Portal para outro mundo
3 Capítulo 3 - 03/01
Notas iniciais
Monique também se certificou de verificar a parede invisível. Seus dedos percorreram cada extremidade que podia alcançar. Em vão. Seu rosto se quebrava em desespero.
Uma brisa fria irradiava com o balançar suave das folhas das árvores; pequenos grilos ecoando em uma sinfonia de sons. Cada movimento de novos passos produzia um som como se as conchas de caracóis estivessem se chocando. Era até gostoso de se ouvir, mas em um momento menos desesperador que aquele.
Parecia um daqueles pesadelos que te prendem durante o sono, que te fazem acreditar piamente que é verdade. Talvez fosse um pesadelo. Monique torceu fortemente para que fosse. Agora só precisava descobrir como fazer para acordar.
— Tem que ter alguma explicação lógica pra isso.
No entanto, aquela voz arrastada e cheia de sotaque parecia bem real, pensou Monique, após um suspiro. O garoto motoqueiro, o qual ela nem sabia o nome ainda, estava com os braços cruzados sobre o peito, o olhar fixo na moto que eles já não podiam alcançar.
Ian, em seu tempo de escola, não chegou a ver as teorias mais profundas da física, matemática ou qualquer área científica que realmente explicasse um fenômeno daquele. Na realidade, em tempos de escola, nunca foi bom aluno. Sorte que ao menos sabia assinar o nome e ler. Estudar, quando se tem outras áreas mais importantes – como aspectos relacionados a própria sobrevivência – clamando por atenção, dificultava encontrar um sentido no ato de estudar.
My mother was a tailor. She sewed my new blue jeans.
My father was a gamblin' man.
And the only thing a gambler needs is a suitcase and a trunk.
And the only time he'll be satisfied
Is when he's on a drunk
(PT-BR:Minha mãe era costureira. Ela costurava meus novos jeans.
Meu pai era um apostador
E a única coisa que um apostador precisa é uma mala e um baú
E a única hora que ele se sente satisfeito
É quando está completamente bêbado)
O pensamento do homem quase divagou para a época da infância, mas de fato, sabia que retornar ao passado mentalmente não o tiraria daquela situação.
Oh mother, tell your children
Not to do what I have done
(PT-BR: Oh mãe, diga a suas crianças
para não fazerem o que eu fiz)
Assim, observou os galhos das fileiras de árvores próximas, observando a distância entre um caule do outro. Certamente, conseguiria passar entre eles. Caminhou, decidido, até uma das árvores.
— Pretende escalar isso aí? – Questionou Monique, erguendo a sobrancelha. Duvidava que, naquele escuro, ele poderia ver qualquer movimento que ela fizesse de maneira sucinta naquele rosto.
Ian não respondeu, apenas seguiu. Sabia que seu ato assustaria sua acompanhante de prisão da natureza, mas ocasiões estranhas exigiam atitudes atípicas. Incomodando levemente e coberta por uma capa de couro própria para a ferramenta, o rapaz retirou um canivete bem afiado. Até pode sentir a respiração da garota ficar mais pesada. Mesmo com os passos dados para trás – aquele solo sabia mesmo denunciar alguém.
Monique sentiu o coração ficar mais agitado. Retirou o celular do bolso de frente da calça jeans e em desespero percebeu que o sinal de ambas as operadoras que tinham estavam nulos. Ela, incomunicável.
Aquele pesadelo estava mesmo sem querer acabar.
Ian, no entanto, observou a altura tremenda daquela árvore. O medo tomou suas pernas, mas a necessidade, assim como em vários momentos da sua vida, gritou mais forte. O rapaz abraçou o caule com força, girando o braço por toda largura, impulsionou as pernas e perfurou a madeira da árvore com o canivete. Movimento esse que se repetiu centímetro a centrímeto, enquanto ele se erguia em altura e medo de cair, sempre impulsionando os pés e afrouxando e apertando o abraço do seu braço no caule.
Monique, testando quais funcionalidades seu celular ainda poderia ter naquele lugar bizarro, por fim, viu que no momento, era a lanterna a maior funcionalidade que precisaria. Ergueu o celular, emitindo um feixe de luz forte para cima, parando no rapaz-motoqueiro em metade já do tronco daquela árvore que quase não parecia ter fim de altura.
De onde estava, cujo plano era conseguir captar o que os esperava a frente, Ian viu que, ao longe e à direita, uma placa de luz refletia a seguinte mensagem: A Casa do Sol Nascente.
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