Por trás do olhar.
15 Quando eu vi... Sua insanidade (parte 02)
Notas iniciais
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Amon Koutarou não sabia bem como agir agora que estava novamente de frente aquele ghoul de olhar inquietante.
Ou melhor, meio-ghoul.
Havia pesquisado sobre o Doutor Kanou, como Kaneki sugeriu em seu último encontro e rapidamente encontrou o caso do transplante de órgãos. Como Akira lhe disse, o grande devorador era uma mulher e provavelmente morreu, conclusão, provavelmente a garota de quem Kaneki recebeu os órgãos.
E mais, o Dr. Kanou anteriormente fora cientista na CCG.
Se havia alguém capaz de pisar nas leis da natureza dessa forma e criar um híbrido, esse alguém era ele.
Sinceramente, não queria ter que lutar com aquele ghoul, não via nenhuma sede de sangue em seus olhos e sentia-se um agressor, ao invés de um investigador com o dever de proteger as pessoas. E sinceramente, achava esse sentimento de humanizar um ghoul assustadoramente bizarro.
Quando viu o albino vindo na sua direção, simplesmente não reagiu, nem atacou ou se defendeu, apenas parou para observá-lo atentamente, sabendo que estava diante de um ser humano (mesmo um ex humano, não acreditava que as pessoas se perdessem tão fácil por causa do tipo de corpo que tinha), apenas observou o modo como se movia, o ar melancólico e relutante.
Aparentemente, Kaneki também não queria lutar.
— O que está fazendo junto a Aogiri, Kaneki-san? — Ditou apoiando sua quinque no chão. “Sério que estou usando honoríficos para falar com um ghoul?”
Obviamente não iria sentar e conversar calmamente no meio daquele inferno, mas se pelo menos pudesse tirar algumas dúvidas que infernizavam sua cabeça…
— Eu já tirei o que eu queria de lá. — Sorriu enigmaticamente, abaixando a meia máscara diante do investigador. Não era como se ele já não conhecesse seu rosto.
— Anteiku, então? — Indagou Amon lembrando-se do ninho de ghouls que vieram destruir. Vendo o menor afirmar com a cabeça em um movimento lento e aparentemente cansado, enquanto andava até estar frente a frente com o investigador, fazendo o moreno ter que olhar para baixo para encarar os olhos cinzentos.
— Se fossemos amigos de longa data, e você confiasse em mim… Eu diria imediatamente pra ir embora daqui. — Ditou encarando o investigador profundamente. — Vocês estão cavando sua própria sepultura com esse ataque, e se já está infernal, logo em breve essas ruas vão ficar ainda piores. — Seu tom era baixo, mas firme e sério o suficiente para que Koutarou sentisse o peso de cada palavra.
— É uma ameaça? — O franziu o cenho de forma mal humorada.
— Um aviso. — Sorriu de forma benevolente. — Eu costumava admirar o trabalho dos investigadores antes. — Falou lembrando-se de como se achava covarde perto dos homens que enfrentavam monstros para proteger a cidade.
— Mudou de opinião? — Fez uma careta confusa.
— Agora eu tenho pena. — Falou calmamente sem se abalar com o ar chocado do homem a sua frente ao ouvir a resposta. — Muitos de vocês criam monstros por pura ignorância, e acabam sendo vítimas deles no futuro. — Explicou desviando o olhar para a neve manchada de sangue, lembrando-se por um momento de Ayato, Touka e Hinami. Todos haviam matado investigadores em retaliação ou para proteger alguém amado, e Kaneki sabia que se a vida de Arata e Youko, que eram ghouls pacíficos, tivesse sido poupada, muitos investigadores não estariam enterrados agora. Só o seu estressadinho tinha mandado uma multidão para os andares mais baixos do terreno.
— Foi por isso que daquela vez você me disse que também era nossa culpa o mundo estar assim? — Indagou lembrando-se do primeiro encontro que tiveram, quando menor ainda tinha cabelos escuros.
— Sobre o Kanou… Agora você já sabe, não é? — Respondeu com outra pergunta.
— Já estamos caçando aquele bastardo. — Respondeu vendo um sorriso quase imperceptível de satisfação no rosto do menor.
— Isso é bom, saber que não esperam usar os métodos dele a seu favor. — Respondeu calmamente, vendo a expressão do outro de “E quem diabos faria tal coisa?”. — Eu costumava odiá-lo muito, a única pessoa que já odiei. Ele tirou tudo de mim, minha humanidade, meu lugar no mundo, uma vida toda pela frente, meu futuro… Entretanto, hoje, de certa forma, eu até me sinto sinceramente agradecido pelo o que ele fez. — Completou serenamente, vendo as reações de choque do maior.
— Foi tão bom assim se tornar um monstro, então? — Rosnou o mais alto sem entender o sentido daquelas palavras.
— Foi a pior coisa que já me aconteceu. — Respondeu Kaneki, e naquele momento, seus olhos cansados deixavam claro toda a dor que foi forçado a suportar. — Mas se não fosse assim, eu ainda estaria mergulhado na mesma ignorância em que vocês estão com relação aos ghouls, e o mundo em que vivemos.
— Por isso que disse ter pena da CCG? — Ergueu uma das sobrancelhas arqueadas curiosamente. Era sempre assim, sempre que se encontrava com aquele garoto, uma nova visão do mundo parecia ter sido implantada em seu cérebro, uma semente de duvida germinando e destruindo os valores que sempre tomou como inquestionavelmente corretos.
— Quando eu me tornei assim… — Indicou o único olho vermelho. — Eu descobri essa organização que vocês estão tentando exterminar, a Anteiku. Eles tem uma política de não agressão a humanos. — Explicou calmamente, vendo pela milésima vez naquela conversa o olhar de choque do investigador.
— Impossível… — Murmurou desacreditado.
— Incomum, não impossível. — Interviu o albino. — Nos alimentávamos de carne de suicidas. — Explicou vendo o ar realmente impressionado do outro. Teve certeza naquele momento que Amon nunca havia pensado na possibilidade de que existem ghouls que simplesmente não querem ferir humanos. — Essa organização, era a única com poder o suficiente para impedir a Aogiri de invadir o 20º Distrito, e agora vocês estão a destruindo… Realmente uma pena, principalmente para vocês.— Concluiu logo se desviando do maior e indo na direção da luta, tendo seu braço sendo segurado rapidamente.
Por um instante, Amon se deteve na sensação de tocá-lo. Era estranho, aquele garoto parecia frágil em relação a si, mas seus músculos era rígidos como aço, e apesar da aparência fria, sua pele era quente, como a de qualquer humano.
— Espera, e-eu… O que você espera que eu faça com essa informação? — Indagou nervosamente, ainda sem soltar o menor. Na verdade, nunca sabia as perguntas certas para fazer toda vez que encontrava Kaneki.
— Faça a coisa certa, como com o Kanou. — Sorriu timidamente, segurando a mão do maior entre as suas. — A CCG vai ser destruída pela Aogiri nesse ritmo, não é uma nem uma hipótese, mas um fato. — Ditou apertando aquela mão grande e cheia de marcas fortemente. — Eu sou contra essa corrente de ódio entre humanos e ghouls, muitas pessoas queridas para mim já sofreram por culpa de vocês, mas, sinceramente, não acredito que vocês investigadores sejam pessoas más. Meu único desejo é que a CCG, como uma organização que supostamente deveria ter proteger humanos como prioridade, aprenda a fazer justiça, e não apenas matança. — Suspirou pesadamente soltando a mão do investigador e voltando a caminhar para a luta, quando sentiu a quinque do maior para apoiada bem em seu ombro.
— Onde pensa que vai? — Seu tom de voz era autoritário, mas não necessariamente agressivo. — Vai morrer se for naquela direção! — Alertou logo em seguida, vendo o menor virar apenas a cabeça para encara-lo.
— É deselegante ameaçar os outros com cadáveres da sua especie, já parou para pensar nisso? — Segurou a quinque do investigador como se, por ela, pudesse conhecer o ghoul que a gerou.
— Eu não quero te matar, mas eu não posso deixar que mate meus companheiros. — Seu tom era bem firme, embora seu olhar vacilasse ora ou outra.
— Vai lutar comigo, então? — O albino ergueu uma sobrancelha se virando de frente. — Eu também não quero te matar, mas a pessoa que eu amo está correndo perigo nesse momento. — Respondeu com um ar sério.
— Então quer dizer que vai lutar a sério dessa vez? — O investigador riu de lado, mas foram subitamente interrompidos por uma chamada de rádio.
— Koutarou, pare o que estiver fazendo e reagrupe com o 6º Esquadrão. — A voz apressava e nervosa de Marude soou mais alta que nunca.
— O que aconteceu? — Replicou surpreso com a ordem repentina.
— Três esquadrões foram dizimados pelo Coelho Negro, e Shinohara foi morto. O idoso não era o Rei de Um Olho, a verdadeira Coruja apareceu agora e não temos sinal de Arima ainda. — A voz grave e desesperada soou tão alto no rádio que até mesmo o albino foi capaz de ouvir.
Quando a ligação se encerrou, um longo silêncio tomou conta do lugar, cada um dos dois presos em seus próprios pensamentos sobre as pessoas envolvidas.
— Eu avisei. — Ditou Kaneki brevemente antes de sumir pela escuridão, deixando um investigador consternado, e ainda chocado pelo que ouviu no rádio, para trás. Mas logo pode ouvir seus passos pesados se deslocando para onde a Coruja provavelmente estaria.
Seguindo seu caminho, o albino correu para o campo de batalha, começando a estranhar com o passar do tempo o fato de ainda não ter sido atacado. Bem, não iria pensar nisso quando tinha tanta pressa, não havia encontrado ninguém conhecido ainda, não havia verificado se todos que conhecia estavam bem, ou ao menos vivos, então não atacaria ninguém se não fosse atacado por enquanto.
E depois de alguns quarteirões, percebeu ter sido um estúpido engano.
— Então esse era o ghoul centípede que estava na invasão de cochlea e que matou o binkaku conhecido como Kamishiro? — Indagou um homem alto e de aparência fria, seus cabelos cor de neve caindo um pouco sobre seus óculos enquanto conversava com Akira Mado ao seu lado. — Apenas cerquem-no, eu avalio se dará uma boa quinque. — O olhar de Arima Kishou era tão gélido que nem parecia humano.
Kaneki mal teve tempo de se desviar quando algo repentinamente saiu do chão debaixo de seus pés e quase o partiu ao meio, voltou o olhar para o investigador de sobretudo branco e o viu recolher sua quinque, deixando a outra maleta que tinha em mãos ainda desativada.
Uma ventania leve e gélida balançou os cabelos alvos do meio-ghoul que sentia o olhar daquele investigador mirá-lo como se não passasse de um inseto, aquele vento tinha um cheiro terrível de morte… Ou era quele homem que cheirava assim?
Mais três golpes rápidos foram lançados na sua direção, instintivamente, Kaneki tentou retorná-los, mas acabou com um corte leve no pescoço e um mais profundo no rosto, enquanto todas as suas tentativas haviam sido falhas. Um pressentimento realmente ruim lhe assolava a mente, como um ataque de pânico que se aproxima silenciosamente, congelando-lhe primeiro os ossos antes de travar os músculos, porém, ainda assim, não se deixou vacilar.
Com um ânimo que nunca antes imaginou ter para a violência, Ken bateu de frente com aquele investigador sem hesitar. Havia conseguido lhe arranhar muito suavemente nos braços e no rosto, e levado cortes profundos que reduziam terrivelmente a velocidade de seus membros, mas não se permitia recuar. A cada golpe, sentia-se forçando seu corpo cada vez mais a um limite perigoso, uma linha tênue que não o deixava ver as consequências de atravessar para o outro lado.
Continuou lutando com o máximo que podia e foi então que repentinamente sentiu algo atravessando sua cabeça.
Havia sido uma inserção pequena, apenas a ponta da quinque tinha entrado pela lateral da sua cabeça, em um golpe que deveria ter atravessado até o outro lado se o menor não tivesse sido rápido.
Sentiu suas mão tremerem brevemente, e então seu corpo tremia e pensamentos cada vez mais caóticos invadiam sua mente. Sentia algo brotando dentro de si, algo que sempre esteve, e sempre estaria lá para lembra-lo do monstro que era, por mais que tentasse domar a si mesmo.
Era uma constante na sua vida ultimamente, aquele lado escuro no fundo da sua mente, lutando para tomá-la. Como vinha passando muito tempo com Ayato ultimamente, não se apercebia tanto dessa pressão constante, afinal, a presença do menor funcionava como um clareador formidável para seus pensamentos sombrios, mas longe dele, ou de Hide, sentia aquela escuridão prestes a engoli-lo.
E a sua mente trêmula e exausta do dia infernal do inicio ao fim, não foi tenaz o suficiente para deter por completo aquele avanço.
Aquele tremor nublava seu cérebro, tornando sua própria consciência uma mera expectadora de seus atos. E deixando seu inconsciente bagunçado em posse de seu corpo.
E sinceramente, nem mesmo seu consciente estava surpreso. Sabia que não venceria aquela luta sem acordar a besta.
Podia ver as expressões pasmas dos investigadores a sua volta enquanto sua máscara kakuja começava a cobrir seu rosto, cobrindo cada vez mais que a vez anterior, e duas enormes centopeias acompanhadas por tentáculos da sua kagune surgiam a sua volta, cobrindo uma área assustadoramente grande dessa vez.
— 993… 986… 979...9… Hehehehehe…. Menos sete? Mil mEnoSSete… QuAnto é? Consegue ouvi-la em seu ouvido? — Sua voz era arrastada e uma onda de agonia atravessava seu corpo, fazendo-o se contorcer sinistramente enquanto andava.
Kaneki estava uma bagunça mentalmente, apenas um sentimento ardente e descontrolado, a mais pura expressão da loucura, se espalhava pelo seu cérebro, acelerando seus pesamentos a um nível frenético e incoerente, apenas destrutivo.
Sentia novamente a dor, o desespero, a agonia, como se rastejasse por uma lama ácida em um chão de cacos de vidro, e nada conseguia frear aquela sensação. Não queria se sujeitar a ser mudado pelo mundo daquela forma, não queria ser um expectador da própria vida, queria ter o controle de si mesmo.
Mas aquele sentimento perturbador que controlava suas vontades era muito mais forte do que sua determinação naquele momento.
Mal sentiu o primeiro golpe da sua kagune, não se viu avançando, apenas sendo bloqueado. Os olhos glaciais do investigador com quem lutava, só lhe lembravam da morte, ele próprio cheirava a morte.
E Kaneki amava coisas demais nesse mundo para simplesmente morrer.
E para o seu completo desespero, cada golpe só marcava a ferro na sua mente como era fraco. Havia lutado tanto, ido tão longe a ponto de se juntar a Aogiri em busca de força para proteger o que lhe era importante, e agora se via mal conseguindo se defender daquele investigador.
Estava escrito naqueles olhos.
Aquele investigador iria matá-lo, e logo em seguida, destruiria a tudo que lhe era precioso.
E isso, Kaneki morreria antes de permitir.
Sentia-se intoxicado por esse sentimento, tal como Gregor, protagonista do livro A Metamorfose, de Kafka, Kaneki sentia seu corpo se metamorfoseando agonizantemente em algo horrível e detestável, algo que não podia refrear. Sentia sua kagune cobrindo cada vez mais seu corpo, avançando para seus braços e pernas sorrateiramente.
Tal como Gregor, estava se tornando um enorme e asqueroso inseto.
E finalmente, alimentando com a sua própria vontade a besta insana dentro de si, a mente de Ken se rendeu a loucura.
— — — —
Ayato corria desesperadamente, tão rápido, que seria facilmente confundido com um vulto ou uma falha de visão por quem olhasse para cima dos prédios.. Sentia-se estranhamente forte fisicamente depois de devorar Arata, mas ao mesmo tempo, estranhamente fraco emocionalmente após aquela lembrança tão vívida. Normalmente, não ficaria tão abalado apenas por ouvir um som perturbador, mesmo que viesse de Kaneki, apenas agiria friamente e iria em seu auxílio com um plano rápido e eficiente, mas dessa vez… Sentia que iria pirar a cada passo.
Um braço forte refreou seus movimentos bruscamente, quase levando a pessoa que o parou ao chão, e rapidamente o azulado virou seus olhos para o maldito empecilho, dando de cara com a face irritada de Tatara.
— Ayato, eu sei onde você vai. — Ditou friamente impedindo o Kirishima de se soltar. — Se tem amor a sua vida, pegue a sua irmã, e volte para casa. — Concluiu vendo o menor parar um momento de se debater.
— Touka? — Estranhou, sua irmã não deveria estar em um lugar seguro?
E foi então que seus olhos se focaram na figura feminina atrás do homem a sua frente, usando um manto da Aogiri e sua antiga máscara negra com um sorriso sangrento.
— Acabou Ayato, a Coruja já apareceu e dizimou mais da metade do efetivo da CCG, agora está sendo parada pelo melhor investigador deles. É a nossa deixa para desaparecer. — Ditou Touka com um ar sério, se aproximando e pegando a mão do mais novo, puxando-o para ir embora.
— Já estamos em retirada há um tempo, e eu não quero que a Eto se arrisque desnecessariamente. — Ditou o mais alto, seguindo-os também, afinal, quando mais rápido evacuassem, menos tempo duraria a luta da sua pequena Coruja com Arima Kishou.
— Espera aí… Vocês vão deixar ele para trás? — O Kirishima parou de repente, puxando bruscamente a mão do aperto da irmã.
— Ele e a Eto vão fugir juntos. — Ditou Tatara sério.
— Eu não confio nela perto do Kaneki nem por um segundo. — Rosnou irritado, e já ia voltar a correr quando foi puxado outra vez pela irmã.
— E eu não confio nele perto de você. — Seu tom era absoluto e cortante. — Ele mesmo me pediu para te manter longe, e eu acredito nas razões dele para isso. Vamos embora, Ayato! — Voltou a puxa-lo, vendo que o menor não se movia um milímetro do lugar.
— Ele é um idiota, Aneki, pensei que soubesse. — Deu de ombros com um risinho cínico. — Fujam vocês, eu volto com ele. — Voltou a andar, sendo parado novamente pela mais velha.
— Eu não vou sair daqui sem você. — Jogou baixo sem hesitar, vendo o mais novo endurecer o olhar com a chantagem emocional clara. Não sabia se ficava irritado com ela, ou consigo mesmo por fazê-la se preocupar a esse ponto.
— Não seja idiota… — Resmungou sentindo aquela urgência de sair logo dali subindo queimando pela sua garganta, outro grito de gelar o sangue foi ouvido e Ayato não conseguia suportar perder mais tempo.
— Você vai morrer se for lá, Ayato. — Ditou Tatara seriamente. — Você é forte, mas não é páreo para aquilo… — Lembrou-se da última lembrança que tinha do albino no campo de batalha naquela noite. A forma como se contorcia, gritava agoniado e matava todos, humano ou ghoul, que aparecessem na sua frente, ainda o perturbava de uma maneira estranha. Era uma cena grotesca e angustiante.
— Ele não pode me machucar, e você sabe disso Tatara. Foi assim em Cochlea, não foi? Eu estava desmaiado e ele teria até me devorado se quisesse. — Ergueu uma sobrancelha irônica, como se estivesse sendo obrigado a explicar o óbvio.
— Você é muito novo para entender certas coisas… — Apoiou uma das mãos na cabeça do menor, de forma quase paternal, o que fez Touka lembrar brevemente de como seu pai e Ayato costumavam ser. — Não existe amor nesse mundo capaz de superar a loucura e o desespero, e quando ele for consumido por esses sentimentos, não existirá mais nada que não seja capaz de destruir. — Ditou sabiamente, e por um momento, Ayato realmente sentiu um pressentimento ruim do fundo de seu coração.
Por um momento, até cogitou segurar novamente a mão da sua irmã e ir embora dali, mas logo em seguida lembrou de seu pai. De como foi quando ele foi embora. E como ficou sozinho quando sua irmã também começou a se afastar.
A solidão era sua companheira desde que decidiu que lutaria contra os humanos miseráveis que destruíam o mundo que viviam, e inúmeras vidas inocentes. Mas, com todos aqueles meses junto do albino viciado em literatura e cheio de palavras doces e olhar aconchegante, percebeu o tamanho do buraco que havia em seu peito.
Não iria voltar a ficar sozinho, e não deixaria Ken sozinho de jeito nenhum.
— Eu decidi que não iria deixá-lo, e ninguém vai me impedir disso. — Mirou os olhos vermelhos de Tatara profundamente, sabendo que ele entenderia sua motivação. Afinal, assim com Ayato, Tatara também tinha alguém a quem não poderia abandonar mesmo se desejasse.
— Então lembre-se, se você morrer, vai estar deixando a ele, e a todos nós. — Ditou o albino mirando profundamente os olhos azuis safira, e depois lançando um olhar a irmã do seu ex subordinado, deixando clara a mensagem.
— Eu não vou morrer. — Respondeu confiante, disparando para longe em uma velocidade inumana, desviando brevemente da irmã que havia tentado segura-lo outra vez, mas foi impedida por Tatara no ultimo segundo.
“ Só quem pode decidir a vida dele, é ele mesmo, menina.” Ainda pode ouvir o mais velho sussurrar para a Kirishima mais velha, antes de sumir da vista do prédio onde os dois haviam ficado.
Correu, e correu a ponto de suas panturrilhas queimarem, não estava longe, mas também não estava perto como gostaria. Quando finalmente alcançou a batalha onde seu Kaneki estava envolvido, acabou se detendo por alguns segundos.
Aparentemente, não havia nada da pessoa que conhecia naquele monstro.
Seu corpo se movimentava de forma rápida e torta, como se estivesse se contorcendo de dor, sua kagune começava a cobrir seus braços e pernas, e quase não revelava nada do seu rosto além da boca com um sorriso amargo e insano. Havia muito sangue por todo o lado, sangue humano, ghoul, e tinha sentido cheiro do sangue do próprio Kaneki em volta. Corpos desmembrados estavam espalhados em volta, e um esquadrão da CCG o vigiava, mas não tinha coragem de se aproximar. Pelo visto, o albino estava inconsciente demais para atacar alguém, era como se sua kagune se movesse sozinha ao detectar alguma ameaça, e caso isso não acontecesse, ele permanecia naquele estado horrendo de agonia.
— Ele vai querer se matar quando descobrir que matou esse tanto de gente. — Suspirou Ayato, baixando a mascara de coelho e saltando do prédio, bem dentro do circulo de investigadores que não se atreviam a chegar perto do mais recente ghoul de Rank SS+, o Centípede.
Olhou em volta vendo que também não era atacado pelos agentes, que pareciam surpresos com a sua aproximação diante da besta.
— Hey, babaca. — Ditou o azulado, atraindo a atenção da massa disforme que Kaneki parecia naquele momento.
Como esperado, o meio-ghoul se virou na sua direção, estalando a ponto de quebrar o dedo indicador, e logo depois o médio, fazendo um barulho enjoativo da cartilagem sendo “riscada” pelo osso.
— Nem estale esse dedo pra mim, essa sua mania é detestável. — Resmungou sem se abalar, avançando alguns passos sob o olhar surpreso de todos os presentes. Se sentia confiante de que o outro não o machucaria, mas ainda assim, no fundo do seu âmago, havia uma chama negra e primitiva de medo que se recusava a ir embora.
Ouviu Kaneki grunhir algo inteligível, se aproximando devagar, como se sentindo seu cheiro, sua kagune cercando-o perigosamente, mas sem atacá-lo.
— Você está horrível, vou te dizer. E eu odeio insetos. — Ditou tocando a sua kagune em forma de centopéia, sentindo a textura dura e levemente áspera. — Então trate de voltar ao seu normal, sim? — Respirou fundo, vendo que aparentemente o outro não entendia suas palavras.
Avançou mais um passou e dessa vez entrando no espaço pessoal do albino que recuou de imediato, o atacando com uma série de golpes extremamente rápidos e pesados, que tinha certeza que, se não tivesse desviado quase desesperadamente, teria quebrado boa parte do seu esqueleto.
Tentou avançar uma segunda vez pela lateral, sendo novamente atacado, o que já o estava fazendo perder a paciência. Pelo que percebeu, o albino podia reconhece-lo como alguém familiar, pois não o atacou de imediato, mas não compreendia quem ele era, ou nada do que dizia.
“ Não existe amor nesse mundo capaz de superar a loucura e o desespero, e quando ele for consumido por esses sentimentos, não existirá mais nada que não seja capaz de destruir.”
As palavras de Tatara soaram de forma agourenta na sua mente, e Ayato sentiu um gélido arrepio de medo quando um golpe passou bem perto de acertá-lo errando por meros centímetros.
“ Tsc, eu vou provar que aquele idiota estava errado.”
Em um movimento rápido que nem seus próprios olhos acompanhariam, Ayato se desviou dos seis (seis!) tentáculos da kagune que o atacavam e avançou pela defesa do maior, indo diretamente na sua direção e sem desacelerar, se jogando nos braços do albino que foi obrigado a dar uns passos para trás se não quisesse ser derrubado pela velocidade do “golpe”.
Ayato apenas respirou fundo, fechando os olhos instintivamente, prendendo as pernas em volta da cintura do albino e enlaçando seu pescoço com os braços em um abraço apertado, necessitado e desesperado. Era uma jogada arriscada (estava mais do que no alcance de qualquer tipo de golpe), mas o Kirishima sabia que não podia dar errado, era impossível… Ou ao menos era o que repetia constantemente em seus pensamentos conflituosos.
Pela primeira vez, havia escolhido confiar. Mesmo que todas as circunstâncias dissessem para não fazê-lo.
— Eu estou aqui. — Sussurrou encostando seu rosto à fria mascara kakuja do mais velho, vendo-o parar todos seus movimentos repentinamente, abaixando os tentáculos da sua kagune até que estivessem todos comportadamente no chão.
Por um segundo, todos estavam tão imóveis que o próprio tempo parecia ter parado.
— Ay… — Sua voz era rouca e grotesca, como a de um animal com sede, mas pelo tom, e pelos braços circundando seu corpo lentamente, o menor sabia que ele havia entendido, que ele o estava chamando.
Os investigadores do esquadrão responsável pela contenção daquele ghoul enquanto Arima lutava contra a Coruja assistiam completamente pasmos a aquela interação entre o Coelho Negro e o Centípede. Nunca haviam visto nada do tipo em nenhum relatório, nunca julgaram que fosse algo possível. Akira Mado, especialmente, não sabia o que pensar quanto aquilo. Reconhecia a fisionomia do Coelho como a do ghoul que a atacou de surpresa há um tempo atrás, onde foi salva por Amon em um beco na cidade.
Intuitivamente, sabia o que aquilo significava, mas não era como se quisesse saber. Preferiria ter permanecido na ignorância.
Seus pensamentos foram cortados por um dos componentes do esquadrão, que, provavelmente em busca de promoção, resolveu estupidamente aproveitar o desvio da atenção do ghoul kakuja, e atacou suas costas antes que a investigadora e líder de esquadrão pudesse impedi-lo de fazer tal idiotice.
Suas palavras ficaram presas na garganta pelo mais puro medo, quando o Centípede despertou daquele estado calmo em que havia entrado.
Ayato nem mesmo havia visto do que aconteceu, só se lembrava de abrir os olhos rapidamente ao notar a agitação e ver muito sangue em volta, antes de algo realmente grande vir na sua direção em uma velocidade irrefreável.
E tudo ficou escuro.
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Kaneki estava horrorizado diante do que via seu corpo fazer, mas chegou um ponto em que, não importava quão fortes fossem as correntes que partiriam seus braços em meio a dor que queimava todos os seus sentidos, ele iria quebrá-las e fugir daquele pesadelo.
Seu corpo tremia, e aquele cheiro infectante de sangue era a prova de seus pecados, a prova do que havia se tornado. Do que havia feito, do que havia perdido.
Despertou em meio ao desespero.
Estava se afogando na própria dor a ponto de agonizar a cada respiração.
Congelado até o ossos.
Um zumbindo agourento que nos rodeia.
O destino diz para resistirmos.
É apenas uma piada de um poder superior?
Sem escolha, o nosso caminho está definido em pedra.
Olhar além do horizonte sem fim
Confundindo-nos, sabendo que não há cura real
Acorrentados e detidos por nossa impotência
Nada vivo em seu entorno, nem mesmo aquela chama maldita de esperança que sempre se manteve teimosamente acesa em seu peito, mesmo durante os dias sem fim em que foi torturado na Aogiri.
A muito custo, seu olhar quebrado e devastado baixou para o corpo abaixo de si.
Um arrepio que o fez sentir inúmeras agulhas sendo enterradas profundamente na sua coluna percorreu seu corpo de forma violenta, mas não tão dolorosamente como a parada brusca do seu coração que pareceu ter sido esmagado em seu peito, roubando sua respiração de forma a fazer seus pulmões queimarem.
— A-Ayato…?
Não havia nada nos, antes tão expressivos, olhos azuis.
Sobrecarregado por uma sensação de arrependimento
Silencioso e frio, um aperto sufocante
Sentindo-se sozinho, cercado e preso
Eu não ouço nenhuma resposta
Levou as mãos a cabeça, enterrando as unhas a ponto de arrancar a pele. Não importava o quanto desejasse sofrer para atenuar a dor em seu coração. Nada, nenhum sofrimento físico, nem se tivesse cada vertebra arrancada… Nada se compararia a dor em seu coração.
Queria morrer, precisava morrer. Precisava esquecer a sua existência naquele mundo horrível e distorcido.
A cada passo em rumo a luz, tudo o que conseguia alcançar era afundar ainda mais em sangue e lama. Quanto mais tentava proteger, mais sua mão amaldiçoada destruía. Nenhum esforço que fizesse seria útil, nada, nenhuma ação seria significante…
Por que nesse mundo asqueroso e errado, estamos fadados a nos transformar em insetos, viver em colônias e eventualmente ser esmagados.
Kaneki poderia culpa a vida, deus, ou diabo… Mas sabia, podia ver, tão claramente como o oceano em um dia ensolarado, como tudo o que o levara ali havia sido sua culpa.
Completamente sua culpa.
Esse fato rasgava sua alma impiedosamente de forma que o fazia desejar arrancar o próprio coração do peito.
Sentia seu corpo tão fraco e sem vida que podia jurar que as lágrimas de seu choro agoniado eram geladas.
— P-Por favor… Não…
Não conseguia suportar mais nada.
Sua alma estava irreparavelmente quebrada.
Sem escolha, o nosso caminho ao desastre está definido em pedra
Nada é real, é tudo uma ilusão cruel
Visões obscuras, irreais
Incolor, uma imagem disforme
Borraremos as linhas do destino para nos libertar
Viver repentinamente havia se tornado insuportável. Sem forças, seu corpo caiu na neve em um baque seco.
Estava morto também.
A dor o havia matado de dentro pra fora.
Irremediavelmente.
Sem escolha, o nosso caminho está definido em pedra
Congelado ainda, a escuridão crescente em meu mundo
Uma sombra cai sobre você, envolvendo-o docemente
Fui deixado sozinho, como uma torre caída
Exposta ao vento e quebrada em ruinas
“ Eu quero desaparecer. ”
Um último grito da mais pura agonia foi ouvido naquela noite infernal.
E o mundo acabou para mais alguém esta noite.
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