Por trás do olhar.

13 Quando eu vi... A dor de perder alguém amado.


Notas iniciais
Hooy ~ Muito obrigado de coração a todo mundo que acompanha e sempre me apoia comentando aqui, sério, isso é muito importante pra mim. Perdoem a demora a postar e responder, mas algumas coisas andam me afastando do nyah. Pra quem estava preocupado com o destino do nosso loirinho empata-foda, mas ainda assim amado, aí vai o~

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Ambos estavam escondidos no terraço de um prédio que tinha a perfeita visão para o seu alvo. O prédio da CCG tinha sua segurança especialmente desfalcada essa noite, quando todos os seus melhores soldados tinham a missão de destruir a organização ghoul que supostamente governava o 20º Distrito e abater a Coruja de Um Olho. Só por ser uma missão que envolvia o aparecimento da Coruja, era um motivo válido para deixar seu forte vulnerável. Afinal, matando o Rei de Um Olho, significaria mostrar a todos os ghouls de Tokyo o poder da CCG, e como nenhum deles escaparia do seu destino.

Porém, essa mentalidade destrutiva de grande parte dos investigadores, acabou dando a brecha perfeita para os dois que precisavam buscar algo importante naquele prédio.

— Tem certeza que ele está aqui? — Indagou o albino sem conseguir se livrar do nervoso no estômago. Tinha que resgatar Hide. E logo.

— Eles não teriam tempo de movê-lo, nem vão matá-lo quando podem tentar arrancar informações. — Esclareceu o menor. — Também não devem ter uma segurança muito eficiente, para a CCG, ghouls não tem emoções, logo não se arriscariam a invadir sua base para resgatar um humano. Eles tem certeza de que vamos deixá-lo lá. Só alguns investigadores mais experientes contariam com o contrário, e esses filhos da puta estão no campo de batalha agora. — Respondeu Ayato com base na sua longa experiência em tentar desmontar a CCG.

— Não vamos subestima-los, eles parecem ter alguns seguranças bem capazes. — Alertou Kaneki observando que haviam algumas pessoas dentro do prédio.

— Tsc, aposto que eu mato todos com uma mão. — Desdenhou Ayato com um risinho sarcástico, abrindo o mapa do prédio que tinha conseguido com Tatara. — Agora vamos ter uma noção melhor dos corredores. — Apontou o mapa de modo que ficasse de frente ao prédio, assim era mais fácil memorizar todos os corredores e saídas, sem contar que os ajudava a ter um senso mais exato de direção quando estivessem lá dentro. — Tem vários corredores que se encontraram, eles usam isso para formar esquadrões quando sofrem um ataque. O plano é: Vamos nos dividir para encontrar o Nagachika rápido o suficiente para que não dê tempo deles chamarem reforços. — Falou vendo outro acenar com a cabeça afirmativamente. — Vamos ficar nos encontrando em todas as junções dos corredores, assim, quando um de nós o achar, saímos juntos.

— Ok, e como a gente entra? — Indagou Kaneki observando a movimentação do prédio.

— Oh, não é obvio? Eu entro e mato todo mundo, porque você é um idiota que, mesmo seu melhor amigo estando lá preso e provavelmente sendo torturado, não quer matar humanos. — Falou em um tom cínico, deixando toda agressividade por parte das palavras.

— Ayato, isso não é hora... — O albino alertou em um tom baixo, mas completamente intimidante. Não era uma sugestão, era uma ordem.

— Não é hora? Ah, vai se foder. — Riu sarcasticamente, segurando o rosto domais velho com uma das mãos e aproximando os rostos repentinamente. Suas unhas perfurando agressivamente a pele pálida do maior. — Tá com medo de ficar puto e perder a cabeça? E quando vai perder a cabeça, então? Tá tudo fodido e você com essa maldita fachada de bom moço que eu odeio. — Rosnou, seus olhos brilhando perigosamente. O sangue já manchando o rosto do albino. — Você se acostuma muito fácil à paz, Kaneki, e isso é tudo o que não vai ter essa noite. — Ditou, sendo repentinamente agarrado pelo pescoço e imobilizado contra o piso de concreto, chegando a provocar alguma rachaduras.

— Você é uma gracinha tentando me irritar Ayato... — A voz do maior ficava em um tom limítrofe entre a ira e o controle, mas seu olhar era selvagem. E o Kirishima podia sentir em primeira mão com aquele aperto de aço o sufocando. — Mas hoje eu torceria seu adorável pescocinho. — Seu tom de voz soava arrastado, as veias de seu braço saltadas, não pela força para enforcar o menor, mas justamente pela força que fazia para se controlar e não fazê-lo.

Kaneki não era uma pessoa a se irritar, Ayato sabia bem, ainda mais quando estava acontecendo uma batalha envolvendo a Anteiku e precisavam salvar Hide antes de voltar pra lá. Parecia simples, mas não era, e o azulado tinha um plano para isso.

Rindo de lado diabolicamente, o menor agarrou os cabelos cor de neve com brutalidade, puxando o rosto do mais velho até que pudesse alcança-lo com a boca, lambendo provocativamente seus lábios, depois lambendo o sangue de seu rosto — obra sua — e mordendo seu maxilar com um bocadinho de força, apenas para alertar o maior antes de sussurrar em seu ouvido.

— Você não é capaz. — Ditou em um tom risonho, porém fraco pela falta de oxigênio. Enterrava as unhas na nuca do albino só da raiva de estar sendo outra vez prensado contra o chão.

— Não vai conseguir me irritar. — Devolveu Kaneki igualmente cínico. — Está tentando usar minha forma Kakuja e destruir o prédio da CCG, não? Desista. — Soltou o pescoço do menor, sentindo-se um pouco culpado por vê-lo respirar com dificuldade. Mas sinceramente, ele merecia.

— Eu te odeio, filho da puta. — Resmungou o azulado azedo depois de ter sido pego no pulo do gato.

— Eu nunca mais vou ficar daquele jeito. Nunca mais. — Enfatizou Kaneki seriamente.

— Porque não? Teria matado todo mundo em Cochlea se não fosse aquele gás estúpido! — Protestou o menor sem entender.

— Porque eu não sou você! Eu não quero matar todo mundo! — Retrucou com vontade de bater na cabeça do Kirishima até aquela verdade entrar nela. — E eu não quero me tornar um monstro irracional. — Concluiu sentindo uma certa angústia ao lembrar.

— Ops, que pena, nos já somos monstros. — Devolveu Ayato, agora tocando calmamente o rosto do mais velho, deslizando os dedos suavemente onde tinha enfiado as unhas instantes atrás.

— Você não tem ideia... Eu poderia matar você! — Exasperou pondo suas mãos sobre as do menor e as segurando no seu rosto.

— Tsc, não faça essa cara, eu já te vi doido antes e sei que nunca me machucaria. Idiota dramático. — Lembrou-se de cochlea, não estava muito consciente, mas sabia que tinha sido salvo do investigador por Kaneki em sua forma Kakuja. Duvidava que ele lhe fizesse algum mal, mesmo inconsciente.

— Você está confiando em algo incerto. — Murmurou apertando as mãos do menor com mais força.

— Seu idiota! — Empurrou o outro no chão, subindo sobre seu corpo como se fosse atacá-lo. — Eu estou confiando em você! Retardado, não me venha com essa respostinha insossa. — Se levantou tão repentinamente quanto o empurrou no chão, subindo na beira do terraço do prédio e libertando a kagune, abrindo suas enormes asas.

— Vai criar um caos para invadirmos o prédio? — Indagou Kaneki se erguendo também, passaram tanto tempo juntos na Aogiri que já tinha uma espécie de arquivo mental com as estratégias mais usadas pelo Kirishima.

— Esses idiotas vão ficar perdidos como formigas quando se joga água no formigueiro. — Riu maldosamente ajeitando sua meia-máscara sobre o rosto antes de atirar a primeira saraivada de farpas.

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— — — Horas atrás — Anteiku — — — -

Aquela reunião era, no mínimo, incomum. Para não dizer bizarra.

Tatara e Yoshimura estavam frente a frente, ambos com um ar compenetrado na discussão e ao mesmo tempo reservado, discutiam pacientemente cada "cláusula" do acordo, de forma que não beneficiasse demais nenhum dos lados. Ao lado dos dois, estava Ayato sentado na mesa de centro e Kaneki no tapete em meio as pernas do Kirishima, deixando sua cabeça tombar em um dos seus joelhos enquanto sentia as mãos do menor em seus ombros. Ken estava uma pilha de nervos, e o mais novo entendia bem isso, tanto que, por mais que fosse óbvio que Kaneki concordasse com Yoshimura e Ayato concordasse com Tatara, os dois entraram em um consenso mudo de ficarem calados por toda a discussão.

Ao fundo da sala, Yomo avaliava Noro de cima a baixo, se perguntando do que aquela criatura era feita. Já havia partido ele ao meio numa luta, e agora que o via sem máscara e em roupas casuais, não enxergava nada de tão bizarro naquele ghoul, embora seu olhar desconfiado não tenha deixado de reparar em como ele estava completamente coberto do pescoço para baixo, inclusive usando uma camisa de gola alta e luvas de couro.

— Ei, meu negócio não é homem não... Vai dar uns pega no seu tatuadinho. — Soltou Noro diante do olhar do outro que parecia escanea-lo.

— Eu sei que pode parecer arriscado permanecer no mesmo distrito, mas podemos garantir a segurança dos seus. — Afirmou Tatara em meio ao debate.

— Estou certo disso, mas achei ter deixado claro que não vou permitir interferência da Aogiri junto aos meus. — Reforçou Yoshimura sério como poucas vezes ficava, mas sem nenhuma agressividade no tom.

— Tem certeza que seria arriscado ficar no distrito, Tatara-san? — Indagou Kaneki em um tom que deixava claro sua desconfiança de que o líder da Aogiri estivesse tentando arrumar uma desculpa para manter a Anteiku sobre o domínio de sua organização.

— Não é certo como as coisas vão ficar depois. — Respondeu o mais velho fuzilando o meio-ghoul com um olhar de fazer o Polo Norte passar frio.

— De fato, não é certo como tudo vai acabar. — Interviu Ayato. — Mas eu posso me comprometer a avaliar a situação. E se for o caso de se tornar arriscado e alguém ser descoberto, o jeito é matar o investigador e plantar o corpo em outro distrito. — Concluiu o azulado recebendo um olhar de aprovação do companheiro.

— Eu tô com você. Obviamente. — Se pronunciou o albino, entrelaçando os dedos de suas mãos.

— Ayato e Kaneki são os únicos realmente neutros no distrito. E de julgamento confiável. — Comentou Yomo participando da discussão.

O plano era agir como se a CCG obtivesse sucesso na missão, destruindo a Anteiku e criando um dos poucos distritos de Tokyo livre da influência da Aogiri, e, dentro do possível, livre de ghouls. Porém, na verdade o café iria apenas mudar de endereço e a Anteiku continuaria controlando o distrito, só que de forma mais rígida, tornando-o completamente pacífico, e enquanto isso, a principal sede da Aogiri funcionaria exatamente nesse distrito escondendo-a completamente dos investigadores.

Aparentemente um plano perfeito, usar um distrito "sem ghouls" como esconderijo para a maior organização ghoul do Japão, tornando sua sede segura. Entretanto, havia a variável da CCG descobrir seus planos, ou encontrar ghouls onde não deveria, e para isso, seria necessário tempo para avaliar a situação e constatar se era seguro continuar com o plano, ou a Anteiku deveria mudar de distrito para proteger seus membros. E para isso, alguém de confiança que avaliasse a situação era primordial, pois poderia ser facilmente uma jogada da Aogiri para exterminar a Anteiku (organização com objetivos opostos), ou da Anteiku para tramar um ataque da CCG a Aogiri.

— Se o Kaneki-kun e o Ayato-kun forem os sentinelas, acho que não temos mais pontos a serem discutidos em minha opinião. — Declarou Yoshimura, observando os dois garotos com um breve sorriso em vê-los ali tão juntinhos.

— Fico satisfeito em concordar. — Respondeu Tatara trocando um aperto de mãos com o mais velho. — Vou preparar alguns esquadrões e... Yoshimura-san, posso pedir-lhe algo complexo? — Indagou já de pé, quase de saída.

— Pois não? — Respondeu educadamente o senhor.

— Encontre sua filha. — Ditou para surpresa total da sala. — Ela não vai reagir bem a principio, mas... Vai ser importante para ela saber que não foi totalmente indesejada nesse mundo. — Ditou com um ar solene, fazendo metade da sala entrar em choque e o ghoul líder da Anteiku lhe responder com um aceno afirmativo.

— Eu sabia que você gostava da Eto. — Interviu Ayato com um risinho de lado. — Só um homem muito apaixonado convive direto com aquela louca. — Comentou com um ar zombeteiro, recebendo um olhar ácido em resposta.

— Eu tenho visto você agindo como uma colegial apaixonada todo esse tempo e não fiz nenhuma crítica ao seu comportamento. — Ditou o maior com um ar sério, fazendo todos na sala esperarem um surto de raiva por parte do azulado com as palavras "colegial apaixonada", que simplesmente... Não veio.

Até mesmo Kaneki estava genuinamente surpreso quando o menor apenas fez um carinho delicado na sua nuca antes de responder.

— Eu tenho coragem de deixar claro o que eu sinto, vou muito melhor como uma “colegial apaixonada" do que você como uma uma colegial apaixonada incubada. — Devolveu quebrando a tensão da sala, ainda mais com a gargalhada escandalosa de Noro.

— Você e seu dom de me arrastar para discussões inúteis. — Suspirou Tatara também sem se abalar. — A propósito, eu quero que você lidere seu esquadrão outra vez esta noite, no fim, permaneceram todos fiéis a você. — Ditou observando o menor se afastando de mãos dadas com o meio ghoul que tinha um ar triunfante sobre Tatara.

— Então avise que eu vou atrasar, temos um resgate antes disso. — Avisou trocando um olhar com Kaneki que mesmo parecendo calmo, por dentro estava a ponto de fugir pela janela se não precisasse do Kirishima para saber onde o amigo estava.

— O Hide foi sequestrado. — Explicou a situação a Yoshimura que logo imaginou o estado que o albino deveria estar, oferecendo seu apoio se fosse o caso.

— Você está indo resgatar um humano? — Indagou Tatara em um tom desaprovador.

— É sério isso? Tá maluco cara? — Questionou Noro, sem disfarçar a surpresa.

— A vida é minha, eu faço o que eu quiser. — Respondeu apenas, antes de deixar a sala.

— — — — — Agora — — — — -

As vezes Kaneki duvidava se seu adorável e baixinho namorado não tinha um trato direto com o próprio Satanás. Havia acontecido exatamente como ele havia dito, depois de atirar de três direções diferentes, os investigadores eram exatamente como formigas desorientadas correndo para todos os lados e entrar sem ser notado acabou nem sendo algo tão trabalhoso. Afinal, se não fossem notados na entrada teriam mais tempo para procurar antes de perder tempo com lutas, e tempo era tudo o que não podiam perder aquela noite.

Kaneki sentia-se terrivelmente nervoso, como se fosse vomitar. Já havia cruzado com Ayato quatro vezes e nada de encontrarem Hide. E quanto mais fundo iam no prédio, mais perigosa se tornava a situação pois, além de terminarem encurralados, demorariam um tempo maior para sair. Sem contar que não tinham mais como fugir aquela altura se algo desse errado.

Desceu uma escada encontrando mais um nível cheio de corredores e aparentemente vazio. Bem, não era como se fosse ficar para verificar. Correu pelo corredor parando em frente a cada porta, verificando se havia algum som ou cheiro, por menor que fosse, que indicasse que Hide estivera ou estava ali.

Nada.

Dois andares e três corredores depois, e nada.

Até mesmo Ayato, frio como gelo em suas missões, já começava a ficar apreensivo, Kaneki podia ver a incerteza naqueles olhos azuis, e isso o assustava ainda mais. Seu coração quase saltava fora e seu corpo suava frio.

Não podia perder seu melhor amigo... Não podia... Não podia... Não podia... Não podia... Não podia... Não podia... Não podia...

Em um ato reflexo, agarrou o vulto que passou ligeiramente ao seu lado, fazendo o Kirishima quase tropeçar nos próprios pés com a parada brusca.

— Parou de procurar por quê? — Reclamou Ayato já ofegante.

— E se ele não estiver aqui? E se... — Iria começar a divagar quando levo um tapa em sua máscara que cobria seus lábios.

— Olha, eu não te disse por falta de tempo, mas... Ele não ligou para avisar do ataque? — Sussurrou vendo o maior afirmar com a cabeça. — Pois bem, foi nesse momento em que ele foi pego, eu ouvi. Calcule as horas e lembre-se que estavam organizando um ataque. Não tem como terem movido ele daqui. — Falou em um tom seguro, passando um pouco de calma para o mais velho que mal se aguentava parado sem aparentar estar a beira de uma crise nervosa.

— Ok, você tem razão... — Respirou fundo por um momento, até que uma ideia estúpida veio a sua mente.

Puxou o celular e discou o número de Hide sob o olhar crítico de Ayato que gritava um "o que diabos pretende com isso?", até que ouviu o toque escandaloso do celular do loiro vindo de uma sala ao fundo do corredor.

Sem ter muita ideia do que poderiam encontrar, os dois se encararam brevemente e correram na direção do toque, chegando em segundos e arrobando a porta, encontrando uma ampla sala, cheia de estantes até o final.

— Eu sinto o cheiro dele... E de um monte de humanos. — Comentou o menor trocando um olhar de alerta com o albino.

Cuidadosamente, fecharam a porta e acenderam a luz da sala, já se preparando para um ataque... Que não veio. Não havia nenhum outro som de respiração ali além da deles dois. Trocaram outro olhar confuso, continuando a seguir o celular que se esgoelava enquanto isso. Até que chegaram em uma estante.

Agora, Kaneki finalmente reparava no que ocupava aquelas estantes. Eram caixas, várias caixas, uma sala inteira delas. Cada uma tinha uma etiqueta com algumas informações, mas apenas duas realmente chamaram sua atenção.

O nome, e a data do óbito.

— Tá de sacanagem... — Murmurou o Kirishima. — Isso tudo... São pessoas apagadas pela própria CCG?! — Indagou pasmo.

— N-Não... Não poder ser verdade. — Kaneki segurava a caixa que tinha o nome e os pertences do seu melhor amigo já sentindo seus olhos embaçados.

Não podia ser. Não iria suportar.

— Tsc. Aquele cara é esperto demais pra morrer assim. — Resmungou o menor andando de um lado para o outro. Respirou fundo também. — Me dá isso. — Apontou para a caixa, vendo o olhar vidrado do mais velho.

— O q-que vai fazer? — Indagou quase sem voz.

— Farejar. Literalmente. — Abriu a caixa nos braços do maior, tirando uma jaqueta laranja dali e trazendo próximo ao nariz. Agora tinha uma memória muito mais precisa e seletiva do cheiro do loiro. — Tente também. — Ditou vendo o albino fazer o mesmo, seu cenho franzindo ao sentir cheiro de sangue.

Sem mais palavras, saíram de novo para o corredor indo novamente em direções opostas. Ayato por ser um ghoul completo tinha um olfato muito mais aguçado, mas sua memoria nem se comparava a precisão de Kaneki ao lembrar do cheiro do melhor amigo que passou quase a vida toda ao seu lado.

Mais cinco corredores.

O desespero era quase palpável. Já podiam ouvir a movimentação dos investigadores vindo atrás deles no andar de cima. Horas depois da sua entrada. Deveriam ter visto as câmeras de segurança.

Dez corredores.

Precisavam encontrá-lo. E logo. O circo estava se fechando para os dois.

Doze corredores.

Kaneki parou bruscamente, seus pés quase deixando uma marca do chão com a velocidade em que se moviam. Abriu a porta ao seu lado com um chute, encontrando uma sala completamente revirada.

Havia sangue em várias partes.

"Sangue de Hide." Constatou com um aperto esmagador no peito.

Avaliou melhor a situação, se negando a cair no desespero, e agora podia perceber uma cadeira de metal amassada no chão, e no cantinho da sala, meio escondido atrás do armário, havia um corpo.

Avançou cada passo tremendo por dentro, até finalmente espiar e...

Era um homem alto e forte, amarrado com algum tipo de plástico e sem seu uniforme. A palavra "otário" rabiscada em sua testa com uma caligrafia bagunçada que conhecia bem demais.

Acabou sorrindo sem perceber.

Ouviu um assobio vindo de Ayato ao fundo e disparou naquela direção sem pensar duas vezes, estava tão eufórico que quase poderia atravessar todas as paredes que o levavam até aquele corredor.

Seu coração parou uma batida.

Ainda corria em direção ao som quando, da última porta daquele andar- a porta da escada de incêndio — saiu Ayato, que por alguma razão correu para o outro corredor, e Hide, que mal conseguia se apoiar de pé, encostando-se a parede branca, manchando-a de rubro.

O loiro estava completamente machucado, um de seus braços tinha uma posição estranha (provavelmente quebrado) e estava fora da manga do sobretudo branco de investigador (que deveria ser do cara amarrado na outra sala), seu corpo tremia, não sabia se por dor ou fadiga muscular, e seus olhos marejavam ao encarar o melhor amigo.

— BaKaneki! O que veio fazer aqui?! — Exasperou, mas não teve tempo de dizer mais nada quando o albino quase voou em sua direção, o prendendo em um abraço emocionado.

— Hide... Eu... — Desistiu de formular qualquer frase, não queria saber de mais nada. Só de tê-lo ali, junto a si, e vivo.

— E-Eu tava morrendo de medo também. — Confessou o loiro com a voz embargada, completando a frase do albino se deixando cair naquele abraço, e logo sentiu o outro levantá-lo gentilmente do chão, erguendo-o em seus braços sem dificuldade. — Wow, quando ficou forte desse jeito? — Riu de lado passando os braços em volta do pescoço do amigo, ainda estranhando vê-lo com aquela máscara que só revelava um olho de íris vermelha.

— Enquanto eu for vivo, ninguém nunca mais vai tocar em você. — Ditou em um tom sério que causou um arrepio na coluna do loiro. Ainda não tinha se acostumado por completo com aquele temperamento mais forte do seu amigo anteriormente quietinho e tímido, e ás vezes ainda era pego de surpresa ao perceber como alguém tão meigo na sua visão, poderia encarnar um expressão tão assustadora.

Porém, mudado ou não. Seu melhor amigo de toda a sua vida estava ali, vivo e bem.

— Se você já resgatou sua princesa, o que ainda faz parado aí imbecil?! A gente tem que sair daqui! — Ayato voltou correndo e coberto de sangue da luta que tinha acabado de vencer. Logo quando encontrou o loiro na escada de incêndio, havia escutado um grupo de investigadores descendo para aquele andar, por isso só teve tempo de assobiar chamando o parceiro e sair correndo pra dar conta dos inimigos.

— Ayo-chaaan! — Ignorando completamente a gravidade da situação, o Nagachika puxou o pequeno com seu braço bom para um abraço apertando, sem se importar em ficar ainda mais ensanguentado do que já estava. O que ao mesmo tempo deixou o Kirishima despreparado, afinal, duvidava que um humano o tocaria estando coberto de sangue daquele jeito... Bem, duvidava de muita coisa dos humanos até conhecer Hideyoshi Nagachika.

— M-M-Mas que porra?? — Ayato tentou se afastar, mas o loiro parecia tão quebrado que não teve coragem de empurrar muito forte.

— Sabe, obrigado por cuidar do meu amigo. — Sussurrou baixo, de forma que só o menor ouvisse suas palavras. — Vocês dois são doidos de virem aqui por minha causa! Pensei ter dito pra não fazer nada idiota! — Completou mais alto, com um tom bem humorado, mesmo sua voz saindo dolorida.

— Tsc. E desde quando eu faço algo idiota? — Resmungou Ayato finalmente se soltando do abraço do loiro. — Idiota seria ter te deixado aqui. E família não se deixa para trás. — Concluiu desviando o olhar ao se lembrar da irmã.

— F-Família? — Indagou Hide confusamente.

— Vocês dois, são família, não é? Mesmo sem ser parentes. Tá na cara. — Explicou em um tom displicente. — E essa moça aí já estava chorando procurando você. — Apontou para Kaneki que corou de imediato com a afirmação.

— Eu tava nervoso! É diferente! — Rebateu o albino de imediato.

— Tava chorando sim, só faltou se enrolar naquela jaqueta laranja e ir chorar no cantinho. — Devolveu o Kirishima com um risinho sarcástico.

— Awn cara, vem cá, dá um abraço. -Hide puxou o amigo para um abraço apertado, mesmo sendo meio dolorido devido ao estado em que estava. Sinceramente, nem queria se imaginar no lugar do albino, afinal, havia quase o perdido uma vez e sentiu como se seu coração congelasse, não queria imaginar como seria receber a notícia de que ele fora sequestrado.

Alguns tiros interromperam o momento e automaticamente os dois ghouls entraram em posição de alerta.

— Eu vou na frente. — Ditou Ayato colocando sua máscara de volta no lugar e libertando as grandes asas que pareciam em chamas.

Essa era a terceira e ultima vez que mudava de mascara, usava uma de coelho, completamente negra. E não por acaso, iria desviar os crimes da irmã para si, de forma que quando caçassem "O Coelho" fossem atrás dele.

— Kaneki, uma coisa... — Ditou o azulado se virando para ver o mais velho segurando o amigo nos braços, quatro tentáculos serpenteado a sua frente para desviar qualquer ataque.

— O quê? — Indagou o albino fechando o zíper da máscara. Sinceramente não era um bom momento para o cheiro do sangue de Hide estar invadindo suas narinas.

— Você não vai querer que ele veja. — Alertou correndo para a luta logo em seguida.

Respirando fundo, o albino segurou mais firmemente o Nagachika em seus braços, de forma que ele não balançasse muito durante a luta e piorasse seus ferimentos.

— Desculpe Hide, e-eu... Eu nunca quis ser um assassino. — Sussurrou fechando os olhos do amigo. Não era como nos filmes, ver o sangue espirrando, a carne rasgando, órgãos espalhados pelo chão e os gritos e expressões de horror... Tudo ao vivo era intenso o suficiente para mudar uma pessoa, e Kaneki jamais permitiria que seu Hide mudasse.

— Não quero ouvir a palavra “assassino" ofendendo alguém que apenas luta para proteger. — Devolveu o loiro tentando não pensar no que aconteceria ali.

Quando mais novo, Hideyoshi costumava ver muitos filmes e séries americanas sobre assassinatos mirabolantes, e, tinha que admitir a si mesmo, que já se imaginou varias vezes no lugar do assassino. Pensava em como fugiria da cena, como plantaria pistas falsas, que armas usaria, onde esconderia o corpo... Porém, curiosamente, nunca imaginou como seria o rosto da vitima na hora que a estivesse matando.

E enquanto saiam de dentro do prédio, quando os sons da batalha alcançavam seus ouvidos, e sentia alguns respingos de sangue quente, sangue vivo, tinha cada vez mais certeza de que estava certo em nunca ter imaginado.

Ouvia o som de tiros, ossos quebrando, carne rasgada, corpos ao chão sendo pisoteados, esmigalhados... E mesmo sem ver nada, já se sentia enjoando, seu estômago revirando com o cheiro forte de sangue.

Por isso, quando finalmente sentiu o ar noturno sobre seu rosto, teve certeza que foi uma das sensações mais aliviantes da sua vida.

Quando a mão de seu amigo saiu do seu rosto, o loiro demorou alguns segundos antes de finalmente abrir os olhos, mirando aquele céu poluído e quase sem estrelas da grande Tokyo, e sinceramente, nunca ele lhe pareceu tão belo.

"Então essa é a sensação de sobreviver?" Meditou amargamente por um momento, mas logo dispersou o sentimento de culpa.

Havia feito uma escolha há muito tempo atrás quando decidiu continuar ao lado de seu melhor amigo, a pessoa mais preciosa que tinha, mesmo ele sendo um ghoul, e ainda seguir seus rastros quando ele desapareceu. Não se arrependia minimamente e estava disposto a enfrentar as consequências de sua escolha de cabeça erguida.

Enquanto a vida humana era um caminho cheio de amarras, restrições sociais e obrigações, porém tranquilo, a vida de um ghoul era um caminho livre, porém cheio de perigos e completamente marcado com sangue, onde era necessário ser forte para segui-lo.

— Eu olho para o Ayato e vejo Carrie, A Estranha, na noite do baile. — Comentou bem humorado, lembrando-se da cena clássica do filme onde a garota toma um banho de sangue de porco, fazendo Kaneki rir mesmo que involuntariamente. Haviam assistido aquele filme quando ainda estavam no ensino médio.

— Ele é pior, vai por mim. — Devolveu o albino observando o menor um pouco mais distante dos dois lambendo as mãos satisfeito, quase como uma criança que se melou com chocolate. Mas sinceramente, não iria se preocupar com a conduta do Kirishima (que parecia até feliz depois de tanta morte) estava aliviado demais com o fato de Hide não ter tido uma reação muito negativa àquela fuga.

— As damas vão passar a noite aí? — Indagou Ayato ainda lambendo um dos dedos, fazendo Kaneki se estapear mentalmente por ter pensamentos impróprios numa hora daquelas.

— Você é sempre apressadinho assim? — Indagou Hide com um ar de riso. — Sempre...?— Adicionou maliciosamente, vendo a expressão chocada do mais novo.

Kaneki viu que seu baixinho ia responder com algo ainda mais afiado, mas a passagem de um helicóptero nas proximidades — certamente levando agentes ate o ataque a Anteiku — e um vento frio como a morte, trazendo uma enxurrada de cheiros diferentes, o parou.

Dentre todos aqueles cheiros, havia um familiar. Literalmente familiar.

— O-Otou-san... — O chamado escapou dos lábios do azulado involuntariamente, e nesse momento o meio-ghoul sentiu sua espinha congelando, também reconhecendo o cheiro.

Buscou o olhar daqueles olhos profundamente azuis e sempre tão tempestuosos, mas já era tarde, Ayato ja tinha abaixado a máscara de coelho negro, logo levantando o focinho e cobrindo os lábios avermelhados de sangue. Sinceramente, Kaneki não precisava ver sua expressão para saber o que ela refletia, já havia visto antes, e se lembrava bem de como era olhar naqueles olhos e ver que sua alma era apenas ódio por dentro.

— Eu... Vejo você mais tarde. — Ditou em um tom frio e seco antes de correr e sumir tão rapidamente que o albino não teve tempo nem de lhe lançar uma última palavra.

Sabia que Ayato estava irado e devastado, e tinha certeza que, depois daquela luta na prisão ghoul, aquilo não terminaria bem. E esperava sinceramente que terminasse mal para o outro lado e não para o seu.

— Ele foi atrás do pai? Porque ele estaria em um helicóptero da CCG? Não me diga que... — Hide falava e cada palavra a gravidade da situação ficava mais e mais clara na sua mente.

— Sim, o pai dele é um quinque armadura agora. — Murmurou o albino correndo na direção oposta, precisava deixar seu amigo em um local seguro, onde Yomo mantinha Touka, Hinami e mais outros membros que iriam ficar longe da confusão.

— E como os investigadores costumam usar quinques que eles próprios caçaram... — "Oh merda" Pensou o loiro se imaginando naquela situação. Lutar contra alguém que matou seu pai e o usava como um objeto agora.

— Eu só espero que ele cumpra a promessa. — Murmurou Kaneki sentindo um aperto no peito.

— — — Flashback — — -

— Você prefere eles, não é? — Indagou o azulado. Sua kagune se movia como asas de fogo acima de seus ombros, decorando o cenário mórbido daquele beco.

— Não. — Deu de ombros. — Alguém bem teimoso me ensinou que eu sou um fodendo ghoul, e devo me orgulhar. — Sorriu de lado, levando a mão até o menor que a afastou com um tapa forte.

— E porque o deixou fugir? — O tom de acusação era evidente.

— Eu não vou me colocar no seu caminho. Quando a Touka-chan os atacou eu também não impedi, porém... — Se aproximou rapidamente devolvendo um belo soco que fez Ayato tropeçar para trás. — Tenha o mínimo de senso e enfrente-os quando estiver em condições! E não lutando como uma besta estúpida, quer morrer, imbecil? — Se exaltou perdendo realmente as estribeiras, presando Ayato na parede com força o suficiente para o atordoar e ao mesmo tempo verificando cada ferimento em seu corpo. — Um momento de azar e eu teria perdido você também. — Terminou por fim, um tanto ofegante por ter gritado.

— Você não vai me perder idiota. Não sou fraco assim. — Resmungou tentando tirar aquele olhar de preocupação do rosto do maior.

— Mas seu ódio é mais forte que você. — Tocou o rosto do menor sem ser repelido dessa vez. — Eu tenho medo que um dia isso ainda te mate. — Deslizou a mão pelo rosto sujo de sangue e antes que o soltasse, o Kirishima segurou sua mão.

E foi assim, impulsivo como sempre fora, que simplesmente se lançou a frente, tocando seus lábios nos do albino, sentindo suas próprias emoções acumuladas se remexerem confusamente.

Poucos segundos depois, encerrou o toque, mas ainda se mantendo perto o suficiente para suas respirações se misturarem.

— Aqueles miseráveis tiraram quase tudo de mim, eu não vou deixar que façam isso com a gente. — Falou decidido. Fazendo um arrepio correr pela nuca de Kaneki que não conseguia reagir, e nem se desviar daqueles olhos.

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"Eu realmente espero que ele não perca para o ódio." Desejou quase como uma oração para qualquer entidade que pudesse ouvi-lo.

Queria ter um futuro, e um futuro onde todos que ama estivessem nele.

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Notas finais
* Gente, o flashback se refere ao final do cap 05, no primeiro bejo dos dois. Então, o que acharam? Que cenas vocês mais gostaram? Por favor comentem e me digam, vocês sabem que eu amo tagarelar o/ Esse foi o primeiro cap em que a minha cena favorita não foi pegação heueheu (aquela "briga" deles logo no comecinho bem que foi boa de imaginar), mas sim escrever o lado do Hide das coisas, como é difícil para ele também, mesmo que não pareça. E também a negociação entre a Aogiri e a Anteiku. Muitooo obrigada a todos :3 Kissus ~