Por trás do olhar.

5 Quando eu... Quem você é.


Notas iniciais
Fiquei tão animada que mais gente apareceu aqui na história. Muito obrigada, de coração, tô mais animada com o nyah ultimamente.

Definitivamente Kaneki não deveria tê-lo feito comer. Era muito mais fácil lidar com um Ayato letárgico, exausto e sonolento do que um com completamente acordado, revoltado e teimoso. Recriminou-se por no passado julgar o temperamento de Touka difícil, comparada ao irmão, ela era um anjo.

Já tinham discutido, brigado, quase partido para agressão e agora voltaram a discutir.

– Eu não perguntei se você iria. — Resmungou o albino já perdendo a paciência. — Não vou suportar mais nenhum segundo dessa estupidez. — Tentava inutilmente arrastar um Kirishima teimoso pela calçada.

– E desde quando você manda em mim? — Puxou o braço violentamente, trazendo o mais velho junto uma vez que ele não o soltava.

– Putamerda Ayato, ela teve o peito aberto no meio daquela luta! — Protestou. — Vai me dizer que não está preocupado? Você estava lá! Você viu o que aquele miserável fez a ela. — Continuou estalando os dedos nervosamente.

– Ela vai ficar bem. — Devolveu o azulado encarando o chão.

– Como diabos pode dizer isso? — Kaneki não acreditava no que estava ouvindo.

– Dizendo, oras. Pare de surtar com uma maldita colegial. — Resmungou arrancando a bandagem do braço uma vez que o ferimento já estava quase que completamente curado.

Não era possível que o Kirishima não estivesse preocupado com a irmã, e foi pensando nisso que a mente do albino foi juntando as peças.

– Ayato... O que exatamente foi isso no seu braço? — Indagou calmamente, se aproximando passo a passo, um olhar penetrante que fez o menor recuar um passo por puro reflexo.

– Eu já disse que não é da sua conta. — Rosnou irritado. Pequenas veias escuras se formando em volta dos seus olhos, um sinal claro de ameaça.

– Quase não tinha carne ai quando eu vi hoje de manhã. E Eu não vi ninguém te mordendo e tenho certeza de que você não permitiria. — Avançou outro passo, encurralando-o contra a parede. — Você alimentou a Touka-chan, não foi? — Indagou em um tom de voz baixo, apoiando os braços na parede atrás do azulado, deixando-o sem saída.

– Eu não sou masoquista igual a você. — Devolveu ácido e o mais velho apenas sorriu de lado. Sabia que Ayato jamais admitiria ter feito nada por ninguém, mesmo que estivesse disposto a fazer muita coisa.

– Não é masoquismo. — Respondeu sereno, tocando suavemente o cabelo escuro do menor com uma das mãos. Gostava de tocá-lo, podia perceber como ia se tornando menos arredio na medida em que ficavam mais próximos. — É apenas proteger quem amamos. — Completou vendo o menor desviar o olhar. Sabia o que deixava implícito naquela frase em relação aos dois, mas o mais novo não poderia ser idiota a ponto de não notar a importância que tinha para Kaneki.

– Tsc. — Bufou mal humorado, porém mais calmo. Realmente como um gato abaixando novamente os pelos arrepiados na mente do albino. — Eu não vou vê-la. — Ditou voltando a discussão inicial, fazendo o mais velho suspirar cansadamente.

– Ela é a sua família. Deveriam ficar juntos pelo menos nesse momento. — Argumentou continuando a brincar com o cabelo do menor, que aos poucos parecia mais chateado do que prestes a voar no pescoço de alguém.

– Como se ela fosse me querer lá. — Rolou os olhos como se o outro tivesse contado uma piada estúpida.

– Quem impôs essa distância foi você. — Insistiu o maior. O cinza mergulhando fundo nos azuis cor de noite, via tanta coisa ali, uma mistura de tantas coisas que quase se tornavam uma nova.

– Não me arrependo. — Devolveu. — Foi melhor assim.

– Ela te ama Ayato. E sente sua falta. — Sussurrou quase encostando sua testa na do mais novo. Não o deixando escapar do seu olhar. — Por mais amigos que tenha, dá pra ver que ela se sente sozinha sem...

– Puta que pariu, só cala a porcaria dessa boca! — Rosnou o Kirishima batendo com força no peito do mais velho que não se afastou.

– Vamos? — Ficou ainda mais próximo, vendo o menor desconcertar a fala.

– N-Não vai fazer diferença nenhuma eu ir ou não. — Respondeu o azulado nervosamente, percebendo que uma das mãos do maior segurava seu rosto delicadamente, o impedindo de desviar o olhar e ao mesmo tempo acarinhando seu cabelo. Não estava acostumado com aquilo.

– Vai fazer toda a diferença. — Contestou o albino, tão perto que Ayato podia ver as várias cores que formavam suas íris, o que fazia as batidas em seu peito mais pesadas.

– Se você diz... — Suspirou derrotado por fim, vendo um sorriso terno no rosto quase doentiamente pálido. Gostava daquele sorriso que parecia real, tinha um certo encanto que o fazia nem se importar em ter perdido a discussão.

– Não vai se arrepender. — Ditou por fim, deixando um roçar de lábios carinhoso na bochecha avermelhada do menor e puxando-o pela jaqueta na direção do café.

Quando o albino se afastou, foi como se o ar dos pulmões do Kirishima tivesse sido levado junto e finalmente podia inspirar uma nova leva de oxigênio que não estivesse viciada com aquele cheiro que nublava seus pensamentos.

– — -

Apenas Nishiki tomava conta do café naquela tarde, que, por sorte, não estava muito movimentado. Irimi aparecia vez ou outra para verificar quem vinha, havia se machucado gravemente protegendo Touka e estava de descanso por ali uns dias, embora o ghoul de óculos duvidava muito que desse pra chamar um estado de nervoso onde se anda de um lado para outro de descanso.

– Para quieta mulher, tá me dando agonia. — Reclamou limpando uma xícara, vendo a morena se sentar em um dos banquinhos do balcão.

– Eu estou preocupada com a Touka-chan. — Suspirou cansada.

– Não há nada que possamos fazer por enquanto, mas acredite, ela vai ficar bem. Daqui a pouco tá por aqui gritando que nem uma louca de novo. — Sorriu de canto, fazendo a morena sorrir de leve, um pouco menos tensa.

A conversa foi interrompida com o som do sininho da porta, e dessa vez não anunciava a entrada de nenhum cliente.

– Boa tarde. — Uma voz rouca e calma tomou o recinto arrancando expressões surpresas dos dois presentes.

– Sejam bem vin... — Começou Irimi, sendo interrompida logo em seguida.

– Kaneki, que merda é essa? O que esse filho da puta tá fazendo aqui? — Nishio foi para a frente do balcão encarando Ayato como se fossem começar a lutar no segundo seguinte.

– Eu te disse que ia dar merda. — O Kirishima suspirou virando os olhos. Não era como se o outro fosse alguma ameaça para si a ponto de se estressar.

– Nishio-san, não se meta, por favor. — Kaneki interviu calmamente.

– Não me meter? Eu vou te dizer uma coisa. Eu tive uma irmã, e eu nunca, jamais, faria nenhum mal a ela. Agora ela morreu por causa de um miserável e eu só tenho suas lembranças. — Avançou mais uns passos, parando quando foi barrado por Kaneki que, mesmo sendo mais baixo, parecia muito mais intimidador. — E ver um bastardinho miserável como você que tem a sorte de ainda tê-la viva fazendo toda essa merda, só me dá vontade que quebrar seus ossos. — Quase rosnava de ódio, mas não se atrevia a avançar com o meio-ghoul na sua frente.

– Você é tão patético que me dá pena. — Ayato deu de ombros com um risinho cínico.

– Calem a boca! — O albino se exaltou como raríssimas vezes fazia. E tanto Nishiki como Ayato sabiam por experiência que irritá-lo nunca terminava bem. — Nós viemos em paz Nishio-san, espero sinceramente não ter que lutar com você outra vez. — Falou na sua calma habitual, mas só um cego não veria a ameaça ali. Por mais que não guardassem ressentimentos, o mais velho lembrava bem de quando tentou devorar Hide e por pouco não virou uma peneira, portanto apenas voltou a ficar emburrado atrás do balcão.

– Ninguém vai precisar lutar com ninguém. — A voz calma e forte de Yoshimura tomou o recinto. — Você sempre será um companheiro nosso Kaneki-kun, e você também Ayato-kun, desde que venha em paz. — Outra ameaça implícita, mas tão branda que não chegou a pesar o clima da conversa. — Na verdade Ayato-kun, eu já ia pedir para Yomo-kun procurá-lo.

– O que ela tem? — O Kirishima sabia que tinha a ver com a sua irmã. Afinal, por que mais o procurariam?

– Sugiro que suba. — Suspirou o idoso, como se lembrando de algo ruim. — Ela mora no quarto que costumava ser o seu. — Completou com um olhar cheio de significados.

– Entendo. — Avançou dentro do prédio sem olhar para trás. O ar sério em nada lembrava o ser irônico e agressivo de segundo atrás. Como nos tempos da Aogiri, Kaneki apenas o seguiu como uma sombra silenciosa.

Rapidamente chegaram ao quarto e de fora já se podia ouvir uns suspiros um tanto altos, sem hesitar, Ayato abriu a porta, e foi até a cama onde a irmã parecia delirar de febre.

– Uma palavra sobre isso, e eu te mato. — Ditou quando viu o albino entrar atrás de si e fechar a porta.

Por um segundo, Kaneki quis voltar de onde veio, mas se conteve. Nunca tinha visto Touka tão mal assim. Haviam bandagens um tanto ensanguentadas cobrindo seu peito, as veias escuras em volta de seus olhos bem acentuadas, por cima das olheiras marcadas na sua pele excessivamente pálida e suada. Mesmo de longe, podia quase sentir a dificuldade com que a garota respirava.

– Aneki? — Ayato sussurrou pertinho da irmã, tirando a jaqueta e arregaçando as mangas, sentindo primeiro sua temperatura, depois verificando as bandagens, o que fez o albino desviar o olhar por uma questão de respeito.

– P-Pai...? — Sussurrou ela com uma voz tão fraca que mal dava pra reconhecer.

– Sim, voltei Touka-chan. — Sussurrou com um tom de voz doce e amável que pegou Kaneki completamente de surpresa, jamais imaginaria nem mesmo que Ayato conseguiria imitar um tom parecido com esse, quem dirá reproduzi-lo com tanta perfeição.

– O Ayato... Ele... — Tentou falar levantando uma das mãos na direção do irmão, que a segurou, beijando sua palma carinhosamente.

– Ele ficou bem. — Suspirou fechando os olhos. — Afinal, você é forte como a sua mãe. — Afastou o cabelo que cobria uma parte de seu rosto, fazendo um carinho delicado no rosto bonito.

– Eh...? Ainda bem. — Sorriu bem fraca, deixando uma lágrima cair distraidamente. — Fiquei... Urgh... P-Preo...cupada.

O albino apenas assistia a tudo com um aperto no peito. Por um segundo, quis voltar e espancar Nishio pelas palavras grosseiras. Ele não sabia do que estava falando. O próprio Kaneki não sabia de nada! Mas algumas coisas finalmente se encaixavam, como ele ter o numero do Yomo-san e Yoshimura não estranhar sua presença.

Sempre que Touka estava muito mal, ela sentia falta do pai. E quem estava sempre lá era justamente...

– Touka-chan, você precisa comer. — Sua voz era tão suave que parecia uma outra pessoa. Não, era outra pessoa. Ayato era um espelho perfeito do próprio pai quando necessário.

– Não... Dói... — Murmurou baixo, um pouco mais de sangue sujando as bandagens.

– Mas isso é justamente para parar de doer. — Falou no mesmo tom suave, pegando o pedaço de carne que estava no criado mudo, provavelmente ninguém tinha conseguindo fazê-la comer por estar muito nervosa.

– N-Não... Doi m-mu... Urgh... — Tentou se mexer, mas o ferimento a fazia tremer de dor a cada movimento.

– Por favor, faz um esforço. — Continuou acariciando seu rosto, a acalmando. — Podemos até ter aquele cachorro, se lembra? Vamos, bem devagar. — Falou carinhosamente, e por fim conseguiu fazê-la comer um pedaço mínimo. E assim continuou. Era agonizante de ver o sofrimento dela acada movimento pra engolir.

Se Kaneki sofria assistindo, mal podia imaginar como era para o menor. No fundo estava errado, não era Touka quem mais sofria sozinha todo esse tempo com a distância do irmão, mas Ayato. Ele não tinha amigos a quem se apoiar, e seu único contato com a irmã era quando fingia ser o próprio pai — por quem sentia imensa mágoa- para que ela não se sentisse só, quando ele mesmo sentia falta do pai todos os dias.

Era doloroso ver, imagine sentir.

Saiu do quarto quase uma hora depois, quando Ayato, com uma paciência impressionante, conseguiu fazê-la comer algumas porções e agora ia mudar as bandagens do ferimento que começaria a cicatrizar em breve. Por mais que não quisesse deixar o outro sozinho, não poderia ficar lá enquanto a Touka trocava de roupa, apanharia mesmo se fosse cego.

Depois de alguns minutos onde o albino ficou andando nervosamente pelo corredor, a porta do quarto se abriu e o Kirishima saiu com um ar cansado e abatido, algo realmente raro naquele ser tão altivo e sarcástico.

– Ayato... — Tentou se aproximar, mas o outro se afastou.

– Eu disse: Nenhuma palavra sobre isso. — Lembrou o azulado, porém, seu olhar ameaçador não surtia efeito no mais velho.

– Bem, eu não estou dizendo nada. — Ergueu os braços em sinal de rendição. — Mas... — Tocou o braço do mais novo, subindo até seu ombro e o puxando para um abraço. — Eu posso esquecer o que você me disser outra vez, se quiser. — Sussurrou abraçando-o forte, e como daquela vez, há meses atrás, ao invés de empurrá-lo, o menor o segurou mais forte, enfiando o rosto na sua nuca.

– Porque merda é sempre você que está por perto nessas horas? — Resmungou com a voz fraca. Kaneki sabia que a carga emocional estava excessiva uma segunda vez, e sabia que Ayato jamais se mostraria fraco ali, bem na sede da Anteiku e tão perto da irmã.

– Shakespeare diria que foi uma armação do destino. — Sussurrou com um sorriso leve, acariciando os cabelos escuros.

– Manda esse cara ir se foder. — Reclamou baixinho, seus dedos apertando o maior com força, como se nunca fosse soltá-lo. — E-Eu... O odeio. — Murmurou mudando de assunto, se referindo ao próprio pai. — Odeio por ter fingido ser um humano idiota, por ter nos criado assim, por ter nos deixado, por ter deixado ela assim... Aquele miserável. — Dor era tudo que escapava pelas suas palavras, uma mágoa profunda que só vinha sendo alimentada todos esses anos. — M-Mas eu sinto falta. — Seu corpo tremeu um pouco. — Eu queria tê-lo de volta um pouco também. — Fungou baixinho. — Que idiota, não?

– Não. Não é idiota. — Beijou carinhosamente a cabeça do menor. — Você tem sentimentos apenas, e eles nem sempre tem que fazer sentido. E isso se chama saudade. — Apertou seu abraço, como se quisesse colar os pedacinhos do mais novo todos juntos de novo.

– Dói pra caralho essa merda. — Respirou fundo, se acalmando.

– Ayato...

– Hm?

– Eu quero estar do seu lado em mais momentos como esse. — Se afastou minimamente, apenas para mirar aqueles olhos azulados, encontrando-os com um brilho suspeito.

– Você é idiota? — Indagou o menor erguendo uma sobrancelha.

Kaneki apenas sorriu discretamente, deixando um beijo leve na mandíbula do mais novo, vendo sua pele esquentar suavemente.

– E tem que ser idiota para querer ficar com você? — Retrucou erguendo uma sobrancelha também.

– Depende, no seu caso eu acho que é de nascença mesmo... — Devolveu irônico o que fez o maior feliz, ironia era quase um estado de saúde emocional quando se tratava do Kirishima.

– Eu não quero que fique sozinho. — Sussurrou o albino ainda sentindo seu peito apertando com o que viu.

– O sujo falando do mal lavado. — Virou os olhos azuis como safiras escuras. — Se teve uma coisa que eu não fiquei desde que te conheci, foi sozinho. Já parou pra pensar nisso? — Indagou vendo a surpresa nos olhos cinzas. — Não faça promessas que você já está cumprindo, seu retardado. — Concluiu deixando a testa repousar contra o ombro de Kaneki, havia se acostumado tanto com o cheiro e a presença do mais velho que estranhava quando não estavam juntos.

– Ayato-kun... — Uma voz retirou os dois do momento, fazendo-o virar para encontrar a figura sempre serena e sorridente de Yoshimura, mas sem se soltarem por completo.

– Ela está melhor. E comeu. — Respondeu o Kirishima batendo o pé nervosamente, queria ir embora dali.

– Eu lembro de quando vocês eram mais novos e estavam perdidos. Não sei se foi a melhor escolha tê-los chamado, e eu realmente só queria ajudar. E sinto muito se foi a causa da ruptura entre vocês dois... — Suspirou pesadamente. De fato ele sentia, tinha um carinho por todos que pertencem ou já pertenceram a Anteiku como seus filhos. — E sinto mais uma vez se essa proposta lhe ofender, mas, Ayato-kun, não gostaria de voltar a Anteiku? — Perguntou o senhor cuidadosamente. Afinal, qualquer pessoa que já conviveu por mais que algumas horas com o Kirishima mais novo, sabia como ele ficava quando irritado.

– Como é? — Indagou, seus olhos brilhando em vermelho vivo.

– Eu entendo plenamente seus motivos. Porém, eu sei que vocês não podem voltar a Aogiri depois da morte do Kamishiro-san, então se pudesse aceitar...

– Entender? — Interrompeu Ayato, seu tom tão puto de raiva que a sala parecia pequena demais de uma hora para outra. — Entender? Você não entende porra nenhuma! — Estourou, e Kaneki teve a certeza de algo ruim viria daquilo. — Eu não vou cair nessa historinha estupida de "paz". Paz uma porra, vocês se escondem como ratos! Apavorados nas suas fantasias de humanos com medo de serem descobertos. Vão. Se. ferrar. – Era possível ouvir o som das suas costas trincando, sua kagune lutando para ser libertada. — Eu odeio aqueles vermes, todos eles! Nos taxam de assassinos quando estão simplesmente jogando toda a culpa nas nossas costas e nos matando por puro prazer, bastardos miseráveis. — Rosnou quase como um animal irado encurralado. — Acha mesmo que eu aceitaria alguma espécie de paz? Foda-se qualquer merda de paz! Eu vou matar quantos filhos da puta de maleta passarem na minha frente, e mesmo sendo acusado de traidor pela Aogiri, e eu ainda vou destruir a CCG, NEM QUE EU MORRA! — Saiu pisando duro, exalando ódio pelos poros, e Kaneki já sentia a desgraça se aproximando.

Sem demora, começou a seguir Ayato, mas quando saiu da cafeteria já o tinha perdido de vista. E seria terrível segui-lo por ruas movimentadas, ainda mais quando o próprio não parecia querer ser seguido. Depois de correr um pouco, percebeu que de nada adiantaria e se desviou para um beco pouco movimentado, escalando o prédio discretamente e resolvendo procurar o “fugitivo” por cima.

Depois de avançar uma distancia surpreendentemente longa, o encontrou no meio de uma luta com um investigador conhecido, que parecia proteger uma mulher loira bem ferida atrás de si. Já podia adivinhar que Ayato a encontrou e descontou toda a sua raiva em cima da mulher que não deveria estar preparada para uma luta daquela dimensão assim tão do absoluto nada.

Sem pensar muito, Kaneki se jogou no meio da luta, prendendo um Ayato quase fora de si com a sua kagune e barrando o golpe do investigador com a outra. Virou-se para o investigador percebendo um brilho de reconhecimento no seu olhar.

– Tapa-olho? — A voz grossa e firme o chamou pela alcunha fazendo-o se lembrar da noite na prisão ghoul, Cochlea, quando o trouxe de volta a razão.

– Sua amiga está muito ferida e há mais alguém escondido nesse beco. — Farejou o ar curioso. Ignorando completamente os gritos ensandecidos de Ayato que era quase sufocado pela sua Rinkaku. O albino usava dois tentáculos para prender o Kirishima, um para desviar as farpas que lançava e outro mantinha a quinque imobilizada.

– Não posso ir embora e permitir que ele viva. — Firmou a outra mão na quinque, tentando soltá-la, mas o controle de Kaneki sobre sua própria arma era muito superior.

– Você prefere deixar duas pessoas morrerem e se vingar, ou salvá-las? — Indagou o albino tendo dificuldades para se manter. — O que você é, um protetor ou um assassino? — Ditou vendo o olhar daquele homem enorme vacilar.

– Você é Kaneki Ken? — Indagou se lembrando dos papeis de pessoas desaparecidas que vinha investigando.

– É rude não se apresentar primeiro. — Retrucou sentindo uma rajada de penas o acertar em parte. Ah, aquilo doía. Bastante.

– Amon. Amon Koutarou. — Respondeu abaixando a quinque, de certa forma parecia não acreditar que finalmente estava interagindo com aquele ghoul.

– Kaneki. Ken Kaneki. — Deu um sorriso meio dolorido com os golpes que suportava de Ayato.

– Você é parente da coruja de um olho só? — Indagou tentando ser o mais técnico possível. Poderia conseguir informações, quantos ghouls de um olho haviam realmente? Seus superiores estavam certos em esperar uma segunda coruja?

– Não, nem sei quem é. — Mentiu descaradamente. — Procure o Doutor Kanou, e vai entender. — Segurou mais um golpe forte e percebeu um de seus tentáculos quase desfazendo. — Eu fugiria se fosse você. Não vou deixar a pessoa escondida se ferir.

Trocaram um longo olhar por um momento. Um avaliando o outro e julgando confiável de uma forma que apenas eles sabiam julgar, até que Amon pegou Akira e correu vendo que em breve outra luta inesperada se iniciaria ali.

Com o tempo apenas de fazer um escudo para seja lá quem estivesse do outro lado do beco, Kaneki libertou um Ayato completamente furioso, recebendo seus golpes de uma bolada só, mas não se moveu. Não iria começar uma luta. Não mais.

– Como você pode deixar aquele miserável fugir? — Um soco forte veio no rosto do albino que nem mesmo desviou.- COMO PODE? Eu confiei em você bastardo! — Um golpe mais forte que foi difícil segurar. — Seu desgraçado, filho da... — Uma sessão de xingamentos teria começado se não tivesse sido interrompido por uma mão na sua boca.

– Sh... Não chame tanto palavrão na frente de uma garotinha. — Falou em um tom calmo, mesmo com o nariz e o lábio sangrando.

E foi então que Ayato percebeu que Kaneki não usava a kagune por estar bloqueando todo o espaço atrás de si, e quando esse bloqueio se abriu viu uma garotinha chorando assustada. Deveria ter se escondido quando o viu atacar a investigadora e ficado ali quando outro apareceu sabe-se lá de onde.

– Pode ir pequena. — Falou o albino como se não tivesse quatro tentáculos gigantes saindo das costas e a kakugan em um dos olhos.

Mas para a total surpresa de Ayato, foi assim que a menina agiu.

– F-F-Fique bem moço! — Saiu andando devagar do beco, como se certificando que o outro estava bem, antes de ir embora.

– Vá com cuidado. — Respondeu com um ar simpático que irritava o Kirishima mais que tudo.

– Você prefere eles, não é? — Indagou o azulado. Sua kagune se movia como asas de fogo acima de seus ombros, decorando o cenário mórbido daquele beco.

– Não. — Deu de ombros. — Alguém bem teimoso me ensinou que eu sou um fodendo ghoul, e devo me orgulhar. — Sorriu de lado, levando a mão até o menor que a afastou com um tapa forte.

– E porque o deixou fugir? — O tom de acusação era evidente.

– Eu não vou me colocar no seu caminho. Quando a Touka-chan os atacou eu também não impedi, porém... — Se aproximou rapidamente devolvendo um belo soco que fez Ayato tropeçar para trás. — Tenha o mínimo de senso e enfrente-os quando estiver em condições! E não lutando como uma besta estúpida, quer morrer, imbecil? — Se exaltou perdendo realmente as estribeiras, presando Ayato na parede com força o suficiente para o atordoar e ao mesmo tempo verificando cada ferimento em seu corpo. — Um momento de azar e eu teria perdido você também. — Terminou por fim, um tanto ofegante por ter gritado.

Ayato sentia-se como se tivessem lhe derramado um balde de gelo. Em um momento queria colocar toda a sua raiva pra fora em quem quer que fosse, depois se viu em uma luta complicada em que não conseguia raciocinar como devia para acabar com o oponente, agora começava a perceber a besteira que fez, mas não por ter algum problema em se ferir, e sim pelo olhar angustiado naquelas duas orbes de prata derretida que faziam seu coração descompassar.

– Você não vai me perder idiota. Não sou fraco assim. — Resmungou tentando tirar aquele olhar de preocupação do rosto do maior.

– Mas seu ódio é mais forte que você. — Tocou o rosto do menor sem ser repelido dessa vez. — Eu tenho medo que um dia isso ainda te mate. — Deslizou a mão pelo rosto sujo de sangue e antes que o soltasse, o Kirishima segurou sua mão.

Não sabia exatamente porque, só sentia que precisava fazer alguma coisa. Se o perguntassem, não saberia descrever a razão, mas aquele olhar desolado o agoniava de certa forma. E foi assim, impulsivo como sempre fora, que simplesmente se lançou a frente, tocando seus lábios nos do albino, sentindo suas próprias emoções acumuladas se remexerem confusamente.

Poucos segundos depois, encerrou o toque, mas ainda se mantendo perto o suficiente para suas respirações se misturarem.

– Aqueles miseráveis tiraram quase tudo de mim, eu não vou deixar que façam isso com a gente. — Falou decidido. Fazendo um arrepio correr pela nuca de Kaneki que não conseguia reagir, e nem se desviar daqueles olhos.

Seus rostos se aproximavam uma segunda vez, algo involuntário e impulsivo... Quando foram interrompidos por uma vozinha infantil.

– Pai olha lá o moço! Ajuda ele! — A garotinha que o albino tinha salvo momento atrás gritava puxando um homem de terno desesperadamente.

– Por deus Akemi! — Reclamou exasperado. — Não tem nenhum ghoul aí, são só dois delinquentes matando aula. — Deu um toque carinhoso na cabeça da menina. — Você tem que parar de ver tanta televisão. — Voltou de onde veio deixando a menina aflita.

Vendo a agonia da pequena, Kaneki apenas piscou um dos olhos, logo sumindo dali por cima dos prédios junto a Ayato.

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Notas finais
Hey, e então, o que acharam? Eu adoro escrever o Kaneki perdendo a paciência, e o Ayato puto, e os dois se enroscando... *u* Ah, qual cena vocês mais gostaram? Queria agradecer mais uma vez a todos que comentaram, assim que chegar em casa eu começo a responder! Até breve ~ Kissus ~