cada poro, fervendo por dentro, deixando-se à flor da pele. Tomando o lugar do sentimento de perda e desalento, negando espaço para essa humilhação.

Dio nunca se sentiu tão ferido e vazio ao mesmo tempo, quando ouvira aquelas palavras odiosas de JoJo, que ousou rejeitá-lo e agora, exibia com orgulho a sua preferência, sendo louvada pelo pai, como um triunfo.

Odiou todos eles.

E a si mesmo, por não conter as lágrimas teimosas que, ao deitar-se na cama, ainda imaginava Jonathan ao seu lado, num sono tranquilo ou dando-lhe o seu melhor sorriso ao acordar.

Batia com os punhos naquela ilusão para que se dispersasse, depois passou a ignorá-la. Aplacando aquela dor aguda e insistente em seu peito, pois assim deveria ser.

Não precisava saber que Erina Pendleton era enfermeira, culta e adorável; que ela era a mulher perfeita para Jonathan, ou o quanto Sr. Joestar estava animado com a possibilidade daquela casa se encher de crianças e chamá-las de netinhos, pois nada disso tinha sequer importância para Dio.

Em sonhos, os únicos sons estridentes que ouvia não eram das crianças felizes de JoJo que seu pai tanto desejava. Eram gritos de desespero de todos que viviam sob aquele teto, acabando-se em sangue, fogo e morte.

Eram sonhos confusos e muito macabros, e se tornaram frequentes. Entretanto, traziam certa satisfação em seu âmago.

O ódio dominante alimentava esses sonhos soturnos. E num deles, uma lembrança hedionda veio à tona; a morte de seu desprezível progenitor.

Nunca levantaram suspeitas sobre a causa do falecimento de Dário Brando. Tudo indicava que os anos cobraram o preço de uma vida de excessos de um velho decrépito.

A vida pode ser cruel, às vezes. Há quem diga ser o destino... E quem sou eu para evitar as fatalidades da vida? E se Sr. Joestar não realizar o seu desejo de ser avô, nada mais é que a vontade de... Dio já sabia o que fazer.

Era sábado à tarde. Dio resolveu fazer companhia ao pai na sala de estar; sentado numa poltrona, Sr. Joestar fumava um charuto enquanto lia atentamente as notícias do jornal South London Press daquele dia.

JoJo não estava na mansão, portanto, não seria um empecilho.

— Deveria sair, meu pai – dizia como anunciado ao entrar na sala. Sentou-se na poltrona perpendicular, mexendo na própria gravata, distraído. — Ficar enfurnado nessa casa pode não te fazer bem. Nunca pensou em fugir do inverno que está por vir? Viajar para qualquer outro lugar?

Sr. Joestar sorriu brevemente, após afastar os olhos do jornal, tirando o charuto da boca e o colocando no cinzeiro, depositado numa mesinha lateral.

— Antes da mãe de JoJo falecer naquele terrível acidente, viajávamos bastante; Mary gostava de descobrir coisas novas, culturas e idiomas. Confesso que, hoje em dia, não me vejo fazendo essas coisas sem ela.

Dio simulou um sorriso complacente.

— Com todo o respeito, meu pai, o senhor não está morto – respondeu, ocultando seu cinismo ao levantar-se da poltrona. Caminhou até a adega de madeira rústica e tirou de lá uma garrafa de bourbon escocês e, com a mão livre, tirou um pequeno envelope do bolso interno do terno, rapidamente, enquanto falava de costas para o pai. — Deveria aproveitar mais. Ao menos, pensar no assunto... Eu quero sair da Grã-Bretanha por um tempo. Conhecer o mundo além dos livros. O que precisamos é de uma boa mudança de ares! – Serviu a bebida em dois copos e em um deles, depositou o pó branco do envelope, que facilmente se mesclou com o líquido. Escondeu o papel novamente no bolso enquanto fingia-se procurar por algo na adega.

Precisamos? – Sr. Joestar ficou surpreso, mas parecia cativado com a ideia, pela risada soprada que escapou. Alheio ao que realmente acontecia.

— Claro! – Voltou-se para perto do pai, oferecendo o copo do bourbon batizado. — Está feito o convite. Temos que aproveitar a vida enquanto temos saúde... enquanto podemos.

— Tenho que concordar. – Sorriu ao pegar a bebida. Parecia convencido que deveria levar a ideia em consideração, ao menos.

— Então, a novos ares! – Dio ergueu o próprio copo para um brinde, com entusiasmo teatral.

— A novos ares! – Sr. Joestar brindou e sorveu o whisky.

Dio bebericou distraidamente, aturando o papo furado sobre as viagens que Sr. Joestar fizera com a falecida esposa no passado enquanto aguardava pacientemente os primeiros efeitos do veneno surgirem; Sr. Joestar reclamou de uma fadiga inesperada, um tempo depois, e disse para o filho adotivo que iria se deitar.

Dio acenou brevemente com a cabeça enquanto continuava na poltrona, degustando a bebida amadeirada. Naquela hora, ela já não queimava mais em sua garganta, assim como imaginava não sentir mais nada por ninguém.

O quadro de saúde de Sr. Joestar piorava a cada dia. Os filhos acompanharam o médico em todas as visitas realizadas, e JoJo não obteve qualquer resposta quanto a causa da doença que assolava o patriarca.

Dio argumentou que o melhor seria tratar o pai em casa, pelo ambiente familiar ser menos tétrico que uma ala hospitalar, e JoJo acabou acatando. Das poucas visitas que Erina conseguiu fazer, era sempre escorraçada para fora por Dio, o que era mais um problema entre os irmãos.

Acamado há dias, Sr. Joestar foi orientado a permanecer em repouso absoluto e aos filhos, a administração dos remédios.

— O que faremos agora? – JoJo se dirigiu ao doutor, carregado de preocupação e temores. — Não há melhora em seu estado!

— Continuaremos com o tratamento, para amenizar as dores e a fadiga enquanto analiso as amostras coletadas. Só temos que esperar os resultados, o que pode demorar.

— Não se preocupe, cuidarei de meu pai – Dio, sentado ao lado do Sr. Joestar e segurando a mão inerte dele, exibia uma expressão soturna de revolta convincente. Era impecável em sua indignação simulada para com aquela situação. — Ele salvou minha vida, adotando-me. Sinto-me na obrigação de retribuir este ato de amor.

Encarrou diretamente JoJo, com os olhos falsamente marejados, embora inundados de ódio, que fez o irmão mais novo engolir em seco.

O recado estava dado.

Bastava esperar para que JoJo fizesse sua escolha; a vida do pai ou a morte dele.

No meio da madrugada, Dio estava na biblioteca, quase encoberto pelas sombras por conta da lua cheia que iluminava boa parte do recinto.

Olhava um ponto específico da prateleira onde deixara um envelope – com uma pequena ponta do papel à mostra – entre os livros constantemente usados por JoJo em sua pesquisa. Se afastou, satisfeito, para analisar o cenário como um todo.

Tudo fora meticulosamente planejado para se parecer obra do acaso. Que aquele envelope estivera escondido há eras e que, em dado momento, seria encontrado por JoJo e somente por ele.

Dio não podia negar a ansiedade que sentia; a satisfação ao imaginar o desfecho quase o transbordava de um prazer sádico incomparável. Teve que se conter para não rir e acordar a todos com o seu deleite.

Sentou-se à mesa central e fez pouco caso aparente das papeladas depositadas sobre o móvel. A maldita pesquisa. Céus... tudo lembrava aquele idiota... a biblioteca, o lago, a própria cama.

Os fantasmas de dois garotos que haviam descoberto o amor replicavam as memórias da juventude que passaram ali.

Sentiu-se nostálgico e... Não... Recusava-se a lembrar dos momentos doces e amáveis que passou com JoJo, porque seria autoflagelação.

Dio era orgulhoso demais, além de vingativo, para se deixar abater pormenores como aqueles.

Ainda que fosse uma tremenda ironia pensar que, por causa da ausência de novos momentos, Dio se machucava para ferir o outro.

De repente, entrou num estado letárgico, seu humor não correspondia o de segundos atrás. Sentiu-se perdido.

Colocou a mão no peito e agarrou o pano da camisa que ainda vestia, numa pífia e tola tentativa de controlar essa dor que dilacerava seu coração. Já era tarde quando notou as malditas lágrimas rolarem pelo rosto.

Foi quando a porta da biblioteca se abriu.

À luz de uma vela, JoJo apareceu, surpreso com a presença de Dio.

— Também não conseguiu dormir? – Era uma daquelas tentativas patéticas de JoJo iniciar uma conversa.

Dio não respondeu, não confiaria na própria voz naquele estado. Levantou-se da cadeira, secando o rosto o mais rápido possível, ao virar-se de costas, escondendo aquele momento ridículo de fraqueza.

Ao voltar-se para JoJo, ele já havia depositado a vela sobre a mesa.

— Não queria que você me odiasse, de novo. Se eu pudesse voltar no tempo... Queria poder voltar no dia do piquenique. – JoJo deu uma risada prostrada, parecia se lembrar de algum momento no passado, talvez, o primeiro beijo. — Naquela época, tudo era mais fácil, tão simples. E você não me odiava tanto assim.

— Há quanto tempo você conhece a roceira? — Dio semicerrou os olhos ao mudar de assunto, provocativo e venenoso.

— Erina... – corrigiu-o. — E a conheço desde a infância, mas só na faculdade voltamos a nos falar.

— Está perdidamente apaixonado por ela? – indagou em voz sussurrante, deu dois passos à frente.

Dio notou a hesitação de JoJo quanto a pergunta, mas queria saber se haveria rejeição de sua aproximação.

JoJo desviou o olhar para baixo e suspirou pesadamente.

— Não.

— É claro que não. Está preocupado demais com o ódio que posso ter de você.

— Um homem no instituto foi denunciado por se envolver com outro homem e, atualmente, ele está preso aguardando julgamento. Foi aterrador. Quando o assunto chegou até mim, eu pensei em você. E temi por nós. – JoJo pegou na mão de Dio e a segurou. — Continuo não querendo que você me odeie, mas achei que seria o certo a fazer para proteger o que construímos. Embora a minha atitude tenha destruído tudo. Por isso, me sinto um monstro egoísta, agora. Por tudo o que causei a você, e também por mentir para a Erina, que não tem nada a ver com isso... e eu não quero magoá-los.

— Muito tarde para se lamentar... – Dio olhava para a sua mão e a do irmão ainda entrelaçadas. Odiou o fato de seu coração sempre sobressaltar na presença dele. — O estrago já está feito... Mas, talvez, você possa mudar isso, JoJo. – Fez uma breve pausa, a distância entre os dois era praticamente nula. — Acredita em justiça divina? Acredita que nosso pai está pagando com a vida para que você aprenda uma lição? A de nunca rejeitar a mim, Dio Brando?

Seus dedos apagaram a luz da vela e ambos foram banhados pelas sombras, salvo pelo luar. Passou a língua pelos lábios entreabertos de JoJo, ao segurar a nuca dele com força.

Imaginou que JoJo estivesse numa batalha interna contra ele mesmo e seus impulsos despertados por Dio, quando as provocações passaram a ser um beijo mais intensificado. Podia senti-lo tenso, tentando resistir.

Queria que o mais novo se sentisse culpado pelo o que iria acontecer. Pensasse no mal que ele fazia à maldita futura esposa, embora Dio não se importasse com a dor alheia, mas condenar JoJo a ter mais esse peso na consciência era o seu real objetivo.

Se machucar para ferir o outro, nunca esteve tão frustrado por estar certo; seu coração doía ao se encher de esperanças inúteis. De que viver assim, seria possível, seria o bastante...

Suspirou pesadamente quando teve a cintura enlaçada e as costas acarinhadas pelas mãos de JoJo. Moveu o quadril para frente para roçar as ereções contidas pelas roupas. Era difícil desvencilhar daqueles toques, do beijo e do calor do corpo do outro.

Dio sentia muita falta desses momentos, tão perigosos e tentadores. Sentia falta de JoJo. E isso doía tanto, e doía mesmo agora, em meio ao torpor daquele beijo inebriante.

Não queria acabar perdido em trevas, de novo.

Com JoJo, Dio se sentia uma pessoa razoavelmente melhor, a razão da sua contenção contra a maldade que lhe era tão inerente.

Mas o que ele havia de bom para oferecer a JoJo? Era ainda mais deprimente reconhecer que não havia nada. E se perguntasse a ele, corria o risco de sequer ter uma resposta na ponta da língua.

— Eu te amo, Dio... – soprou entre o beijo, com a voz embargada. — Por favor, não faça nenhuma loucura...

JoJo estava chorando, assim como ele, um choro silencioso e desesperado. Quando perdeu o controle de suas emoções assim?

E foi pelo canto do olho que Dio percebeu que a porta da biblioteca se fechou.

Notas finais
E aí, algum palpite do que aconteceu? Será que alguém os flagrou? E quem foi? Link do jornal lido pelo Sr. Joestar: http://twixar.me/L5TT Dio envenenou o pai, porque Sr. Joestar queria netinhos. Vê se pode uma coisa dessa? Acho que ele estaria disposto a dar o antídoto pro pai se JoJo se separasse da Erina. Vamos ver o que irá acontecer, né? Só quero deixar claro, caso tenha ficado sutil demais, que JoJo entendeu a ameaça velada nos dizeres do Dio, sobre o pai. JoJo só ficou em estado de negação, ou seja, não quis acreditar na capacidade de manipulação doentia do Dio. Pronto, agora, devo mudar o gênero para angst ou não consegui transmitir essa dor sentida pelo protagonista? Eu to insistindo no erro de escrever, mais pela participação do desafio do que qualquer outro motivo. Então, quando isso acabar, não vou me submeter ao erro. Obrigada por ler!