Por trás do olhar.
9 Quando eu vi... Oh, que grande mal entendido Parte 02
Já estavam sentados naquela praça há algum tempo, se protegendo da chuva debaixo da pequena tenda que tinha alguns bancos embaixo, e apenas os dois estavam ali naquele momento. Kaneki apenas observava a expressão confusa e até mesmo um tanto perdida da amiga que ainda processava tudo o que ouviu de Yomo e foi confirmado por si próprio, pelo gerente, Koma e Irimi. Ela não entedia porque seu irmão não havia lhe dito a verdade de uma vez, na verdade, raramente entendia as escolhas do Kirishima mais novo.
Estava dividida entre ficar brava com Ayato e se sentir uma péssima irmã. No passado podia lê-lo com a mesma facilidade que lia a si mesma, sabia de quase tudo que passava naquela cabecinha, seus medos, seus anseios, o que gostava e o que não gostava, conhecia cada expressão, as mudanças da sua voz... E agora, aquilo que via a sua frente não lembrava em nada a pessoa que sempre esteve ao seu lado por toda a vida. E depois da verdade revelada, sabia que o monstro que via, era apenas uma máscara, que no fundo, bem no fundo, seu irmão sempre esteve ali, e que havia sido ela a ir embora.
Não se lembrava bem quando exatamente começaram a se distanciar. Diria que foi antes da Anteiku, quando percebeu que seu irmãozinho, ainda com doze anos, parecia ter uma certa satisfação em ferir os outros. Naquela época não achou que fosse nada de grave, ela mesma adoraria ver muita gente morta por aí, principalmente os investigadores que mataram sua mãe e capturaram seu pai, mas depois, com o passar do tempo, percebeu como seu irmão já estava procurando briga como diversão. Quando Yoshimura apareceu e os acolheu na Anteiku, foi como encontrar um abrigo no meio do campo de batalha, nenhum dos dois deixou de arrumar confusão, mas não era como antes, agora, tinham uma casa, um lugar para onde voltar, um porto seguro, pelo menos, ela pensou que fosse isso para os dois.
A cada dia, semana, mês, naquele estabelecimento, observando e aprendendo o modo de vida dos humanos e ouvindo os conselhos de Yoshimura, Touka foi amadurecendo e conhecendo um novo mundo fora o inferno violento que sempre viveu, e a partir daí, foi se tornando alguém mais tolerante, racional, e até mesmo nutrindo uma certa simpatia pelos humanos, ao ponto de, quando o gerente sugeriu que entrasse em uma escola, acabou aceitando.
Enquanto isso, nesse mesmo período, simpatia era a ultima coisa que um dia seu irmãozinho iria possuir por qualquer humano, se Touka esteve algum dia naquele caminho de ódio e violência, Ayato já tinha ido bem mais longe, era briga atrás de briga, a ponto de Yomo ter que arrastá-lo para casa algumas vezes antes que se ferisse a sério. Porém, ao lado da irmã, o ghoul agressivo mais parecia um gato rabugento. Touka lembrava-se perfeitamente das tardes em que passava estudando para fazer o teste de admissão da escola, com seu irmão com a cabeça deitada em seu colo reclamando constantemente do porque diabos ela entraria para a escola. Era engraçado porque a apoiava e até ajudava em algumas coisas, mas deixava claro em letras maiúsculas seu desagrado com a decisão, tanto que por alguns momentos, ela até chegou a pensar que seu irmãozinho simplesmente não queria ficar só.
E ironicamente, agora via como o comportamento de Ayato havia sido quase premonitório.
Logo na sua primeira semana acabou se aproximando quase sem querer de Yoriko. De inicio havia se revoltado com a forma como a garota era tratada pelas colegas, e depois acabou se apegando mais do que deveria a aquela humana de personalidade tão doce e que queria cuidar de si como se fosse da família. Havia sido Yoriko que cortara seu cabelo na época (como já era esperado, seu irmão detestou), havia a ajudado a entender e se acostumar a rotina da escola, aos caminhos de ida e volta, ao metrô cheio de humanos, aos lugares onde colegiais normais saiam. Era um modo de vida tão leve, tranquilo e alegre, e era a primeira vez que via que a vida poderia ser assim.
Queria mostrar aquela vida ao seu irmão, queria fazê-lo entender que nem tudo é preto e branco, nem todos os humanos estão testando você em busca de um sinal para te denunciar, nem todos desejam seu mal automaticamente. Nesse mundo opressor e cruel, ainda existem brechas que te permitem ver o céu estrelado. Queria ter mostrado tudo isso, mas acabou agindo tarde demais e perdendo tudo. Naquela época não pensou que ele iria embora mesmo. Se amavam muito e brigavam bastante, sempre depois de extravasar a raiva na rua, seu irmãozinho voltava emburrado, faziam as pazes e ficavam conversando até de madrugada.
Mas depois daquela briga em que eles trocaram as palavras mais cruéis que já tinham dito um ao outro, seu pequeno irmão não voltou a noite inteira. E no dia seguinte, depois de passar a noite em claro, Yomo lhe deu a noticia que partiu seu coração ao meio. Ayato não estava mais naquele distrito.
E depois disso, uma série de verdadeiros massacres começou a se espalhar por vários distritos distantes, eram crimes brutais e realmente violentos, e quando o jornal revelou um desenho da mascara do ghoul que vinha causando todo aquele estrago, Touka se perguntou se seu irmão ainda existia, ou seu coração havia congelado por completo. A cada noticia, ela queria se surrar por ter sido infantil e ter brigado com ele, queria ir até o distrito que aparecia no jornal e arrastá-lo de volta pelos cabelos, mas no fundo tinha medo, medo do que poderia encontrar se fosse. E quando o encontrou, quando ele voltou a Anteiku naquela tarde terrível em que Kaneki foi levado, Touka percebeu que nada que ela poderia imaginar seria pior que aquilo. Não conseguia ver nada, absolutamente nada, do seu irmãozinho naqueles olhos gélidos. A única coisa visível era ódio.
Quando o encontrou novamente no esconderijo da Aogiri o buraco em seu coração só se tornou pior, tudo o viu nele naquela luta foi pesado demais para suportar, em seus olhos havia apenas ódio, frieza, crueldade e sadismo. Havia se tornado um ghoul realmente forte como sempre dizia que iria se tornar quando pequeno, mas a que preço? Havia perdido tudo o que tinha de bom por dentro para ser tornar uma besta assassina.
Durante meses, depois de ter perdido seu melhor amigo a quem queria proteger também para a Aogiri, teve que conviver com o fato de estava perdendo todos que amava de maneira especialmente cruel pouco a pouco, talvez por isso tenha se tornado tão super-protetora com Hinami, não queria sentir aquela dor mais uma vez. Kaneki ela sabia que ainda veria, poderia demorar, mas confiava que ele não abandonaria a todos de uma vez para nunca mais voltar, e estava correta quanto a isso, já seu irmão... Não sabia mais quem era aquela pessoa que só o lembrava fisicamente.
Talvez por isso a surpresa quando ele apareceu na Anteiku atrás dela, por isso não pode ver com bondade nenhuma das palavras que lhe disse, por isso o bateu, o mandou embora, porque olhar para ele daquele jeito doía. Olhar para ele com as lembranças de quando estavam juntos na sua cabeça, e vendo o monstro que aquele garoto doce havia se tornado na sua frente, era o mesmo que rasgar seu coração com as unhas.
E então agora descobre que aquele colar de espinhos em volta de seu coração não passava de uma grande mentira. Ayato nunca foi embora, seu irmão havia entrado na Aogiri em busca de poder, e ficado mais forte para protegê-la, ou "impedi-la de terminar como seu pai", havia a ferido por medo de que ela realmente se ferisse de maneira irreversível e, todas as vezes em que se feriu em alguma briga ou conflito com investigadores, e sonhava que seu pai estava outra vez ao seu lado sendo sua âncora e seu porto seguro, não eram sonhos e nem era seu pai...
Havia falhado como irmã mais velha, falhado em ver o que estava por trás de toda aquela frieza, falhado em reconhecer por trás da mascara de crueldade, aquele que sempre esteve ao seu lado desde que o viu nascer. E isso a irritava por que até mesmo seu amigo tapado havia percebido a verdade antes dela. Era frustrante como a decepção havia a cegado.
– Eu fiz muita merda. — Respirou profundamente, afastando os cabelos do rosto em um gesto de frustração.
– Seu irmão também, não fique se martirizando por algo que ainda pode remediar. — Falou em seu habitual tom tranquilo, apoiando a mão solidariamente no ombro estreito da garota.
– Não é como se eu pudesse evitar. — Respirou fundo, colocando os pés em cima do banco e apoiando as costas na lateral do corpo do outro. — Como era lá?
– "Lá"? — Levantou uma sobrancelha confusa, não podia ver o rosto dela na posição em que estavam, mas percebia a tensão em seu corpo.
– Na Aogiri. — Falou vendo a chuva que caia torrencialmente. — Como eles são?
– É meio assustador, no início. — Relembrou por um segundo. — Lá a sua força define sua posição, e se for realmente forte é considerado um general, ou executivo, e tem vários subordinados que lhe obedecem nas missões e são praticamente escravos. Sempre tem missão, sempre se mata muita gente, morre muita gente... — Ditou com uma ponta de amargura. — Mas entre a alta posição... É difícil explicar. É como uma família estranha, ao mesmo tempo que você é acolhido, pode ser morto ou severamente punido a qualquer momento se trair a organização. — Sorriu de lado lembrando do atrapalhado primeiro beijo dos dois quando foram postos sob suspeita. Era cômico pensar naquilo agora, mas na hora havia sido terrivelmente constrangedor. — Eto... Ou a coruja de um olho só, é como uma tia intrometida, e Tatara, o principal subordinado dela, é como um pai que parece estar cuidando de todos, dá pra perceber que ele tem um certo apego pelos subordinados, mas é como eu disse, ele não hesitaria em matar qualquer um se fosse para manter a Aogiri. E tem o Noro que... Bem, ele parece aqueles irmãos esquisitões de filme americano, e por algum motivo, adorava irritar o Ayato. — Virou os olhos lembrando da disputa de bebida. Havia sido uma provocação bem tosca, e fez o Kirishima voltar arrastado pra casa de tão bêbado, algo que ele jamais julgaria seguro. Se bem que Noro era uma criatura bizarra, havia bebido um barril de álcool como se fosse água.
– E o Ayato? — Indagou a menor imaginando tudo que o albino descreveu. — O que... Ele fazia lá? — Concluiu imaginando seu irmão indo nas tais "missões".
– Era um executivo. O de confiança do Tatara, por isso quando eu entrei fiquei como parceiro dele. Afinal, não confiavam muito em mim por motivos óbvios. — Falou lembrando da cara de horror de Ayato quando descobriu que seriam parceiros, se não julgasse o Kirishima uma pessoa tão ruim naquela época, teria rido bastante da sua expressão. Bem, ainda podiam rir juntos dessas coisas agora.
– Ele é bem forte, não é? — Suspirou profundamente. — Não sei se devo ter orgulho disso, me sinto mais preocupada. — Comentou cansadamente.
– Só não diga isso na frente dele. — Riu de lado. — Mas eu também me preocupo. Ayato é muito novo ainda e já está assim, em breve ele vai ter um rank bem alto na CCG e investigadores mais capazes virão atrás dele, e esse tipo de coisa não termina bem. A CCG pode ser composta por humanos, mas é um erro fatal subestimá-la. — Desabafou pensando em como o mais novo era encrenqueiro. Definitivamente aquilo terminaria mal um dia, por isso faria tudo para que esse dia não chegasse.
– Me pergunto como ele deve ser agora. Sinto que perdi tanta coisa. — Comentou distraidamente, sentindo uma saudade estranha, de algo que nunca vivenciou.
– Bem, ele é... Estressado, agressivo, e tem uns picos de raiva assustadores. – Riu sozinho lembrando de alguns momentos de raiva do outro. — E ao mesmo tempo tem um lado doce e companheiro, e mesmo sendo bem independente, tem seus momentos manhosos. Eu sei que ele parece cruel ás vezes, eu também achava isso, mas ele realmente acredita que estava fazendo algo de bom a favor dos ghouls. No fim das contas, ele nunca vai conseguir ser tão frio e distante, ou tão impiedoso como tenta ser. No fundo, é uma das pessoas mais amáveis que eu conheci, e mesmo sendo um pirralho birrento quando quer, sabe bastante da vida, sinceramente aprendi muito com ele. — Concluiu sem querer falar demais. Na verdade, estava ansioso pra contar a ela sobre seu relacionamento com Ayato e como seu irmão era a criatura mais adorável dessa terra quando dormia encolhidinho em seus braços, mas não sabia a posição do Kirishima, se queria ou não que a irmã soubesse, ou se preferia ele mesmo contar a ela.
– Que tipo de coisas aprendeu com ele? — Questionou curiosa, se virando de frente para o mais velho que observava a chuva com um olhar distante.
– A encarar as coisas de frente e não contorná-las. — Falou direto e seguramente, aquela lição Ayato havia lhe mostrado a cada dia, a cada briga em que se metiam. — Eu venho sendo covarde há um tempo, me sacrificar para proteger os outros muitas vezes acaba sendo medo de vê-los morrer, e então morrer antes deles. – Respirou fundo pensando em quantos problemas causou. — Se quer realmente proteger alguém, lute para ficar ao lado dessa pessoa. Ele me disse mais ou menos nessas palavras, e só agora eu entendo como eu fiz besteira. — Falou vendo um sorriso sereno no rosto da garota que o olhava com uma espécie de satisfação, como uma mãe quando o filho aprende algo difícil.
– Você me parece bem, finalmente. — Ditou mexendo nos cabelos brancos e bagunçados. — É a primeira vez que te vejo calmo de verdade, e não mentindo para si mesmo. Sem medo do mundo, ou querendo trucidá-lo, parece que finalmente todas as peças soltas na sua cabeça encontraram seus lugares de encaixe, e isso me deixa feliz. — Sorriu mais uma vez antes de voltar a ficar séria. — No fim das contas, achou o que procurava lá?
– Achei... — O albino suspirou cansadamente, lembrando-se de que agora era um meio kakuja, e como era doloroso estar naquele estado. A dor, o ódio, a raiva e o medo se misturavam e uma massa de sentimentos que nem pareciam seus o preenchiam e sua mente entrava em um estado de frenesi que acelerava seu coração a ponto de aparentar que ele iria parar. Sabia que era mais forte nessa forma, mas a que preço? Se tornaria mesmo um monstro sem consciência? — Encontrei, mas... — Continuou com um ar pesado. — Eu detestei completamente o que vi. — Concluiu em um tom pesaroso e sincero, e Touka percebeu que ainda não era a hora de tocar no assunto.
– Sabe... Eu realmente fiquei brava quando você foi embora, estava querendo quebrar todos os seus ossos. — Mudou de assunto, olhando fixamente dentro dos olhos que tinham a cor de um dia nublado. — Mas agora... Eu só consigo ficar feliz por você estar aqui. Mesmo estando bem diferente de quando eu te conheci, no fundo, você ainda é você, e eu senti sua falta. — Falou segurando a mão do maior que a encarava com um olhar que deixava bem claro como também tinha sentido sua falta.
– Touka-chan eu... Me desculpe. Por ir embora, eu fui idiota e... — Começou a falar, mas foi interrompido.
– Tá tudo bem, você consertou as coisas no final, não foi? — Sua voz tinha um tom doce realmente raro. Ela não era de agir sentimentalmente, mas os últimos acontecimentos não deixavam muita escolha. Parecia que estava reavendo tudo o que perdeu meses atrás, e mesmo tendo suas partes assustadoras, era uma sensação que deixava seu coração mais quente. — A chuva parou, vamos? — Se levantou esperando o outro a acompanhar e logo já estavam na calçada, passando por ruas menos movimentadas na medida em que alcançavam a área residencial.
– E você? Como está se sentindo agora? — Olhou longamente a garota que mexia ansiosamente em uma das pontas do cabelo.
– Tá tudo uma bagunça. — Riu sem humor.- Mas alguém tem que dar um jeito nisso, e eu não pretendo esperar mais. — Falou decidida, fazendo um brilho de satisfação pintar os olhos cinzentos. Podia dizer que tinha orgulho dos amigos que havia conquistado.
Na medida em que se aproximavam do apartamento de Kaneki, Touka sentia seu coração mais e mais apertado, estava ansiosa e queria acabar logo com aquilo. Porém, quando chegaram no corredor, um barulho realmente alto de eletricidade vindo do apartamento do albino, seguido de um estrondo e um grito que ele tinha certeza que pertencia a um certo loiro quase os fez pular de susto.
– Mas que porra...? — A azulada murmurou sentindo seu coração surrando a sua caixa torácica enquanto o mais velho saiu correndo sem hesitar, abrindo a porta de repente e quase a arrancando da parede.
E foi quando seu coração parou em um tranco violento ao ver a cara de choro do seu melhor amigo e Ayato aparentemente desmaiado.
– O que diabos aconteceu aqui? — Indagou sentindo o corpo gelado por um segundo, e a respiração da garota atrás de si parar com o susto.
– Eu juro que eu não matei seu namorado! — Explicou rápido, completamente nervoso, vendo a cara de pavor de quem viu o pai ir a forca do melhor amigo enquanto pegava o garoto que se mexia tão sutilmente que aparentava estar desacordado em seus braços. — A gente estava concertando o aquecedor, e de alguma forma ele levou uma puta choque, e eu cai do teto bem na cabeça dele e... Ai meu deus! Ayatooo! Não se pode dormir quando leva pancada na cabeça! — Balançou o azulado no colo do albino que verificava preocupadamente seus sinais vitais. — Se ele ficar com sequelas? E Se...
– Hide, relaxe. — Apoiou a mão no ombro do amigo hiperativo que já estava cogitando procurar uma ambulância. — Eu já acertei nele golpe bem pior, ele vai ficar bem. — Falou dando um beijo suave na testa do menor que estava um tanto inchada.
– E você me diz isso com essa cara? — Reclamou o loiro vendo a marca que a testa do azulado deixou no chão. Se fosse ele levando uma pancada dessas, com certeza seu cérebro estaria espalhado pelo chão.
– Vocês são dois irresponsáveis! — Uma voz irritada soou da porta fazendo o loiro dar um pulinho de susto. — Que ideia estupida foi essa de mexer com eletricidade estando encharcados? Estão querendo fritar e ainda pifar o gerador do prédio. — Touka apoiava uma das mãos na cintura e apontava para o gerador com a outra, em uma pose digna de uma bronca de mãe.
E foi então que Hide lembrou do inoportuno " Eu juro que não matei seu namorado..." e agradeceu por Touka não ter dado importância a ele naquele momento, afinal, tinha certeza que Kaneki não tinha dito nada sobre. Conhecendo o amigo como conhecia, tinha certeza que ele jamais revelaria algo dessa magnitude sem antes pedir permissão para contar.
– Er... Oi, Touka-chan! — Cumprimentou sem graça vendo a garota se aproximar com uma expressão séria que ele nunca tinha visto naquele rostinho sempre tão meigo no café.
– Como diabos você foi parar no teto? — Indagou quase o queimando com o olhar. — Ok, não responda, já posso imaginar. — Suspirou cansadamente mudando completamente o foco e lançando um olhar preocupado para o irmão. – É a primeira vez que eu vejo ele baqueado desse jeito. — Murmurou se aproximando, espiando por cima do ombro do albino.
" Até onde eu sei, ghouls tem uma pele reforçada que os protege contra lâminas e balas de metais comuns, mas não são resistentes a choques mecânicos ou eletricidade. E eu tenho certeza que uma descarga dessa mataria qualquer criatura. " Pensou o loiro vendo como a vida voltava gradativamente ao corpo do azulado, pela forma como seu rosto ficou pálido de repente, diria que o coração parou por um momento antes de voltar.
Podia observar como seu melhor amigo tentava parecer calmo, mas ainda assim suas mãos tremiam compulsivamente e todo seu corpo estava tenso como pedra. Entendia esse sentimento, de quase perder alguém, afinal, havia visto Kaneki ir embora sem poder fazer nada, e sabia como doía, e não desejava isso para ninguém. Sem contar que estava com o coração na mão, era sua culpa se o estressadinho estava daquela maneira, queria se bater pela ideia de consertar o aquecedor agora.
Por isso, quando as pálpebras que cobriam os felinos olhos cor de safira tremeram e logo revelaram sua cor ao mundo, foi como se o ar dentro da sala voltasse a circular. Havia sido um belo susto.
– Ayato? Pode me ouvir? — Kaneki chamou baixo para não assustá-lo, vendo-o encará-lo com os olhos cerrados como se estivesse com uma forte dor de cabeça. E bem, deveria estar.
– Hm...? ... Neki? — Murmurou se mexendo preguiçosamente, erguendo os dedos que ainda estavam curando as queimaduras feitas pela eletricidade até o rosto do albino que quase chorou ao ver seu pequeno finalmente acordado. — Você... Demorou, retardado. — Resmungou com uma voz sonolenta que fez o loiro, que assistia tudo como se fosse um dorama, se segurar para não apertar aquelas bochechas.
– D-Desculpe. — Respondeu respirando fundo, colocando sua mão sobre a do menor. — Não vou mais embora então. — Sorriu de lado para a carinha chateada do azulado, que se suavizou por um instante, resultando em uma das expressões mais belas que já viu naquele rosto.
– Okaerinasai. — Simplesmente puxou o albino para um beijo, passando os braços em volta do seu pescoço e sentindo aqueles lábios macios e viciantes. Esquecendo completamente do resto do mundo, Kaneki o puxou para mais perto, devolvendo o beijo com ainda mais intensidade, sentindo seu coração voltar a acelerar, e um sentimento morno e aconchegante envolver seu peito com as boas vindas do menor.
Aquele beijo era sua forma de responder "tadaima", e reconhecer que sim, finalmente estava em casa depois de tudo. Onde ele estivesse seria sua casa. Seu porto seguro.
Acariciou os cabelos escuros ainda úmidos, sentindo aquelas mãos agarrem sua nuca com posse, enquanto praticamente sentava em seu colo, juntando mais os corpos, deixando-o sentir seu coração bater. Seus lábios se tocavam sempre com aquele ar de necessidade, carência, e ao mesmo tempo uma familiaridade que contradizia os anteriores, era como se fosse a primeira vez, a mesma ansiedade, o desejo, a paixão...
E foi quando ouviu uma voz alterada atrás de si que Kaneki acordou para o que estava fazendo.
Abriu os olhos de repente, vendo o ar confuso do menor que lhe questionava o porquê do susto. Desviou o olhar para os orbes castanhos do seu melhor amigo que dizia claramente "Existem mil e uma formas infinitamente melhores de dizer a sua amiga que está com o irmão mais novo dela do que essa" e respirou fundo voltando a encarar o menor, lembrando-se do seu objetivo inicial quando voltava para casa.
– Ayato... — Iria começar a falar quando foi cortado bruscamente,
– O que diabos essa mulher faz aqui? — Questionou em um tom tão frio que o fez, egoistamente, pensar que nunca iria querer ter aquele tom dirigido a si.
– Precisamos conversar. — Falou a garota sentindo um peso no peito. Nem em suas piores brigas seu irmão tinha se referido a ela daquela forma, sem o "Aneki" que ficava tão irônico e tão familiar em seu tom rude, agora era como se fosse uma desconhecida. – E conversar seriamente.
Fale com o autor