Porta-Fantasmas

1 Capítulo 1 – A Pequena Necromante


O que realmente compreendemos sobre a alma? O cérebro, esse centro de comando de quase todas as atividades vitais, é também o maestro das emoções que dançam ao seu ritmo. A alma, entrelaçada ao tecido do ser humano, absorve o pensamento e a memória armazenados no cérebro — esses ecos da existência que ressoam mesmo após a morte, quando a alma se despede do corpo.
Culturas ao redor do globo tecem narrativas sobre a jornada das almas, criando um mosaico de crenças sobre suas origens e destinos. Mas uma certeza absoluta sobre o além, talvez, seja um mistério que sempre nos escapará.


Em um abismo de silêncio e sombras, a alma de uma menina flutua solitária em um vazio cinzento e infinito. Ali, ela se entrega à meditação, um refúgio pacífico, até ser perturbada por vozes que ressoam através do nevoeiro denso.

— Maldita, liberte-nos!
— Nunca pensei que meu destino seria ficar confinado dentro de uma criança.
— Estar aprisionado neste corpo é a suprema humilhação.
— Quanto tempo mais devo suportar essa prisão?
— Me liberte, garota insolente.
— Preciso de ar fresco.

As vozes se intensificam, tecendo um coro de lamentos na névoa, até que a alma abandona sua calma e abre os olhos.

— SILÊNCIO, TODOS!

Com um comando, as vozes se aquietam instantaneamente. Ela continua, sua voz impregnada de autoridade.

— Vocês semearam o caos pelo mundo, assombrando e ceifando vidas inocentes. Agora, enfrentarão a condenação de viverem encarcerados em corpos humanos por eras. Nossos corpos tornam-se prisões para almas corrompidas e malditas como as suas. Este é o meu fardo, e agora, o fardo de vocês.


*


Brasil: Estado de São Paulo
Hora: 6:45 AM
— Já se passou um ano desde que minha família e eu deixamos o interior. As primeiras impressões de São Paulo foram ótimas, e a vida aqui tem sido agradável.
— Ah, quase me esqueci. Meu nome é Thalia, e hoje é um grande dia para mim — meu primeiro dia de aula. Estou tão animada que mal consigo conter a empolgação.

Ao chegar na escola, o pátio já está pulsando com a energia de outras crianças da sua idade. Observo, os novos rostos, cada um tão único quanto o próximo. Com um sorriso confiante, ela pensa:

— Tenho certeza de que farei amigos aqui rapidinho.

Enquanto Thalia observava as crianças brincando, uma figura solitária chamou sua atenção. Nos confins do pátio, uma garota de cabelos pretos curtos estava sentada em um banco, envolta em um manto de quietude e introspecção. Thalia notou seus olhos puxados, revelando sua origem oriental. Antes que pudesse se aproximar, sentiu um toque em seu ombro.

— Ô, com licença — disse Thalia, virando-se para encontrar um garoto atrás dela.
— Ah, oi.
— Você está olhando para aquela menina ali no banco, não está?
— Sim, estou. Ela parece ser alguém legal, você não acha? — respondeu Thalia, com um brilho de entusiasmo nos olhos.
— Legal? Que nada, ela é uma chata. — retrucou o garoto.
— Como assim?
— Ela não conversa com ninguém. Vive com essa expressão de quem não tem coração, sabe? Tipo... assustadora — ele enfatizou a última palavra com um ar dramático de medo.
— Assustadora? Isso só me faz querer conhecê-la mais — Thalia descartou os comentários negativos do garoto, sua curiosidade aguçada pela descrição intrigante.

O garoto suspirou, claramente desapontado.

— Se você quer ser amiga dela, isso também te faz uma estranha, então. Tchau.

Depois de advertir Thalia, o garoto se afasta, mas suas palavras acabam por instigar ainda mais a curiosidade dela. Ignorando o aviso, Thalia se dirige à garota solitária com a intenção de cumprimentá-la.

— Oi, qual é o seu no-

Sua saudação é interrompida pelo toque do sinal. A menina solitária vira a cabeça, atenta ao som que marca o fim do intervalo. Com movimentos ágeis, ela recolhe sua bolsa e se afasta silenciosamente, deixando Thalia com a palavra na ponta da língua.

— Bom dia, classe! — a voz do professor Alves ecoa com uma energia contagiante pela sala de aula, que responde em uníssono.
— Bom dia, professor Alves!

A sala de aula é um caleidoscópio de cores e atividades. Cartazes educativos adornam as paredes, e as janelas amplas banham o espaço com luz natural, realçando o quadro-negro. As carteiras, organizadas em filas ordenadas, são ocupadas por estudantes que sussurram entre si em antecipação ao primeiro dia de aula do ano. O ar está impregnado com o aroma suave de livros e cadernos novos.

— Antes de começarmos com a nossa aula, queria apresentar uma estudante nova daqui. Dêem boas-vindas à Thalia. — O professor Alves gesticula em direção à porta onde Thalia, a nova aluna, que entra.
— BEM-VINDA, Thalia! — A classe exclama em coro, alguns alunos acenando e outros oferecendo sorrisos amigáveis.
— Hihi, poxa gente, muito obrigada. Espero me dar bem com todos vocês — disse Thalia, com um sorriso tímido e sincero.
— Muito bem, por favor, encontre um lugar para sentar-se — instruiu o professor Alves, acenando para as cadeiras disponíveis.
— Sim, senhor — respondeu Thalia, com um aceno de cabeça respeitoso.

Thalia percorreu a sala de aula com passos suaves, seus olhos varrendo as fileiras de carteiras em busca de um assento vago. Após alguns momentos, ela encontrou um ao lado da garota asiática que havia chamado sua atenção no pátio. Sentando-se, Thalia não pôde deixar de observar a colega, que estava completamente absorta na aula.

— Ei, Psiu! Ei, você! Tem um tempinho? — sussurrou Thalia, inclinando-se discretamente em direção à garota.

A garota, porém, ignorou-a, mantendo o foco na explicação do professor.

— Ei, não me ignore, por favor! — insistiu Thalia, um pouco mais alto, mas ainda em um sussurro.
— Me deixa em paz! — resmungou a garota oriental, visivelmente irritada.
— É que eu te achei legal e queria saber se poderíamos nos tornar grandes amigas — explicou Thalia, sua voz cheia de esperança.
— Para de me incomodar! — exclamou a garota, perdendo a paciência.

Nesse momento, o professor Alves se aproximou, batendo com sua régua de madeira na carteira da garota perturbada, surpreendendo-na e atraindo os olhares curiosos da classe.

— Posso ajudá-la com algo? — perguntou ele, com um tom de autoridade.
— (Tch), Não, senhor — respondeu ela, tentando desviar a atenção da classe.
— Ótimo. Assim, não atrapalha minha aula — disse o professor, com um sorriso sarcástico.

Alguns alunos contiveram risadas diante da cena, inclusive Thalia, que não pôde evitar um sorriso. O professor, então, retomou sua aula, e a garota oriental voltou a se concentrar nas palavras do professor, fazendo o possível para ignorar Thalia até o final da aula.
O intervalo trouxe consigo um sopro de liberdade ao pátio da escola, onde a garota se encontrava novamente isolada, sentada no mesmo banco de antes, imersa em seus próprios pensamentos. Thalia, com a determinação de quem não se deixa abater facilmente, aproximou-se dela, ignorando o desconforto evidente na expressão da outra.

— Você não ficou satisfeita o bastante de me importunar? — questionou, a calma de sua voz contrastando com o visível mau humor que se desenhava em seu rosto.
— Eu... Não deveria ter mexido com você no meio da aula. Desculpa — disse Thalia, sua voz carregada de sinceridade.
— Hm, é bom que tenha reconhecido o que fez — respondeu, suavizando um pouco a rigidez de seu tom.

Thalia tomou assento ao lado dela, uma distância respeitosa entre as duas.

— Muito obrigada! Meu nome é Thalia, e o seu?
— Myung-hee — a resposta veio áspera e desinteressada. — O que você quer comigo, aluna nova? — indagou, com um olhar inquisidor.
— Ér, eu quero ser sua amiga — confessou Thalia, um rubor tímido tingindo suas bochechas.
— Por que insistir com isso? — Myung-hee estava claramente perplexa com a persistência de Thalia.
— Eu acho você muito parecida comigo, temos as mesmas... é, como eu posso dizer? — Thalia hesitou, buscando as palavras certas.
— Mesmas o quê? Coisas em comum? Absolutamente não! Nós somos tão diferentes quanto laranjada e querosene — Myung-hee disparou, sua comparação enfatizando a disparidade que ela sentia entre elas.

A brisa suave do intervalo carregava consigo o murmúrio das conversas e risadas dos alunos, mas entre Thalia e Myung-hee, o silêncio prevalecia. Thalia, com a determinação de quem sabe o que quer, não se deixou intimidar pela aparente rejeição de Myung-hee. Ela sabia que amizades verdadeiras muitas vezes começam com um simples ato de coragem.

— Você está mesmo determinada em conseguir a minha amizade? — perguntou Myung-hee, um traço de surpresa se misturando à sua usual reserva.
— É claro que estou — respondeu Thalia, sua voz firme e cheia de convicção.

Myung-hee piscou os olhos, que refletiam uma decisão recém-tomada, e encarou Thalia com uma seriedade nova.

— Muito bem, mas tem uma condição — disse ela, erguendo o dedo indicador como se para enfatizar a importância do que diria a seguir.
— Qual? Qual? — Thalia perguntou, suas mãos cerradas em punhos junto ao peito, a ansiedade palpável em sua voz.


*


Mais tarde, depois da escola, Myung-hee Thalia , ainda passam pela rua próxima a escola, até chegarem em frente de vosso destino.

— Chegamos. — Anunciou Myung-hee à Thalia.

Em frente a elas, erguia-se um antigo casarão de dois andares, um testemunho da arquitetura portuguesa, exibindo marcas de décadas de negligência. As paredes externas da casa estavam manchadas de escurecimento, resultado de décadas de desgaste. Algumas janelas ostentavam vidros estilhaçados, enquanto outras estavam completamente desprovidas deles. O terreno que precedia a propriedade estava tomado por uma grama alta e selvagem, pontilhada por ervas daninhas que alcançavam a altura das duas crianças.
A luz do entardecer lançava sombras alongadas no caminho que levava ao casarão, e o ar estava carregado com o peso da história. Thalia, apesar da apreensão inicial, sentia-se atraída pela aura de mistério que Myung-hee parecia emanar.

— Para ter a minha amizade, você vai ter que passar pelo teste — disse Myung-hee, sua voz tão firme quanto o olhar que fixava na entrada do casarão.
— Teste? — A palavra escapou dos lábios de Thalia como uma brisa suave, carregada de curiosidade e um toque de ansiedade.
— Um ritual especial para quem quiser ser o meu amigo, logo vai descobrir. Me siga — Myung-hee começou a caminhar em direção à porta entreaberta do casarão, cada passo ressoando com um propósito que parecia ecoar nas paredes antigas.

Thalia, movida por uma mistura de nervosismo e excitação, seguiu Myung-hee, seus passos hesitantes contrastando com a determinação da outra. O que seria esse teste? Uma prova de coragem, ou algo mais profundo? Thalia estava prestes a descobrir.

— Você já passou por esse lugar antes? — Perguntou olhando para os arredores do quarto abandonado.
— Sempre quando fico chateada, agora me siga até o saguão.

Ao adentrarem o casarão, Thalia e Myung-hee foram recebidas por um saguão que parecia congelado no tempo. As paredes, adornadas com papel de parede azul-escuro desbotado, contavam histórias de uma era passada. Duas escadarias simétricas, cada uma em um canto oposto do hall, exibiam corrimãos de madeira escura corroída pelo tempo e pelos cupins, ambas levando a uma sacada comum no segundo andar. Um grande candelabro, testemunha de muitos anos, pendia do teto, iluminado apenas pelas frestas de luz que lutavam contra a escuridão do lugar.

— Muito bem, podemos começar — anunciou Myung-hee, sua voz ecoando no silêncio do saguão.
— Sério? Esse lugar me dá calafrios — Thalia não conseguiu esconder seu desconforto.
— Você já quer desistir? — Myung-hee desafiou.
— Não! Não vou desistir! — A determinação de Thalia era palpável.

Myung-hee assumiu uma expressão dramática e séria.
— Então podemos começar com o… “teste”! Mas primeiro, feche os olhos.
— Fechar os olhos? É algum jogo de esconde-esconde? Ah, entendi — Thalia riu, tentando aliviar a tensão.
— Faça logo o que eu estou dizendo — Myung-hee insistiu, impaciente.
Thalia obedeceu, cobrindo os olhos com as mãos enquanto segurava o riso.

— Maravilha — Myung-hee murmurou, satisfeita.

Myung-hee posicionou seus dedos indicadores em cada lado da cabeça de Thalia, que sentiu um leve atordoamento, passageiro como um sopro de vento.

— Pronto, pode abrir os olhos.

Quando Thalia retirou as mãos dos olhos, Myung-hee havia desaparecido. Sozinha no vasto saguão, ela ouviu a voz de Myung-hee ressoar como um sussurro distante.

“Não olhe para trás, apenas suba a escada.”

Confusa, mas decidida a seguir o jogo, Thalia começou a subir as escadas, ignorando a estranha sensação que a envolvia. Ao levantar os olhos, ela viu figuras que dançavam no ar, semelhantes a morcegos, circulando o candelabro.
— Irc, morcegos! Que nojo! — exclamou, surpresa e repugnada pela visão inesperada.

Ao alcançar o topo da escada, Thalia se deparou com uma porta que parecia ser a entrada para um novo mundo de mistérios. Com um empurrão suave, ela a abriu, e o que viu a deixou perplexa, mas não assustada.
Uma boneca de porcelana, tão alta quanto ela, com cabelos negros que caíam lisos sobre um quimono rosa, encarava-a com olhos vazios e um rosto imóvel. Em sua mão, um punhal era apontado diretamente para Thalia, pronta para atacar.
Thalia, contudo, não demonstrou medo. Em vez disso, sentiu um incômodo em seus olhos e um formigamento no nariz.

— Ah... Ahh, acho que eu vou... ahn, ãn...

E então, um espirro poderoso escapou, lançando uma onda de muco sobre o quimono da boneca, que, repugnada, largou o punhal e recuou.
Depois de limpar o nariz, Thalia sentiu uma presença atrás dela.

— Opa, Myung, é você?

Virando-se, ela se deparou com uma figura fantasmagórica, uma aparição feminina de branco, com olhos e boca negros e abissais.

— Wow. Quem é você? — perguntou Thalia, curiosa mais do que assustada.
— Nossa, com essa boca toda aberta, você deve estar querendo alguma coisa, me dá só um segundo.

Ela buscou algo em seu bolso e estendeu uma bala para a criatura.

— Eu só achei no meu bolso essa bala, pode ficar com ela.

No entanto, um passo em falso fez Thalia pisar no cabo do punhal. Ela escorregou e, ao colidir com a criatura, ambas perderam o equilíbrio. A figura fantasmagórica caiu escada abaixo, rolando pelos degraus.

— Epa...

A voz de Myung-hee, um timbre familiar e esperado, reverberou pelo espaço, alcançando Thalia.

— Thalia! Você... passou no teste!

Com um gesto teatral, Myung-hee puxou a cortina, revelando-se banhada pela luz solar que invadia o ambiente através da janela. Sua silhueta era delineada pelo brilho dourado, criando uma aura quase mística ao redor dela.

— Mas já? Tão fácil, nem entendi direito esse teste — Thalia expressou sua surpresa com uma inocência desarmante.
— Não importa, o importante é que agora somos amigas, como você desejou — Myung-hee respondeu, sua seriedade contrastando com a leveza de Thalia.

— Sério!? — Os olhos de Thalia brilharam com a promessa de uma nova amizade.

Myung-hee apontou seu dedo para Thalia, proferindo as palavras com um peso que parecia selar um pacto invisível.

— É, o seu destino já está selado, mas lembre-se, você não pode romper com a nossa amizade recém-formada.

Thalia, incapaz de conter sua alegria, começou a saltar e abraçou Myung-hee com entusiasmo, esfregando a bochecha na dela.

— Isso é demais! Nós seremos amigas para sempre.
— Thalia, você está me apertando forte demais — a voz de Myung-hee saiu abafada pelo abraço apertado.
— Opa, desculpe — Thalia soltou-a rapidamente — E então, podemos tomar sorvete?
— Pode ser amanhã? — Myung-hee sugeriu.
— Sim! Vamos amanhã! — Thalia concordou, já sonhando com o encontro.

Thalia desceu as escadas do saguão, deixando Myung-hee sozinha com seus pensamentos.

— De muitos que eu conheci aqui no ocidente e me lembro de cabeça, ela é a primeira que não tem medo de mim. Que estranho. Será que é coragem, ou pura estupidez? — Myung-hee refletiu, uma sombra de dúvida cruzando sua mente.

Um gemido rouco interrompeu seus pensamentos. Myung-hee se aproximou dos corrimãos e olhou para baixo, onde a figura fantasmagórica jazia no chão, ao pé da escada.

— É, posso ver que você tem problemas com escadas — comentou Myung-hee, uma nota de ironia em sua voz.


*


Mais tarde, Myung-hee retorna a sua casa. Na sala de estar, ela se acomoda descalça em uma cadeira, mergulhada nas questões de um livro. A quietude é quebrada pelos murmúrios da boneca viva, a mesma que antes a acompanhava.

— O que foi, Okiki? — indaga Myung-hee, o estresse tingindo sua voz.
Okiki aponta para o quimono que veste, ainda manchado pelo espirro de Thalia.
— Minhas roupas não cabem em você, Okiki. Espere um pouco, estou ocupada agora.

Mas a boneca de porcelana insiste com murmúrios queixosos, persistindo até que Myung-hee perde a paciência.

— CHEGA! Vou limpar isso agora mesmo.

Levantando-se abruptamente, Myung-hee pega um aspirador portátil, liga-o e passa no quimono de Okiki, determinada a silenciar a boneca.

— Satisfeita? — pergunta Myung-hee, irritada, enquanto passa o aspirador com movimentos cada vez mais vigorosos. — Preciso limpar bem aqui também.
A sucção intensa do aspirador começa a puxar o tecido, e num descuido, o quimono se rasga, deixando Okiki despida.
— Bem, parece que você ficará sem roupas sujas por um tempo — diz Myung-hee, sua voz carregada de ironia seca.