Possession
4 Capítulo III – O Sangue
Notas iniciais
Pegara a máscara de pedra do baú e ela reagira instantaneamente ao toque.
Dio sorriu por reflexo.
O sangue de Zeppeli em minhas mãos ativou a máscara. Agora, vesti-la em alguém... que ninguém sentirá falta. Ou que não deveria ter existido... Onde está aquela maldita roceira?
Se estava alucinando, Dio não sabia mais diferenciar. Passou a acreditar novamente que reverteria qualquer situação a seu favor depois do que pretendia fazer. Até mesmo matar a todos daquela casa.
Isso o tornava exatamente como JoJo proferiu, cada palavra com asco e amargor, mas Dio exercia poder sobre o amado irmão, sempre o manipulou para benefício próprio. Por isso, se agarrou a esse filete de esperança de que, em algum momento, tudo pudesse voltar a ser como antes.
Sua possessão sobre JoJo bastaria.
As lágrimas passavam pelo seu rosto, em silêncio, sem controle e mais verdadeiras do que as ideias insanas que tentava se segurar.
No fundo, ele sabia que tudo aquilo era loucura. Mas... Se admitisse fraqueza agora, estaria perdido para sempre.
Saiu da biblioteca a passos firmes atrás de Erina. Procurou a mulher por todos os cantos da mansão, sedento pelo fim da vida daquela interesseira e que fora a própria discórdia entre os irmãos.
Já havia dado cabo de Zeppeli, aquele mordomo traiçoeiro, mas só ficaria satisfeito quando os olhos de Erina se fechassem para sempre, com a vida esvaindo pelas mãos de Dio.
Ao chegar aos aposentos do patriarca, sendo este o último lugar que restou dos dormitórios, Dio sentiu um leve calafrio sobre a espinha.
— Então, você... escolheu... JoJo – balbuciou naquele silêncio.
A cama estava vazia.
Com certeza, saíram com o pai às pressas.
JoJo devia ter armado contra Dio para salvar Erina e Sr Joestar e confiaram no mordomo, achando que ele o manteria preso até a chegada de Jonathan com a polícia e acabar com as atrocidades cometidas por esse irmão diabólico.
Que decepcionante..., pensava consigo mesmo, por sempre subestimar Jonathan em momentos cruciais como aquele.
Sempre achou que JoJo fosse um idiota qualquer, mas foi um erro julga-lo como tal. Jonathan lidava com as coisas de forma diferente e talvez, por conta do amor que sentia pelo Dio, tivesse níveis de tolerância muito mais elevados que, agora, o mais velho fez questão de ultrapassá-los, o que já seria insustentável.
Mas se você não tivesse ouvido as palavras desgraçadas de Zeppeli, nada disso teria acontecido, JoJo! Remoía a raiva dentro do próprio coração, achando os verdadeiros culpados por aquela tragédia. E você é tão culpado quantos eles, o mordomo e a roceira, pois aceitou humilhar a mim, Dio, e me trair sem pestanejar.
Em dado momento, caminhou até a varanda do quarto, não ouvia o som de carruagem ou do automóvel Benz Velo pela estrada, somente o farfalhar das folhas secas que, após o inverno, dariam espaço à nova folhagem, iniciando mais um ciclo.
Dio também não lamentou por não enxergar mais beleza naquela paisagem, não havia mais motivos para isso.
Voltou-se para dentro e olhou uma última vez para o porta-retrato dos três homens daquela casa, repousado no criado-mudo do Sr. Joestar.
O patriarca sentando em uma cadeira enquanto os filhos mantiveram-se em pé, em posturas imponentes de orgulho e arrogância.
Não sentiu nada ao se lembrar da ocasião; lamentação, nostalgia, nada. Embora reconhecesse que o tempo registrado naquela foto nunca mais voltaria, não poderia se abater por isso.
Respirou fundo, decidido o que faria.
Caminhou a passos lentos para fora do quarto, pelo corredor e à escada principal.
Chegou à cozinha e um dos empregados parecia desesperado, sozinho, parado na porta aberta – que dava acesso a parte de trás da mansão, o jardim – perdendo a cor da pele do rosto quando ficou de frente de um Dio ensanguentado, segurando um canivete e aquele objeto estranho na outra mão, e com o olhar predatório que causava calafrios ao percorrer com as íris flamejantes por todo aquele recinto.
Dio percebeu que aquele servente não conseguiu encará-lo, quase por temer pela própria vida só por estar diante de si, e era insignificante, mesmo tão submisso e temeroso, que não causava qualquer deleite em Dio.
— Onde está aquela mulher? – Sua voz estava horripilantemente calma, sem lassidão, causando um novo sobressalto no empregado.
— S-Senhor... tenh... tenha piedade, eu não s-sei de n-nada disso, p-por favor... – Dio não tinha tempo para aquela enervante falação lamuriosa, se aproximou e afundou a máscara de pedra no rosto do rapaz.
E a máscara fincou seus espetos de pedra ao redor do crânio do sujeito de maneira rápida, soando o barulho perturbador de perfuração e osso se quebrando.
O servente agonizou por meros segundos e, caído no chão, ficou inerte.
Dio não esperava nada além da morte, mas teve que controlar sua ansiedade e expectativa.
Quando teve certeza de que nada mais aconteceria, que a máscara trazia de fato a morte para quem a usasse, estava mais que satisfeito com quem pretendia replicar esse ato hediondo.
Se aproximou do empregado morto, removendo com certa facilidade a relíquia do rosto do cadáver.
Sorriu maliciosamente para a máscara sem dar atenção ao recém falecido, estava determinado a ir atrás de Erina. Agora, onde ela estava era a pergunta que ecoava em sua mente.
Seria com o cadáver dela que teria sua total satisfação.
Ele caminhou em direção à porta para o jardim e sentiu, de repente, um terrível aperto no seu calcanhar direito; era uma mão que o segurou com muita força e Dio arregalou os olhos para o que viu.
No chão, o servente não possuía mais uma feição humana; presas cresceram e estavam à mostra em sua boca e emitia uma espécie de rosnado gutural. A pele estava ainda mais pálida, beirando ao cinza, sem qualquer traço de vida e os olhos não eram mais os mesmos. Havia um brilho diferente neles, algo mais maligno que Dio nunca vira antes, o que deixou aquela coisa ainda mais pavorosa e desumana.
Dio ficou quase sem fôlego e instintivamente com pavor.
Começou a chutar a face daquela criatura quando foi derrubado no piso, para conseguir se livrar, mas aquilo que fora antes um servente começou a se arrastar pelo chão, subindo pelas pernas de Dio.
— Não! – gritou quando começou apunhalar a mão daquela criatura que o segurava, com o canivete enquanto ela pesava e se agarrava em suas pernas, embora nada do que Dio fizesse parecia surtir efeito. Aquilo não sentia dor alguma. Era irrefreável!
Não, isso não pode estar acontecendo! O que eu fiz? O que diabos é essa máscara?!
Sentia um medo primitivo e inexplicável. Era o verdadeiro medo de morrer que nunca sentira antes.
E, nesse momento, Dio pensou em JoJo... preocupado se ele lamentaria ao vê-lo morto, mas não sabia dizer com certeza. Talvez nem merecesse a lamentação do irmão mais novo.
Apesar da autopiedade momentânea, Dio não se entregou àquele destino miserável.
Se tivesse que morrer, que não fosse por aquela criatura demoníaca.
Ela agarrou com uma força absurda o meio da sua coxa direita e não precisou pensar duas vezes ao morder aquela região, onde a calça ainda tinha manchas de sangue de Zeppeli.
A dor da mordida que sentiu foi insuportável e aos poucos, seu sangue foi sendo drenado.
Ele precisava reagir agora, ou seria morto.
Com impulso, Dio segurou o canivete com suas mãos e o fincou no meio da testa do servente, onde um brilho dourado refletiu na lâmina e, em seguida, fez com que o empregado morto-vivo se desvencilhasse de suas pernas.
A criatura parecia desnorteada, momentaneamente, e Dio conseguiu erguê-la com as pernas e jogá-la por cima em direção ao lado de fora da cozinha. Queria manter uma distância segura para correr e fugir da morte eminente.
Instantaneamente, a criatura, ao ser arremessada, tentou voltar para dentro da casa, pois parecia apavorada quando percebeu-se banhada pela luz daquela manhã, mas bastou ser exposta aos raios solares por meros segundos para ela simplesmente se desintegrar.
Chegou a berrar de desespero e dor, foi ensurdecedor, mas logo a criatura sanguinária foi silenciada ao deixar para trás somente as roupas que vestia e o canivete prateado em meio ao pó.
Dio permaneceu no chão por mais algum tempo, completamente desacreditado com o que acabara de presenciar; aquele demônio desapareceu por causa da luz do sol.
Conhecia histórias e contos sobre criaturas malignas que andavam pela noite por conta do medo da luz do dia. Mas não passavam disso, de histórias e contos para assustar crianças.
Entretanto, o que acabara de acontecer afirmava que tais criaturas existiam e que, neste caso, eram originadas pela máscara. O que tornava tudo muito mais assustador.
Ainda sentia os músculos dos braços tremerem de tão tensionados que ficaram. Sua coxa que fora mordida, ardia de maneira odiosa. Começou a temer se, por conta do ferimento, transformaria-se em algo similar. Mas a ideia foi obliterada de sua mente quando voltou a olhar à máscara, agora imóvel e com os espetos retraídos, no chão.
Por que esta coisa está aqui, na mansão? Será que JoJo sabe do efeito dela? Não... se soubesse, o acesso à ela seria muito mais difícil. Não posso chamar aquele baú de esconderijo seguro. Ele ainda não descobriu... o poder que essa máscara exerce.
Portanto, não poderia usar aquele objeto para causar a morte de Erina, afinal, correr o risco de transformá-la numa criatura sanguinolenta não seria sábio.
Mas transcender a própria humanidade e se tornar um ser poderoso, se tornava cada vez mais tentador aos olhos de Dio.
Havia, claro, a fraqueza eminente da luz do dia, porém, se tornar praticamente imortal era como não ter desvantagens.
Passado o choque inicial, Dio concebeu que sobrevivera ao ataque de um vampiro e foi tomado por uma sensação maravilhosa de completo poder e regozijo.
Gargalhou genuinamente alto e em bom som, sozinho, ajoelhado no chão da cozinha enquanto o vento levava embora os restos empoeirados da criatura.
Talvez fosse uma imagem decadente de alguém que enlouquecera após cometer terríveis atrocidades, mas Dio nunca se sentiu tão lúcido e vivo em toda a sua vida, pois tinha em mãos a verdadeira solução de seus problemas.
Por fim, se levantou, pegando a máscara de volta enquanto a olhava minuciosamente.
Tomou o caminho em direção aos próprios aposentos, trancou a porta atrás de si e removeu todas as peças de roupa, largando-as pelo caminho; o terno, a camisa com mangas ensanguentadas, a calça social manchada e rasgada na coxa, juntamente com as meias e sapatos. A máscara foi deixada em cima da cama.
Foi ao banheiro e aguardou pacientemente a banheira se encher de água quente.
Suspirou, cansado, com os músculos doloridos após a adrenalina passar.
Observou a ferida exposta em sua coxa direita e a região estava inchada, as perfurações eram profundas, mas não sangravam mais.
E ao entrar na banheira, quase foi levado pelo sono, ignorou a água se manchar com o sangue e a ardência ao entrar em contato com o ferimento.
Pendeu a cabeça para trás e se deu ao luxo de relaxar.
Não pensava em nada além da escolha que fizera. Por esse novo prisma, Dio julgava que não valia mais a pena ser um mero humano. Continuar nessa condição era estar fadado à fraquezas e a própria morte.
Mas um ser imortal, não se prendia a miudezas como sentimentos humanos e não havia mais limite para aquele suposto poder.
Quem seria páreo para um ser superior além da luz do sol? E essa ultima ainda podia ser evitada facilmente. Porém, apresentou receio ao levar em conta a sua racionalidade quando for transformado.
Não queria ser uma criatura demente que só correria atrás de sangue. Queria o controle de suas faculdades mentais, entretanto, a arrogância o fez acreditar que seria capaz de usufruir de todo o poder da máscara e se tornar excepcional.
Ser o Lorde que trará as trevas para o mundo. Riu satisfeito com aquela percepção.
Afinal, sempre quis devolver ao mundo a desgraça que lhe fora concedida.
Terminou o banho, foi até o guarda-roupa e se vestiu com roupas limpas; conjunto de terno escuro, camisa de mangas compridas branca e uma capa preta carmesim por cima dos ombros.
Caminhou até a sala de estar com a máscara em mãos e reparou que o corpo de Zeppeli não estava posicionado como havia o deixado; agora, ele jazia sentado, encostado na parede.
Lembrou-se do filho do mordomo que conhecera naquela manhã e o imaginou chocado com a cena. Não se importou. Seguiu para adega e se serviu de uma taça de vinho. Sorveu com gosto a bebida, pois esta seria a última vez.
Analisou a taça antes do monólogo.
— É provável que não sentirei falta disso... do sabor, da textura, do prazer que essa bebida ou qualquer coisa mundana pudesse me oferecer, mas vou aproveitar o momento. – Fez uma breve pausa, olhando para o cadáver do mordomo. — Era o que você deveria ter feito, Zeppeli. Aproveitado o momento... aproveitado a vida que ainda lhe restava. – Sentou-se na poltrona com as pernas cruzadas, sentindo-se pleno. — Talvez, eu possa fazê-lo de meu eterno servo. Para que você compense o que não fez em vida humana. O que acha?
Voltou a bebericar da bebida e riu da ideia que fazia de Zeppeli, um mordomo morto vivo.
O sol a pino, poderia atrever-se a preparar a sua primeira e última refeição. Ou buscaria por algumas frutas dispostas na cozinha para acalmar seu estômago.
Qualquer coisa para passar o tempo – à espera do cair da noite –, quando JoJo pudesse voltar para confrontá-lo.
Então, um som ao longe chegou aos seus ouvidos. Alguém se aproximava da mansão em uma carroça a vapor. Apressou-se até a janela daquela sala e conseguiu avistar a poeira levantada da estrada. Quando o carro se aproximou o bastante, sabia do que se tratava.
O carro estacionou na frente da mansão e todos os ocupantes saíram do veículo; era a polícia acompanhada pelo jovem filho do mordomo.
Então, foi você que acionou a polícia... Hmm... JoJo deve estar na capital ainda, procurando o antídoto. Mas não pensei que o pirralho pudesse me causar este problema... Bem, acho que não posso mais adiar esse momento.
Respirou profundamente e fechou todas as cortinas da sala de estar. Mergulhando-a num escuro reconfortante.
Deu último gole na taça de vinho e a quebrou em sua mão, causando cortes profundos em sua palma e dedos.
Com o próprio sangue, ativou a máscara de pedra e quando a porta da sala se abriu, Dio sorriu e assim, colocou a relíquia em seu rosto quando os policiais gritaram ordens para si. E foi neste momento que as trevas o acolheu.
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