Por trás do olhar.
14 Quando eu vi... A verdade escondida em seu coração(parte 01)
Notas iniciais
Com uma chamada rápida no celular, a porta metálica logo foi aberta e pode ver em primeira mão a expressão pasma de Touka ao ver o estado do loiro em seus braços.
Yomo apareceu logo em seguida, com uma Hinami apreensiva logo atrás. Pelo burburinho, havia mais gente ali, mais ghouls, e Kaneki já começava a se perguntar se era mesmo uma boa ideia deixar seu melhor amigo ali, se até para si mesmo, era obrigado a admitir que o cheiro daquele sangue era tentador.
—Ele precisa de um hospital! — Exclamou a Kirishima enquanto o albino colocava o amigo cuidadosamente na cama em um quarto afastado.
— Impossível. — Respondeu o meio-ghoul angustiado. — A CCG tentou matá-lo. Se o virem em qualquer lugar…
— Mas ele é humano… Não é? — Murmurou a pequena trazendo toalhas e água morna, para ajudar nos ferimentos do recém chegado.
— Esses desgraçados não se importam nem com a própria espécie. — Resmungou Touka irritada.
— Pois é, eu sou uma má influência agora, gata. — O loiro piscou divertidamente para a garota que não acreditava como alguém poderia parecer tão tranquilo naquele estado.
— Seja como for, vamos apenas encarar os fatos e fazer o que está ao nosso alcance. — Ditou Yomo Renji entrando no quarto com uma caixa de medicamentos e alguns utensílios necessários. — Não sou médico, mas já consertei muitos ossos quebrados e membros perdidos, vou fazer o melhor que posso. — Apoiou a mão no ombro de Kaneki em um aperto leve e gentil, e apenas isso lhe enviou uma repentina onda de tranquilidade. Sabia que podia confiar Hide àquele homem, instintivamente, só de olhar naquelas orbes profundas, poderia ver sentimentos e promessas que jamais poderiam ser descritos em palavras.
— Meu pai era médico, vou ajudar também. — Se candidatou Hinami, já arrumando o loiro em uma posição em que pudessem trabalhar nele sem causar tanta dor.
— Obrigado Yomo-san, e Hinami-chan. — Respirou fundo, se levantando lentamente da borda da cama.
— Infelizmente não temos anestesia. — Alertou Renji com um ar preocupado, trocando um longo olhar com Hinami.
— Não se preocupem, eu aguento. — Sorriu de lado, mas o albino podia ver como seu sorriso tremia quase imperceptivelmente.
— M-Mas… — Hinami procurava pensar em alguma coisa, algo que tornasse o que iam fazer menos torturante.
— Ora, que tipo de homem seria eu se chorasse na frente de uma princesa como você? — Sorriu para a pequena que sorriu timidamente de volta, começando a lidar com os ferimentos mais superficiais.
“ Me perdoe Hide… Se não fosse eu, você certamente não estaria tão mal. Nunca.” Kaneki se forçou a engolir o nó de espinhos em sua garganta e se lançou nos corredores apressadamente. Ainda tinha outra batalha para lutar, mais pessoas para proteger.
E a outra metade do seu coração estava lá, se arriscando naquele inferno.
Só percebeu que vinha sendo seguindo por Touka quando ela parou repentinamente na sua frente, quase o fazendo atropelá-la se não tivesse dado uns dois passos para trás.
— Eu vou com você. — Ditou séria e resoluta.
— Não vai não. — Devolveu no mesmo tom, encarando a garota de cima por uma questão de altura e intimidação. — Não vou permitir.
— Tá acontecendo alguma merda com o Ayato, eu vi pela sua cara quando entrou aqui. — Devolveu sem sem se abalar com a aura perigosa do albino. — E se você acha que vai me manter aqui, eu tenho certeza que seus neurônios corroeram. — Ditou em um tom baixo, mas que poderia deixar claro a uma cidade inteira que nada a faria mudar de ideia.
— Então você vai abandonar tudo pelo que lutou até agora? — Rebateu vendo o olhar da garota vacilar. — Um lugar na sociedade, amigos na escola, universidade… Um futuro sem todo esse sangue, sem toda a dor que você foi obrigada a passar apenas por ter nascido um ghoul. Vai abandonar tudo por apenas uma noite? — Seu tom era frio e suas palavras eram duras, porém verdadeiras. Mesmo assim, só percebeu o quanto havia sido cruel quando viu os olhos azuis como safiras marejarem.
— Então não existe lugar para vocês dois no caminho que escolhi, é isso? — Fungou rapidamente, tentando se recompor. — Eu preciso decidir entre uma vida que eu sempre sonhei e meus amigos e família?
— Se você for vista Touka, nunca mais poderá voltar… — Iria terminar de falar, porem foi interrompido por um tapa forte e sonoro, o suficiente para fazer metade de seu rosto queimar. Se ainda fosse humano, certamente teria os dedos dela ainda gravados no rosto no dia seguinte.
— Você achou mesmo que eu iria ter alguma dificuldade para decidir? Quem porra você acha que eu sou? — Gritou alto socando a parede, se acalmando um pouco antes de continuar falando. — Quem merda iria querer uma fodida vida perfeita sem as pessoas que você mais ama? — Murmurou baixinho, seu cabelo cobrindo totalmente seu rosto, de forma que o albino não podia ver sua expressão.
— Não use sua mascara de coelho. — Kaneki se deu por vencido. A teimosia Kirishima era algo duro demais para se atravessar mais de uma vez no mesmo dia.
— Uh? — Touka ergueu o rosto confusamente.
— Ayato tomou seu lugar, acho que isso basta para limpar sua ficha. — Ditou vendo o ar pasmo da garota. — E… Já que você vai estar lá, eu preciso te pedir um favor. Já que você está disposta a arriscar tanto. — Respirou fundo pensando bem em cada palavra.
“ Eu não quero mais ninguém ferido pela minha estupidez, pelos meus erros, pelo fato de eu ser um erro…”
— E o que seria?
— Eu preciso que se disfarce como alguém da Aogiri, e vigie tudo de cima. — Viu o ar confuso da Kirishima com a proposta estranha. — Eu não fico muito bem da cabeça quando estou lutando, Touka-chan, e em algum momento, eu vou me perder. Eu não serei mais eu mesmo.
— Como assim? O que merda está dize…
— O Ayato é o único que não tem medo de mim quando isso acontece. E ele não sabe o quanto está errado, então… Quando eu perder o controle, ele vai correr até mim. — Seu tom denunciava como lhe doía apenas imaginar as consequências disso.
— Kaneki…
— Eu te imploro Touka-chan, se você ama seu irmão. Não importa o que ele diga ou faça, o leve o mais longe de mim que você puder. — Segurou uma das mãos da garota, apertando um pouco mais forte do que desejava, vendo-a olhar profundamente em seus olhos e concordar com um aceno firme.
Já havia pensando em um plano para aquela noite. Agora era rezar para que, se existisse algum Deus vendo esse mundo errado e distorcido de cima, o ajudasse a proteger as pessoas que mais amava.
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Havia uma pilha de cadáveres cobrindo toda a avenida, um cenário macabro e horrendo, digno de um filme de horror bem dirigido, mas para os subordinados do Kirishima, uma prova de que o ex-membro da Aogiri tinha voltado ainda mais sanguinário do que antes. E isso definitivamente não era algo ruim na visão deles.
Ayato sentia seu corpo queimando de ódio de dentro para fora. Desde que pôs o pés no campo de batalha, havia matado sem parar e sem ver quem era. Havia algo em seu coração, algo selvagem e violento que batia contra suas costelas exigindo liberdade, sentia-se como se o demônio dentro de si quisesse fugir para causar calamidade na terra, queria destruir aquela cidade, arrastar todos ao inferno agonizante em que se encontrava agora.
Ódio era muito pouco para definir algo tão destrutivo.
Enquanto seus antigos subordinados se mantinham comendo a uma distância segura (ninguém seria louco de se aproximar de si agora), Ayato se movia pela rua, que mais parecia uma vala para depositar corpos, esmagando o rosto de um ou outro sob a sola da sua bota simplesmente para diminuir a irritação. E nem mesmo sentir os ossos do crânio quebrados e a carne esmagada sobre os seus pés o fazia imaginar aqueles seres menos odiáveis. Misericórdia e empatia eram sentimentos que haviam sido varridos de seu interior.
Sentiu aquele cheiro se aproximar e teve certeza de que aquele investigador vinha na sua direção. Afinal, era muito mais fácil atraí-lo com uma breve demonstração da sua raiva, do que caçá-lo no meio de todos aqueles humanos.
E como previu, a armadura estava lá, parecendo intacta dessa vez, coberta de sangue de outros ghouls que ele deveria ter abatido.
“Como se eu fosse permitir que isso continue.”
Faria aquele homem se arrepender do dia em que capturou seu pai e os deixou sozinhos, iria se arrepender de tê-lo transformando em uma arma contra sua própria especie, na verdade… Faria aquele homem se arrepender da primeira respiração que deu quando chegou a esse mundo.
Do outro lado do quarteirão, Shinohara encarava o cenário completamente horrorizado. Sentia seu estômago embrulhar com o cheiro extremamente forte de sangue, e com a visão horrenda que tinha, com orgãos espalhados pelo chão e membros decepados. Ainda pior, todos de pessoas que conhecia, poderia dizer o nome de quase todos, já havia sido professor na academia da grande maioria, cruzava com eles diariamente pelos corredores da CCG, conhecia suas famílias, esposas, filhos…
Estava diante da maior monstruosidade que já vira alguém fazer.
Viu o ghoul com máscara de coelho negro sinalizar para que os outros próximos se afastassem, começando a avançar lentamente na sua direção. Aquela máscara… Lembrava-se de Mado Kureo, morto pela Fueguchi em parceria com o Coelho...
Ayato queimava por dentro, era tanto ódio que seu corpo tremia e sua garganta queimava. Seus olhos fixos na armadura. Ergueu a metade superior da máscara que continha o rosto e as orelhas de coelho, mantendo apenas o focinho que funcionava como uma meia máscara como a sua anterior, queria olhar bem nos olhos dele quando estivesse o matando.
— V-Você…? — Shinohara murmurou surpreso. Lembrava-se daquele ghoul, havia sido na sua luta com ele que seu Arata tinha começado a travar inexplicavelmente, retardando seus movimentos e fazendo-o perder mais sangue.
Dessa vez havia algo de diferente nos olhos sangrentos daquele ghoul, algo além da raiva, algo frio e sombrio, algo que o fazia rezar para que sua armadura não travasse outra vez, ou tinha certeza que não sairia inteiro dessa.
— Hey, Otou-san… — Seu tom era frio e trêmulo ao mesmo tempo, seu emocional mais parecia um furacão. — Olha só o que seus amados humanos fizeram com você… — Seus passos na direção do investigador eram lentos, mas sem hesitação. — Mas não sei preocupe, você estava errado quando disse que eu era como você, não vou cometer os mesmo erros. — Libertou a kagune repentinamente, suas asas flamejantes atingindo uma envergadura impressionante e assustadora. — Eu vou arrancar esse parasita de dentro de você… Membro por membro.
E foi então que a realização alcançou a mente do investigador. Ele e Mado haviam capturado o ghoul chamado de “Acumulador de Corpos”, Arata Kirishima, e posteriormente, indagando a vizinhança sobre sua vida, descobriram que tinha dois filhos bem novos, e foram em busca da prole do único ghoul kakuja que conseguiram capturar.
Quando capturou Arata, sabia bem de seu modo de vida, afinal, não era chamado de "Acumulador de Corpos" á toa. Sabia que era um uma espécie de ghoul aparentemente pacifico, mas ainda assim, era um ghoul, e era um risco á sociedade, ainda mais um kakuja. E por trás de tudo isso, haviam os interesses da CCG em desenvolver um novo tipo de quinque que permitisse aos investigadores lutarem contra ghouls de classe S ou SS. Certamente valia o sacrifício. Um monstro que tentava rastejar para fora da escuridão em troca de várias vidas inocentes.
Porém, depois daquela missão, enquanto andava pelo bairro onde o Acumulador de Corpos vivia em busca de seus filhos, que com certeza eram bem novinhos ainda, começou a sentir o peso de suas ações. Tinha filhos e uma esposa amorosa, e se ele fosse morto em missão, como sua família se sentiria? Seus filhos também eram demasiado pequenos... O quão sofrido e solitário seria para eles?
Sentiu um peso no coração. Por mais que durante sua formação como investigador tivesse aprendido que ghouls eram animais que simulavam o comportamento humano com o objetivo de comover os investigadores e escapar da morte, com o tempo de profissão, Shinohara pode ver que a simulação era real, eles tinham pais, filhos, irmãos, sentimentos, e amavam seus entes queridos tanto quanto os humanos. Porém não podia deixar de lutar apenas por isso, tinha uma família e civis para proteger.
Agora, tinha todas as respostas a essas perguntas nos olhos negros daquele ghoul. Havia um vazio frio e escuro por trás daquelas orbes vermelhas que o deixava inquieto. Se perguntava, se Arata tivesse tido a chance de criar seus filhos, seriam eles pacíficos como o pai…? Talvez, não era hora de pensar nisso agora. Ser morto por um garoto com idade pra ser seu filho não estava em seus planos para essa noite.
Participava da erradicação da Anteiku porque era necessário, não porque era seu desejo. Não havia sido capaz de ver maldade nos olhos do Gerente daquele café, apenas uma serenidade e um cansaço típicos de quem já viu coisas demais nesse mundo. Aquilo o incomodava, sentia que aquele senhor estava muito distante de ser a Coruja que havia cruelmente assassinado vários de seus companheiros, e tinha uma teoria sobre isso, sobre haverem duas Corujas… Mas bem, apenas essa noite poderiam verificar a veracidade dessa teoria.
E para isso, tinha que matar esse Coelho maldito.
Se preparou para receber um ataque no mesmo segundo que aquele ghoul desapareceu da sua frente em uma velocidade impressionante. Sentia um frio estranho e pesado sobre seus ombros, como se a morte estivesse respirando bem atrás de si.
“Eu vou arrancar esse parasita de dentro de você… Membro por membro.”
Só de ouvir aquele tom teve certeza de que aquelas palavras não eram promessas vazias.
Sentiu todo o corpo travar quando defendeu o primeiro golpe, que veio com muito mais força do que estava prevendo, mas nada que não pudesse segurar, ainda mais com a armadura impedindo seus ossos de partirem. E foi então que uma sequência extremamente rápida de golpes se iniciou. Socos, chutes, joelhadas e rajadas de farpas pontiagudas vinham de todas as direções, assim como os rosnados ensandecidos daquele ghoul que não parecia ter mais nada de racional em sua mente. Ouviu uma chamada no rádio, provavelmente feita por Suzuya, mas não se atreveu a responder.
Seu corpo estava constantemente sendo bombardeado, uma distração, e aquela luta iria pender favoravelmente para o lado inimigo.
O músculos de seus braços queimavam com a velocidade com que movia sua quinque pesada, mas não podia parar. Não iria morrer, não iria deixar sua família sozinha, não faria seu filho crescer com um desejo de vingança em seu peito e viver em função disso, como via várias vezes na CCG. Queria ver sua família bem, protegida, e feliz, e lutaria até suas últimas forças por isso.
Depois de minutos seguidos de combate onde os dois lados se enfrentavam de igual por igual, Shinohara percebeu uma abertura nos movimentos velozes do ukaku, provavelmente causada pela frustração de não conseguir acertar o investigador por todo esse tempo.
Era sua chance.
Tão rápido que seu cérebro mal acompanhava os movimentos reflexos de seu corpo, avançou em um ataque que certamente seria letal para o inimigo e salvaria a sua vida.
E foi então que o que mais temia aconteceu.
A centímetros de acertar o peito do garoto, sua armadura travou pesadamente.
Só teve tempo de puxar o ar uma última vez quando viu o garoto entrar na sua guarda e avançar na sua direção. E depois veio a dor. Uma dor quente e lancinante que com certeza o teria feito entrar em choque se já não tivesse tanto tempo naquela profissão.
E então sentiu a neve nas suas costas.
Seus dois joelhos haviam sido torcidos de forma que agora seus pés apontavam para trás em uma posição macabra e agonizante.
Uma risada que só demonstrava a mais pura satisfação veio do monstro acima de si, e Shinohara soube naquele momento, que iria desejar ter morrido antes.
Enquanto via o investigador rosnando de dor no chão a sua frente, as palavras de Kaneki passaram repentinamente na sua cabeça… Sobre investigadores terem família, ou terem perdido a sua família e por isso foram para aquele caminho, mas não conseguia deixar de sentir satisfação em matar aquele desgraçado.. Afinal, os ghouls também tinham família, era uma troca justa, assassino por assassino.
Na verdade, não queria sentir nada naquele momento, apenas aquele ódio flamejante que parecia tornar seu corpo ainda mais forte.
— Você sabe que vão vir reforços, deveria fugir. — Tentou o investigador, pensando em seus filhos que cresceriam sem pai.
— Eu mato eles. — O homem não podia ver, mas dava para ouvir o riso naquelas palavras. — Diga… Você tem alguém te esperando voltar para casa? — Indagou sério, e por um momento, o investigador jurou ter visto alguma humanidade naqueles olhos, e se agarrou àquele brilho melancólico como sua última chance de sobreviver.
— Tenho esposa e filhos. — Respondeu respirando fundo com a dor que subia pelo seu corpo.
— Pois eles vão sentir o mesmo que eu. — Voltou a sorrir, um riso doentio e recheado dos mais desprezíveis sentimentos. — Porque você nunca vai voltar! — Em um movimento brusco, arrancou um dos braços do investigador, manchando a neve pálida com ainda mais sangue.
Shinohara podia sentir a dor e o desespero percorrer seu corpo como se fosse ácido.
“Otou-san… Ninguém nunca mais vai usar você para esse fim. “ Ayato suspirou pesadamente antes de começar a devorar o braço do investigador junto com a armadura, sentindo o gosto amargo da kagune junto ao suculento da carne humana.
Não se demorou muito em começar a devorar o corpo do homem, preenchendo aquela noite infernal com ainda mais gritos de agonia, se focando principalmente na armadura. Não iria deixar resquícios o suficiente para que ela fosse consertada outra vez.
Nunca mais. Ninguém mais ia profanar o cadáver de seu pai outra vez.
Aos poucos, um sentimento estranho começou a percorrer seu corpo, uma força incomum e um calor que entorpecia seus sentidos a ponto de não mais sentir a neve fria sob seus joelhos, não ouvia mais os gritos do investigador que tentava arduamente suportar a tortura, não enxergava mais a suas mãos cobertas de sangue humano e quente.
“ Se você apenas soubesse o quanto eu te amo…”
Pode ouvir claramente a voz rouca e serena de Arata Kirishima em seus ouvidos, e de um segundo para o outro, não estava mais no meio daquela luta, e não havia neve em lugar nenhum.
Piscou por um momento e quando abriu o olhos estava em um parque. O vento suave e fresco bagunçava seus cabelos, e braços quentinhos e aconchegantes o seguravam com carinho e cuidado. Estava no colo de seu pai, balançando calmamente no balanço do parquinho enquanto observavam Touka, com apenas sete anos de idade jogando futebol com algumas crianças da vizinhança.
Aos cinco anos, Ayato não era muito bom em se enturmar. Dez anos depois continuaria não o sendo.
— Então… Você viu a mamãe durante a noite, depois que eu sai? — Indagou o homem roçando o nariz carinhosamente nos cabelos azulados da criança.
— Ninguém nunca acredita em mim, mas ela estava lá. — O menino resmungou emburrado. — Eu a vi bem do lado da aneki, olhando a gente dormir com um sorriso igual ao da aneki! — Ditou em sua vozinha infantil, tentando dar o máximo de seriedade ao que dizia.
— Ora, mas é claro que eu acredito em você, meu bebê. — Deixou um beijo estalado na bochecha rosada. — A mamãe amava vocês demais quando foi embora. Ela deve ter ficado com saudades, e veio ver como vocês cresceram. — Sorriu ao ver o olhar impressionado do menor.
— Ela fica sozinha no céu? Mesmo com aquele monte de estrela junto? — Indagou surpreso. — Mas… Eu também ficaria sozinho sem o papai e a aneki. — Comentou em seguida se aconchegando melhor nos braços do maior.
— Minha mãe me ensinou que há coisas nesse mundo que nunca vão embora. — Falou em seu tom gentil, mas que revelava a importância do que ia dizer. — E uma dessas coisas é o amor. A mamãe se foi, mas o amor que ela tem por vocês nunca irá embora, me entendeu? — Viu o pequeno acenar positivamente com a cabeça e lhe deu um beijo na testa. — Se um dia eu não estiver mais aqui, lembre-se disso. Eu amo você Ayato, você e sua irmã são tudo pra mim, e isso nunca irá embora. Talvez a minha existência nesse mundo acabe um dia, mas meu amor nunca vai acabar, vou ficar vendo vocês lá de cima. Mesmo quando estiverem sozinhos, ou se fizerem algo de muito mal, lembre-se, meu amor sempre vai estar em torno de você, porque foi por eu amar demais a sua mãe que vocês vieram a esse mundo. O amor é algo que se perpetua, e sempre está lá mesmo quando não vemos. — Sorriu de lado apertando a bochecha do pequeno que sorriu também. — Eu vou te amar pra sempre filhote. — Puxou o pequenino para um abraço carinhoso, e forte ao mesmo tempo.
— Eu também vou te amar pra sempre otou-san! — Respondeu o menor devolvendo o abraço.
Aos poucos, Ayato via sua visão clarear, e podia jurar, que seu corpo ainda estava quente, como se ainda estivesse naquela tarde de primavera, nos braços de seu pai, e com sua voz sempre tão calma em seus ouvidos.
Abaixou rapidamente a parte da máscara que cobria seus olhos, jamais deixaria ninguém ver o quanto aquele momento havia mexido consigo. Lágrimas quentes e grossas desciam pelos olhos agora azuis profundos, e seu corpo ainda parecia dormente, como se tivesse acabado de acordar de um sono muito longo.
Sinceramente, nunca sentiu tanta vontade de correr para um lugar seguro como daquela vez.
Havia sido tão real… E ao mesmo tempo era tão impossível de ter acontecido.
Se sentia exposto, como se sua alma estivesse desprotegida no meio de um bosque sombrio com um demônio espreitando a cada sombra.
Queria se esconder, se enfiar em alguma toca e como um lobo, lamber as próprias feridas sozinho e depois voltar para a caçada na neve.
Sua mente, que ainda não tinha abandonado a sensação aconchegante daquelas lembranças, foi desperta pela tosse ruidosa do investigador meio comido e completamente esquecido ao seu lado. Ele estava fazendo uma chamada no rádio.
— Eu tirei algo importante de você garoto… — Tossiu Shinohara, seu olhar intenso mesmo com o corpo debilitado. — Mas você merece cada parte disso, monstro.
E foram suas últimas palavras.
Toda a cena não durou mais do que segundos.
Em um ataque de raiva, Ayato enterrou as mãos no pescoço do investigador, arrancando parte de seu esôfago fora de maneira horrenda e brutal. Na esquina da rua onde a tal atrocidade ocorria, um garoto pequeno de cabelos alvos e armado com uma foice de formato peculiar acabava de chegar, seus olhos avermelhados captando exatamente a última cena do homem que só agora percebia que gostava tanto.
Juuzou Suzuya não se lembrava da última vez que sentira tanta dor.
E tanta vontade de matar alguém.
Em uma velocidade incomum para um humano, atirou três facas enquanto corria em um estado insano de puro ódio atrás do ghoul com máscara de coelho negro.
Porém, infelizmente, ainda era humano, e mesmo tendo acertado com êxito os três lances, o ghoul ukaku desapareceu rapidamente por cima dos prédios altos, deixando naquela rua esquecida e coberta de cadáveres, mais um investigador morto, e outro completamente desolado.
Porém, aquela noite estava bem longe de acabar ainda, o inferno não é assim tão breve.
Enquanto a verdadeira Coruja de Um Olho atravessava os céus, dois investigadores a seguiam.
Um deles usando uma armadura exatamente como a que acabara de devorar. Idêntica, também feita a partir da kagune de Arata.
Tal visão fez Ayato tropeçar a cair pesadamente na cobertura de um dos prédios, sentindo as facas entrarem mais profundamente na sua pele.
“M-Mas dois..?! Se… Se há mais então… É como aquelas garotas com a mesma kagune do Kaneki? Eles… Eles estão com o otou-san?”
Seu corpo nem se levantara devido ao tamanho choque, sua kagune pulsante largada ao chão como um pássaro caído no topo daquele prédio.
Teria ficado ali parado mais um bom tempo, isso se um grito de gelar o sangue não tivesse feito todo o seu corpo arrepiar de medo.
Conhecia bem aquele grito, havia ouvido por dias Kaneki ser torturado na Aogiri afinal, não haveria como não conhecer.
Sem pensar duas vezes, arrancou aquelas facas das suas costas e se lançou na escuridão.
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