Por trás do olhar.

12 Quando eu vi... Que no meio da tempestade, tudo pode piorar.


O dia estava indo de mal a pior, Ayato tinha certeza absoluta de que não deveria ter pensado em sair da cama quando abriu os olhos. Mas infelizmente, lá estava ele, ao lado de um Kaneki com uma aura negra visível há quilômetros, e indo encontrar com Tatara e Noro. Não entendia de onde diabos veio o mau humor do albino (se bem que ás vezes nem entendia de onde vinha o seu próprio), só sabia que ele não dormiu, virou a noite lendo um livro. E de uma hora para outra parecia querer matar alguém com os olhos.

Pela manhã, saiu pra comer e quando voltou o mais velho permanecia do mesmo jeito, só que agora pensativo, como se remoesse alguma coisa chata, respondendo-o apenas com monossílabos, e isso já começava a irritar. E irritar bastante.

– Horas atrás --

Quando acordou, o Kirishima o viu na mesma posição, com o mesmo livro, a mesma cara de concentração. Sinceramente não entendia como alguém conseguia ser viciado daquele jeito, mas não teve muito tempo para começar uma discussão já que logo seu celular tocou e um número conhecido e que era responsável por praticamente todas as suas chamadas recebidas apareceu na tela.

– Tatara? — Atendeu com um tom de voz incerto. Não sabia se o outro estaria muito bravo consigo, e nem ia saber por telefone, já que aquele ali era o rei da inexpressividade.

– Ayato... Acordou agora? — A voz rouca e baixa soou do outro lado, já imaginando o estado do menor aquela hora da manhã.

– É... — Bocejou se esticando na cama. — Estou de férias. — Ironizou ouvindo o outro rir nasalmente pelo telefone.

– Eu preciso te encontrar, é urgente. — Foi direto ao assunto, afinal, se tinha escapado da Coruja para fazer essa ligação, tinha algum motivo importante.

– Falando assim até pareceu que sentiu minha falta. Estou quase emocionado. — Devolveu ainda sem um traço de seriedade, se divertindo em imaginar a cara do maior.

– Mas eu senti. — Falou Tatara simplesmente, sua voz sem vacilar um segundo.

– Porra... — Murmurou o azulado apenas sentindo o rosto queimar um pouco, dessa vez tinha certeza que ouviu uma risada no outro lado. — T-Tá, que seja, me passe o endereço.

Enquanto anotava as coordenadas do local, Ayato nem percebia o olhar pesado dos olhos cinzentos sobre si. Só quando desligou o celular que viu o albino largando o livro na mesa de centro e o olhando com um ar irritado.

– É, obviamente, uma emboscada. — Falou vendo o Kirishima se levantar preguiçosamente.

– Duvido. Se fosse pra matar a gente ele teria vindo logo que soube que matamos o cara. — Respondeu se aproximando e sentando também no sofá. — Por isso Eto tá tão brava, porque ele simplesmente nos deixou ir. Mas ela confia nele, e sabe que ele não nos deixaria por ai se fossemos um empecilho a Aogiri, o que no fundo, é verdade. — Deu de ombros.

– E você parece confiar nele também. — Resmungou estalando o dedo indicador audivelmente.

– Tatara é... Alguém que eu aprendi estranhamente a admirar. — Respondeu simplesmente, lembrando-se de como se juntou a Aogiri.

– Mas eu não confio naquele cara, e não vou te deixar ir sozinho. — Falou em um tom repentinamente duro, fazendo Ayato encará-lo como se fosse um alien.

– Mas o que porra deu em você? — Estranhou vendo o olhar de besta-fera do albino.

– Nada. Mau humor. — Respondeu simplesmente e o menor não quis cutucar a fera, saindo pela janela sem mais diálogos.

– -

Tudo que Kaneki queria naquele momento era a cabeça daquele poste de olhos vermelhos debaixo da sola dos seus pés.

Seu dia havia começado bem até, tinha acabado de terminar um livro agradável quando viu Ayato acordar no meio dos lençóis da sua cama. Nunca diria ao menor, mas tinha virado a noite justamente com o objetivo de vê-lo acordar, e claro, juntando o útil e o agradável e terminando de ler aquele romance.

O Kirishima tinha o sono bem leve e costumava acordar bem cedo, e sempre acordava primeiro. Só o havia visto dormir uma vez quando estava no container do Yomo-san e ele cochilou sentado na beira da cama improvisada (*), mas havia sido tão, mas tão breve, que precisava de outra experiência do tipo.

Primeiro, vê-lo na cama só com uma calça larga, ressonando adoravelmente enroscado no cobertor já havia sido de encher os olhos, mas acordando todo bagunçado, com olhar sonolento e gemendo preguiçosamente enquanto se esticava para alongar os músculos... Céus, aquilo havia mexido seriamente com a sua cabeça. Desviou o olhar para o livro — agora já terminado — que tinha em mãos, fingindo ler quando sentiu o peso das safiras sobre si. Se perguntou se o menor iria reclamar sobre ter dormido sozinho, adoraria se ele perguntasse, seria a desculpa perfeita para passar o resto do dia na cama.

E foi ai que o maldito telefone acabou com o seu humor.

Começando pelo autor da ligação. De inicio, Kaneki não diria que odiava Tatara á primeira vista, diria apenas que é o tipo de pessoa que não o despertava absolutamente nenhuma vontade de estar por perto. E depois disso, quase foram punidos por suspeita de traição, quando Kaneki sucumbiu a sua forma kakuja e Ayato foi atrás dele, e por sequência faltaram a uma missão importante "deliberadamente", o que era considerado "sabotagem". A sorte dos dois foi ter forjado um relacionamento na época (que, ironicamente, se tornou real) e conseguiram escapar, mas, depois do sufoco, Ayato ainda o defendeu, "Eu o entendo. No lugar dele faria o mesmo.", nas suas próprias palavras.

Antes de ser parceiro do Kirishima, acreditava que o menor era parceiro de Tatara, uma vez que estavam sempre juntos. Com o passar do tempo, pode ver como o homem intimidante e de temperamento calculista era simplesmente a única pessoa que possuía a obediência de Ayato. Nesse tempo juntos na Aogiri, pode ver que o menor não o obedecia por medo (duvidava que alguém fosse conseguir isso daquela peste algum dia), mas por respeito e admiração. E em contrapartida, Tatara parecia demonstrar uma certa inclinação emocional para o azulado.

"Eu preciso te encontrar, é urgente."

"Falando assim até pareceu que sentiu minha falta. Estou quase emocionado." Ouviu Ayato responder enquanto rolava na cama.

"Mas eu senti." A voz no telefone respondeu e Kaneki sentiu suas unhas afundando na capa do livro. Ainda mais com a reação sem graça totalmente adorável do menor.

Queria matar alguém, e sabia bem quem era.

No decorrer do dia, terminou ficando ainda mais irritado por não conseguir se controlar. E com medo de acabar sendo um cavalo com o menor, acabou praticamente ignorando-o o dia inteiro, e o albino sabia bem que era uma questão de tempo até ele estourar e começarem uma briga das feias.

Chegaram ao local marcado, o bar da Itori, amiga de Uta, e o albino já podia perceber algumas pessoas desviando de si na calçada, viu dois homens altos na frente do estabelecimento e se imaginou arrancando cada osso do corpo do de cabelos alvos e terno cinzento. Sua raiva vindo toda de uma vez.

Não gostava desse tipo de pessoa, não confiava nele, detestava Tatara e Ayato havia dado um sorriso de lado muito bonitinho ao vê-lo.

"Queria ter a falta de expressão do Yomo-san nessas horas..."

– Há quanto tempo. — O homem sorriu agradavelmente, levando a mão ao cabelo desordenado do Kirishima e fazendo um afago que o menor não recusou.

– Nem fez duas semanas. — Resmungou o mais novo, ainda sem se desviar do carinho breve, o que fez os olhos de Kaneki quase sangrarem.

O meio-ghoul desejou internamente que Ayato percebesse o desgraçado que aquele homem era, e perdesse toda aquela admiração que não conseguia imaginar de onde vinha. E ao mesmo tempo se sentia um verdadeiro filho da puta egoísta por desejar algo que deixasse seu pequeno triste.

– Fica tudo tão silencioso sem nossa princesinha de TPM. — Comentou Noro, tendo que fugir de uma série irritada de chutes logo em seguida.

Enquanto as crianças se digladiavam na calçada, Tatara e Kaneki se encararam longamente.

O desgosto era mútuo. Isso estava claro.

– Quem diria que aquela farsa tola se tornaria real, e terminaria com você levando meu subordinado embora. — Comentou Tatara, o rosto calmo, mas os olhos vermelhos em chamas.

– Ele matou o Kamishiro porque quis e foi embora por intolerância sua. — Devolveu Kaneki, o olhar duro e afiado nos orbes de metal derretido.

– Não me lembro de ele estar consciente quando você o carregou para longe do campo de batalha. — Retrucou o mais alto. O meio-ghoul até ia responder a altura, mas foi impedido por um par de peitos na sua cara e um abraço apertado.

– Wow, quaanto homem lindo na frente do meu humilde estabelecimento! — A ruiva exclamou sem um pingo de vergonha na cara. — Kaneki-chii que saudade!!! — Apertou mais ainda o mais novo que sentia o ar indo embora. — Tá tão gato assim! — Passou a mão bagunçando os cabelos alvos do garoto. — Ouvi boatos de que estava namorando... — Deu uma risadinha animada, completamente alheia ao clima pesado, e ainda mais ao olhar que beirava o ódio do azulado que tinha começado a ignorar Noro quando viu alguém agarrando o que era seu. Kaneki até tentou se soltar sem ser grosseiro com a mulher, mas a desgraça já estava feita.

– Me deixe dizer que a dona do estabelecimento é um colírio aos olhos da clientela. — Falou Noro passando pela ruiva, que sorriu simpaticamente com o elogio, e indo em busca de uma mesa mais distante.

– Boa sorte. — Tatara murmurou ironicamente para Kaneki, entrando e seguindo Noro. O meio-ghoul não teve muito tempo para pensar no que significava aquilo quando viu Ayato se aproximando puto da vida, nem lhe dirigiu o olhar, apenar passou reto trombando no seu ombro com tanta força que o albino deu um passo para trás.

"Não, não tem como esse dia ficar pior."

– Esse é meu namorado, Itori-san. — Falou se referindo ao furacão de cabelo azulado que passou pelos dois.

– Ah... Entendo. Desculpa. — Riu de lado lembrando do abraço um tanto quanto íntimo de momentos atrás. — Posso falar com ele, se quiser... — Se ofereceu imaginando o tamanho da fria em que meteu o outro.

– Não se preocupe, deixa que eu me explico. — "Vai ser mais seguro para você, vai por mim." Completou mentalmente.

– Que bom gosto, heim? — Falou se inclinando na cara de pau para espiar o traseiro do Kirishima. — Já te disseram que os nervosinhos são os melhores? — Piscou sugestivamente, voltando para trás do balcão, deixando o mais novo da cor de uma pimenta. Reação que não ajudaria quando aparecesse na frente de Ayato.

Respirando fundo, andou até a mesa onde os três estavam, trincando os dentes com a forma próxima com que Ayato e Tatara estava sentados. Sem contar o olhar fulminante do menor na sua direção.

Estou fodido.”

– Ah cara, eu sabia que vocês iam terminar juntinhos. — Falou Noro gesticulando com os dedos e rindo descontraidamente. O único na mesa que não tinha uma nuvem de tempestade sobre a cabeça. — Lá no 4º distrito era uma bagunça completa, até aquele ali — Apontou para Uta que estava no balcão conversando com Itori — E o segurança de boate da Anteiku — Falou se referindo a Yomo Renji. — Se pegaram de uma vez e acabaram com a briga. — Kaneki parecia sério por fora, mas estava pasmo. Nunca imaginou que Yomo e Uta... Teriam um caso.

– E o que isso tem a ver com a gente, cérebro de gelatina? — O Kirishima virou os olhos mal humorado.

– Não é óbvio? Nunca vi duas criaturas brigarem tanto. É óbvio que só podia ser tensão sexual reprimida! — Exclamou atraindo alguns olhares e fazendo o casal em questão querer se esconder embaixo da mesa pela vergonha.

– Nem todo mundo se interessa pela sua vocação de terapeuta sexual, Noro. Faça o favor de baixar o volume. — Reprimiu Tatara, e o outro se aquietou.

– Vocês vão querer alguma coisa? Algum pedido especial? — Se aproximou Itori segurando uma bandeja sensualmente, como se o vestido negro ressaltando suas curvas já não tivesse monopolizado a atenção de Noro que quase babava.

– Pode ser seu telefone? — Indagou, fazendo Ayato e Tatara se encararem e mover a cabeça negativamente.

Por mais que de mascara não parecesse, Noro era realmente bonito. Tinha um rosto elegante e longos fios escuros, e usava da boa aparência para flertar com qualquer mulher que lhe interessasse, sendo para sexo ou simplesmente alimentação.

– Um vinho. — Respondeu o albino mais velho sem dar muita atenção a mulher.

– Um café bem forte. — Kaneki pediu, vendo o olhar assassino do azulado na direção da mulher.

– Tequila. Tripla. — Respondeu Ayato para a surpresa da mulher e do meio-ghoul que se perguntava se ele pretendia sair andando do bar.

– Oh, que garotinho corajoso. — Comentou a ruiva com um sorriso divertido, fazendo a raiva nos olhos do Kirishima triplicar.

– Tem coisas na vida que só bebendo pra suportar. — Devolveu encarando a mais velha sugestivamente.

– Essa doeu. — Assobiou Noro.

– Concordo. – A ruiva sorriu malignamente. — Tipo... A minha vontade de apertar essa coisa fofa! — Exclamou apertando Kaneki em um abraço apertado outra vez, fazendo um albino sentir um frio na barriga com a olhada assassina do menor.

– E a minha de apertar sua garganta. — Devolveu a altura. — Ou talvez só seja tão solitária que tenha a necessidade de se esfregar nos outros. — Alfinetou cruelmente.

– Ayato! — Repreendeu o meio-ghoul pasmo como ele havia sido sádico e tocado bem na ferida. Era essa a parte mais odiável da pessoa que amava, ele conseguia encontrar facilmente o ponto fraco das pessoas, e usava isso da forma mais cruel possível.

E dessa vez, Itori não conseguiu levar na brincadeira como sempre fazia, se levantando e parando de frente ao menor com um sorriso maldoso.

– Eu decididamente não vou ouvir isso de um órfão abandonado pela irmã que... — "Preferia estar entre humanos do que ao seu lado" Teria dito, mas teve seus lábios impedidos bruscamente por uma mão de unhas negras e o olhar irado de Kaneki entrando em seu campo de visão no segundo seguinte.

– Isso eu não vou permitir. — Falou em um tom frio e profundo, vendo a ruiva dar um passo para trás, não estava habituada a ver aquele garoto normalmente tão calmo com aquele tipo de expressão. Atrás dele, Ayato rosnava e se debatia furiosamente, sendo segurado por Tatara que o mandava se acalmar.

– Algum problema? — Uta, que estava bebendo no balcão apareceu quando viu a movimentação estranha. Por ser uma mesa mais distante, não chamou a atenção no bar, o que era uma sorte, ou alguém poderia ver os olhos negros e escarlates do azulado.

– Um bem grande. — Respondeu Kaneki estalando o dedo indicador, e depois o médio, quase a ponto de quebrá-los.

– Não, não tem problema nenhum. — Respondeu Itori respirando fundo e arrumando os cabelos cor de sangue. Se endireitando em cima do salto e se acalmando. — Era pra ser uma provocação boba, mas acabou indo longe demais. Me desculpem. — Deu um sorriso sem graça antes de ir embora, entrando por uma porta atrás do balcão.

– Vou ver como ela tá. — Uta a seguiu no mesmo instante, deixando Kaneki um pouco mais calmo, havia se sentido mal por ela também, mesmo sua simpatia indo toda embora quando ela falou daquele jeito com o menor. Nunca havia visto esse lado da ruiva, mas ainda assim não toleraria que absolutamente ninguém usasse a briga com a irmã mais velha para magoar Ayato. Não permitiria que ninguém o machucasse.

– Você está bem? — Se virou para o azulado que tinha parado de se debater, mas ainda parecia vibrar de raiva. Seu olhar era puro ódio.

– Parece que finalmente encontrou alguém com uma língua tão venenosa quanto a dele. — Comentou Noro recebendo dois olhares de "cala a porra dessa boca" dos dois albinos que se encontravam preocupados com o pequeno.

– Ayato? — Tatara chamou, mas o menor também não respondeu.

– Oi? Tem alguém aí? — Chamou o moreno de cabelos longos, passando a mão na frente do rosto do mais novo que lhe mostrou o dedo do meio.

Kaneki sentia um peso no coração por não ter impedido mais cedo aquela troca de palavras, e uma raiva borbulhante por ver como Tatara segurava o seu baixinho tão possessivamente. Mas não iria dizer nada, por mais que odiasse, sabia que Ayato poderia estourar de novo a qualquer segundo, por isso não era muito seguro deixá-lo solto. Iria indagar outra vez se ele estava bem quando o celular do mais novo tocou, e ele atendeu sem nem ver quem era. Afinal, só quem tinha seu número eram Tatara, Kaneki e Touka, e dois deles estavam ali.

– Como porra você tem meu número?! — Indagou de repente ao não ouvir uma voz feminina do outro lado, se levantando para ir atender lá fora.

Kaneki apenas o observou ir embora, continuando a vigiá-lo gritando com o telefone pelo vidro da janela. Não iria atrás dele agora, sabia reconhecer quando o Kirishima precisava respirar.

– Eu não entendi porra nenhuma, ele não tinha se entendido com a irmã? A Eto até me disse que ia escrever um incesto. — Murmurou Noro, completamente alheio ao clima péssimo mais uma vez.

– As feridas se curam, mas as cicatrizes ficam. — Respondeu Tatara com um suspiro profundo. — E você, assuma a responsabilidade. — Voltou-se para Kaneki, um olhar sufocantemente ameaçador nas orbes rubras.

– Não vou deixá-lo se machucar outra vez. — Falou devolvendo o olhar a altura.

– Ayato sabe se cuidar, eu estou falando dos sentimentos que ele tem por você. — Ditou pegando o menor completamente de surpresa. — Achou mesmo que as provocações daquela mulher não seriam levadas a sério? Que irresponsável. Se tem tanta arrogância para olhar pra mim como se eu não devesse estar perto dele, ao menos cuide melhor do que, estupidamente, você pensa que te pertence. — Alfinetou bem fundo, vendo os olhos cinzentos se estreitarem, mas ainda assim, sem interromper suas palavras. — Ele não é uma criança, e não vai apenas discutir infantilmente. Em outra falta de atenção dessa, ele poderia matar facilmente. Ou sair ferido. É muita estupidez subestimar a ira de um ghoul dessa forma. — Concluiu calmamente, mas seu olhar queria esmagar o outro contra o chão.

– Você fala com se o conhecesse tão bem, mas em anos, nunca percebeu seus sentimentos pela irmã. Sou eu mesmo o estúpido? — Devolveu Kaneki em um tom de voz calmo, mas em sua mente já tinha matado o outro uma trinta vezes.

– Alguma coisa de certo você tinha que ter feito, não? — Agulhou o mais velho outra vez. Sua vontade era arrastar seu subordinado estressadinho de volta a Aogiri, e o meio-ghoul era o único empecilho.

– Vocês bem que poderiam sair na porrada lá fora. — Murmurou Noro entediado com a discussão. — Cara, você tá passando mal? — Indagou surpreso quando Ayato voltou a mesa pálido da cor de um papel e com um tipo diferente de nervosismo no olhar.

– Tatara, eu já sei do que você queria falar. Vocês tem um informante na CCG, não é? — Questionou direto, mantendo o tom de voz baixo, mas o suficiente para todos na mesa ouvirem.

– Isso encurta muito a nossa conversa. — Confirmou o dono dos orbes carmim, confirmando.

– Quanto tempo temos? — Perguntou batendo o pé ansiosamente.

– Não sei ao certo, mas pouco. Bem pouco. Até hoje ou amanhã. No máximo amanhã. — Respondeu em seu habitual ar inexpressivo.

– Ok... Na Anteiku, hoje, ás 17:00h? — Indagou vendo o mais velho se levantar. "Rápido e eficiente" Pensou se recordando de quando trabalhavam juntos.

– Até breve. Se acalme até lá. — Apertou gentilmente o ombro do menor e logo saiu com Noro que se despediu com um aceno, deixando o casal para trás.

Kaneki apenas analisava Ayato desde que ele começou a falar, havia algo bem, bem errado ali.

– Quem era no telefone? O que aconteceu? — Indagou preocupadamente, seguindo o menor para fora do bar.

– Vai se ferrar, eu ainda tô puto com você.

– — — — Alguns minutos atrás – Ligação — — — -

– Como porra você tem o meu número?! — Quase gritou ao telefone quando ouviu a voz do loiro no outro lado da linha. Não estava só irritado, estava á beira de explodir aquele bar, então achou melhor ir a calçada.

– Eu não tenho muito tempo, preciso que você dê um recado ao Kaneki. — Sussurrou o loiro, sua voz soando abafada, como se estivesse se escondendo em algum lugar fechado.

– Então... PORQUE NÃO LIGA PARA AQUELE FILHO DA PUTA?! — Estourou assustando vários pedestres que passavam pela calçada naquele momento. Era... Era muito desaforo num dia só!

– NÃO! — O loiro gritou de volta. — Tem que ser você! Ele vai surtar! — Tentou argumentar parecendo desesperado.

– Foda-se. Que surte, enfarte e morra. — Já ia desligar na cara do loiro quando este lhe interrompeu com uma noticia que fez seu coração se atrapalhar umas duas batidas.

– A Anteiku vai ser atacada pela CCG! — Falou rápido prevendo que o menor iria desligar, e pela demora na resposta do outro lado da linha, sabia que o azulado tinha entendido a gravidade da situação. — Vai ser em breve, já estão preparando os esquadrões e as quinques. — Complementou rapidamente.

– Puta que pariu... — Murmurou Ayato, esquecendo momentaneamente toda a raiva passada.

E agora parando pra pensar, já conseguia imaginar o motivo de Tatara chamá-lo. Se estivesse correto, a Aogiri tinha um informante na CCG (o que fazia todo o sentido porque esse não é o primeiro ataque previsto) que avisou antes. Ou seja era alguém bem de dentro da organização, já que o Nagachika, esperto como uma raposa, só tinha conseguido perceber tudo agora que começaram as preparações.

– Você é o único que pode contar isso a ele e impedi-lo de fazer uma idiotice. — Falou o loiro com mais calma. — Estejam preparados para agir ás... — Um som de porta abrindo e depois vozes alteradas cortou a ligação, atento, o Kirishima pode perceber o som do celular caindo no chão e alguém tentando acertá-lo para apagar as informações.

Ficou em silêncio ouvindo tudo do outro lado da linha com o máximo de detalhes que conseguia, e a conclusão era óbvia. Tanto que nem se surpreendeu quando uma voz bruta soou do outro lado da linha.

– Se vocês quiserem o informante de vocês de volta, vão ter que vir buscar pedaço de lixo! — E desligou logo em seguida. No mesmo segundo, Ayato retirou o chip e o cartão de memória do aparelho que usava, destruindo-o com o pé e jogando na lixeira do prédio vizinho antes de voltar para a calçada onde estava, se encostando-se à parede um segundo e bagunçando os cabelos nervosamente.

– Fodeu... — Murmurou tentando pensar friamente na situação. — Fodeu pra caralho...

Quando entrou de volta no bar, já tinha alguma ideia do que deveria fazer.

– — — — — Tempo atual — — — — — -

Ayato andava quase correndo pela rua, e para Kaneki era óbvio o quanto o companheiro tentava disfarçar o nervosismo. Não que o Kirishima fosse fraco para pressão psicológica, isso sabia que ele não era, mas era claro como ele estava pensando em várias coisas ao mesmo tempo e isso o deixava no limite de surtar e quebrar alguma coisa — ou alguém .

Cansado de perguntar e não ser respondido direito, o albino puxou o menor repentinamente, fazendo-o tropeçar feio no concreto e cair em seu peito, envolvendo-o com seus braços logo em seguida.

– Hey, tente se acalmar um pouco... — Acarinhou os cabelos do azulado que tentava se afastar. — Você está uma pilha Ayato, e isso já está me preocupando. — Falou em um tom calmante, mas não parecia ser o suficiente.

– Foda-se! Você nem liga, seu idiota hipócrita! Não pense que eu não sei que você gosta de me irritar! — Socou o peito do mais velho até se soltar, e já ia sair do beco em que percebeu ter caído quando foi puxado outra vez e prensado contra a parede bruscamente, fazendo sua coluna estalar e tendo seus lábios roubados.

Seu primeiro sentimento foi ainda mais raiva, era um beijo violento e possessivo e logo ambos já tinham alguns pequenos cortes nos lábios, e no corpo das unhas que seguravam o outro com força desnecessária. Depois de um tempo, o ar já estava escasso e o que movia os dois era a ansiedade, a vontade de estar mais e mais perto, o beijo se tornando mais envolvente, mais apaixonado, suas línguas unindo-se demoradamente, sentindo a textura, provocando... Até que todo o fogo começou a baixar e o toque se tornou mais carinhoso e terno, as mãos que antes tocavam com agressividade, agora acariciando suavemente.

– Respira fundo, ok? — Sussurrou Kaneki baixinho, deixando seu polegar sutilmente apoiado sobre os lábios do menor. Sua outra mão lhe acariciando a nuca. — Olha, eu quero que se lembre de tudo o que está na sua cabeça, e me diga na ordem em que aconteceu, certo? Você vai se sentir melhor, confie em mim. — Falou em um tom calmo e inebriante, sentindo o menor fechar as mãos no seu casaco.

– Primeiro, de manhã... O que deu em você? Ficou puto comigo do nada. — Murmurou baixinho, respirando fundo realmente, sentindo sua frequência cardíaca se acalmar um pouco.

– Eu posso ficar qualquer coisa, menos bravo com você quando acorda. — Respondeu beijando o nariz arrebitado do menor carinhosamente, lembrando-se do quão adorável ele é acordando.

– Mentiroso filho da puta. — Resmungou o baixinho sentindo as bochechas formigarem. Se irritava porque queria estar parecendo irritado, e não... Er... Assim.

– Eu não sei mentir pra você, Ay. — Devolveu o albino desenhando os traços do rosto do amante, adorando vê-lo cada vez mais sem graça. — Eu não estou bravo contigo. Nem estive essa manhã. O que é raro... Geralmente brigamos quase toda manhã. — Riu um pouco lembrando-se de como o azulado conseguia lhe arrancar um desejo de implicar que nunca imaginou que tivesse. — Eu só não gosto daquele cara perto de você.

– O Tatara? — Ergueu uma sobrancelha fina, vendo o olhar cinzento se desviar do seu. — Por quê? Ele é um cara legal. — Indagou curiosamente.

– O jeito como ele te olha... É como se você pertencesse a ele. — Respondeu a contragosto, se irritando só de lembrar.

– E eu pertenço? — Questionou Ayato.

– Não. Não pertence. — Ditou o maior. — Você só pertence a si mesmo. — Sorriu de lado, sendo acompanhado pelo azulado.

– Como é idiota... Passou o dia com aquela cara de bicho atropelado por nada. — Riu cínico como só ele sabia ser, mexendo distraidamente nos fios clarinhos.

– Você não fica atrás. — Recordou Kaneki. — Eu nunca pensei que veria alguém deixar a Itori-san irritada daquele jeito. – Lembrou-se de como o olhar da mulher mudou de repente, podia jurar que ela e o Kirishima se envolveriam em uma luta mortal dentro do bar.

– São coisas totalmente diferentes. — Fez um arranhão breve no pescoço do albino só de lembrar da raiva. — Aquele suporte de peitos estava enfiando a sua cara dentro do sutiã dela, queria que eu ficasse como? Esperando ela botar as tetas pra fora e dar leite? — Resmungou irritado, arrancando uma risada súbita do mais velho que não acreditava no que estava ouvindo. — Para de rir bastardo! — Socou o peitoral do maior que ainda teve que passar um tempo se controlando para segurar o riso.

– Ayato... Ela faz isso com todo mundo, é... O jeito dela. — Tentou justificar, recebendo um olhar endemoniado em resposta.

– Você não é todo mundo. — Retrucou azedo. Kaneki achava completamente adorável quando ele fazia aquele bico infantil e voz mal humorada, seria lindo se o ciúme do menor não passasse disso e não partisse para a agressão.

– Não acha que exagerou, assim, um pouquinho? — Falou pondo uma mecha do cabelo escuro atrás da orelha do seu pequeno.

– Exagero? EU estou exagerando? — Os olhos cor de safira brilharam perigosamente. — Tudo bem, da próxima vez eu vou enterrar meu rosto na gola da camisa do Tatara igualzinho ela enterrou sua cara no decote dela. — Sorriu "inocentemente", de uma maneira quase diabólica.

– Você não faria isso... Ah, não, faria sim e faria pior... — Se corrigiu lembrando-se da personalidade horrível do companheiro. “ Ás vezes tenho a séria impressão de que estou com um parente direto do demônio.”

– Ah, pode apostar. — Murmurou trazendo o maior para um beijo. Não conseguia conversar por tanto tempo, com tão pouca proximidade, sem precisar ficar ainda mais perto.

Aproveitando a brecha do menor, Kaneki envolveu sua cintura com as mãos, escorregando por baixo da roupa e tocando a pele quentinha e macia, tão convidativa. Ergueu o mais novo apoiando-o na parede, logo sentindo aquelas coxas que lhe tiravam o juízo circundarem seu quadril e agora seus corpos estavam confortavelmente colados e os lábios do seu pequeno pouca coisa mais alto que os seus (sabia que o azulado adorava aquilo), uma ótima posição para atacá-los deliciosamente. Acariciava sua cintura calmamente, sentindo sua respiração mudar de rumo, enquanto as mãos do menor bagunçavam seus cabelos em todas as direções, fazendo uma massagem inconscientemente relaxante e gostosa.

– Hm... Estamos... Atrasados. — Lembrou o Kirishima recuperando sua consciência e se afastando daqueles lábios que pareciam lhe envolver em um feitiço.

– E pra quê? — Indagou pacientemente, seus polegares ainda percorrendo a pele do mais novo em um carinho quase automático.

– Temos que arrumar algo pra comer, e ir encontrar Tatara na Anteiku ás cinco, e dar um jeito mirabolante de convencer o Gerente a concordar com o plano dele. — Falou rapidamente, esperando que as palavras não tivessem um impacto tão brusco se explicasse bem a situação antes.

– E por que, no inferno, eu faria algo como isso? — Questionou ainda calmo, mas já estranhando.

– Porque não tem escolha. — Devolveu Ayato brevemente. — É isso, ou a Anteiku vai cair.

– Quê? — Se sobressaltou. — Como assim? Me explica isso direito... — Teria continuado se não tivesse sido calado com um indicador em seus lábios.

– E depois disso, vamos dar uma saída rápida e resgatar seu amigo. — Concluiu observando com cuidado a expressão do maior, e a mudança foi mais do que óbvia.

– Onde está Hide?! — Indagou alarmado de repente, se controlando para não levantar o menor do chão e chacoalha-lo até arrancar a informação.

– Em um lugar que só eu sei. — Respondeu com segurança, afinal era quase verdade. Era o único que sabia de seu sequestro, só não sabia com exatidão onde ele estaria aprisionado. — E se você não me seguir e fizer apenas o necessário, ou seja, sem nenhuma porra-louquice... Provavelmente nunca mais vai vê-lo. — Não falou em tom de ameaça, era uma certeza simplesmente. Não que o Kirishima fosse realmente cruel a ponto de afastá-lo do melhor amigo, mas sabia que se Kaneki soubesse, iria sozinho contra a CCG e acabaria morto ou capturado.

– Ayato, se isso é uma brincadeira, você foi definitivamente longe demais. — O tom do albino era forte, profundo e opressor, e ouvi-lo a uma distância tão curta quase fazia Ayato se sentir acuado. Quase.

– Vai pagar pra ver? — Desafiou vendo uma chama perigosa no olhar cinzento.

Sabia que estava botando em cheque duas das coisas mais importantes da vida do albino, e isso era quase pedir pela morte. Pelo olhar do maior, tinha certeza que ele estava tramando sua morte silenciosamente pelas costas, e não o culpava. Faria o mesmo se soubesse que sua irmã está sequestrada e não quisessem lhe revelar onde. Por isso, foi com total surpresa que viu aquela tempestade de ira se aquietar nos olhos que se assemelhavam a um dia nublado.

– Tudo bem. — Respondeu em um tom nervoso. — Eu vou confiar em você. — Respirou fundo tentando se acalmar, mas estava complicado.

Enquanto isso, Ayato sentia seu coração dobrar de pulsação. Tinha certeza que acabariam em uma luta das feias, ou que teria que bolar uma ameaça pior, porém... Ele simplesmente confiou em si. E isso era algo completamente novo, alguém confiar o que tem de mais valioso a Ayato.

Não estava acostumado a acreditarem nele tão cegamente.

Isso... É aquela merda de ‘quem ama, confia’?”

– Não faça essa cara estúpida. — Resmungou o Kirishima se virando para ir embora. — Eu não vou te decepcionar. — Ditou em um tom leviano, mas era uma promessa.

E sempre cumpria suas promessas. Custe o que custar.

Notas finais
(*) Cena do capitulo dois, depois que o Kaneki surta e os dois vão pra container do Yomo dar uma recuperada. -> Quando a relação do Ayato com o Tatara, ela é melhor mostrada em Tokyo Ghoul: Re, e tem um extra do dois muito engraçadinho do Ayato crescendo ao lado do Tatara. E não precisam ter ciúme, esse poste não está romanticamente interessado no baixinho do Kaneki, proximo cap terá mais explicações. E então, o que acharam? Hmm?????? *ansiosa* Próximo cap vai estar pegando fogo pode ter certeza e vai ser treta por cima de treta (de novo?). Qual a cena favorita de vocês? Eu fico dividida entre as patadas na conversa do bar, e eles brigando e se resolvendo. *Kaneki e seus ~taca na parede~ Até mais o/ Kissus