Portal das Fadas

2 Duvidas e esperanças


Portal das fadas

Abriu levemente os olhos enquanto a luz do sol tocava seu rosto. Gemeu um pouco e se sentou na cama, mal humorado, não gostava de levantar cedo muito menos ser despertado com algo lhe incomodando, que no caso era o sol. Mas logo esse mal humor desapareceu ao se lembrar de seu sonho. O dia em que a conheceu, o dia em que perderá os pais e encontrara um anjo guardião. O dia em que fez uma promessa que ate hoje reinava em seu interior, mesmo já tendo passado quatorze anos e não ter achado nada ainda não desistira. Iria encontrá-la!!

Levantou-se mais animado da cama e fora para seu armário pegar uma roupa para vestir nesse penúltimo dia de aula. Já estava no segundo ano da faculdade de engenharia e mesmo sendo um dos melhores e estar com seu futuro garantido não se sentia satisfeito. Não valeria a pena ter um emprego se não a tivesse do seu lado mais uma vez, nem que seja por mais alguns minutos. Ainda podia sentir o contato da pele dela com a sua... Aquele calor tanto no interior quanto no exterior, aquela sensação de segurança e acolhimento... Tinha que senti-los de novo.

Pegou uma roupa qualquer e foi tomar um banho, antes que os outros dois acordassem. Seu nome era Shadow the Hedgehog, ele morava com uma senhora chamada Nelly Chuu depois de ela o encontrar no parque e o acolher. Ela era uma mulher viúva que não conseguira ter filhos, por isso adotara ele e mais dois. Bom... No caso deles Shadow não gostava muito de falar, o tratavam como um irmão, mas eram irritantes da mesma maneira.

O primeiro era Sonic the Hedgehog, um ouriço azul que fora encontrado quando era bebê por Nelly que não duvidou em adotá-lo. Ele era animado e hiperativo, adorava as corridas tanto que era o mais rápido da escola, podia ate se considerar do mundo de tão veloz que era. Tinha 19 anos igual a Shadow, mas tinha a atitude de um garoto de 9. Ele fazia a faculdade de educação física e tinha ate patrocinador já.

O segundo era Silver the Hedgehog, um ouriço prata que fora encontrado um pouco antes de Shadow. Era o mais calminho e sensato do três, mesmo que fosse um pouco rebelde, nunca aceitava algo que era de seu desgosto ou contrario ao que achava certo. Ele tinha 18 anos e estava no curso de física. Tinha as mesmas manias locas que um físico costumava ter, mas isso só quando se falava sobre o assunto. Adorava fazer experiências e comprovar as coisas. Nada para ele que não fosse comprovado poderia ser real, por isso ele entrava em conflito com Shadow cada vez que o mesmo mencionava a garota que ele vira.

Shadow era um garoto serio e frio. Desde a morte dos pais ele era assim e só sorria quando se lembrava da bela garota que vira quando pequeno. Era um ouriço negro de raias vermelhas nos espinhos e a atração das garotas no colégio junto com seus “irmãos”. Nem precisava dizer que ele não ligava para elas. Para ele elas eram comuns, nenhuma tinha o brilho especial que vira na garota que vira no parque e isso o frustrava. Queria tanto vê-la de novo.

Saiu do banheiro já vestido com uma calça jeans preta, uma blusa negra com uma jaqueta negra por cima e uma bota negra com detalhes em vermelho e amarelo. Claro que não podia esquecer o pingente que ganhará. Nunca o tirava, era seu amuleto de sorte e a única coisa que o fazia lembrar dela.

Desceu as escadas e sentou na mesa do café da manhã comendo lentamente as torradas que tinha na sua frente. Pouco tempo depois começou a ouvir os gritos e os xingos de seus irmãos. Suspirou. Era sempre a mesma coisa todas as manhas desde que chegara nessa casa. Sonic entrava no banheiro com sua velocidade sobre humana e ficava lá por alguns minutos ou ate mesmo segundos e depois saía deixando o banheiro todo bagunçado, sobrando para a seguinte pessoa que entrasse arrumá-lo. Hoje no caso seria a vez de Silver.

Terminou de comer seu café da manhã e foi ate seu quarto preparar suas coisas para ir arrumar suas coisas. Colocou seus cadernos dentro da mochila junto com alguns livros que poderia ficar lendo no horário do intervalo. Nunca contara a ninguém desse seu gosto por leitura, sempre manteve a pose de durão e Bad boy, mas isso era só para manter distancia das pessoas. Desde que seus pais morreram não conseguia confiar em mais ninguém alem de seus “irmãos” de sua nova mãe e da garota que encontrara a 14 anos atrás.

Era ate irônico porque na verdade nem era para ele estar ali naquele momento. Se não tivesse saído do choque rápido e escapulido das mãos daqueles homens estaria morto naquele exato instante. Mas também se não fosse por aquela garota misteriosa o ter ajudado quando estava na chuva teria morrido de hipotermia com certeza. E mesmo que muitos achassem que ela não existia depois dele contar a historia ele continuava acreditando que ela era real, que não era apenas um fruto de sua imaginação. E iria encontrá-la e provar a todos que estavam errados.

Tocou levemente o pequeno pingente que tinha pendurado no pescoço. Essa era a maior prova de que ela o havia ajudado e que estava a apenas um passo de achá-la, podia sentir isso. Pegou sua mochila com um pouco mais de animação e saiu do quarto. Aproveitou que o banheiro estava vazio e escovou rapidamente os dentes para logo ir ate a garagem pegar sua moto e ir ate a faculdade. Sonic já devia ter ido já que sempre ia correndo e chegava mais rápido que qualquer um. Silver provavelmente demoraria um pouco mais, mas logo chegaria com sua própria moto (modificada especialmente por ele). Era uma família um pouco estranha, mas não significava que deixavam de ser uma família.

Subiu na moto, uma Ninja preta com detalhes vermelhos, e acelerou quase aos cem quilômetros. Sempre gostou da velocidade igual a sonic, e por mais que fosse tão rápido quanto ele não gostava muito de correr e preferia usar sua moto, que conseguiu depois de meses de trabalho e economias, e claro uma boa promoção.

Chegou na escola bem rápido. Já que a cidade não era tão grande e nem tinha muito transito sempre chegava rápido nos lugares. Estacionou a moto no estacionamento da escola e entrou despreocupado, claro que muitas garotas suspiravam quando passava, mas para ele isso não importava. Ele só tinha uma garota na cabeça e nunca mudaria de idéia, isso era garantido, e pensava ter deixado isso claro quando rejeitava todas as propostas para sair.

— Ei!! Shadow! – disse Sonic colocando um braço em volta de seu ombro e sorrindo extensamente para ele. Típico de seu irmão aparecer assim de surpresa e ainda estar animado desse jeito. – Pronto para terminar mais um dia desse chato ano letivo?

— O que quer Sonic? – perguntou um pouco irritado. De seus dois irmãos o que menos gostava era de Sonic. Uma copia barata dele, tanto que muitos os confundiam e achavam que eram irmãos gêmeos verdadeiros. Ele ainda não via nenhuma semelhança, mas preferia não comentar nada, apenas sair de perto.

— Nossa que mal humor irmão. – disse Sonic se afastando um pouco. – Ta chateado ainda por não termos encontrado a sua princesinha?

— Já falei para não mencioná-la Sonic e isso é apenas por um tempo. Eu vou encontrá-la nem que demore mais quatorze anos. – disse olhando distraidamente corredor a frente. Sonic sempre levava tudo na brincadeira então não era de se admirar que isso para ele também fosse.

— Já falei que isso é pura besteira. – disse uma voz do lado deles chamando a atenção dos dois. Uma mania ruim de Silver, aparecer de fininho como um fantasma e começar a falar sem mais nem menos assustando a todos. – Procurar alguém que não existe não faz o menos sentido.

- Ela existe. – disse Shadow se irritando ainda mais. – E eu vou encontrá-la e provar para vocês que estou certo.

— Boa sorte, maninho. – falou Sonic para logo depois correr o resto do corredor indo na direção de sua aula de educação física, coisa que combinava bem. Mas é claro que ele sempre acabava tomando bronca do diretor por correr pelos corredores da escola.

— Digo o mesmo. – falou Silver entrando em sua sala que estava bem ali do lado. Shadow suspirou. Por que ninguém acreditava nele? Era tão difícil pensar que ela existia?

Mas e se eles estivessem certos? E se aquela garota que o salvou fosse apenas um fruto de sua imaginação? E se ele só a tivesse imaginado porque queria alguém para estar junto dele naquele momento? Mas então o que explicava o colar que ganhará? Quem o teria dado se não foi ela? Claro que tinha coisas que descrevera nela que eram quase irreais de tão perfeitas, mas isso queria dizer que ela não existia? Será que por sua obsessão de ser igual a seu pai com uma esposa tão perfeita como sua mãe o tinha levado a imaginar aquela garota? Depois de tantas procuras isso era em vão? Ela não existia no final das contas? O que era real então? Como sentira o toque quente dela? Como conseguira ouvir os batimentos do coração dela? Como conseguira ouvir aquela voz suave que ela tinha? Fora tudo uma ilusão feita pelo desespero?

Entrou na sala e se posicionou em sua cadeira sendo observado constantemente pelas garotas que estudavam ali. Tinha a impressão de o numero de garotas ter aumentado nesse segundo ano, mas tentou não prestar atenção nisso. Seus pensamentos estavam muito perdidos no que seus irmãos diziam. Eles estavam convencidos de que a garota que tanto procurava não existia igual a varias outras pessoas, mas por que então só ele acreditava? Seria porque só ele a viu ou porque ela só existia em sua cabeça? Não, não poderia ser. Depois de tanto tempo procurando isso não podia ser apenas fruto de sua cabeça. Ela tinha que existir!

De repente o professor entrou, deixando cair os pesados livros na mesa fazendo um barulho estrondoso. Isso era de se esperar do professor mais chato e esnobe de todos, pelo menos na opinião de Shadow. Respirou fundo, era mais um dia cheio de uma aula inútil. Esse professor não ensinava nada alem do obvio, nada alem do que ele poderia usar para se gabar.

Voltou seu olhar para a janela. Nada que aquele professor poderia falar ele não sabia. Realmente nem queria estar ali e sua mente cumpria esse querer. Ela estava de volta aquele dia, aquele dia que em que tudo aconteceu. Podia rever o rosto infantil dela, aquele olhar azul brilhante, os cabelos loiros caindo pelo ombro como um véu dourado que ia ate o quadril, o belo corpo de uma menina de dezessete anos proporcional ao tamanho não tão grande e não tão pequeno, aquele sorriso delicado e bonito que continha tanta ternura e carinho...

— Shadow. – chamou o professor fazendo-o desviar o olhar da janela e colocá-lo na frente da sala. Já estava na metade da aula, mas para ele parecia estar apenas no inicio. O quadro estava cheio de contas e cálculos que ele já sabia de cor. – Poderia vir aqui na frente e resolver esse calculo para nós.

Shadow suspirou e se levantou, colocando as mãos no bolso e andando lentamente ate a frente da sala. Podia se dizer que a sala era igual a um estádio de futebol. As cadeiras subiam um degrau formando fileiras tanto na vertical quando na diagonal e a parte onde ficava o professor que era bem na frente de todos era a parte mais baixa onde tinha a mesa do mesmo e o quadro branco onde ele colocava a matéria. Nada de muito especial, pensou Shado enquanto pegava o pincel da mão do professor e fazia rapidamente o calculo como se fosse a coisa mais fácil que poderia colocar para ele fazer.

Depois que terminou ele voltou para seu lugar e se sentou como se não tivesse acontecido nada. O professor conferiu a conta e percebeu, para seu desgosto, que estava tudo completamente correto, mas mesmo no momento em que ele o felicitou o ouriço negro já tinha voltado para o seu mundo de pensamentos. A aula inteira foi assim, perdido naquele dia tentando achar alguma coisa que mostrasse que não era real, ou que pelo menos indicasse que fosse isso também.

O horário do intervalo havia chegado e ele ainda estava indeciso. Não era um sonhador, isso era garantido. Muito menos fantasioso, isso claro que não. Mas também não acreditava que tudo tinha uma explicação cientifica. Era um meio a meio, e sempre gostava de provar, com argumentos, que ele estava certo (na maior parte das vezes estava). Mas ela sempre fora um caso especial que ele procurava por beneficio próprio e não para mostrar aos outros.

Estava sentado de baixo de uma arvore observando o vasto céu azul. Fechou os olhos e se concentrou nos vários sons que tinha a sua volta. Paz, uma palavra que a muito tempo não conhecia. Era tão bom sentir aquilo de novo, tão aconchegante e harmonioso...

— Shadow!! – mas tudo o que é bom dura pouco. Sonic se aproximava com um grande sorriso no rosto andando lentamente junto com Silver, que devia ser quem o estava obrigando a andar dessa maneira para assim não causar encrenca. – O que esta fazendo ai sozinho irmão?

— Não é obvio? – perguntou Silver com um sorriso divertido no rosto. – Pensando na sua preciosa amada imaginaria.

Shadow nada respondeu. O que deveria dizer no final das contas? Ele mesmo estava em duvida sobre se ela realmente existia ou não. Seu coração dizia que sim, mas sua mente já pensava que ela não existia. Seu corpo provava que ela existia, mas a realidade também provava que ela não era real. O que devia pensar então? Deixou seus dois irmãos conversando enquanto pensava.

Passou um tempo e quando se deu conta já era a hora de ir embora. Passara o dia inteiro pensando e pensando que nem se dera conta da hora. Mas mesmo tendo passado todo esse tempo ainda continuava com as duvidas em sua cabeça e não conseguia parar de dar voltas e mais voltas sobre o assunto. Nem mesmo voltara para casa. Fora direto para o parque que a havia sido recolhido e salvo.

Sempre ia para lá quando estava confuso ou triste. Aquele era seu pequeno cantinho onde podia finalmente estar em paz consigo mesmo. Onde podia reviver seus sonhos e seus desejos sem que tivesse alguma coisa que o desencorajasse. Esse era seu pequeno mundo de ilusões.

Deixou sua moto em um canto e se sentou no banco, o mesmo banco em que ela o havia levado e o feito dormir. Sempre se sentia cansado e relaxado nele. Era como se voltasse a ser aquele pirralhinho e que nesse momento ela o estivesse carregando como fizera antes. Suspirou. Queria tanto que ela fosse real...

De repente o vento aumentou fazendo as arvores que tinha ali perto chacoalharam fortemente. Shadow olhou para todos os lados preocupados, mas a única coisa que conseguiu foi que um papel atingisse seu rosto. Pegou-o e olhou bem para ele. Tinha algo escrito... Era seu nome! E ao parecer tinha uma mensagem embaixo que ao parecer era para ele.

“Shadow,

Sei que é estranho me comunicar assim (ate mesmo porque você nem mais deve saber quem sou), mas tinha que falar com você de alguma maneira. Queria saber se você ainda se lembra de mim. Se ainda consegue recordar aquele pequeno momento que tivemos juntos.

Queria te ver de novo já que quatorze anos é muito tempo. Mas no momento eu não podia te ver assim de repente então tive que mandar essa carta para que assim pudéssemos marcar uma hora para nos encontrar.

Vá ate a parte mais profunda do bosque no qual tem um lago bem em seu centro. Encontre-me lá no fim da tarde, assim poderemos conversar o resto da noite hihihihi.Te espero com ansiedade meu pequeno.

Ah! E por acaso meu nome é Maria. Não te falei naquele dia já que você acabou dormindo.

Beijos.”

Seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu. Era dela! Ela existia no final das contas!! Ela era real!!! E finalmente iria encontrá-la, finalmente cumpriria sua promessa. E dessa vez nunca mais deixaria que ela saísse do seu lado, nunca!

De repente algumas gostas de chuva começaram a cair, chamando sua atenção. Olhou para cima e viu como as nuvens tinham ficado cinzas e juntaram tampando completamente o céu. Colocou rapidamente o bilhete no bolso da calça e foi ate sua moto. Saiu rapidamente do lugar indo na direção de sua casa, mas seus pensamentos estavam em outro lugar. Estava feliz por finalmente conseguir achá-la, mesmo que na verdade fosse ela que o tinha encontrado.

Entrou em casa rapidamente sem se importar que estava molhado e foi direto para seu quarto, ignorando completamente os chamados de Silver para o jantar. Queria estar sozinho, queria aproveitar aquele momento. Por isso se deixou cair na cama e tirou o papel do bolso lendo e relendo o que estava escrito mais umas mil vezes. Queria ter certeza que tudo aquilo estava acontecendo e que não era apenas um sonho. E era real, tudo era real!

Tocou levemente o cordão em seu pescoço. Maria,era um nome tão bonito e que agora fazia com que seu coração se acelerasse de ansiedade. Como ela estaria depois de todo esse tempo? Mais velha é claro, mas será que ainda era tão bela como antes? Será que ela ainda teria aquele brilho no olhar? Isso só descobriria amanhã.

Acabou dormindo sem nem mesmo tirar a roupa que estava usando. Adormeceu ansiando para que o outro dia chegasse o mais depressa possível e que assim pudesse finalmente reencontrá-la.