Possession
5 Capítulo IV – O Vampiro
Notas iniciais
O silêncio era presente e perpetuava pelo infinito breu.
Era um local novo, porém, reconfortante. Mas sua percepção dizia que havia algo de errado naquele lugar. Dio sentia-se pequeno no meio daquela escuridão e não sabia explicar bem o porquê.
Olhou para as próprias mãos, surpreendendo-se ao enxergá-las, e catalogou-as sendo tão joviais como foram um dia, mais de duas décadas atrás.
Não sentia medo por estar ali, tão jovem e quase indefeso, mas queria buscar respostas.
O jovem Dio lembrava-se do último ato cometido e de seu desejo de ser mais poderoso que qualquer criatura existente na Terra; a máscara se materializou, voou em sua direção e como uma lufada de ar fresco, desapareceu de seu rosto.
E então, o infinito e silencioso breu.
Como foi parar ali e onde estava eram perguntas tangíveis, palpáveis, e praticamente flutuavam ao seu redor, sem qualquer indício de que descobriria as respostas para tais.
Foi, então, que mais adiante, uma enorme sombra ainda mais densa que o breu que o cercava, crescia e se aproximava do pequeno Brando.
Os passos eram firmes, ecoando como em piso amadeirado, e uma figura alta, imponente e enigmática surgiu no meio daquela maligna aura arroxeada.
O que podia ser visto era digno de admiração, embora o rosto da figura em volta de labaredas negras não fosse visível, seu corpo coberto por uma fina camada de tecido semitransparente, não servia para esconder a sua natureza, e parecia ter sido esculpido por anjos e demônios.
O mais jovem engoliu em seco diante daquela presença tão magnânima.
— Onde eu estou? – conseguiu dizer à figura, com a voz mais infantil.
— Esta é a camada mais profunda de sua mente. E você tem uma escolha a fazer – disse aquela voz assustadoramente sedutora, sussurrante e demasiada cruel, mas que hipnotizava a cada palavra proferida. Dio estava mais encantado do que nunca quando ela chegou aos seus ouvidos, podendo reconhecê-la com facilidade e satisfeito com a finalidade daquela conversa. — Abdicar de sua humanidade para todo o sempre ou a morte.
✩
Foi como despertar de um sono profundo.
Recobrou a consciência aos poucos, notando tudo ao seu redor; incrivelmente, sua visão estava ainda mais aguçada como se enxergasse através das paredes.
A audição estava ampliada; ouviu o coração de uma lebre que corria à distância, assim como o próprio olfato potente que identificava o verdadeiro medo de quem ainda estava no lado de fora da mansão, a salvo pela luz do sol.
Seus ombros não pesavam mais, sentia a força crescer em seus músculos tonificados, e seu coração estava completamente vazio de sentimentos que pudessem o arrebatar dessa realidade prazeirosa.
Mas foi em sua boca que explodiu o melhor dos sabores que nunca havia degustado antes em vida.
Era como o gosto do mais puro e doce dos vinhos.
O líquido enchia seu interior com a sensação de deleite, como quando sua fome e sede é finalmente saciada.
Seus braços, se deu conta, abraçavam um corpo de um homem de porte médio, quase insconsciente, vestindo farda. E havia um cadáver de outro oficial, não muito distante, mas praticamente retalhado; um buraco enorme no peito e a cabeça longe do corpo, em meio a uma enorme mancha de sangue no tapete.
Dio não se recordara do que fizera, contudo, não se culpava por ter desperdiçado com violência o primeiro indivíduo.
Seus dentes estavam cravados na jugular do policial em seus braços, que ora balbuciava, ora gemia de dor com a boca aberta, soando como música aos ouvidos de Dio, que sentia-se em sua plenitude, exalando luxúria e poder.
O policial já não demonstrava forças para lutar por sua miserável vida, rendendo-se àquele abraço mortal, inerte, por fim.
Dio lambeu com avidez as perfurações no pescoço de sua presa, finalizando aquele beijo da morte.
O coração do sujeito estava preste a parar. E o gosto de seu sangue já não parecia tão apetitoso e fresco como no início.
Hmmm... O ideal é parar de sugar antes do coração falhar, tomou como nota.
Largou o corpo que desabou no chão, sem se importar, lambeu os próprios dedos e sussurrou depois disso:
— É como receber um boquete logo pela manhã, antes do café. – Dio riu soprado, ainda se lembrava da primeira vez que acordara com JoJo beijando a glande de seu pênis, convidando-o a sair da cama.
Oh, claro, como poderia esquecer de seu mortal, amado e legalmente irmão?
Obviamente, depois de tudo o que aconteceu, faria de JoJo a sua principal refeição diária e prazer carnal. E não haveria pressa para realizar qualquer outro feito, afinal, Dio teria todo o tempo do mundo pela frente.
Para isso, preciso saber a extensão de meus poderes... o que eu posso fazer desde já?
Estar fechado numa sala por conta do sol – que invadia as janelas da fachada – não era o mesmo que estar livre para fazer o que bem entendesse. Porém, havia algo que desejava saber e que estava ao seu alcance; olhou para o policial recém drenado e moveu a ponta dos dedos da mão sobre ele, apenas desejando que o homem morto fosse ressuscitado e agisse sob suas ordens.
Não foi surpresa que o cadáver se moveu, ficando finalmente de pé, quase de imediato.
— Ótimo, agora saía dessa casa, pela entrada do saguão.
A criatura grunhia ao andar para fora da sala de estar. E surpreendentemente, ela evitou as áreas do chão onde o sol batia no hall. Chegando à porta da entrada, dissolveu-se em pó até os ossos ao passar por ela.
O filho de Zeppeli, que aguardava no lado de fora, fugiu, assustado. Enquanto o outro policial se aproximou do local, armado.
Dio gargalhou ao constatar a obediência cega daquela criatura. E ainda havia mais dois experimentos que poderia realizar; o oficial dilacerado de um lado e o mordomo – morto há mais tempo – do outro. Além de se alimentar desse último policial vivo, caso ele se aventurasse na mansão.
Apostou no oficial dilacerado como o próximo experimento, onde a cabeça fora arrancada do corpo.
Trouxe o sujeito à nova vida quando juntou a cabeça ao pescoço, embora Dio não se importou em colocá-la no formato original. Apenas tratou de juntar as extremidades e fazer aquele zumbi se mover.
Claro que foi uma piada muito grotesca presenciar o morto-vivo se levantar e caminhar para trás, pois era o lado onde estava seu rosto. Mas serviu de aprendizado, afinal.
No corpo do oficial havia um rombo enorme no meio do peito, sem o coração, e mesmo assim, nada o impediu de estar de pé e obedecer prontamente a qualquer ordem de Dio.
Por isso, foi fácil deduzir que se o coração não era necessário, outro tão importante quanto fazia o papel de órgão vital; o cérebro.
Afinal, a própria máscara de pedra empala o cérebro ao transformar um indivíduo em um ser supremo. É como se o papel da relíquia fosse de desbloquear habilidades seladas que já haviam nos reles mortais. Tal conclusão me faz constatar que, se mais alguém deter este poder, deixarei de ser o único ser poderoso e o valor de minha existência passa a não ter importância. O que não me agrada nem um pouco, ponderou.
Com isso em mente, Dio segurou a testa do zumbi com uma mão apenas e simplesmente a esmagou com sua força sobre-humana.
Ossos se quebrando e carne sendo esmagada denunciavam a violência do ato. O zumbi voltou ao seu estado inerte e desabou no chão, inanimado.
Passos no lado de fora confirmavam que entraram na casa e Dio pretendia ser a última coisa que sua vítima veria em vida.
✩
O ocaso se fazia presente quando Jonathan Joestar finalmente chegara à mansão.
Dio, por sua vez, pôde sentir o aroma tão familiar do irmão à distância; aquele leve suor masculino mesclado com temor das possíveis tragédias.
Eu estou surpreso que você não veio sozinho, JoJo, mas agora não importa. Esperei pacientemente por este momento.
O interior da mansão estava encoberto pelas sombras melancólicas quando a casa fora banhada em carmesim. E Dio estava oculto nelas, sem esforço.
Os irmãos passaram por toda a adolescência e o início de suas vidas adultas naquele lugar, trazia constantes memórias para Dio; das brigas, das ameaças veladas e dos beijos e prazeres recíprocos às escondidas, mas pouco cultivou seu coração para que o impedisse de seguir com o seu desejo.
E, naquele momento derradeiro, ao vê-lo dar passos cautelosos pelo saguão, Dio desejava Jonathan mais do que gostaria de admitir.
Observou-o com intensidade, quase se fazendo notar-se pelo irmão mais novo.
Mais três policiais e um sujeito muito distinto faziam companhia a ele, no instante que entraram na casa.
— A casa parece vazia – pronunciou o distinto homem de cabelos loiros, usando terno sem classe e um pequeno chapéu, ao lado de Jonathan. — Mas sinto calafrios estando aqui, precisamos ficar em alerta.
— Precisamos saber aonde foram os outros policiais. Podem estar atrás de um fugitivo, agora. – Um dos policiais se fez presente, um tanto contrariado pela sugestão daquele civil mal encarado.
— Por favor! – Jonathan se virou aos guardas, quase suplicando. — Pessoas trabalhavam aqui, quero saber se ao menos elas estão bem.
JoJo deixara aos cuidados do mordomo Zeppeli a contenção de Dio, que podia ouvir as engrenagens girando dentro da cabeça do irmão mortal ao tentar imaginar o que poderia ter acontecido ali.
O próximo policial a se pronunciar parecia ser de patente mais alta comandando aquela equipe.
— Entendo perfeitamente, Sr. Joestar. Mas há de convir que não podemos confiar no depoimento daquele garoto. O mesmo havia dito que um policial virou pó após sair da residência, e não encontramos vestígios de que isso aconteceu. É seguro afirmar que se trata de loucura de um adolescente em estado de choque!
Dio teve que se segurar para não rir diante da convicção falaciosa daquele reles humano.
A sua própria existência contrariava a todos esses argumentos inquestionáveis. Apenas ordenou que tirassem a farda da entrada para que a surpresa não fosse menos que caótica.
— Ele é filho do mordomo que trabalhou há anos aqui, não teria motivos para inventar tal ocorrência, mas temos de descobrir o que aconteceu. – É claro que JoJo estava convicto que algo de muito ruim acontecera, e defenderia a honra de Mário a todo custo.
— Estou com o senhor, Sr. Joestar – disse o sujeito loiro ao repousar a mão no ombro do outro.
— Obrigado, Speedwagon. – Jonathan retribuiu o gesto.
Havia uma estranha confraternidade entre os dois, como a de dois soldados prestes a enfrentar uma brigada de infantaria, que trouxe rugas ao cenho de Dio.
Pensamentos positivos inundavam a mente de JoJo quanto ao sujeito.
Quem ele era, afinal? Parecia um típico criminoso da Rua dos Ogros.
O pouco que sondou da mente do intrometido, Dio teve certeza; conhecia esse tipo de gente, lidara com eles diariamente quando ainda morava nos becos, mas não compreendia a razão de JoJo trazê-lo à mansão.
Seria confiança? Antigo cavalheirismo? Ou influência pelo nobre espírito Joestar? No final, não importa, todos serão alimentos para mim, Dio. Se convenceu.
E como ordenado, do patamar da escada, outra figura – esta quase tão oculta às sombras – descia os degraus arrastando alguma coisa pelo chão, fazendo soar um grotesco barulho de pancadas.
Todos se voltaram para quem se aproximava, tensos, enquanto os policiais apontavam suas pistolas e revólveres no alvo.
— Quem está aí? – JoJo manteve a firmeza na voz.
— Cuidado! – gritou Speedwagon ao perceber a movimentação do ser incógnito.
A figura arremessou contra eles a coisa que arrastava consigo, caindo aos pés de Jonathan, revelando-se um corpo de um policial morto. Seu medonho aspecto era de uma casca ressecada e oca, e dois furos no pescoço.
— Era isso que vocês buscavam? – A voz era familiar para JoJo, embora estivesse muito mais soturna, o que causou-lhe um sobressalto.
— Zeppeli?! Zeppeli! – o jovem Joestar o chamou, com clara tensão. — O que aconteceu aqui? Onde está Dio?
— Parado agora mesmo! – O official ordenou, esperava ser acompanhado por seus colegas, mas deu-se conta de que era o único policial presente ali. — O-o quê? Summers? Copeland? Para onde eles foram? – balbuciou com as mãos trêmulas, a atmosfera estava ficando cada vez mais terrível e claustrofóbica.
Speedwagon se virou para trás no momento que presenciou o último oficial sendo engolido pelas sombras.
— Sr. Joestar. – A figura passou a descer mais degraus da escada. A parca luz do dia que ainda resistia ao manto da noite, confirmou as suspeitas de Jonathan.
— Os policiais sumiram! – Speedwagon vociferou. — Você tem alguma coisa a ver com isso?! – Pegou o próprio chapéu, as abas revelaram-se serras afiadas, e o arremessou em direção àquele homem sinistro.
O mordomo taciturno aparou o objeto com o antebraço, e a serra ficou cravada no osso, o que acarretaria até na perda do membro, mas a dor foi completamente ignorada, surpreendendo os outros.
Dio assistia a tudo com muita curiosidade, lambendo os lábios pela recém refeição. Apostava em seu zumbi especial contra o arruaceiro da Rua dos Ogros, como se fosse uma luta de boxe.
Jonathan se posicionou no espaço entre os dois, tentando evitar o possível confronto.
— Por favor, parem! Não façam isso! Zeppeli, me diga, o que aconteceu com você e com os policiais que vieram para cá? Seu filho, Mário, disse-me coisas terríveis... disse que você... estava morto, mas... como?! – A incredulidade pesava em seus dizeres. Era certamente difícil de acreditar que um morto pudesse estar de pé e falando daquele jeito.
— Não tenho muitas lembranças – dizia Zeppeli, parecia forçar a memória ainda que fosse impedido, porém, o esforço trouxe uma leve consciência ao homem —, só uma sede implacável e uma voz sussurrando, mesmo agora, em minha cabeça... JoJo, eu não sou mais humano, estou perdendo a lucidez e meu controle enquanto perco Hamon. É assim que ele vai me dominar...
— O quê?! Não é mais humano? Como pode dizer uma coisa dessa? Quem vai te dominar?! O que Dio fez? – JoJo foi tomado pela urgência e desespero, as perguntas saíam como avalanches de sua boca.
Dio pôde sentir o sangue do irmão ferver, o coração retumbar fortemente contra o peito, talvez, por medo de ouvir a confirmação.
Sondou levemente a mente de JoJo e, de repente, sentiu o pesar que o mais novo sentia pelo irmão adotivo.
Aquilo surpreendeu Dio, pois esperava o sentimento de raiva aflorar em JoJo, o que não aconteceu.
Voltou sua atenção para Zeppeli e resolveu acabar com aquele diálogo, pois não deixaria que o mordomo revivido arruinasse o espetáculo.
— Encontre a máscara de pedra e a destrua! Arggg!!! – A pressão foi sentida por todos. Jonathan e Speedwagon foram tomados por calafrios assombrosos por causa do grito animalesco de Zeppeli, que avançou contra Speedwagon ao arrancar o chapéu-de-serra do braço e jogá-lo cegamente para longe.
Dio observou o objeto voltar em pleno ar para o seu dono, como um bumerangue, e teve que bater palmas pela graciosidade de Speedwagon deter o objeto na própria cabeça.
— Não se vê esse malabarismo de rua todo o dia – disse para si mesmo, com evidente sarcasmo.
Zeppeli se jogou para cima de Speedwagon, com os olhos sedentos por sangue, e os dois se embolaram no chão após a queda.
Jonathan teve a intensão de acabar com a luta; se aproximou e esticou a mão para alcançar Zeppeli, mas seu corpo fora agarrado por trás com força inigualável, sendo brutalmente afastado dali.
Levitaram pelas escadas e passaram pelos corredores escuros da mansão até chegar ao aposento principal. JoJo se debatia, mas não se desvencilhava do aperto. Virou o rosto e se deparou com o olhar diabólico do irmão.
— D-Dio! O que você... se tornou?!
Dio finalmente se deleitou ao ouvir o terror na voz de JoJo; detinha seu maior desejo em seus braços.
Visualizou a tão incomum marca de nascença detrás do pescoço do outro e sussurrou ao pé do ouvido:
— Não se preocupe, JoJo, mostrarei a você...
Não hesitou ao cravar suas presas na jugular do irmão e drená-lo com uma sede insaciável.
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