Porta-Fantasmas
2 Capítulo 2 - Lutadora Inconveniente
A noite caía sobre a cidade como um manto úmido, as luzes dos postes e das janelas tremeluzindo como vaga-lumes refletidos nas poças deixadas por uma chuva fora de hora. Uma jovem de traços asiáticos cortava as ruas com passos firmes, o rabo de cavalo negro balançando ao ritmo de sua marcha. O uniforme de Kendo — hakama azul-escuro e kendogi bem alinhado — dava-lhe um ar de guerreira deslocada, mas o vento frio, raro para um país de sol ardente, infiltrava-se pelo tecido grosso, arrepiando sua pele.
— Espero que ela esteja mesmo nesta cidade. E, sério, pra um lugar tropical, tá um gelo danado — murmurou, puxando o casaco surrado mais para perto do corpo, como se pudesse negociar com o vento.
Carregando o peso de uma missão que não revelava a ninguém, nem a si mesma em voz alta, a jovem avistou um beco estreito entre dois prédios antigos, suas fachadas marcadas pelo tempo e pela umidade. Um rápido olhar ao redor confirmou que estava sozinha — ou assim esperava. Ela entrou, as sombras engolindo sua silhueta enquanto o uivo do vento diminuía, preso entre os muros.
— Aqui deve dar pra me esquentar um pouco — disse, mais para quebrar o silêncio do que por convicção.
Respirando fundo, o ar gelado queimando os pulmões, ela desembainhou a shinai, a espada de bambu que carregava como extensão de si mesma. Com um movimento fluido, começou a traçar as formas do Kendo no ar, cada golpe um sussurro sibilante contra a noite. Era uma dança de precisão e força, um ritual particular que aquecia tanto o corpo quanto a mente.
Mas o beco não era tão vazio quanto parecia. Uma sombra se mexeu na penumbra, e os olhos da jovem se afiaram, captando um garoto na extremidade do corredor. Ele a encarava, boquiaberto, com uma mistura de fascínio e surpresa que não conseguia esconder.
— O que você tá olhando? — disparou ela, a voz cortante como o vento que ainda assoviava lá fora.
—Ah, é que eu tava vendo você lutar e, tipo, você é muito— começou ele, tropeçando nas palavras.
— Vai pagar caro por espiar meu aquecimento secreto! — interrompeu ela, os olhos faiscando de irritação. A shinai apontou para ele por instinto, como se o garoto fosse um adversário no dojo.
Ei, calma aí! Não foi de propósito! — ele ergueu as mãos, um gesto desajeitado de rendição, mas o ar entre eles permanecia carregado, como se o beco inteiro prendesse a respiração.
Mais tarde, em outro canto da cidade, na casa de Myung-hee...
A luz tímida do amanhecer esgueirava-se pelas frestas das cortinas, pincelando o quarto com tons acinzentados. Myung-hee despertava aos poucos, ainda envolta em seu edredom como uma tartaruga em sua concha, relutante em enfrentar o dia. O silêncio matinal, porém, era uma ilusão frágil — sussurros abafados e arranhões sutis ecoavam pelas paredes, uma sinfonia inquieta que parecia nascer da própria casa.
Com um suspiro que carregava mais cansaço que medo, Myung-hee espiou por baixo do edredom. Lá estava ela: Ayaka, a figura espectral de cabelos negros emaranhados e pele pálida como porcelana rachada, pairando a poucos centímetros do chão. Seus olhos abissais fixaram-se nos dela, um vazio que parecia engolir a luz.
— Ayaka, já disse pra não ficar debaixo do meu lençol. É esquisito — resmungou Myung-hee, o tom seco e autoritário, como quem repreende uma criança teimosa.
Um miado baixo rompeu a tensão, vindo da esquerda. Myung-hee virou a cabeça e encontrou Hideo, o menino pálido de expressão vazia, sentado no canto do quarto. Seus olhos refletiam o cinza do céu lá fora, e ele a observava em silêncio, como um gato espectral que não precisava de palavras.
—Bom dia, Hideo — disse ela, com um aceno mínimo, quase mecânico.
Levantando-se com a graça de quem já se acostumou a dividir o espaço com assombrações, Myung-hee foi até a janela e puxou as cortinas com um gesto firme. A luz do dia, filtrada por nuvens esparsas, inundou o quarto, revelando os contornos das presenças que se escondiam nos cantos. Ayaka recuou um pouco, como se a claridade a incomodasse, enquanto Hideo apenas piscou, indiferente.
— Hoje é sábado. Dia da feira de comida — murmurou Myung-hee, mais para organizar os próprios pensamentos do que para os espectros que a cercavam.
Lá fora, a cidade acordava devagar, alheia aos sussurros que preenchiam a casa. O cheiro de pão quente e frituras da feira já começava a se misturar ao ar, mas dentro daquelas paredes, o mundo de Myung-hee permanecia um segredo silencioso, tecido de sombras e promessas não ditas.
*
A feira de comida pulsava com vida, o ar carregado de aromas doces e salgados misturados ao burburinho de vozes e risadas. Thalia serpenteava entre as barracas, um doce no palito entre os dedos, o açúcar brilhando à luz dos lampiões. Ela murmurava uma melodia desconexa, perdida em seus próprios pensamentos, quando uma voz firme cortou o ar atrás dela.
— Para aí, agora!
Thalia soltou um grito agudo, quase histérico, o doce balançando perigosamente no palito enquanto ela girava nos calcanhares. Seus olhos encontraram a figura de uma garota de uniforme de Kendo, o rabo de cavalo negro destacando-se contra a luz amarelada da feira. O grito morreu em sua garganta tão rápido quanto começou, substituído por um olhar curioso.
— Olá, moça — disse Thalia, com um sorriso hesitante, ainda segurando o doce como se fosse um talismã.
A jovem deu um passo à frente, os olhos estreitados com determinação.
— Eu sou Hiromi Toru. Meu pai perdeu um duelo de Shogi pra uma tal de Myung-hee anos atrás. Você conhece uma menina chamada Myung-hee?
Thalia piscou, franzindo a testa enquanto mordiscava o doce.
— Qual Myung-hee?
Hiromi cruzou os braços, impaciente.
— Uma menina da sua altura. Coreana. Cabelo curto. E um rabo de cavalo ridículo brotando da cabeça. Soube que ela se mudou pra cá.
Thalia mastigou mais devagar, os olhos se iluminando aos poucos.
— Myung-hee... Myung-hee... AH! É a Myung-hee! Minha amiga da escola!
Hiromi ergueu uma sobrancelha, o tom endurecendo.
— Então você a conhece. Onde ela está? Fala logo.
— Hm... — Thalia hesitou, coçando a cabeça com a mão livre. — Eu não sei.
Hiromi inclinou a cabeça, os olhos faiscando com desconfiança.
— Tá escondendo a verdade de mim, é?
— Escondendo? Peraí, calma! — Thalia acenou as mãos, o doce quase voando do palito.
— Vou te fazer cuspir a verdade e me dizer onde ela está. Prepara-se! — Hiromi flexionou as pernas, assumindo uma postura de luta, a shinai ainda embainhada ao seu lado, mas a ameaça clara em cada músculo tenso.
Antes que Thalia pudesse soltar mais uma palavra, um chute rápido atingiu sua barriga. Ela cambaleou para trás, o doce escapando dos dedos e rolando pelo chão empoeirado da feira. Com um gemido, ela caiu de joelhos, mas se levantou rápido, esfregando o estômago.
— Ai, não precisa ficar brava! — tentou Thalia, a voz trêmula, mas cheia de uma tentativa desajeitada de conciliação.
Hiromi não respondeu com palavras. Em vez disso, girou a shinai com um movimento brusco, liberando um golpe de ar cortante que rasgou o espaço ao lado de Thalia. Não a acertou por centímetros, mas o zunido afiado e a brisa que bagunçou seus cabelos foram o bastante para congelá-la por dois segundos inteiros, os olhos arregalados de puro pavor.
— AAAAAAAH! — Thalia gritou, o pânico tomando conta. Ela girou nos calcanhares e disparou pela feira, derrubando uma cesta de frutas e quase tropeçando em um carrinho de yakisoba.
Hiromi bufou, ajustando o rabo de cavalo com um gesto irritado, e partiu atrás dela, os passos ecoando como um tambor de guerra entre as barracas.
Enquanto isso, na casa de Myung-hee, o silêncio matinal voltava a reinar, quebrado apenas pelo farfalhar das cortinas ao vento. Myung-hee terminava de calçar os sapatos, a bolsa já pendurada no ombro, o rosto sereno como sempre. Ao alcançar a maçaneta da porta, ela lançou um olhar por cima do ombro. Lá, no canto da sala, um gato branco e laranja a encarava, os olhos dourados brilhando com uma inteligência que não pertencia a um animal comum.
— Avisa pro tio Sasaki que eu saí e não vou demorar — disse Myung-hee, o tom firme, quase um comando.
O gato abanou o rabo, soltando um suspiro dramático que parecia deslocado em sua forma felina.
— Me pergunto por que eu tenho que fazer essas tarefas — respondeu, a voz grave e levemente ressentida ecoando no ar.
Myung-hee arqueou uma sobrancelha, os lábios curvando-se num meio sorriso frio.
— Porque eu mando em você.
Ela girou a maçaneta, fechou a porta com um clique suave e desapareceu na luz do dia, deixando o gato sozinho com seus murmúrios de insatisfação. Lá fora, o som distante da feira começava a ganhar força, um prenúncio de que o sábado de Myung-hee estava prestes a tomar rumos inesperados.
As ruas próximas à feira de comida vibravam com o vaivém de pedestres, o cheiro de tempurá e algodão-doce flutuando no ar. Myung-hee caminhava com passos tranquilos, a bolsa balançando no ombro, quando uma figura familiar surgiu correndo em sua direção, os braços agitando-se como asas de um pássaro em pânico.
— Thalia? — Myung-hee parou, inclinando a cabeça com uma mistura de surpresa e curiosidade. — Que coincidência você estar aqui também.
— Me ajuda! — Thalia exclamou, quase tropeçando nos próprios pés enquanto freava diante dela. — Tem uma moça malvada me seguindo! — Seus braços continuaram balançando, como se tentasse espantar um enxame invisível. — Ela disse que tava procurando você, eu disse que não sabia onde você tava, e agora ela quer me pegar!
Myung-hee franziu a testa, os olhos estreitando-se enquanto processava as palavras aceleradas de Thalia.
— Quem tá me seguindo?
Antes que Thalia pudesse responder, uma voz cortante ecoou pelas costas delas, carregada de uma determinação afiada como uma lâmina.
— Finalmente te achei, Myung-hee.
Myung-hee virou-se devagar, o rosto impassível, mas um leve tremor de reconhecimento passou por seus olhos.
— Essa voz... — murmurou, quase para si mesma.
Hiromi emergiu da multidão, o uniforme de Kendo empoeirado da corrida, o rabo de cavalo oscilando com cada passo firme. Ela parou a poucos metros, os punhos cerrados e o olhar fixo em Myung-hee como se pudesse atravessá-la com pura vontade.
— Hiromi Toru. Por que você me seguiu até aqui? — perguntou Myung-hee, a voz fria, mas com um toque de exaustão que traía seu desinteresse.
Hiromi deu um passo à frente, o queixo erguido em desafio.
— O que você acha? Vim aqui pra te desafiar.
Eu não quero nada com você — retrucou Myung-hee, cruzando os braços. — Volta pra casa ou vai se arrepender.
Hiromi bufou, os olhos faiscando com uma mistura de orgulho ferido e teimosia. Sem aviso, ela flexionou as pernas e saltou, lançando uma voadora na direção de Myung-hee com a graça de uma lutadora treinada — mas com a precisão de quem subestimou o alvo.
Myung-hee desviou com um passo lateral mínimo, quase preguiçoso, e Hiromi aterrissou desajeitadamente no chão, levantando uma pequena nuvem de poeira.
Thalia deu um gritinho abafado, cobrindo a boca com as mãos, enquanto Myung-hee, sem perder o ritmo, pegou uma garrafa PET vazia que rolava perto de seus pés.
Com um movimento rápido do pulso, atirou-a direto na testa de Hiromi, que soltou um “ai!” surpreso e esfregou a cabeça.
— Não tenho sossego nem em outro país — resmungou Myung-hee, já virando as costas e começando a correr, os cabelos curtos balançando enquanto disparava pela rua.
Hiromi se levantou num salto, ignorando a dor e o ridículo da situação, e partiu atrás dela, gritando com uma ferocidade que fez algumas cabeças na feira se virarem.
— 逃がさないわ! (Você não vai fugir de mim!) — bradou, a voz ecoando entre as barracas enquanto a perseguição tomava as ruas.
Thalia, ainda paralisada onde estava, piscou algumas vezes, processando o caos.
— Elas... correram mesmo? — murmurou, antes de dar de ombros e pegar outro doce de uma barraca próxima, como se nada pudesse abalar seu sábado.
A perseguição pelas ruas da feira levou Myung-hee a uma decisão rápida. Driblando barracas e pedestres, ela avistou uma das atrações temáticas do parque: um castelo assombrado erguendo-se contra o céu, suas torres tortuosas e janelas escuras prometendo refúgio — ou armadilha. Sem hesitar, ela correu para a entrada, o som dos passos de Hiromi ecoando cada vez mais perto.
O interior do castelo era um breu cortado por luzes tremeluzentes, o ar carregado de um cheiro mofado e o som distante de risadas gravadas. Myung-hee cruzou a porta, os pés ecoando no piso de madeira gasto, quando uma sombra saltou atrás dela.
Hiromi irrompeu na escuridão, os olhos faiscando de determinação. Sem aviso, ela lançou uma voadora, o corpo cortando o ar com a força de uma tempestade. Myung-hee desviou com um giro mínimo, quase dançante, e Hiromi aterrissou em pé, o impacto reverberando no chão. Com um movimento fluido, sacou a shinai, a espada de bambu zumbindo enquanto ela avançava, os golpes já desenhados em sua mente.
Hiromi era ágil, implacável. A shinai chicoteou o ar, acertando as antepernas de Myung-hee com um estalo seco, seguido por um golpe no ombro que a fez dobrar os joelhos. Myung-hee caiu, as palmas das mãos batendo no piso frio, a pele ardendo e os músculos gritando em protesto. Ela ergueu o olhar, o rosto contido, mas os dentes cerrados traíam a dor.
— Este é o seu fim! — declarou Hiromi, parada diante dela, a shinai segura com ambas as mãos. Ela ergueu a arma acima da cabeça, a sombra da lâmina projetando-se sobre Myung-hee como uma sentença.
— Pare agora, Hiromi! — uma voz masculina trovejou, cortando a tensão como um raio.
Hiromi congelou, o golpe paralisado no ar. Seus olhos se arregalaram ao avistar uma figura na entrada do castelo: um homem de meia-idade, bigode bem aparado, silhuetado contra a luz do sol que ele bloqueava. A familiaridade a atingiu como um soco.
— Pa-papai? É você? — balbuciou ela, a shinai baixando lentamente.
— Em pessoa — respondeu ele, o tom carregado de desaprovação. — Você não tem vergonha de viajar tão longe pra atormentar uma criança?
Hiromi engoliu em seco, os ombros caindo.
— E-eu só tô lutando pela honra da nossa família.
— Não é assim que se defende honra — retrucou ele, firme. — Violência só impõe medo, nada mais.
— Entendo — murmurou Hiromi, cabisbaixa, os olhos fixos no chão. Após uma pausa, ela franziu a testa. — Mas... como você chegou até aqui?
O homem ergueu a mão e apontou para o fundo do castelo, um gesto lento e deliberado. Hiromi virou-se, o coração acelerando. Lá, na penumbra, estava Hideo — pálido, espectral, os olhos vazios refletindo a luz fraca. Ele a encarava em silêncio, um semblante frio que parecia atravessá-la.
— Q-Quem é você? — gaguejou Hiromi, voltando-se para o pai. — Pai, quem é esse menino?
Antes que pudesse girar completamente, uma mão pálida e gelada agarrou sua cabeça por trás. Sons distorcidos, como sussurros arranhados, invadiram seus ouvidos. Hiromi debateu-se, o pânico tomando conta.
— A-algo tá me agarrando! — gritou, as mãos lutando contra o vazio. — Me solta! Me solta! Papai, me ajude!
Mas ao olhar para a entrada, a figura de seu pai dissolveu-se como fumaça, uma ilusão engolida pela escuridão. Myung-hee, aproveitando o momento, levantou-se com esforço e caminhou calmamente até o lado de Hiromi. Ela parou ao lado de Ayaka — a espectral de cabelos negros que segurava a lutadora com força sobrenatural — e cruzou os braços, de costas para a cena.
Hiromi, ainda presa, virou o rosto o quanto pôde, o medo se misturava com sua confusão.
— Myung? O q-que tá acontecendo?
Myung-hee virou a cabeça apenas o suficiente para lançar um olhar gélido por cima do ombro.
— Hiromi, lembra quando eu disse pra não me incomodar ou você ia se arrepender? — Sua voz era calma, quase entediada. — Se não tivesse vindo atrás de mim, não precisaria passar por isso.
Hideo deu um passo à frente, os pés silenciosos contra o chão. Ele abriu a boca, e um miado baixo e gutural escapou, ecoando no castelo como um lamento distante. Os olhos de Hiromi se arregalaram ainda mais, o grito que veio em seguida foi cortante, desesperado — até que a escuridão engoliu tudo, e a cena mergulhou em um silêncio absoluto, uma tela preta selando o momento.
*
No dia seguinte, o sol da manhã banhava a casa de Myung-hee com uma luz pálida, filtrada por cortinas finas. Uma figura silenciosa cruzava a grande sala de paredes brancas, os passos leves ecoando no vazio. Batidas rítmicas, como uma melodia desajeitada, ressoavam na porta. A pessoa — uma presença sem nome, quase uma sombra — estendeu a mão e abriu a porta, revelando Thalia do outro lado, o rosto iluminado por um sorriso curioso.
— Oi? — Thalia inclinou a cabeça, espiando para dentro. — Sabe se ela vai pra escola hoje? ... Ela já tá vindo? Tudo bem.
Um rangido suave anunciou alguém descendo os degraus. Myung-hee apareceu, a mochila pendurada nas costas, os cabelos curtos impecáveis como sempre. Ela parou na porta, os olhos encontrando os de Thalia com uma calma habitual.
— Demorei muito? — perguntou, ajustando a alça da mochila.
— Só vinte segundos — respondeu Thalia, dando um saltinho de animação.
—Vamos indo — disse Myung-hee, antes de virar o rosto para a figura silenciosa ainda na sala. — Avisa pro tio Sasaki que a Thalia vai almoçar aqui hoje depois da aula.
— Ebaaaaaa! — Thalia ergueu os braços, quase dançando no lugar. — Eu vou comer na casa da Myung!
— Vamos! — cortou Myung-hee, seca mas não ríspida. Ela lançou um último olhar para a pessoa. — A gente se vê ao meio-dia, Hiromi.
A cena mudou de perspectiva. Na porta, Hiromi emergiu das sombras da casa, uma figura transformada. Seus olhos, fundos e cercados por olheiras escuras, pareciam poços abissais, refletindo um cansaço que ia além do físico. O cabelo, antes preso em um rabo de cavalo firme, caía em mechas desgrenhadas, pontas soltas dançando ao redor de um rosto inexpressivo. Ela ficou ali, imóvel, observando as duas garotas se afastarem pela rua, suas silhuetas diminuindo na luz do dia. Lentamente, a porta se fechou em suas mãos, o clique do trinco ecoando como um suspiro final. Mas o ar ao seu redor parecia vivo, carregado de um silêncio opressivo. Das sombras atrás dela, um miado baixo e distorcido cortou o vazio, e por um instante, os contornos de uma figura pálida — talvez Ayaka, talvez algo pior — tremeluziram na penumbra. A casa engoliu Hiromi em sua quietude, uma prisão de paredes brancas que sussurravam segredos que ela não podia mais ignorar.
Fim do Capítulo
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