Por meu sangue, eu juro

1 Promessa de sangue


Notas iniciais
Hello! Feliz Natal e um Ano Novo muito feliz pra você, espero que goste bastante do presente que foi feito com todo o carinho possível ♥

Era uma noite comum para Marinette. E, por comum, queria dizer que envolvia perigo, sangue e caçada.

Perseguia um vampiro pelas vielas estreitas de Paris, depois de apanhá-lo com os dentes no pescoço de uma moça em uma destas mesmas vielas. Ele era ágil demais para alguém tão alto, porém Marinette não era uma excelente caçadora de vampiros por acaso.

Prestes a perdê-lo de vista, arremessou uma de suas armas abençoadas para impedi-lo de avançar.

— Bela faca esta que você tem. Pena que ela é mais afiada que sua mira — o vampiro comentou com um sorriso irônico.

— Tenho muito mais facas de onde essa saiu, sanguessuga.

— Na academia de caçadores não te ensinaram a ser educada? Que vergonha.

Como se não bastasse caçá-lo, também era obrigada a ouvir aquela ladainha cínica. Sem nenhuma paciência, avançou na direção dele, empunhando mais das lâminas capazes de ferir criaturas da noite.

— Estive ocupada aprendendo como derrotar monstros como você!

— Aposto que foi uma aluna excepcional. — Ele sorriu depois de desviar com facilidade de seus golpes.

— Isso não te interessa! — Investiu de novo e de novo contra ele. — Não cansa de falar besteiras?

— O que posso fazer? Adoro o som da minha voz.

Tão ocupado em divertir-se ao irritá-la, o vampiro abriu uma brecha e Marinette não poupou esforços até se aproveitar dela. Assim, tão logo foi possível, prendeu o corpo dele entre suas pernas e manteve-o sob seu domínio com uma faca bem apontada para seu pescoço.

Vendo-o de perto, ele era até bem bonito para um monstro. Os olhos verdes brilhavam de raiva e os cabelos loiros, antes cuidadosamente penteados para o lado, agora espalhavam-se displicentemente pelo chão sujo do beco. Mesmo entre os lábios entreabertos, era possível enxergar as presas que deixavam nítida a diferença entre ele e um humano comum.

— Ora, olha só quem ficou bem quietinho. — Foi a vez dela ser sarcástica. — Não se mexa ou vai pagar por isso.

Como se fizesse de propósito só porque ela o avisara das consequências, ele moveu as mãos em gestos que ela não compreendeu. E nem precisava, porque foi o bastante para pressionar a faca na pele dele, até que um filete de sangue escorresse.

— Falei para não se mexer.

— Quis testar minha sorte — o vampiro sorriu de novo.

Como ele podia continuar tão arrogante depois de perder?

— Você é talentosa, caçadora. Uma pena que eu não jogue limpo.

Antes que Marinette pudesse reagir, o fio de sangue esticou-se da bochecha dele até uma pilha de caixas deixadas naquele beco. Com um simples puxão, todo o peso foi derrubado sobre os dois e algo atingiu Marinette na cabeça.

Foi a última lembrança dela antes de perder a consciência.

***

Acordou pela manhã, com a luz do sol irritando seus olhos acostumados com a escuridão. Ergueu-se de súbito, pronta para encarar qualquer adversário, mas não havia ninguém além dela no beco.

Pelo chão, encontrou manchas de sangue seco, o que indicava que aquele monstro não escapara ileso. Porém, ao tentar seguir o rastro para encontrar o esconderijo dele, elas sumiram em determinado ponto. Que merda!

Estressada com o fracasso da missão, voltou para seu apartamento para tentar dormir mais algumas horas antes de voltar à caçada. Cochilando em frente à porta, estava alguém que conhecia.

— Juleka? — questionou, despertando-a suavemente. — O que está fazendo aqui?

Juleka não era uma caçadora como Marinette. Haviam se conhecido por acaso, já que ela trabalhava no bar em que caçadores costumavam se reunir para planejar seus movimentos.

Logo que Juleka abriu os olhos e percebeu onde estava, agarrou-se ao casaco da amiga.

— Marinette! Por favor, eu preciso de sua ajuda!

— Calma, vamos entrar primeiro, ok?

Marinette ainda estava com dores de cabeça e pelo corpo depois de ser atingida pelas caixas e desmaiar no chão sujo. Assim, não foi tão ágil ao servir a ela um copo d’água.

— Você está bem? — perguntou Juleka diante de sua exaustão. — Parece cansada.

— Foi uma longa caçada na noite passada.

Foi impossível não notar como ela reagiu à palavra caçada.

— É sobre isso que quer falar?

— Eles levaram o Luka! — Juleka enfim admitiu. — Bem na minha frente e eu não pude fazer nada...

Sabia bem quem eram eles a quem Juleka se referia. Os mesmos monstros que perseguia noite após noite.

— Quantos? Onde vocês estavam?

— Deviam ser uns cinco. Ele foi me buscar no bar e estávamos voltando para casa, perto do Panteão, quando nos cercaram e falaram algo sobre… Agrestes?

Ah, não.

— Quer dizer Gabriel Agreste? — indagou de maneira automática.

— Acho que era esse o nome. Por quê?

Como avisar a ela que o irmão havia sido levado para o vampiro mais poderoso de Paris?

— Nada. — Pôs uma das mãos no ombro dela de maneira tranquilizadora. — Vou salvar Luka, pode ter certeza.

— Obrigada, Marinette!

Juleka sempre fora tímida e reservada. Ainda assim, ela tomou a iniciativa de puxá-la para um abraço cheio de confiança. Iria recuperar o irmão dela de qualquer jeito, não importava o que teria de fazer para isso.

***

Depois de três noites, não conseguira encontrar nenhuma informação sobre o paradeiro de Gabriel Agreste. O nome dele circulava em meio ao mistério, assim como as sombras que ele era capaz de dominar, segundo diziam as lendas.

E Marinette conhecia muito bem o mundo das trevas para saber que todas as lendas eram reais.

Ao menos encontrou um reduto de vampiros, escondido sob a fachada de uma boate. Não era burra para se revelar como caçadora, então viera com menos armas, mais fáceis de passarem despercebidas. Estava atenta às conversas que ouvia escondido, até que ouviu duas vozes muito parecidas na mesa atrás da sua, o que atiçou sua curiosidade.

— Você acha que ele está bem? — indagou o que parecia ser o mais preocupado.

— Conhecendo meu tio, deve estar sendo torturado nesse mesmo instante. — O mal humorado se interrompeu. — Estou brincando. Para o que ele quer, seu precioso humano é mais útil inteiro.

Humano? Continuou a fingir que bebia um drink e afiou os ouvidos.

— Precisamos fazer alguma coisa!

— Desespero não vai te levar a lugar algum.

— O que quer que eu faça? Eu amo o Luka!

Ouviu um suspiro cansado. Deveria ser o mais mal humorado deles. Mas não podia ser coincidência. Um humano chamado Luka? Tinha de segui-los naquele mesmo instante!

A pouco mais de meio quilômetro da saída, foi fácil demais agarrar um deles numa emboscada. Estava com a faca na garganta de um deles quando reconheceu o outro como o vampiro que fugiu dela noites atrás.

— Ora, se não é a pequena caçadora buscando vingança. — A voz dele continuava mansa e tentadora. — Mas acho que pegou o vampiro errado, querida.

Como ele podia dizer aquilo se eles eram idênticos? Com exceção dos penteados e da maneira de se vestirem, não haviam quaisquer diferenças.

— Não se mexa ou vou cortar a garganta dele! — Marinette insistiu, pois estava falando sério.

Já havia decapitado vampiros por bem menos.

— Estaria me fazendo um favor, sinceramente.

Félix! — choramingou o vampiro aprisionado entre os braços de Marinette.

O tal Félix não gostou nem um pouco de ter seu nome revelado. O que antes era um sorriso irônico tornou-se uma carranca nada amistosa.

— O que quer em troca desse linguarudo, caçadora?

— O que sabem sobre Luka? Onde ele está?

— Você está ameaçando matar quem conhece ele melhor que ninguém. — Félix gesticulou na direção do outro vampiro.

— Expliquem-se.

— Luka é meu namorado — ele informou rapidamente. — Estamos procurando por ele também.

Pressionou a faca com mais força contra o pescoço pálido. Quem eles estavam tentando enganar?

— Pare de mentir, parasita.

— Não é mentira! Meu pai só o sequestrou para me obrigar a fazer o que ele quer.

Félix não pareceu nada contente com aquela confissão. E engrenagens passaram a rodar no cérebro de Marinette.

— Você é Adrien Agreste?

— Como sempre, você fala demais. — Félix revirou os olhos.

Todos os caçadores conheciam a história do filho de Gabriel Agreste, que se recusava a tomar sangue humano e vivia de roubos em bancos de doações de sangue. Uma criatura tão bondosa que nem parecia um vampiro.

Como estava distraída pela revelação, Marinette não percebeu quando Adrien conseguiu se desvencilhar.

— Perdão, senhorita, mas não podemos perder tempo com você — avisou Adrien, bem educado como imaginava devido à fama dele.

Todas as luzes na viela se apagaram e quando voltaram a acender, ambos sumiram.

***

Marinette estava frustrada. E exausta. Depois de ouvir a conversa dos dois vampiros que deveriam ser primos (já que Félix chamou Gabriel Agreste de “tio”), não encontrou nenhuma outra pista. Agora conhecia os motivos do sequestro, mas isso não a aproximava um centímetro sequer do paradeiro de Luka.

Duas noites depois, reconheceu Félix em outra boate. Ele sussurrava algo no ouvido de uma mulher que aparentava ter a idade de Marinette. Reconheceu-o pela expressão maliciosa, que foi o bastante para convencer a mulher a acompanhá-lo para uma cabine íntima.

Como conhecia bem aquela estratégia, seguiu os dois até uma saleta no andar superior do edifício. Ao chutar a porta, ela estava sentada no colo do vampiro, enquanto ele estava prestes a mordê-la.

— Tire as presas de cima dela imediatamente — exigiu a caçadora, apontando uma das facas na direção dele.

— Você realmente gosta de me incomodar, huh?

— Estou te impedindo de ferir uma moça indefesa. Se isso te incomoda, tem algo de muito errado com você.

— Pelo amor de deus! — irritou-se a própria mulher que viera salvar.

Marinette assustou-se com a raiva na voz dela, mas reconheceu-a imediatamente. Lila Rossi. Uma cretina mentirosa e manipuladora. Estava longe de ser a pessoa preferida de Marinette, mas não escolhia a quem salvar. Nenhum ser humano merecia ter seu sangue arrancado à força, mesmo o pior deles.

— Pode nos deixar a sós? — Lila insistiu e o timbre dela deixava nítida a sua repulsa. — Ou vocês caçadores tem algum fetiche em observar os outros?

— Estou aqui para te salvar, droga! Ele quer o seu sangue! Fuja!

— Por que eu iria fugir se é exatamente por isso que estou aqui, Marinette?

— Você não…

O sorrisinho presunçoso de Lila foi a pior parte. Marinette teve de se controlar para não atirar aquela faca nela.

— Quer dizer que não te ensinaram na academia que existe uma espécie de vampiro com uma mordida tão gostosa quanto sexo?

Ao ouvi-la, Marinette corou bastante. Não apenas pelo constrangimento, mas também pela raiva que sentir por pessoas como Lila, que se entregavam a vampiros por vontade própria somente por alguns minutos de pura luxúria.

— Eu gostaria de privacidade. — Félix foi ainda mais irritante com a voz autoritária. —A menos que queira ser a próxima.

Saiu de lá sob uma nuvem de ódio. Odiava Lila. Odiava ainda mais Félix, por escapar dela assim tão fácil. Sua licença como caçadora poderia ser revogada se descobrissem que ela atacou um vampiro que coexistia “pacificamente” com humanos sedentos por prazer. O conselho de caçadores não queria exterminar todas as espécies de vampiro, apenas as letais para a segurança dos humanos. Para Marinette, todos eram perigosos. Principalmente aqueles que convenciam humanos através de seus instintos mais básicos.

Mas aquilo não iria acabar ali. Se ele era arrogante e esperto, bem, ela era teimosa no mesmo nível. Esperou que ele saísse da cabine, sozinho, e o encurralou numa saleta próxima com o auxílio de cordas abençoadas como suas facas. Pego de surpresa, ele foi amarrado com facilidade contra um divã. Marinette se manteve de pé, atenta à cada movimento que ele fizesse.

— Por Nosferatu, qual é o seu problema? — resmungou ele logo ao reconhecê-la.

Respondeu com o mesmo sorrisinho irônico com que ele sumiu da última vez.

— Você acha que pode ter escapado de mim porque convence suas vítimas com promessas sujas, mas isso não muda que lutou contra mim e me feriu. Uma humana.

— Ah, então aquilo doeu? Que bom, porque suas facas também machucam como o inferno.

Marinette não era estúpida. Da última vez que o ferira, ele manipulara o próprio sangue. Não iria cair no jogo dele de novo, porém isso não impediu que o ameaçasse.

— E vão machucar de novo se não responder minhas perguntas.

— Aposto que são sobre aquele garoto humano. — Ele sorriu, mas ainda estava com raiva. Ótimo, que continuasse assim. — Por acaso quer ser a rival amorosa de Adrien?

— Meus motivos são diferentes dos dele. Quero saber onde Luka está.

— Todos nós queremos, caçadora, mas Gabriel Agreste o esconde muito bem.

— Posso ver que está mentindo para mim.

Usou da força das mãos para puxar mais as cordas, que o pressionaram ainda mais contra o estofado. Continuaria a empregar todo o esforço possível até que ele falasse a verdade — o que não demorou tanto assim.

— Talvez porque eu não me importe tanto assim com o namoradinho de meu primo — ele murmurou, desconfortável.

— E o que quer com ele, então?

Félix pareceu relutar antes de responder, o que era um bom indicativo de que Marinette estava no caminho certo.

— Digamos que meu tio tem algo que me interessa.

— Sem mais charadas, sanguessuga! — exigiu a caçadora, apertando-o a ponto de deixar marcas dessa vez.

— Porra, isso dói! — Ele enfim admitiu: — Os anéis. Ele tem duas alianças que protegem da luz solar. É isso o que eu quero.

Ele podia estar mentindo, mas fazia sentido. Nunca havia ouvido falar de anéis desse tipo, mas também não era improvável que existissem.

— Vai me soltar agora?

— Só se me disser onde Luka está.

— Você acha que se ele soubesse disso já não teria me dito? — ouviu uma voz familiar na direção da porta.

Marinette não se deixou enganar de novo por Adrien.

— Posso dar conta de vocês dois, então não testem a minha paciência — avisou, trocando olhares entre ambos, bastante atenta desta vez.

— O que acha de um acordo? — Adrien sugeriu.

De imediato, Félix recusou a ideia:

— O quê? Adrien, não!

— Nós queremos salvar a mesma pessoa. Quer dizer, meu primo egoísta só quer os anéis, mas ele está disposto a me ajudar para conseguir isso.

Félix revirou os olhos novamente, porém não negou o fato de ser egoísta.

— E daí…? — incitou Marinette, ainda que soubesse vagamente onde ele queria chegar.

— Podemos nos aliar, sabe. Pelo Luka.

Nem pensar! — disseram Félix e Marinette ao mesmo tempo.

Estava claro que aqueles dois só trariam problemas. Sem nada a mais que pudesse arrancar dele como informação, Marinette soltou Félix e marchou na direção da porta. Quase esbarrou em Adrien, mas desviou-se a tempo porque teve pena da expressão arrasada dele.

— Não preciso da ajuda de nenhum vampiro para salvar Luka — grunhiu entre dentes, enraivecida por sentir compaixão por um daquela espécie. — Vou fazer isso sozinha!

***

Ela não conseguiu fazer aquilo sozinha.

Mesmo caçando vários vampiros ao longo da semana, não encontrou um sequer que soubesse onde Gabriel Agreste mantinha seus prisioneiros. O mais poderoso vampiro de Paris já fizera algumas aparições públicas, mas sempre muito breves e acompanhado de seus escravos de sangue — que nada mais eram que antes humanos viciados no sabor e no poder adquiridos pelo sangue de um vampiro, com força e reflexos sobrenaturais, sem as fraquezas como luz do sol e armas abençoadas, presos a um laço de sangue com o vampiro que os transformara.

Certa noite, tentou segui-lo, contudo, assim como o filho, ele controlava as sombras e desaparecia no escuro conforme desejava. Por mais uma noite, voltou para o apartamento de mãos vazias, incapaz de encarar Juleka quando ainda não cumprira o que prometera a ela.

Naquela madrugada, Marinette havia acabado de prender um vampiro que estraçalhava as próprias vítimas. Foi ao bar ao lado do beco para pensar em alguma estratégia mais eficiente que apenas caçar e procurar rastros.

Estava sentada em uma das banquetas altas quando reconheceu a voz grave ao seu lado:

— Vou querer um uísque para mim e uma limonada bem azeda para a senhorita aqui.

Ah, claro. Não bastava remoer sozinha seu fracasso, iria remoê-lo ao lado de Félix, o último vampiro com que queria estar.

— Já tenho idade para beber, idiota — grunhiu, irritada.

— Eu sei. Mas aposto que não bebe em serviço.

— O que faz aqui? Não queria se ver livre de mim?

Félix nem respondeu. Tomou um gole da bebida quando lhe foi servida e empurrou para ela o copo de limonada, que Marinette manteve intacto.

— Soube que sua busca por Gabriel Agreste não deu resultado. Você não é nada sutil, Dupain-Cheng.

— E o que você tem a ver com isso? — Manteve-se na defensiva ao ouvir seu sobrenome. Ele realmente era um intrometido. — Não vejo nenhum anel mágico em seu dedo também, então estamos ambos na estaca zero.

— Andei pensando no que Adrien sugeriu. O tal… acordo.

— Já dei minha resposta: nunca. Não vou me aliar a vampiro nenhum.

— Nem se eu souber onde o namorado dele pode estar?

Desembainhou a faca no mesmo instante e levou-a na direção do rosto de Félix, desatenta até mesmo ao poder que ele tinha de manipular o próprio sangue.

— Fale agora!

Não foi Félix quem impediu-a de atingi-lo. Foi o próprio atendente.

— Abaixe essa faca aqui, mocinha. — O tom dele era severo e cansado, como se lidasse a noite inteira com caçadores raivosos demais. — Esse é um território neutro e não estou disposto a mudar esse status.

— Você o ouviu. Vai ter que conversar de maneira civilizada.

— Como se um parasita soubesse o que é isso!

— Uma promessa de sangue — sussurrou Félix. — Estou disposto a fazê-la com você.

Hmm… Uau. Nossa, era inacreditável.

Já havia estudado aquilo na academia. Eram acordos extremamente raros entre vampiros e humanos, em que mortais tomavam o sangue de imortais. Não eram como a criação de escravos de sangue, pois havia um contrato escrito em sangue entre eles que os impedia de se tornarem subalternos.

Geralmente eram feitas entre amantes, como prova de amor. O vampiro não poderia sugar o sangue do humano, nem enganá-lo ou atacá-lo. Além disso, o humano ainda recebia reflexos mais aguçados, maior resistência e força. Em troca, o vampiro obtinha basicamente nada além de uma lealdade espontânea, que podia ser revertida quando o humano quisesse.

— E o que tem a ganhar com isso? — indagou, desconfiada com todas as razões do mundo.

— Realmente quero os anéis de volta. E preciso de alguém que consiga andar à luz do sol para isso.

— De volta? Eles eram seus, por acaso?

— Eram da família de minha mãe e minha tia — Félix sussurrou novamente. — Gabriel Agreste os manteve com ele após a morte de tia Emelie, mesmo que eles nos pertençam por direito. Ele não é um Graham de Vanily.

Deveria ter imaginado que ele não era francês pelo sotaque. Os Graham de Vanily eram um clã de vampiros conhecido em Londres.

— E por que eu? Pode pedir isso a qualquer pessoa.

— Não vai ser fácil, querida. — Ele sorriu após ingerir o resto do uísque. O copo de Marinette permanecia intocado. — Preciso de alguém durão como você.

— Sabe que posso me aproveitar disso para salvar Luka e te deixar de mãos abanando quanto aos anéis, não sabe?

Marinette e sua maldita boca grande.

— Quanta sinceridade, Dupain-Cheng. Achei que ensinavam vocês a mentir na academia.

— Não sou uma mentirosa como Lila. Já você, é outra história.

— Está com ciúmes, caçadora? — Félix apoiou o queixo na mão e o sorriso tornou-se muito mais malicioso. — Posso te morder sempre que você quiser.

Indignada, Marinette corou de raiva com a insinuação. Quem ele pensava que ela era, para imaginar que se comportaria como Lila Rossi?

— Não se firmarmos a promessa.

— Então está disposta a se aliar com um parasita mentiroso — ele ironizou antes de deixar uma nota de cem euros no balcão. Malditos vampiros ricos.

— Não me faça mudar de ideia.

— Eu não me atreveria. — Apesar das palavras, o timbre dele permanecia sarcástico. — Podemos ir?

— Para onde?

Sua desconfiança fez com que Félix franzisse as sobrancelhas. Como se a simples ideia de não confiar nele fosse inadmissível e não a alternativa mais sentada, considerando o histórico entre os dois.

— Quer firmar uma promessa de sangue numa mesa de bar, Dupain-Cheng? Que vulgar. — Como se para acalmá-la, ele pôs uma das mãos delicadamente sobre seu ombro. Só serviu para deixar Marinette ainda mais alerta. — Pode ficar tranquila. Não vamos sair do território neutro.

Ainda hesitante, seguiu-o pelas escadas com muito cuidado até um dos quartos que eram obviamente versões improvisadas de um hotel barato. Teias pendiam do teto e podia apostar que as cortinas e o tapete tinham a coloração acinzentada devido ao pó. Ao menos a cama estava limpa.

— E como vai ser isso? — Marinette questionou, ainda descrente.

— Sente-se que eu vou-

— Não. Você vai ficar deitado e indefeso enquanto me explica o que tenho que fazer e, eu juro, se tentar algum truque sujo para me enganar, vou ficar muito feliz em romper o tratado de neutralidade.

Cruzou os braços e encarou o vampiro até que tivesse uma resposta.

— Sempre foi assim tão mandona?

— Estou esperando.

Ele estava mal humorado pelo jogo ter virado, era perceptível. Olhando por esse lado, Marinette estava quase se divertindo. Quase que de propósito para adiar o momento de se ver à mercê de uma caçadora, Félix deitou-se lentamente. Quando estava parcialmente reclinado, sobre os cotovelos, perguntou:

— Qual será o prazo?

— Que prazo?

— Acha que esse tipo de acordo dura para sempre? Nenhum vampiro aceitaria se fosse assim.

Não precisou pensar por muito tempo.

— Então até o resgate de Luka.

Após acenar com a cabeça ao concordar com a data, Félix cortou a palma da mão com uma das unhas. Usou do sangue para anotar a informação no dorso da mão, o que era bem diferente ao que Marinette esperava para aquele acordo. Então era grafado no próprio corpo e não em papel?

— Venha aqui, preciso escrever na sua pele também.

Receosa, subiu na cama ao lado dele, sentada com as pernas para fora. Estendeu a mão para ele, imaginando que a pele do vampiro seria fria como neve. No entanto, estava enganada. Não chegava a ser quente, mas o toque dele também não era congelante.

— Achei que vocês não mantinham calor.

— Só se não nos alimentamos direito — ele respondeu enquanto preenchia a palma dela. — A pele de Adrien é mais fria que a minha porque ele se recusa a tomar sangue de humanos vivos, aquele idiota.

Ao final, olhou para o contrato assinado com sangue em sua mão. Era bem mais simples do que imaginava, em letras muito pequenas e de caligrafia elegante.

Por meio deste, declaro que

Félix Graham de Vanily & Marinette Dupain-Cheng

firmaram um pacto de sangue

iniciado na data de hoje

e findado quando do resgate de Luka Couffaine.

— Agora venha tomar o meu sangue.

Como se já estivesse acostumado a isto, Félix afrouxou a própria gravata, abriu o colarinho da blusa social e apontou para o próprio pescoço.

— O quê?

— Tem que sugar diretamente de mim para fazer efeito, Dupain-Cheng. Ou melhor, lamber, já que não tem presas.

Marinette ruborizou violentamente.

— Eu não sabia disso!

— Pois agora sabe. — Ele tinha pressa. — Venha logo.

— Precisa mesmo ser assim? Não posso… chupar seu braço?

Ele ergueu uma sobrancelha com ceticismo.

— Para alguém tão valente, até que é fácil te deixar envergonhada.

— Cale a boca! Eu vou fazer.

Ainda com as unhas, Félix abriu um pequeno corte na garganta. Marinette hesitou ao ver o líquido vermelho brotar e escorrer, então fechou os olhos e baixou a cabeça até alcançar a pele dele.

E todo receio, vergonha e desconfiança sumiram ao provar do sangue do vampiro. Era… mais delicioso do que tudo que já havia provado. Mais viciante do que qualquer sensação prazerosa. Tão doce quanto mel, tão marcante quanto especiarias. Poderia degustar para sempre daquele sabor.

Logo não só lambeu como tentou sugar, chupando a pele dele com vontade. Já nem lembrava onde estava, com quem compartilhava o quarto ou o qu viera fazer naquele fim de mundo. Ficaria ali por horas, se fosse necessário. Até que…

— ...Cheng. Dupain-Cheng. Marinette!

Marinette afastou-se de imediato e, ainda assim, não resistiu à vontade de lamber os lábios, envergonhada.

— Eu… Me desculpa.

— Não precisa se desculpar. — O sorriso dele foi ficando mais safado. — Sei que sou gostoso.

Já estava tão constrangida que nem conseguiu ficar irritada.

— E agora?

— Peça pela minha lealdade.

— Pedir? Não posso mandar em você daqui em diante?

— Quanto atrevimento para quem estava me chupando como uma esfomeada minutos atrás — contestou Félix, imune às tentativas dela de sair por cima naquele jogo.

Ela não sabia como rebater isso.

— Ok. — Como ele não havia esclarecido o que deveria dizer, improvisou qualquer coisa: — Félix Graham de Vanily, me prometa que será leal a mim até o encerramento deste contrato.

Por meu sangue, eu juro.

Seria impossível dizer que o pacto não fizera efeito, porque no mesmo instante Marinette sentiu uma injeção de força tomar seu corpo inteiro. A visão tornou-se mais nítida aos detalhes; passou a captar sons mesmo do subsolo do bar. Sentia que podia quebrar uma parede com os próprios punhos. Talvez não fosse possível, mas era essa a impressão.

Além disso, o contrato de sangue na palma se tornara um selo, no qual os nomes deles misturavam-se a runas antigas.

— E você?

— Eu? — Félix pareceu confuso pela primeira vez.

— Não tenho que te jurar lealdade também?

— Você é realmente muito justa — confirmou ele, incrédulo diante da bondade de alguém. Talvez não fizesse sentido para alguém tão ardiloso. — Precisa mudar isso se quiser ser uma boa caçadora.

— Não quero saber de conselhos. Faça o pedido.

A resposta de Félix foi um suspiro monótono, assim como seu timbre ao pronunciar:

— Marinette Dupain-Cheng, jure que não trairá a mim até o término desta promessa de sangue.

— Eu prometo.

Nada de mágicas ao redor deles desta vez. Mais um sinal de que aquele acordo era muito mais vantajoso para ela do que para ele.

— Então está feito. — Rapidamente, Félix ergueu-se da cama e entregou a ela um pedaço de papel dobrado. — Vá a este endereço amanhã e vamos te explicar os próximos passos.

— Por que não aqui?

— Já corremos risco demais tratando disso onde espiões podem ouvir.

Só quando ele deixou o quarto e fechou a porta ao deixá-la que Marinette pensou no que acontecera. Onde tinha se metido, afinal?

***

Ele podia ser seu inimigo natural como caçadora, mas aquele vampiro era tão prevenido quanto ela. Em vez de instruí-la a chegar onde vivia segundo o método comum, Félix detalhou no mapa como ela poderia chegar através de túneis subterrâneos, para que não fossem vistos juntos.

Como sempre, foi devidamente armada, mesmo que fosse desnecessário. Félix não seria capaz de feri-la e Adrien… ele não parecia capaz de ferir ninguém. Subiu atentamente os degraus até o átrio que antecipava a sala de jantar. E, como Marinette imaginava, a casa em que eles se encontrariam estava mais para um casarão. Qual era a daqueles vampiros ricos?

— Marinette! — cumprimentou Adrien, abraçando-a com vontade. — Que bom que você chegou.

A caçadora ergueu a sobrancelha. Ou Adrien era muito abusado ou muito ingênuo. Provavelmente a segunda opção. O comentário de Félix foi breve e ele parecia tão surpreso quanto ela quanto à reação do primo:

— Bastante pontual, Dupain-Cheng.

As lembranças da noite anterior deixaram Marinette vermelha como uma joaninha. Para distrair-se, foi direto ao ponto.

— Qual é o plano? E onde está Luka?

— No Pompidou. — Marinette já estava prestes a sair em busca dele quando Félix a interrompeu. — Espere, ainda não terminei. Ele está numa sala amaldiçoada em que nunca anoitece.

Fazia sentido Gabriel Agreste impedir o filho de salvar o namorado. Cruel, embora eficiente.

— É por isso que precisam de mim?

— Em partes. — Félix apontou para o mapa da cidade cuidadosamente esticado sobre a grande mesa de jantar. — Para entrar lá, precisa da chave. Que está na Basílica de Sacré-Coeur.

— E vocês não podem tocar o solo sagrado — Marinette concluiu.

— Por enquanto. Com o molho de chaves reserva que Gabriel Agreste escondeu lá, vou encontrar os anéis também.

— Tem algum motivo pelo qual ele mesmo não os utiliza? Se são tão poderosos assim…

— Só os Graham de Vanily podem usar.

— Minha mãe podia… — lamentou Adrien, olhando para o mapa.

Marinette lembrou-se do que Félix havia contado sobre a família deles. “Tia Emelie” devia ser a mãe de Adrien e só o que sabia sobre ela é que havia morrido. Não resistiu à vontade de confortá-lo, ainda que soasse bastante estranho quando ela mesma caçava a espécie dele toda noite.

— Sinto muito, Adrien.

— Quem diria que uma caçadora poderia consolar um vampiro — comentou Félix. Mas não havia sarcasmo ou insensibilidade em sua voz.

Ele estava… razoavelmente surpreso. O que levava a mais uma questão que deixava Marinette inquieta.

— E o que pretende fazer com esses anéis? Não sei se tanto poder em suas mãos é uma decisão sensata.

Era nítida a luta que ele travou consigo mesmo para não responder àquela pergunta.

— Quero salvar minha mãe — Félix admitiu por fim, derrotado contra a promessa de sangue.

Adrien arregalou os olhos ao ouvi-lo.

— Félix, por que você- Por Drácula, eu não acredito!

— Adrien, fique quieto!

— Você fez uma promessa de sangue também! — Adrien gargalhou com vontade. — Sempre zombou de mim por ter feito uma com Luka e acabou fazendo de qualquer jeito!

— É temporário.

— Todas são temporárias — lembrou Adrien e continuou a rir. — Meu primo ardiloso e rabugento fez uma promessa de sangue com uma caçadora de vampiros!

Aquele lado de Adrien era diferente. Mais ousado e divertido, quase como se fosse um humano comum. Marinette acabou contagiada pelo bom humor e riu também ambos usando a risada um do outro como motivo para gargalharem ainda mais.

— Do que está rindo? — Félix questionou, inconformado com a rebelião contra ele.

— E não é que o senhor Graham de Vanily também fica constrangido?

Bem feito pra ele!

— Constrangimento foi o que você sentiu depois de lamber meu sangue como se estivesse viciada.

Marinette engasgou enquanto Félix ajeitava a própria gravata.

— Como se atreve!

Os olhos de Adrien brilharam de prazer ao encarar entre um e outro.

— Opa, vou deixar o casalzinho discutir. Me chamem quando terminarem!

Ambos encararam um ao outro com nojo quando ele deixou-os na sala de jantar.

***

O plano não deu certo.

Pretendia entrar na igreja durante uma celebração, descer escondida até o subsolo e encontrar as chaves. Félix avisara que ela não podia ativar os gatilhos das armadilhas ou seriam descobertos, então o melhor seria reconhecê-las e agir com cautela. Por via das dúvidas, a primeira visita de muitas deveria ser apenas de identificação.

Contudo, Marinette tinha pressa. Luka precisava dela; já estava há quase duas semanas desaparecido. Assim, ela foi descuidada. E pagou seu preço.

Na ânsia por chegar logo ao repartimento em que Gabriel Agreste escondera o que procuravam, foi atingida por uma flecha envenenada. Em seguida, sua presença foi detectada por um escravo de sangue, que a perseguiu por uma sequência de quarteirões.

Conseguiu despistá-lo, porém não sabia em que local seguro podia se abrigar enquanto buscasse a cura para o veneno. A academia de caçadores estava vetada enquanto tivesse uma promessa de sangue marcando sua pele. Havia os apartamentos de suas amigas comuns, mas não queria arrastar Alya, Mylene ou Alix para este conflito. Não poderia garantir a segurança delas quando seu objetivo era ajudar Juleka e Luka.

Juleka!

O mais rápido que pôde estando tão ferida, arrastou-se até o prédio dela e bateu à sua porta.

— Marinette, o que aconteceu?! — perguntou ela ao deparar-se com a amiga ensanguentada.

Não conseguiu formar palavras antes de desmaiar.

***

Em meio à inconsciência, a voz irritada de Juleka atraiu sua atenção. Não o bastante para que despertasse por completo — ainda estava fraca demais para diferenciar quaisquer sons de um sonho vívido.

— Saia daqui agora! — ouviu a amiga reclamar. Logo ela, normalmente tão contida. — Você é o último vampiro que quero ver nesse momento.

— Tem todos os motivos para ter raiva de mim, Juleka, mas quero ajudar Marinette.

Reconhecia vagamente aquele tom amistoso. Estava mais sério que de costume, mas só podia ser Adrien. Félix nunca falaria dessa forma nem iria querer ajudá-la.

— Como ajudou o Luka, não é? Aposto que ele foi sequestrado por sua causa.

Silêncio foi a única resposta que Juleka teve.

— Eu sabia!

Mais uma vez, Marinette apagou em um sono profundo.

***

Quando acordou de fato, foi um gesto súbito. Quase como se fosse retirada do fundo do mar e voltasse a respirar de uma só vez todo o ar que conseguisse. Não reconheceu o teto de onde estava deitada e logo quis levantar para descobrir, porém foi impedida. Mãos longas a seguraram contra o colchão.

— Fique quieta, seu ferimento ainda não fechou — avisou uma voz grave.

— Félix? — Não se lembrava de ir até ele. — Onde estamos?

— Ainda está na casa de sua amiga, se é isso que te preocupa. Ela me chamou.

— Como ela sabia quem-

— Esqueceu da marca temporária que nos une?

Talvez para acalmá-la, ou apenas para demonstrar do que estava falando, ele acariciou a palma da mão dela, sobre o selo que os marcaria até o resgate. Só enfim percebeu que ele mexia uma das mãos com cuidado, em gestos lentos mas firmes.

— O que está fazendo? — questionou, curiosa, já que não podia ver exatamente para que ele gesticulava.

— Puxando o veneno de você.

Lembrou-se então de que ele podia manipular o próprio sangue, provavelmente uma habilidade herdada em família. Então Félix podia fazer isso com os outros também? Um primo que manipulava sombras e outro que manipulava sangue — uma combinação mais que perigosa, se eles não fossem seus aliados. E falando no primo…

— E Adrien?

— Ela o expulsou como se ele fosse um cachorro.

Na verdade, Félix quase parecia bem humorado ao dizer aquilo. Babaca.

— E deixou você entrar? Que imprudente da parte dela.

— Não tem o direito de chamar ninguém de imprudente, Dupain-Cheng.

Não havia notado antes, mas ele soava mais estressado que de costume. Não sabia se pelo cansaço ou pela raiva, contudo apostou na segunda alternativa, já que era costume entre eles sentir ódio um pelo outro.

— Você está… irritado comigo?

— Estou furioso.

Apesar do que dissera, Félix conseguia disfarçar bem as próprias emoções. O rosto dele era uma máscara impassível. Já a reação imediata de Marinette foi buscar justificativas e esconder dele o que sentia: culpa, decepção, frustração.

— Pessoas erram, tá? Sei que vocês acham que sou invencível-

— Conheço os seus limites, caçadora. — Ele continuou muito mais calmo que ela, o que a deixou profundamente zangada. — Foi você quem esqueceu deles ao invadir o subsolo daquela igreja sem nenhum preparo.

— É muito fácil falar de preparo quando não é você que está angustiado em busca de alguém. Estamos falando de uma pessoa desaparecida! Não. Temos. Tempo.

— E esse desespero te trouxe algum sucesso? — Félix a encarou conforme ela virou o rosto para o lado. — Pelo visto, não.

— Não sou uma máquina sem sentimentos como você.

Ao ouvir o suspiro exausto dele, Marinette achou que a conversa estava encerrada ali e que vencera por desistência por parte dele de continuar a discutir. No entanto, estava enganada. Depois de não sabia quanto tempo de silêncio, ele desabafou de uma só vez:

— Um ano. Faz um ano que caçadores como você mataram meu pai e aprisionaram minha mãe em uma ilha enfeitiçada onde sempre é dia. Faz um ano que estou procurando por esses anéis para tirar ela de lá. Um ano de planejamento, investigação e persistência. Então não me venha agir de maneira irracional e colocar a culpa em suas emoções. Sentimentos nunca salvaram ninguém.

Marinette ficou sem fala. Nesse meio tempo, ele conseguiu fechar a ferida por onde retirara o veneno do sangue dela.

— Terminei por aqui. Descanse até amanhã.

Logo que Félix saiu do quarto, Juleka entrou, como se receosa de compartilhar espaço com algum vampiro depois do que ocorrera com Luka. Marinette ainda estava perplexa com o que ouvira.

— Você está melhor?

— Estou, sim. — Voltou a si a tempo de respondê-la, mas não o bastante para sorrir em resposta. — Obrigada, Juleka.

Suas palavras não convenceram a amiga, que continuou desconfiada.

— Só confiei nele porque vi a marca. Com ela ele não pode te machucar, não é? Mas ouvi vocês discutindo. Fiz errado em chamá-lo?

— Nós sempre estamos discutindo. Não precisa se preocupar.

— Foi pelo Luka, não é? — Juleka fez uma pausa, olhou para o selo e desviou o olhar imediatamente, como se fosse pega fazendo algo que não devia. — Que você se aliou a… eles.

— Eu tentei sozinha, mas… Pelo visto eu preciso de ajuda.

Ainda pensando no que Félix dissera, Marinette contemplou a própria marca. Lembrou de tudo o que ele arriscara ao se submeter a ela em uma promessa de sangue que não lhe trazia quaisquer vantagens além da confiança de uma aliada que podia andar sob o sol e em terreno sagrado. Ele também queria salvar alguém e estava disposto a tudo em nome disso.

— Eu sinto muito, Marinette — desculpou-se Juleka, arrancando-a de seus pensamentos. — Antes de pedir ajuda a você, tentei entrar em contato com os caçadores, mas eles só me meteram numa sala e me interrogaram durante horas. Ninguém fez nada e eu só tinha como pedir a você.

Desta vez, conseguiu sorrir para ela. Ainda acariciou seu cabelo, para tentar consolá-la de alguma forma.

— Não precisa se desculpar, Juleka. Eu te ajudaria mesmo que você não me pedisse.

Depois de muito resistir, Juleka não aguentou e começou a chorar. Abraçou-a com força, como se pudesse fraquejar caso não estivesse segura a alguém. Marinette retribuiu com carinho e firmeza.

— Eu sinto tanta falta dele…

— Nós vamos achá-lo — reafirmou a promessa. — Não se preocupe, eu vou conseguir.

***

Na noite seguinte, voltou ao casarão em que viviam os primos pelo mesmo caminho intrincado de túneis subterrâneos. Foi bem recebida como sempre, apesar de achar que não o merecia depois do que fizera.

— Olha quem vem aí! — Adrien cumprimentou-a, erguendo uma taça que devia estar cheia de sangue coletado de bolsas de doações. — A caçadora mais talentosa de toda Paris!

— Não precisa me consolar, Adrien. Eu sei. Eu fodi com tudo.

Adrien arregalou os olhos e Félix ergueu uma das sobrancelhas.

— Eu não devia ter agido de maneira impulsiva — admitiu a contragosto. Odiava desculpar-se, mas era necessário. — Estraguei nossos planos, me desculpem.

Nenhum deles disse nada por um longo tempo. Afinal, como reagir a uma caçadora pedindo desculpas para dois vampiros. Ainda assim, o primeiro a romper o silêncio foi Félix, cruzando as mãos cuidadosamente sobre a mesa.

— Eu não ouvi direito, Dupain-Cheng. Poderia repetir assim que Adrien trouxer um gravador para preservar para a eternidade estas raras palavras?

Aquele miserável!

— Eu não acredito…! — Marinette estava incrédula. Ela havia falado sério! — Esquece tudo o que eu disse!

Diante da demonstração de deboche do primo, Adrien pigarreou.

— Não está esquecendo de nada, Félix?

Insatisfeito, Félix resmungou e apoiou a testa em uma das mãos. Ele também odiava pedir desculpas.

— Eu também agi errado. Não devia ter deixado tudo nos seus ombros. Você não é nossa ferramenta.

Adrien estava boquiaberto, porém não mais que Marinette.

— Eu realmente devia ter pegado o gravador quando você avisou — o vampiro comentou para si mesmo. Aquela era uma ocasião para ser celebrada de tão incomum.

— O que vamos fazer agora? — Marinette quis saber. — Nos descobriram?

— As chaves não estão mais lá, mas não há mais nada que nos relacione ao incidente. — Félix esclareceu.

— Como você fez isso?

Após cruzar os braços, Adrien respondeu a dúvida bastante contrariado:

— Com manipulação e ameaças, o que mais seria?

Félix sorriu para ambos. Era um sorriso perigoso.

— Pode não gostar dos meus métodos, mas eles funcionam.

Ele era terrível, pensou Marinette. Um inimigo à altura de Gabriel Agreste. Foi com uma criatura tão vil que fizera uma promessa de sangue, o que ao menos lhe garantia alguma proteção contra os truques dele.

— Imagino que ainda não saibam onde estão as chaves — ela retornou ao assunto.

— Na verdade, descobrimos com quem está uma delas.

— Chloé deixou escapar para mim da última vez que nos encontramos. — Adrien explicou.

Chloé era a vampira mais insuportável que Marinette já conhecera. E ela já cruzara com muitos vampiros. Mimada, birrenta, egoísta. Queria o mundo na palma das mãos e a caçadora podia apostar que ela mesma não lembrava de metade dos rostos das pessoas que a serviam todos os dias.

— Bourgeois sempre foi tão burra — Félix depreciou.

— Então está com ela? Com a Chloé?

— Com a mãe dela, na verdade. Num cofre.

— E como vamos invadi-lo?

Foi a vez de Adrien dar uma risadinha. Ele era tão fofo às vezes. Ah, a quem Marinette queria enganar? Ele era fofo sempre.

— Na verdade, vocês serão a isca dessa vez e eu vou cuidar do resto.

Mesmo assim, Marinette olhou descrente para Félix. Apesar de Adrien ser adorável, não parecia muito sensato deixar nas mãos de alguém tão pacifista uma tarefa daquele nível.

— Consegui ensiná-lo a criar cópias feitas de sombras — Félix legitimou a escolha pelo primo com base em suas habilidades. — Assim, vai poder despistar as Bourgeois enquanto abre o cofre.

— Despistar onde?

— No baile de máscaras que elas preparam em toda lua cheia.

Conhecia vagamente o evento. Eram festas luxuosas e espalhafatosas no mesmo nível; praticamente um festival de tudo o que vampiros ricos eram capazes de fazer com sua influência e recursos. Caçadores eram proibidos de se aproximarem, ainda que se mantivessem à espreita para o caso de algum vampiro sanguinário querer transformar a celebração em uma carnificina.

— Como esperam que eu entre lá? E por que precisam de mim como isca?

Ambos trocaram olhares.

— Félix não é muito… Bem visto pela Chloé.

— Sem eufemismos, Adrien. Nosso ódio é mútuo.

— E daí? — insistiu Marinette. — Ela deve odiar metade de Paris.

— Em meu caso, significa que haverão escravos de sangue vigiando meus passos a noite toda.

— E eles vão sumir se estiver ao lado de uma caçadora de vampiros?

— Não, mas não vão me incomodar tanto se eu estiver com uma acompanhante.

A conclusão chegou tão rápido quanto a aversão à ideia que eles tiveram.

— Querem que eu finja ser sua vítima? Não, nunca!

Félix suspirou, como se já esperasse por esse tipo de reação. Ora, se ele já antecipara a rejeição dela, por que sugerira aquela espécie ridícula de plano?

— Sabe que não posso sugar seu sangue durante o acordo, Dupain-Cheng.

— Mas todo o resto do covil de parasitas pode!

— Não com o que estamos planejando te vestir — ele prosseguiu.

Hã?

***

Um vestido enfeitiçado com sangue. Com o sangue de Félix. Assim, poderia disfarçar o cheiro de suas armas abençoadas de caçadora com o perfume dele, além de afastar quaisquer outros vampiros. Eles eram territoriais demais para aceitar morder algo que fedia a outro da mesma espécie.

Além disso, era uma peça de muito bom gosto: escarlate, com alças finas e uma saia longa e esvoaçante. Não expunha pele demais, ainda que de qualquer forma fosse mais do que Marinette estava acostumada.

— Consegue manipular bem o seu poder, vampiro — comentou ela, rodeando o manequim.

— Está impressionada?

Não iria admitir que foi por pouco que a pele não se arrepiou ao ouvi-lo sussurrar aquilo atrás de si mesma.

— Não abuse.

— Também fiz bolsos ocultos para esconder algumas facas… — ele acrescentou, na expectativa pela reação de Marinette.

— Ok, agora estou impressionada.

Sua parte mais racional ainda discordava veementemente daquele plano, contudo, ainda sentia que devia a eles depois de estragar a versão muito mais simples de apanhar as chaves na igreja. Além disso, não era como se estivesse correndo desprotegida na direção de vários sanguessugas.

— Não conseguiremos ajudar Adrien, mas ainda iremos com um propósito.

— Deixa eu adivinhar: espionar a conversa de alguém para descobrir mais chaves — supôs ela acertadamente.

— Que garota esperta.

Quando Félix sorriu para ela, não resistiu à vontade de sorrir de volta.

***

Ao chegar ao casarão certa noite, encontrou apenas Félix na sala de jantar. Adrien deveria ter saído em busca de bolsas de sangue, enquanto o outro vampiro estava embaralhando cartas com bastante habilidade, como se já tivesse familiaridade com jogos de azar.

— O que está fazendo? — Marinette quis saber.

— Preparando o meu baralho. Por acaso sabe que consigo fazer truques de mágica?

Sem vê-la, ele lhe mostrou uma carta. Era uma rainha de copas. Após cobri-la com a mão, ela desapareceu.

— Olhe em seu bolso.

Entre algumas lâminas, lá estava a rainha de copas. Nem sabia como ele fizera aquilo, mas agora não era hora para ilusões.

— Muito impressionante, Houdini, mas não devíamos estar praticando como espionar conversas para o baile de Chloé?

— É o que você vai fazer esta noite.

Controlou o susto ao ouvi-lo sussurrar em seu ouvido ao lado dela. Ele surgiu ao seu lado de repente, mas ela sabia bem o que ele queria dizer com isso: distrair para iludir. Como se precisasse de aulas com um maldito vampiro, logo ela, uma caçadora!

— Hoje é minha noite de jogos — Félix prosseguiu. — Sua tarefa é se infiltrar e ouvir nossa conversa sem chamar atenção.

— Vai me deixar descobrir seus segredos?

— Está assim tão curiosa, Dupain-Cheng?

Na verdade, ela estava. E não pensou duas vezes antes de tirar a dúvida que permanecera desde a última noite em que eles discutiram:

— O que seus pais fizeram? Para serem caçados.

O humor dele mudou de imediato. De leve e sarcástico, passou para mais sério e fechado. Às vezes ela preferia que ele permanecesse assim — era mais fácil de lidar com alguém tão irritado quanto ela mesma. Esperou pacientemente até que ele comentasse de maneira breve:

— Foi uma emboscada. A esposa de um caçador cedia o próprio sangue voluntariamente para eles, mas o marido os perseguiu num ataque de ciúmes.

Poderia ser mais um blefe da parte dele, até que lembrou-se da promessa de sangue: ele não podia enganá-la. Sempre ficava do lado dos caçadores em conflitos entre sua espécie e a dele, mas nesse caso sua resposta foi nada parcial para o seu lado:

— Mas que corno.

Ele a encarou longamente antes de começar a rir. Uma risada tão genuína que lembrava a de Adrien. Recordou-se então que chegara a pensar em Adrien Agreste como alguém fofo ao ouvi-lo gargalhar e recusava-se terminantemente a pensar o mesmo sobre Félix Graham de Vanily.

Assim, decidiu tirar mais uma dúvida e desviar os pensamentos daquele tipo de conclusão que a levava onde definitivamente não queria chegar.

— Disse que vou espionar vocês. O que acontece se eu for pega?

Suavemente, Félix pegou seu queixo e o ergueu.

— Não vai se deixar ser pega, não é, caçadora?

Encarou-o com a certeza de que a confiança que ele tinha nela não seria afetada mais uma vez.

Naquela noite, ninguém desconfiou de sua presença. Em meio a jogos e intervalos em que se alimentara de humanos muito satisfeitos em serem mordidos, Félix blefou e mentiu, sobre si mesmo e sobre os outros. Era uma segurança saber que ele não podia traí-la devido à promessa.

Ao final da noitada, ele despediu-se do grupo de vampiros com um leve aceno e aceitou que uma funcionária ajeitasse seu sobretudo sobre os ombros.

— Bom trabalho, querida — agradeceu Félix.

Mais parecia que ele dissera isto para a atendente do bar, mas, escondida no alto de um dos telhados que dava para aquele beco, Marinette sabia que era para ela que ele direcionara aquelas palavras.

***

Ninguém desconfiou dela. Ao passar pela entrada pomposa da mansão, um calafrio atravessou seu corpo, ao mesmo tempo em que sentiu uma mão pressionar a sua. Félix não disse nada, mas o gesto foi o bastante para fazê-la voltar a si.

Controle-se, Marinette.

Também não desconfiaram do clone de Adrien. Fisicamente, eram idênticos e até mesmo os trejeitos eram bastante parecidos. Chloé até mesmo arrastou-o consigo, sem sequer comprimentá-los.

Idênticas também eram as máscaras pretas que Félix e o clone de Adrien usavam. O que os diferenciava eram apenas os penteados e alguns detalhes sutis nos ternos igualmente pretos.

Além do vestido, a máscara vermelha de Marinette era feita de sangue também. O escarlate vívido cobria a parte superior inteira de seu rosto, com rasgos bem definidos para os olhos decorados com preto, como se fossem um delineado.

Logo ao entrarem, ela percebeu que muitos vampiros traziam humanos como acompanhantes, ainda que não fossem a maioria. Marinette controlou a vontade de franzir o cenho diante das demonstrações públicas de submissão de seus companheiros de espécie. Eram obcecados por prazer como Lila, dispostos a trocar a própria dignidade por uma mordida.

— Ansiosa para dançar? — A voz grave de Félix interrompeu seu julgamento.

— Sempre estou.

Deixou que ele a guiasse para o salão, acompanhando seus passos enquanto tentava ouvir quaisquer conversas ao seu redor. Vagamente atenta à música e aos rodopios, não escutou nada que os interessasse.

Até que, em determinado momento, Félix pegou seu rosto entre os dedos.

— Concentre-se em mim, amor. Não é educado ignorar seu parceiro de dança.

Entendeu de imediato a mensagem: estava chamando a atenção demais e deveria ser mais sutil. Mesmo assim, acabou corando com o "amor".

— Peço perdão, senhor. — Inventou uma desculpa qualquer para quem quer que os ouvisse: — Estou encantada com tanto luxo.

Enquanto dançavam com fluidez e elegância, continuaram a falar sobre a festa enquanto escutavam com atenção as conversas ao redor. Exibia bastante concentração, porém era para isto que haviam praticado. Descobriram desde sobre intenções de assassinato entre vampiros até banalidades, como quem teve um caso com quem.

Em determinado momento, ouviram alguém sussurrar sobre Gabriel Agreste nas salas de alimentação. Como planejado, esperaram alguns minutos antes de prosseguirem com a encenação.

— Estou com fome, senhorita — ele murmurou sobre o ouvido dela.

— Achei que nunca iria pedir.

Mais uma vez, deixou que ele tocasse suas costas nuas para levá-la até uma das salas íntimas. O arrepio que Marinette sentiu foi real, ainda que soubesse que ele não poderia fazer nada para machucá-la.

As paredes eram de um tom pálido de rosa e todos os detalhes eram brancos ou dourados. De mobília, tudo o que havia era um sofá elegante e uma mesa de apoio. Com certeza, aquela seria a pior parte. Mas Marinette estava preparada. Quer dizer, achava que estava, porque se recusara a ensaiar aquela parte.

E, com isso, acabou em pânico, paralisada diante da ideia de fingir que estava sendo mordida. Diante de seu pavor, Félix improvisou:

— Envergonhada, querida? — A mão na pele de suas costas a acariciou suavemente. — Não precisa fazer nada além de sentar em meu colo e ser meu banquete.

Após respirar fundo, assentiu.

— Sim, senhor.

Conforme ele pedira, deixou que ele se sentasse e ocupou seu colo logo em seguida. Ao envolvê-lo com as pernas, ruborizou tanto que a cor de seu rosto quase igualou a do vestido. E logo comprovaram que agiram corretamente, pois bastou pouco tempo para que um mordomo entrasse no ambiente privado.

— Perdão pela intromissão, estão servidos?

Era uma jarra de água. Sequer sabiam o que havia nela.

— Deixe onde quiser e não volte a interromper — Félix avisou com um gesto displicente das mãos.

— Como quiser, senhor Graham de Vanily.

Apesar de sair de imediato, ambos sabiam que o mordomo permanecera do lado de fora. Ouvindo-os. Era o momento de encenar. Contudo, Marinette não conseguiria fingir. Era impossível, sua voz não sairia.

Até que ele deslizou a mão por suas costas, raspando as unhas até a base da cintura. Puxou-a para perto, até que não houvesse nenhum centímetro entre eles. Inquieta, Marinette arfou, mas ainda não era o bastante.

— Me deixe ouvi-la — ele sussurrou, rouco e profundo. — Sua voz é tão gostosa quanto seu sangue.

Quando percebeu que ele direcionava a boca ao seu pescoço, chegou a pensar que Félix iria mordê-la. No entanto, sentiu apenas os lábios roçando no pescoço e contorceu-se de puro prazer. Quando foi a língua dele a roçar por sua pele, gemeu pela primeira vez. E bem alto.

De maneira involuntária, arranhou a nuca de Félix e puxou seus cabelos, o que fez ele gemer também. As mãos dele ficaram mais ousadas, agarrando com vontade suas coxas por baixo do vestido. Também multiplicaram-se os beijos e chupões em sua garganta, de uma maneira tentadora que a enlouqueceu por completo.

Marinette sabia que vampiros eram capazes de fazer sexo, pois era desta forma que procriavam, e ainda assim foi uma deliciosa surpresa descobrir que Félix podia ficar duro por ela. Até porque podia ser uma caçadora, mas também era humana cheia de desejo.

Estava prestes a esfregar-se contra a ereção dele, entretida no delírio sensual que era entregar-se a um vampiro que só podia satisfazê-la sexualmente, quando notou que sumiram os anéis feitos de sombras que Adrien criara para avisá-los quando terminasse o furto.

Isso fez com que Marinette lembrasse de quem era ela e por que estava ali. Foi doloroso enxergar nos olhos de Félix o mesmo desejo que o seu quando se encararam, porque ser recíproco não mudava o fato de que era errado. Quando ele enfim conseguiu seguir com o ensaio, a voz dele estava tão excitada que ela quase ignorou tudo e voltou a puxar os lábios dele para sua pele.

— Já estou satisfeito. — Era uma mentira óbvia, agora ela conseguia distinguir. — Podemos ir?

Acenou com a cabeça e rapidamente fugiu do impulso de permanecer no colo dele, erguendo-se de uma vez. Voltaram para o salão, para fingir pelo resto da noite que aquilo não havia acontecido.

Notas finais
Essa semana ainda posto o segundo capítulo porque isso aqui ficou enorme. Até!