Portal para outro mundo

4 Capítulo 4 - 04/01


Notas iniciais
Link da música do desafio de hoje: https://youtu.be/0uxHpG8qGGA O nome é You Know I'm No Good, da Amy Winehouse

I cheated myself, like I knew I would

(PT-BR: Eu me enganei, como eu sabia que me enganaria)

A dupla seguia na estrada que continuava “quebrando” a cada passo, com aquele som que já se tornara familiar. Fora o solo, apenas os grilos e o vento ecoavam sonoricamente no momento. Ian revelou o que havia visto do alto da árvore: além da placa brilhante Casa do Sol Nascente, alguns feixes de luz, como se fossem de postes de ruas, também podiam ser detectados. Não era próximo, e na velocidade com que caminhavam, o tempo era ainda mais traçoeiro.

A questão é que estavam indo para um local que não faziam ideia do que seria. Contando já com todos os acontecimentos estranhos, tudo poderia ser qualquer coisa. De um lado, tinham a opção de ficarem ao lado de uma parede invisível, ou bloqueio, ou o que quer que fosse que os impedia de retornar para a estrada além dos troncos caídos no solo. Outra alternativa, e essa a que eles decidiram optar, era continuar na estrada para ver até onde poderiam chegar.

Pavor era a palavra correta. A sensação era estar em uma situação da qual não sabiam se sairiam. Acontecimento estranho com um(a) parceiro(a) estranho(a) em um local estranho. Monique, em uma comparação de medos, era sem dúvidas a mais aterrorizada. Ian não tinha exatamente um perfil de maníaco – como se realmente pudesse julgar alguém pelo físico – mas de toda forma ela era uma mulher, e infelizmente, mais vulnerável. Ela percebia que o homem ainda tinha o canivete em mãos, mesmo que tentasse escondê-lo com a extensão do braço. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Foi aí então que os olhos da mulher se marejaram. Ia explodir em emoção a qualquer momento.

Ian, embora não fosse um homem totalmente correto e puro, havia alguns limites da criminalidade que não o permitiam ultrapassar. Violência contra a mulher/crianças e homicídio estavam além da sua capacidade criminosa. Sabia que a garota ao seu lado devia estar amedontrada, e por isso, calculava o que poderia amenizar seu sofrimento ou medos em relação a ele.

— O canivete é um equipamento para proteção do dia a dia. Nunca se sabe se vai ter uma corda no meio do caminho ou um lápis que precisa ser apontado.

Ele não era engraçado. Na verdade, era bem calado. Seguia a regra de, quanto menos falava, menos deixava escapar informações que poderiam comprometê-lo. Mas, naquele momento, realmente queria fazendo com que medos diminuíssem: os da garota e os dele.

— Vai que aparece um bicho aqui... Não que eu seja um lutador contra animais. Na verdade, se aparecer tipo, uma onça ou uma raposa aqui, vamos ter um sério problema, porque provavelmente eu vou travar e... – Continuou, tentando olhar para a garota. Ela não voltava o rosto para ele.

— Eu lido com feras todos os dias. Já sou craque. E bichos de grande especie.

— Você é veterinária? Que massa! Eu fico até mais aliviado que vai saber...

— Não. Eu lido com gente mesmo. Algumas de nariz tão empinado que acho que não há cirurgia que der jeito.

Ian não respondeu mais. O tom de voz dela não parecia confortável. Na verdade, ele nem sabia dizer como seria esse tom de voz da garota. Desde que a encontrara, todos os minutos foram de pura tensão.

Queria dizer que não pretendia machucá-la, e até ia dizer, quando a voz dela voltou a soar:

— De onde você é? Tem o sotaque diferente – Havia só um pouco de curiosidade na voz. O resto devia ser ainda medo.

— Eu sou de todos os lugares que já passei, que não foram poucos – Respondeu, depois de alguns segundos pensando. A resposta foi tão criativa que o próprio Ian se surpreendeu – E no momento, sou desse lugar aqui. Mas já estou louco para ir embora.

Misterioso, mas de respostas bem elaboradas. Monique não sabia se aquilo era surpreendente ou assustador. Talvez fosse os dois.

— Qual sua teoria para esse acontecimento? – Questionou, querendo ver se ele continuaria dando respostas em rodeios.

— Não faço ideia. Mas se aqui for tipo, a Terra do Nunca, temo que chegamos um pouco tarde. Adoraria ter vindo para cá alguns anos antes, e agora não quero trabalhar para o Gancho. Sempre torci para o Peter Pan.

Ele não sabia de onde estavam vindo aquelas respostas bem humoradas, mas dessa vez, fez a garota rir um pouco. De qualquer maneira, ainda caminhavam um pouco afastados. Ele tentava dividir a atenção entre ela, a estrada, os sons e o caminho a frente, que era sempre repetitivo: árvores, areia, uma linhazinha de lua em sua fase crescente e só.

— Precisaríamos ter voado para chegar na Terra do Nunca.

— E o que foi aquele negócio que fizemos ao sair da moto? Se não foi um vôo, precisamos definir melhor o que é voar.

Monique sorriu, achando que fazia sentido. Não o fato que eles estariam na Terra do Nunca, aquilo era um absurdo, mas o que fazia sentido era que eles realmente haviam voado ao cair. E era super estranho não terem nem mesmo tido um singelo arranhão.

— E qual o seu nome? – Monique perguntou. Caso Ian conseguisse enxergar, o que ele não poderia, os olhos acastanhados da garota, que agora o fitavam, estavam mais leves.

— Jeremias.

Detalhes demais. E ela nunca saberia a verdade, porque assim que saíssem dali, correria o mais longe possível de toda aquela loucura. O envelope, bem dobrado e recheando o bolso da sua calça seria o suficiente para tirá-lo dali.

You know that I'm no good

(PT-BR: Você sabe que eu não sou bom)

— Seus pais são religiosos? É um nome religioso, em sua maioria.

— Sim – Embora monossílabo, seu tom não saia seco. Era só uma tentativa de não mentir tanto.

— E eu sou Monique – Revelou, recebendo um aceno de cabeça do rapaz.

À esquerda da dupla, um pequeno feixe de luz chamou a atenção dos olhos curiosos. Vinha além dos primeiros troncos de árvores. A luz era fraca e pequena, mas foi estímulo suficiente para que os dois decidissem atravessar o caminho até chegar lá.

Monique ligou novamente a lanterna do celular, começando a ficar triste antecipadamente porque a bateria descarregaria a qualquer momento. E, não muitos passos foram necessários para que a dupla encontrasse um corpo escorado no chão e no fino tronco de uma daquelas milhares de árvores.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.