Por trás do olhar.

4 Quando eu vi... Tamanha adorabilidade e cretinice.


Notas iniciais
Espero que gostem :3

Quando acordou, a primeira coisa que Ayato sentiu foi a dor. Todo o seu corpo doía, parecia que tinha sido triturado, seu braço onde havia arrancado pedaços para alimentar a irmã e seu ombro mordido ainda não haviam se curado por completo, o corte no seu abdômen também não, na verdade pareciam ter começado a se curar agora, havia gastado muita energia, muito mais do que era seguro a sua sobrevivência e agora lidava com as consequências. Mas estava satisfeito com o que tinha realizado, sem contar que depois desse esforço, seu corpo estaria mais habituado, então estaria ainda mais forte numa próxima batalha.

Logo em seguida percebeu o cheiro. Estava em algum lugar que cheirava muito bem, o lugar que cheirava melhor em que já esteve em anos na verdade, e deitado em uma superfície bem macia, o que era um alívio porque até sua pele estava doendo. Mas que porra de lugar era aquele? Abriu os olhos quase tendo um susto quando topou com o rosto de Kaneki a centímetros do seu, o rosto pálido e o cabelo clarinho ainda sujos de poeira e sangue, pelo visto tinham caído ali do jeito que chegaram. Pensou em acordá-lo, mas estava morto de cansado, e também não conseguia dormir por causa da dor, então ficou só ali, olhando para cara do mais velho, afinal, estava tudo escuro, o máximo que conseguia enxergar com seus olhos cansados era aquela coisa branca.

Ficou lembrando da forma como lutaram, queria ter gravado aquilo. Não esperava realmente acabar com o Kamishiro, tinha que admitir pelo menos a si mesmo, mas terminaram matando o cara. Estava surpreso consigo mesmo também, nunca havia conseguido expandir tanto a própria kagune, e ainda mais cercar alguém e atirar ao mesmo tempo daquela forma, seria a causa a raiva que sentia, a carne de Kaneki, ou ambos? Falando no albino, lembrou-se da morte que o outro teve, sendo esmagado e perfurado pela kagune do meio-ghoul sem um pingo de piedade. Iria se lembrar de nunca de meter no caminho daquela coisa branca que de inofensivo só tinha a cara.

Voltou a reparar no rosto do outro, percebendo alguns detalhes como os traços delicados, quase infantis, para alguém que já tinha seus dezenove anos, os cílios longos como os de um menina deveriam ser, mesclados de fios brancos e pretos, parecendo serem cinzas, as sobrancelhas finas um tanto franzidas, será que estava tendo um sonho ruim? Observou por um tempo, mas ele nem se mexeu. Ok, talvez não fosse nada. Continuou observando-o, se surpreendendo por não se sentir entediado com isso, mas como dizer... Era uma daquelas visões agradáveis aos olhos, por isso não cansava. Teria passado mais tempo ali, até que foi acordado de seus pensamentos quanto um tremor violento percorreu o corpo do albino. É, era mesmo um pesadelo.

Com um certo esforço, ergueu um dos braços derrubando-o sobre o rosto do mais velho sem muito cuidado, havia sido quase um tapa na cara, mas era o que a sua mobilidade corporal permitia naquele momento. Como o esperado, Kaneki acordou em um pulo, quase caindo da cama. Até teria rido se não estivesse tão dolorido.

O mais velho olhou em volta como se procurasse algo, até que seus olhos preocupados focaram no Kirishima, que pode ver o alívio estampado neles quando o viu.

– Mas que cara é essa? — Indagou franzindo o cenho.

– Você está vivo. — Murmurou com um ar de incredulidade que fez Ayato entender com o que ele estava sonhando.

– Tô todo fodido, mas tô vivo. Vaso ruim não quebra. — Bufou emburrado, gostava de lutar, mas detestava essa "ressaca" que seu corpo sentia.

O que só piorou quando seu foi puxado bruscamente para um abraço apertado.

– Ai! Ai cacete! Seu filho da puta bastardo! Me solta porra! — Se debateu por um momento, parando quando seu braço acabado começou a sangrar mais.

– D-Desculpa! Eu... Só... O que diabos foi isso no seu braço?! — Quase gritou quando percebeu o estrago no antebraço no menor, onde a carne parecia ter sido arrancada, como ele estava aguentando aquilo?

– Não é da sua conta! — Resmungou lembrando-se da irmã. — E já vai sarar, é que eu perdi energia demais pra me curar. Por enquanto. — Tentou dar de ombros, mas acabou puxando o ferimento do abdômen, o que só o fez sentir mais dor. E fazer caretas de dor era doloroso. Tudo doía.

– Você precisa comer algo! — Se levantou indo até o armário, ai no meio do caminho se lembrou de que er... Não guardava nada de comestível para um ghoul ali, fora um monte de café. — Droga! — Resmungou voltando até a cama, se livrando da camisa no meio do caminho e estendendo o braço até o Kirishima que parecia meio distraído.

E de fato Ayato estava um pouco mais do que só "meio" distraído, mas iria guardar aquilo pra si mesmo. Se negava a admitir que estava reparando em como Kaneki não parecia nenhum pouco frágil ou infantil sem camisa. Como alguém tinha uma carinha tão enganosa?

– Vai, pode comer. — Insistiu o albino acordando o menor de seu transe momentâneo.

– Quê? Você é masoquista? — Indagou incrédulo. O que porra aquela criatura tinha na cabeça?

– Eu sei que parece nojento, mas... — Ia argumentar, mas foi interrompido.

– Não é nojento porra nenhuma, é ridículo mesmo. — Virou os olhos dramaticamente. — Você é o quê? O lanchinho da madrugada?

– Ayato você está sendo infantil. Não é como se eu pudesse ir lá fora caçar sem ficar suspeito. — Ditou Kaneki vendo o olhar do menor ferver. Tinha certeza que ele lhe acertaria um belo soco se estivesse em condições.

– Infantil?! Vai se foder seu idiota! — Exclamou o Kirishima desejando enfiar a cara do outro no chão. – Oh, me desculpe se eu não consigo ver meu parceiro como comida, “senhor adulto”. — Ironizou irritado. — Tá pensando o quê? Que eu fico planejando te dar uma dentada enquanto a gente conversa? Em um mundo com bilhões de humanos dando sopa?

Kaneki apenas sorriu tranquilamente. Um belo de um psicopata ardiloso na visão da Ayato. E sua visão estava certa, pois no segundo seguinte o albino mordeu o próprio braço e juntou seus lábios aos do menor, segurando sua mandíbula com uma das mãos e abrindo caminho com a língua, conseguindo o que queria com uma facilidade que chegava a dar raiva. Por algum motivo, aquelas atitudes vindas dele deixavam o azulado desnorteado e sem reação, como daquela vez na frente de Tatara. Ele estava simplesmente lhe passando carne, como ele mesmo fez com a irmã, mas porque aquilo mexia tanto consigo? Pode sentir com exatidão a mão firme no seu queixo, os lábios macios pressionados e encaixados nos seus, o gosto intenso e arrebatador do seu sangue tomando sua boca, a língua avançando na sua boca sem hesitação e a carne tentadora.

– Quem está de frescura pra comer agora? — Sussurrou contra os lábios de um Ayato faminto e agora irritado com sua provocação.

Movido pela raiva e por mais algo que não sabia dizer o que era, o Kirishima empurrou o maior contra o colchão, apoiando as mãos frias em seu peito morno e desnudo e afundando os dentes na porção de carne entre seu ombro e o pescoço, onde tinha mordido da ultima vez, arrancou um pedaço com brutalidade ouvindo o outro trincar os dentes e só pensou que era muito bem feito. Quem mandava ser tão masoquista?! Mordeu mais uma vez, mais fundo, sentindo o sangue escorrer pelo queixo e um calor descer pelo seu corpo, era bom... Muito bom na verdade. Mastigou devagar murmurando baixinho em aprovação, engolindo e então lambendo o local mordido longamente, sentindo aquele sangue quente, denso e delicioso escorrendo pela sua língua... Ficou preso nisso até o ferimento ir parando de sangrar, já começando a curar espantosamente rápido.

Se levantou encarando o rosto do mais velho, um pouco do sangue que escorria de seu queixo pingando no torax pálido fazendo um contraste de cor interessante.

– Pode continuar, já senti dores bem piores. — Sussurrou tentando parecer mais tranquilo do que realmente estava, porém era perceptível como respirava pesado.

– Eu sei. Eu ouvia. — Devolveu Ayato pra a surpresa do albino que definitivamente não esperava aquela resposta. — Dava pra ouvir toda aquela merda do meu quarto.

– Er... Mesmo? — Kaneki não sabia bem como reagir. Sentia-se extremamente envergonhado por algum motivo que não lhe era claro, sem contar que era a primeira pessoa que conhecia que sabia realmente o que tinha passado, como havia acabado assim como estava agora.

– Pode me odiar por não ter feito nada. — Falou sinceramente, lambendo o sangue dos lábios. A mente do mais velho processava inconscientemente o formato de seus lábios, o inferior levemente mais cheio de que o superior, fazendo um gracioso "beicinho" mal humorado. — Banjou chegou a me pedir ajuda, já que eu odiava o Jason, mas não quis me meter.

– Não guardo ressentimento por isso, eu era um desconhecido pra você... Na verdade, nem tinha pensado nessa questão antes. — Murmurou forçando sua mente ao dia que foi sequestrado na Anteiku. Só se lembrava de Ayato quebrando a janela e brigando com Touka, depois só o tinha visto outra vez brigando com ela de novo quando saiu do cativeiro. — Mas porque odiava ele? Não eram companheiros ou algo do tipo? — Realmente havia ficado curioso.

– Nem fodendo que eu seria companheiro daquele filho da puta asqueroso! — Exclamou saindo de cima do mais velho e deitando ao seu lado. — Só vou dizer uma palavra: Nojento. Putamerda, aquele cara me dava enjoo. E ainda tinha aquela coisa de barba e batom que andava com ele e ficava colocando ideia na cabeça daquele demente. — Rosnou irritado. — Ele começou a me seguir bem estranhamente no começo, era bem nojento, brigamos umas vezes e o Tatara se meteu, e acabou decidindo que um não se meteria nos negócios do outro e ponto. Teria até dado certo, até que aquele traveco descobriu que eu tinha uma irmã gêmea. — Rosnou mais uma vez, e Kaneki teve certeza que não seriam só algumas vezes que eles teriam brigado de não fosse o Tatara. — Mas por sorte minha, teve toda aquela merda da Rize, aquele demente sádico seguindo o Banjou que era meusubordinado, mesmo que imprestável, naquele dia eu mostrei pra ele que a Touka não aguenta porrada e ele encontrou você. Então eu deixei como estava. — Despejou de vez, Kaneki até estava surpreso de ver o outro falar tanto. Deveria detestar Jason.

– Eu entendo. — Comentou depois de um tempo.- Se eu soubesse que era entre mim e ela, teria indo de bom grado.

– Você ia de qualquer jeito, o Tatara mandou buscar. — Deu de ombros, sem sentir dor dessa vez. — Só não ia com o demente sádico de cérebro de ervilha. Nem eu aguentava as coisas que esse miserável fazia.

– E porque o Banjou-san te pediu ajuda? — Estava gostando de saber mais da história dos bastidores da Aogiri. Podia parece doentio, mas era um sentimento parecido com o de saber mais sobre Rize depois de ser quase devorado.

– Pra soltar você. — Suspirou. — Como eu falei, ele é bem imprestável. Poderia ter tirado você de lá quando Jason não estava, ele é meu subordinado afinal, se o demente o matasse estaria desobedecendo claramente o Tatara, mas... Ele estava apavorado demais pra fazer qualquer coisa. Todos estavam, eles tinha uns amiguinhos inúteis por lá também.- Falou com descaso, irritando o mais velho.

– Dá pra parar de falar neles como se fossem objetos? — Retrucou encarando seriamente o menor.

– Eles permitem ser tratados como se fossem. — Devolveu em um tom cortante. — Nesse mundo, os fracos acabam sempre virando capacho dos fortes, é um fato. Até entre os humanos, tem os que tem dinheiro, e os que não tem dinheiro.

– Não posso discordar na verdade, o mundo é cruel nesse sentido. Se não conseguir força, coisas serão tiradas de você. — Respirou fundo, se lembrando de quando mataram a mãe de Hinami, se ele fosse como é agora naquela época, quem sabe... — Mas isso não significa que eu tenha aceitar isso, ou concordar. Se todos apenas parassem de aceitar que o mundo é cruel, e começassem a mudar isso, as coisas não seriam assim.

– Porque todo mundo é bonzinho a esse ponto. Não acredito que ainda tem tanta esperança assim nas coisas. — Ayato riu ironicamente, virando os olhos em sinal de descrença.

– Eu costumava ter, mas acabei me tornando alguém egoísta. — Suspirou pesadamente, mirando as unhas enegrecidas.

– Ainda bem. — Comentou o Kirishima, voltando a falar quando viu o ar incrédulo do maior. — Olha, na primeira vez que eu te vi, você era uma coisinha que mal conseguia se impor diante de outra pessoa e cheirava a medo mais do que qualquer coisa. Você não era inútil porque era fraco fisicamente, e sim porque era fraco de temperamento mesmo, isso era completamente irritante. Tanto que quando Banjou veio me pedir ajuda eu só disse que se você quisesse sair, que saísse sozinho. E não é que saiu mesmo? – Ergueu as sobrancelhas em sinal de aprovação.

– Se eu tivesse um medidor de cretinice, ele tinha quebrado agora. — Resmungou Kaneki impressionado com a sinceridade cruel do azulado. — Que filho da mãe cretino.

– Olha quem fala, o cara do “cale a boca que eu estou falando" — Imitou a voz do mais velho, simulando um tapa olho com uma das mãos, recordando a primeira luta dos dois. Já tinham brigado tanto, se batido tanto, que não conseguiam mais se ressentir um do outro. — O fato é... — Retomou a discussão anterior. — Eu não quero ser nunca mais a criança estupida e fraca que eu era antes, e você? Voltaria a apanhar de todo mundo? — Provocou.

– Eu não sei...

– Porra cara, antes e eu duvido que você chegaria a três passos de mim sem tremer na base, e ontem você enfrentou aquela montanha do Kamishiro cara a cara. Isso sim é uma evolução. — Comentou fazendo o albino rir de lado.

– Eu não sou como você Ayato, eu gosto da tranquilidade, de não precisara lutar por tudo. — Respirou fundo. — Mas sendo sincero, mesmo morrendo de medo de mim mesmo hoje, eu não acho que eu voltaria a ser como antes, quando temia os outros. — Respondeu por fim.

– Uma hora você se acostuma com isso e para de pensar que vai matar todo mundo que gosta por acidente. — Ditou ganhando mais um olhar pasmo do maior naquela conversa. — Era com isso que estava sonhando antes, não é?

– Er... Era.

– Então pare de subestimar tudo mundo. — Devolveu seriamente. — Acha mesmo que todo mundo que você conhece iria facilmente ser morto por você? Tá se achando demais idiota.

– Só você mesmo... — Riu de canto bagunçando os cabelos escuros do outro.

– — -

Depois de um banho, uma xícara de café e algumas trocas de farpas, estavam os dois na lavanderia. Por sorte, suas roupas eram escuras e ninguém perceberia as manchas de sangue, então era só colocar por cima do lençol de cama ensanguentado e nem chamava atenção. Kaneki nunca lamentou tanto não ter um máquina de lavar em casa, desde que se tornou meio ghoul, as idas na lavanderia se tornaram cada vez mais emocionantes.

Ayato ainda não estava muito bem, seu corpo parecia já ter recuperado, mas ainda assim seu braço estava enfaixado e seu mau humor era típico de quando estava muito cansado ou com sono, mas ainda assim insistiu em ir junto.

O albino não comentou nada, mas o Kirishima parecia um daqueles “idols” que aparecia na TV quando não estava em seu modo "ghoul do mau e cretino". Mesmo suas roupas não tendo ficado folgadas nele (afinal Kaneki costumava ser bem magrinho e Ayato, mesmo tendo uma constituição física invejável, não tinha lá muito volume corporal), tinham ficado um pouco grandes por causa da altura, o que fazia o suéter cinzento cobrir suas mãos — e não era como se ele ligasse de ajeitar-, seu olhar não ostentava aquela agressividade habitual, mas sim apenas sono, inclusive ele bocejava várias vezes, se encolhendo e reclamando que estava frio, por causa dos cabelos úmidos do banho, que perdiam aquele ar arrepiado, e contornavam seu rosto de forma quase angelical. O mais velho podia não entender bem o que eram essas coisas de "fofo” e "kawaii” que as garotas usavam, mas se fosse definir algo como "adorável" decididamente colocaria uma foto de Ayato naquele momento bem em baixo do verbete no dicionário.

– Seus pais são de outra cidade? — Indagou o azulado quando o maior revelou que onde estavam era seu apartamento e que morava sozinho.

– Não, eles estão mortos. — Respondeu enquanto esperavam a roupa lavar e o menor quase cochilava em seu ombro. — Eu não cheguei a conhecer meu pai, e minha mãe morreu quando eu era bem novo. Fui morar com uma tia que me odiava porque achava que de alguma forma eu fazia o filho dela se sentir inferior. Então eu juntei dinheiro, comprei um apartamento e fiquei me mantendo auxiliando o professor de literatura clássica na faculdade.

– Cara, mesmo humano você só se fodia nessa vida. — Comentou distraidamente.

– Vá a merda Ayato. — Retrucou azedo.

– Nah, você não se fodeu sozinho. — Deu de ombros. — Ao contrário de você, quem eu não conheci foi minha mãe, mas basicamente ela era o marido e meu pai a esposa dedicada. – Riu amargamente. — Ele também morreu quando eu e a Touka éramos bem pequenos, o plano era se esconder em casa, mas os vizinhos nos entregaram, aí fomos viver na rua mesmo, passamos quase um mês de fome até eu matar aquele cara que tentou abusar da minha irmã, depois dai a preocupação deixou de ser só a fome, e ficou entre a CCG, os ghouls canibais, os territorialistas que iam nos matar, e os sadistas filhos da puta. Depois de quase sermos mortos, devorados, espancados e mais um monte de coisas, minha irmã vira uma babona dos humanos que foderam a gente. — Bocejou longamente. — Sua vez de reclamar dessa merda.

– A primeira garota que eu tive um encontro tentou me devorar, morreu na minha frente, virei um ghoul por causa dela, tive alucinações com ela por um tempo, o Kamishiro me deu uma surra porque reconheceu o cheiro dela em mim, e eu não consigo odiá-la. — Despejou vendo o outro ficar surpreso com a afirmação final. — Sua vez.

– Eu odeio insetos. – Ditou.

– Eu me recordo de você demolindo o quarto pra matar uma barata. Isso não é ódio, é fobia mesmo. — Ditou o albino tentando não rir ao lembrar da cena.

– Imagine morar num barraco, em algum beco. Cheio de baratas. — Comentou fazendo careta só de lembrar. O cômico para o albino era que o único ponto negativo daquela situação para ele parecia ser as baratas, como se viver na rua em condições precárias tivesse um peso insignificante.

– Que merda.

– Você nem imagina, vai por mim. — Franziu os lábios. — Foi pior do que ser quase devorado uma vez. Eu capotei como costuma acontecer ás vezes e acordei com pedaços faltando e um infeliz em cima de mim. — Resmungou e foi a vez de Kaneki ficar impressionado. Imaginava que a rua não era lugar para crianças, mas tinha esquecido que colocar todas as possibilidades possíveis de quando se era uma criança ghoul.

– Como saiu dessa? — Indagou horrorizado.

– A Touka me ajudou a fugir. Na época ela ainda era minha irmã. — Respondeu um tanto amargurado e daquela vez o maior decidiu não insistir naquele assunto, estavam num local público afinal, e suas discussões raramente terminavam bem.

– Eu vou... Tirar a roupa da secadora. — Avisou para que Ayato tirasse a cabeça do seu ombro antes de se levantar.

O Kirishima permaneceu sentado — sentia-se exausto — colocando os pés em cima da cadeira e apoiando a testa nos joelhos, tentando achar uma posição confortável para tirar um cochilo. Ficou observando Kaneki pela brecha entre os braços e rindo internamente de como ele era uma pessoa lenta. Não sabia se ele próprio era muito apressado, ou era o albino que parecia se mover em câmera lenta quando fazia algo que não fosse brigar.

Suspirou cansadamente fechando os olhos, não estava com muita fome, na verdade, ainda sentia o gosto bom da carne do outro na sua língua, mas aquele monte de humanos o provocava. A lavanderia estava consideravelmente vazia, então cada cheiro chegava ao seu nariz independentemente, e ficar pensando muito nisso lhe dava vontade de abrir a garganta de alguém ali e fazer um lanchinho. Só não era idiota de fazer algo assim tão as claras e estando sem mascara.

Até pensou que iria mesmo cochilar quando um cheiro mais forte que os outros entrou naquele espaço, seja lá quem fosse tinha algum ferimento exposto, já que o cheiro de sangue seco era bem perceptível. Olhou para a lesma de cabelo branco que ainda estava dobrando alguma coisa e quis enfiá-lo na maquina de lavar. Queria ir logo embora dali.

– Eeeei, belezinha... — Ouviu alguém dizer do seu lado e rodou os olhos. Tinha até pena da mulher que estivesse ouvindo aquele babaca.

– Machucou o bracinho quando caiu do céu, foi? — A voz continuou e foi então que Ayato teve um estalo ao lembrar do seu curativo no braço.

Levantou a cabeça vendo um cara de cabelo loiro mal pintado, uns arranhões no rosto e cheiro de cigarro de frente para si, mas contraditoriamente a tudo aquilo usava um terno bem arrumado.

"Tá de brincadeira comigo..."

– Você quer morrer seu pedaço de lixo? — Estava tão cansado que nem conseguia ficar realmente bravo. Na verdade, estava pensando em jantá-lo, ele até tinha um cheiro que chamava a atenção.

– Oh, um belo rosto e um temperamento forte, eu conheço um lugar que te pagaria muito bem. — Falava com um sorriso lascivo que fez o sangue do Kirishima esquentar. Ia pintar aquele lugar inteiro com o sangue daquele infeliz. – Não gostaria de me acompanhar...

"EU VOU TRUCIDAR ESSE..."

Foi apenas o tempo de Ayato lançar um soco muito merecido na cara daquele miserável, que foi puxado para trás antes que pudesse acertá-lo, sendo preso por um abraço esmagador.

– Para onde? — Ouviu a voz baixa de Kaneki logo acima da sua cabeça, e sinceramente, ele só podia estar enlouquecendo.

O sorriso do loiro pareceu dobrar de tamanho.

– Ah, por favor, me acompanhem. — O homem parecia até mesmo um tanto surpreso com seu próprio sucesso, afinal, não era sempre que se encontrava dois garotos que lhe dariam muito dinheiro interessados da sua proposta.

O albino passou o braço quase possessivamente em volta do azulado que ainda estava querendo matar os dois, e acompanhou o desconhecido. Ayato decidiu parar de se debater e observar onde aquilo ia dar, era inútil de qualquer jeito, sabia que não se soltaria do mais velho.

Não andaram muito, a lavanderia era em uma zona pouco movimentada do distrito (não era a toa que Kaneki a frequentava), e logo que passaram pela frente de um prédio de aparência abandonada o homem de terno voou quase que magicamente para dentro do edifício com um golpe rápido e eficiente da kagune do albino. Bateu violentamente contra uma parede, caindo no chão já agonizando.

– Você não estava com fome? — Soltou o menor de seus braços se divertindo com o seu rostinho surpreso. Tinha certeza que ele não esperava que fosse fazer aquilo.

– Eu posso caçar minha própria comida. — Devolveu um tanto emburrado. Sentia-se um pouco idiota por não ter entendido de imediato as intenções do outro, e ao mesmo tempo um tanto estranho com esse ar protetor que o mais velho sempre tinha consigo.

– Eu sei. — Respondeu afastando alguns fios bagunçados do rosto do menor, fazendo um carinho leve na sua bochecha. — Mas me deixar cuidar um pouquinho de você não vai te matar. — Sussurrou com um sorriso de lado e um brilho estranho naqueles olhos cinzentos que fazia o rosto do mais novo formigar involuntariamente.

Sem saber como reagir aquilo, Ayato apenas afastou a mão de seu rosto com um tapa sem força, indo na direção do homem que dava seus últimos suspiros. Ainda iria comê-lo fresquinho.

– Você devia comer também. – Sugeriu lembrando quanto tempo fazia desde que vira o outro se alimentar devidamente.

– Não vou sujar a roupa que acabei de lavar. – Respondeu como se o azulado tivesse dito algum absurdo, se encostando a parede preguiçosamente.

– Tsc. Fresco. – Resmungou antes de voltar ao corpo e saciar sua fome sob o olhar sereno do albino.

Notas finais
(*) Ayato realmente não vai com a cara do Jason, percebi isso revendo o episódio do anime mesmo, a cara de enjoo dele para o outro fica bem óbvio. Hooy, espero que tenham gostado. As coisas estão desenrolando ainda nesse cap, mas no próximo vai acontecer uma visita inesperada *o* Ah, que cena mais gostaram? Eu adorei escrever o Ayato montado no Kaneki com o sangue escorrendo pelo queixo, essa coisa de "devorar" em Tokyo Ghoul na minha cabeça me parece tão involuntariamente erótica. Ah, até breve. O próximo já está pronto.