Por meu sangue, eu juro
2 Prazer e culpa
Notas iniciais
A noite foi longa e a volta mais ainda, tomada por um silêncio desconfortável à medida que se aproximavam do alçapão subterrâneo que levava ao saguão de onde os vampiros viviam.
— Tcharam! — Adrien exibiu a chave em suas mãos logo que voltaram ao casarão.
Ao lado deles, a cópia se apagou em sombras.
— Ninguém vai acreditar que foi você quem roubou as chaves daquele cofre. — Félix parecia muito satisfeito com o sucesso do plano.
Mais uma vez, Adrien deu uma de suas risadinhas fofas.
— Podem me subestimar à vontade porque não machuco humanos, mas esquecem que eu vivo de roubos para sobreviver.
— Por acaso quer os parabéns, phantom thief? — O primo arqueou uma das sobrancelhas.
— Na verdade, quero sim.
— Você fez bem, Adrien.
Marinette continuou calada, impressionada com a capacidade de Félix de agir como se não tivessem acabado de…
— Não vai me elogiar, Marinette? — Adrien fez biquinho, esperando pelo enaltecimento.
— Ah, eu estava pensando em outra coisa. Parabéns, Adrien.
— E vocês, descobriram alguma coisa? — questionou Adrien, com o tom travesso. — Ou só se divertiram enquanto eu fazia o trabalho duro?
Quando as lembranças ainda frescas invadiram sua mente, Marinette corou violentamente. E, mais uma vez, foi Félix quem agiu com se nada do que acontecera o tivesse afetado no mesmo nível que a ela.
— Tsurugi está com duas chaves — ele respondeu ao afrouxar a gravata. — As duas são necessárias para abrir a mesma porta.
— Descobriu para que serve esta?
— Precisamos primeiro das outras.
Como um lembrete de que estava quase amanhecendo, Adrien bocejou.
— Amanhã discutiremos o que fazer. — Ergueu-se lentamente da cadeira, coçando um dos olhos enquanto se despedia. — Até mais, Félix, Marinette.
Então, estavam sozinhos mais uma vez. Um silêncio desconfortável se impôs entre eles, entre os pensamentos e lembranças que certamente ocupavam a mente da caçadora e do vampiro. Até que, em determinado momento, Félix reclinou-se contra o espaldar da cadeira e chamou por ela:
— Dupain-Cheng-
— Nós… — Marinette logo interrompeu. — Podemos só esquecer o que aconteceu hoje?
Nem por um minuto ela queria voltar a pensar nisso. Félix pareceu relutar internamente e não respondeu de imediato, mas enfim aceitou:
— Como quiser.
— Vou me trocar e devolver seu vestido também.
— Aceite como um presente — ele ofereceu com um sorriso ameno. — Fica melhor em você do que em mim, de qualquer forma.
Isso fez com que ela risse e o clima voltasse a ficar despreocupado, sem o peso das memórias recentes a incomodar os dois. Em poucos minutos, ela estava pronta e deixou o casarão logo que os primeiros raios de sol despontaram.
***
Seria bem mais difícil pegar as chaves em posse de Tomoe Tsurugi. Tanto ela quanto a filha eram muito mais inteligentes que as Bourgeois, que ainda não haviam se dado conta da ausência da chave porque Adrien a substituíra por uma cópia feita de sombras.
Para isso, precisavam de um plano muito mais elaborado que simplesmente um furto durante uma festa — até porque as Tsurugi eram bastante reclusas.
— Você vai ser a distração dessa vez — Félix comandou, ao que o primo não reagiu bem.
— Tem certeza?
— Não adianta querer fugir só porque ela é sua ex, Adrien. Na verdade, pode aproveitar e esclarecer qualquer que seja o mal entendido entre vocês.
Não foi o bastante para convencer Adrien.
— E se ela desistir de falar comigo antes que vocês consigam as chaves?
— Isso é um trabalho seu, não nosso.
Adrien suspirou, mas acenou positivamente.
— E qual é o nosso trabalho? — Marinette quis saber.
— Proativa como sempre, Dupain-Cheng.
Ficou tão feliz ao ser elogiada que abriu um largo sorriso, que logo fez questão de disfarçar. Já Félix fingiu que não percebeu.
— Precisarei estar em dois lugares ao mesmo tempo — explicou ele. — Um vai servir como meu álibi e o outro é o jardim em que Tomoe Tsurugi guarda as chaves gêmeas.
— E como pretende tirá-la daquele jardim?
— Assim como a filha, ela vai estar distraída. — Félix gesticulou na direção dela. — Lutando contra você.
— Eu? Não posso simplesmente atacar um vampiro que não ofereça ameaça a nenhuma pessoa.
Infelizmente, pensou ela, pois se pudesse lutar contra qualquer vampiro já teria acabado com Félix no dia em que invadira a sala em que ele se alimentava de Lila. Como se soubesse o rumo de seus pensamentos, o vampiro sorriu.
— Ela é aliada de Gabriel Agreste. Pode tentar esconder as transgressões contra o acordo de neutralidade, mas elas existem.
— E você descobriu isso subornando alguém — supôs Marinette, cruzando os braços.
— Um dia vocês vão aprender a valorizar meus métodos.
Adrien interrompeu-os, inquieto:
— Kagami sabe disso por acaso?
— Ela é tão honrada quanto você, Adrien. Nem sequer desconfia.
Ainda havia muito a ser explicado naquele plano e Marinette odiava ficar de fora do que quer que eles estivessem elaborando naquelas cabecinhas imortais. Afinal, também era o trabalho dela impedir que eles se tornassem uma ameaça.
— Como vai estar em dois lugares ao mesmo tempo? Por acaso também sabe criar cópias de sangue?
— Ainda não. — Félix deixou bem claro que era apenas questão de tempo. Maldito manipulador de sangue talentoso. — Mas sei conjurar portais se tiver a quantidade certa de sangue.
— Isso é possível?
Tentou recordar-se de algo assim descrito durante as aulas da academia, no entanto, os poderes herdados entre as famílias de vampiros conhecidos pelos caçadores eram muito vagos. Ainda havia muitas lacunas entre um mundo e outro, mais um lembrete de exatamente onde ela estava se metendo.
— Considere isso nosso segredinho. — Félix levou o dedo indicador até os lábios, como se os selasse.
Em seguida, mostrou a ela o mesmo baralho que usara antes para aquele jogo de noites atrás. Os números e símbolos embaralharam-se até concluir a metamorfose em vários selos diferentes, um por carta. Um baralho de sangue.
— Mas somos só três — Adrien comentou. — Lembro que, quando você usou um desses para me tirar do castigo de 50 anos em que meu pai me colocou quando descobriu que eu vivia de bolsas de sangue, precisou do sangue fresco de dois vampiros e dois humanos para que funcionasse.
— É para isso que vou fingir me alimentar de alguém enquanto conjuro.
— Tem alguém em mente? Quem sabe a Lila, ela sempre te cede o sangue dela bem fácil.
— Qualquer um menos ela.
Marinette falou sem pensar. O mero pensamento era insuportável, não conseguia sequer conceber a ideia. Nem sabia explicar racionalmente porque se recusava a deixar que Félix permitisse de novo que ela subisse no colo dele e ele encostasse a boca na pele dela. Por motivos nada racionais, talvez…
— Por quê, Marinette? — Adrien perguntou.
Era aí que estava o problema: ela não sabia explicar o motivo.
— Tem razão, ela não é nada confiável. — Foi Félix quem intercedeu. — Marc e Nathaniel, talvez?
Pega de surpresa, ela nem chegou a agradecer mentalmente pela interferência. Nem sabia que seus amigos gostavam de ser mordidos.
— Tem certeza de que quer envolvê-los nisso? — questionou ela, já que proteger humanos era sua prioridade.
— Eles nem vão saber. — Foi Adrien quem respondeu. — Félix aprendeu a liberar todo tipo de substância com as mordidas dele, inclusive as que causam alucinações.
Não conseguiu esconder o olhar impressionado na direção do vampiro, que, como já devia esperar, encheu-se de arrogância.
— Exatamente o que ele disse.
— Ok, senhor sistema nervoso. E como espera que eu derrote uma vampira especialista em combate?
— Você pareceu bem capaz nos imobilizando, mesmo antes da promessa de sangue. — Como ele podia fazer com que um elogio soasse como uma afronta? — Mas não precisa vencê-la. Só a mantenha ocupada.
— Falar é fácil — ela insistiu.
— E você não vai sem preparo.
Foi inevitável lembrar-se das palavras dele quando estava no quarto de Juleka. Ao ruborizar desta vez, o motivo era bem diferente das últimas.
— Pode praticar com a gente — Adrien tentou amenizar o clima entre eles. — Não é, Félix?
— Vai recusar a chance de fazer de dois vampiros seu saco de pancadas, Dupain-Cheng? — ironizou Félix, com aquele maldito olhar superior.
Então, ela sorriu. Aquela era uma péssima ideia, mas estava convencida dela só para espancá-lo sem pagar com sua licença por isso.
***
Esta era sua rotina agora: acordar ao final da tarde, fazer um lanche rápido, caçar vampiros, treinar com Adrien e Félix.
Em determinada noite, desviava dos ataques deles. Tentava atingi-los com suas lâminas, porém um usava o sangue como ferramenta e escudo e o outro vivia se escondendo nas sombras. Por descuido, acabou perdendo as duas facas.
— Vai desistir, caçadora? — Félix provocou com um ronronar debochado.
Mas não deixaria por isso de jeito nenhum. Depois de responder com um sorriso forçado, evitou uma investida do sangue dele dando alguns passos largos para trás e investiu com tudo em um soco no rosto dele. Félix foi ao chão antes mesmo que pudesse revidar.
— Sempre quis fazer isso — Marinette sorriu, eufórica.
— Não se distraia — ele avisou, mas era tarde demais.
Poucos segundos depois, Adrien a puxou para as sombras e ela acabou no escuro antes de ser atirada contra o piso. Como um pedido de desculpas por derrubá-la, Adrien estendeu a mão para que ela se erguesse. Marinette aceitou-a muito mais naturalmente do que se fosse Félix a oferecer ajuda. E falando nele…
— Ainda precisa melhorar sua concentração e sua esquiva.
— Mas parabéns pelo golpe na cara dele, foi lindo de assistir — Adrien compensou a bronca do primo.
— Obrigada, Adrien. — Marinette fez uma reverência como se puxasse uma saia imaginária. — Não vai me elogiar também?
Notou com Félix acariciou a face atingida, como se ainda doesse. De qualquer forma, ele merecia e ela nunca pediria desculpas por aquilo. Bem baixo, ele a parabenizou:
— Foi um belo soco.
— Vocês podem treinar sozinhos agora? — Adrien sugeriu, afastando-se o bastante para vestir uma jaqueta sobre as roupas leves de treino. — Realmente preciso me alimentar agora.
Félix não pareceu nada satisfeito ao saber que o primo estava há quase um dia sem ingerir sangue.
— Já deveria ter feito isso antes do treinamento.
— É que acordei atrasado hoje.
— Pare de ouvir músicas tristes pensando em seu namorado antes de dormir e vai acordar na hora — repreendeu ele, bem sério.
— Você vai me entender no dia em que se apaixonar — Adrien respondeu igualmente sério.
Além disso, ele olhou entre o primo e Marinette e não disse mais nada antes de partir. O resultado foram os dois restantes obviamente constrangidos diante do que ele implicara com aqueles olhares. Para afastar as suposições que nenhum deles queria discutir, Félix pigarreou.
— Podemos continuar?
— Gostou tanto assim do soco que quer mais, é? — provocou Marinette desta vez.
— Que língua afiada a sua, Dupain-Cheng.
Apesar das palavras, Félix sorrira de volta. Após recuperar as facas, ambos trocaram investidas. Ele quase derrubou-a e, com isso, Marinette perdeu uma das lâminas, porém com a outra conseguiu roçar na pele dele. Ela era mais forte, enquanto ele era mais ágil.
Continuaram o embate em posição de igualdade, com muito esforço de ambos os lados. Até que ela conseguiu atirá-lo no chão, pelo preço de ter uma lâmina de sangue apontada para seu coração. Ao mesmo tempo, uma faca estava bem sobre a garganta dele. Um impasse.
Nenhum deles falou nada — apenas se encararam enquanto recuperavam o fôlego. Permaneceram assim por tanto tempo que ela notou cada detalhe do rosto dele, desde os fios loiros desalinhados sobre a testa até os lábios que ela já sabia serem bem experientes.
Mas que porra…
— Um empate. — Marinette enfim falou, saindo de cima dele e desabando ao seu lado.
Um tanto cansados, continuaram deitados lado a lado por mais bons minutos. Daria tudo para saber sobre o que ele estava pensando, porque para ela apenas aquela noite retornava sempre e sempre e sempre. Como ele lidava com aquilo? Realmente conseguira apagar as lembranças daquela noite ou fingia muito bem que aquilo não o afetava tanto quanto a ela?
— Você está melhorando — Félix comentou em meio ao silêncio.
— Vai me cobrar depois por esses elogios? — ela bufou. — Não é do seu feitio falar bem dos outros.
— Talvez eu cobre mesmo, do jeito que está atrevida.
— Olha só quem fala!
Acabou dando uma risada com o clima descontraído. E aquilo era muito mais perigoso que se manter alerta.
— Eu nunca disse que era decente.
Ele virou o rosto na direção dela, de tal maneira que seus rostos estavam alinhados, a centímetros um do outro. Podiam assim encararem-se nos olhos — do verde ao azul e de volta ao verde, num circuito sem início nem final.
— Seu vampiro degenerado.
— Caçadora impulsiva.
— Dissimulado.
— Briguenta.
Se continuasse naquele ritmo, ela iria tomar uma decisão que não tinha volta. Fechou os olhos com força, para bloquear o que quer que estava acontecendo entre eles de seguir adiante e ergueu-se sem olhá-lo uma vez sequer. Não sabia se tinha controle o bastante para isso.
— Essa briguenta aqui já recuperou as energias, mas acho que você já está velho demais pra me encarar.
— Nem sabe quantos anos eu tenho — ele resmungou dessa vez e não parecia assim tão magoado com a interrupção dela.
Talvez porque soubesse dos próprios riscos também.
— Mais do que eu, com certeza — Marinette revidou.
— Então está na hora de te ensinar a experiência que vem com a idade, Dupain-Cheng.
Sorriu quando ele ergueu-se diante dela, assumindo a posição de luta.
— Quero ver você tentar.
***
Quando faltavam poucos dias para o roubo aos anéis que haviam planejado, Marinette foi mais cedo ao casarão. Ao chegar, percebeu logo a ausência de Félix. Adrien explicou que ele ainda estava se alimentando e aceitou treinar contra ela.
Trocavam golpes de maneira muito mais amistosa do que fariam se o primo dele estivesse presente quando ouviram a porta enorme do saguão abrir-se, anunciando a chegada daquele que estavam esperando. Adrien fungou o odor que para ele era novidade:
— Isso é cheiro de… Pizza?
Esperta e atenta ao combate, Marinette aproveitou-se da distração para derrubá-lo com uma rasteira. Assim como ele fizera antes, estendeu a mão para ele, que aceitou a gentileza.
— Podemos, por favor, descobrir por que meu primo trouxe comida humana para cá?
Acenou positivamente, pois também estava curiosa. Ao subirem, sobre a enorme mesa de jantar havia uma caixa aberta com fatias de mussarela com pepperoni.
— Não sabia que gostava de queijo — Marinette comentou, impressionada e ligeiramente debochada. A influência daquele vampiro era terrível.
— Eu detesto. — Félix olhou feio para ela. — Mas não sabia o que você gostava de comer e pedi o sabor mais comum.
— Isso é… pra mim?
— Ontem você treinou com fome. Isso não vai se repetir.
Balançou a cabeça, incrédula. Só mesmo ele para transformar um ato atencioso em uma ordem. Além disso, aquela era uma cortesia para situações menos urgentes.
— Não temos muito tempo. E pizza nem de longe é uma opção de alimento nutritivo.
— Então explique como funciona a culinária humana e da próxima vez pensarei melhor na sua dieta. — Antes que ela começasse, ele mandou: — Explique enquanto come.
Bem, quem era ela para negar pizza de graça? Entre uma fatia e outra, tentou exemplificar o que eram alimentos nutritivos e a diferença entre eles e os que serviam apenas para encher o estômago. Sem nenhuma surpresa, eles eram completamente ignorantes quanto a tudo que envolvesse comida. Séculos se alimentando de sangue e sequer sabiam o que era uma salsinha.
E Marinette realmente estava com fome. Comeu a caixa inteira e impediu-os de ir atrás de outra. Da próxima vez, iria ensiná-los como funcionava o delivery. Após alimentar-se, o treino foi bem mais produtivo. Mesmo quando perdia as facas, conseguia causar um bom dano com os próprios punhos e pernas.
Ainda assim, mesmo durante o combate preparatório, notou como Adrien estava mais distraído, remoendo-se em pensamentos. Durante o intervalo, ele continuou distante, a tal ponto que nem ouviu o primeiro chamado de Félix.
— Vamos continuar, Adrien? — Marinette insistiu.
— Se Luka estivesse sozinho, talvez ele ainda estivesse aqui — ele enfim desabafou o que estava refletindo. — As habilidades físicas dele também melhoraram como as suas, mas ele tinha que proteger a irmã.
— Aonde quer chegar?
— Podemos passar na casa de Juleka depois que terminarmos aqui? Quero me desculpar com ela.
— Como você é honrado, Adrien — Félix bufou.
— Ignore seu primo. — Foi a vez de Marinette encará-lo com desprezo. — Esse é um gesto muito gentil de sua parte.
Treinaram por horas, até que a madrugada estivesse quase em seu fim. Para os vampiros, era imprescindível sair antes que o sol nascesse, então interromperam a luta antes do horário sempre estipulado e foram para o prédio em que Juleka já deveria estar depois do fim do expediente.
— Por que veio também? — Marinette quis saber ao confrontar Félix. Não deixaria que ele estragasse tudo quando Adrien estava tentando ser uma boa pessoa. Ou um bom vampiro.
— Estou aqui para vê-lo passar vergonha — ele comentou com um sorriso cínico.
— Você não vale nada.
— Sabe o que não tem preço? Aquilo ali.
Mesmo de longe, viram Adrien ajoelhar-se para pedir perdão. Juleka parecia surpresa demais para expulsá-lo de novo e acabou ouvindo o que ele tinha a dizer.
— Deveria ter apostado nisso — Félix lamentou de maneira fingida.
Talvez se arrependesse mais tarde, porém Marinette entrou no jogo.
— Aposto 10 euros que ela vai convidá-lo para entrar depois disso.
— Quem é que não presta agora? — ele arqueou uma das sobrancelhas, terrivelmente satisfeito.
Ela voltou para casa com a certeza de que estava certa e dez euros mais rica.
***
Os três nem sequer se encontraram no casarão na noite do novo furto.
Algumas noites antes, Adrien marcou um encontro com Kagami fora do território da família dela. Ou, como ela quis chamar, uma "reunião".
Já Félix partira para a mesma boate em que Marinette o encurralara uma vez. Recusou a proposta de Lila, dizendo que estava cansado do sabor dela. Com alguns murmúrios indecentes, foi capaz de convencer Marc e Nathaniel a alimentar-se dos dois ao mesmo tempo.
Por fim, Marinette marchou até onde estava a mãe de Kagami. Felizmente, ela não tinha escravos de sangue como Gabriel Agreste e Audrey Bourgeois. Infelizmente, isso deveria querer dizer que ela não precisava deles para enfrentar quem quer que fosse.
— Tomoe Tsurugi, por seus crimes e omissões, exijo que me acompanhe — solicitou, com sua melhor voz solene.
Afinal, não custava tentar.
— Receio que esteja enganada, criança. Quais crimes cometi?
— Tenho provas de que deixou Gabriel Agreste usar seu território para injetar sangue de vampiro em cobaias humanas. Imagino que não precise explicar por que isso é um crime.
O que antes era puro cinismo tornou-se algo mais familiar para a caçadora. A vampira pareceu ligeiramente desconcertada.
— E se eu me recusar?
— Serei obrigada a levá-la à força.
— Seu erro foi tentar me amedrontar sozinha — Tomoe Tsurugi disse na voz calma de sempre.
De súbito, ela investiu o sabre contra Marinette, que por pouco não sofreu uma lesão grave.
— Da próxima, traga um exército de caçadores.
Como única alternativa, Marinette voltou a desviar dos golpes da vampira — ela era poderosa demais. Não conseguia atacar, apenas fugir das investidas da lâmina dela. Ainda assim, foi cautelosa, ganhando tempo para que Félix pudesse roubar as chaves.
Para isso, afastou Tomoe Tsurugi ao máximo do jardim, invadindo salões nos quais eram ouvidos os golpes das trocas entre sabre e facas, um ruído metálico das lâminas.
Continuaram assim até que vampira atentou-se a algum som — provavelmente Félix e seu portal em busca das chaves.
— Agora entendi suas intenções, caçadora mentirosa — acusou Tomoe Tsurugi.
— Sua culpa não é de mentira.
Desesperada para impedi-la, Marinette partiu para o ataque direto. Não podia deixar que ela interrompesse o roubo. Era esse o seu trabalho. Sua tarefa. Sua utilidade.
Lembrou-se então dos treinos. De todas as lições, da academia. Ela estava preparada. Sempre esteve, agora mais do que nunca.
Até que a experiência de Tomoe Tsurugi é demais para a caçadora lidar. Os ataques da vampira são mais certeiros e ela nunca se cansa. Antes que pudesse pensar, o sabre dela vem em cheio na direção de Marinette..
Seria assim. Morreria tentando salvar Luka. Afinal, sempre disseram que caçadores tinham uma vida muito curta. Mal daria tempo de fechar os olhos.
Até que um portal abriu-se à sua frente e o sobre de Tomoe Tsurugi sumiu dentro dele. Com a confusão da vampira, que não esperava tal intromissão, surgiu outro portal e dele saiu Félix. Ele puxou-a para perto, pronto para partirem. Porém, antes de desaparecerem entre os poderes sanguíneos do vampiro, Marinette enxergou reconhecimento nos olhos da mãe de Kagami.
Agora ela sabia do envolvimento de Félix.
***
Félix deixou-a no casarão. Nem sequer tivera tempo de explicar, porque ele voltara para a boate. O que era inútil. Tomoe Tsurugi soubera da presença de Félix. Além disso, ele mesmo já devia saber que arruinara o próprio plano.
Esperou-os sob uma pilha de ansiedade e nervosismo, até que Adrien voltou contente com o primo. Pelo visto, ele não tivera coragem de contar o que acontecera a ele.
— Nós conseguimos! — Adrien comemorou, como se estivessem mais próximos de salvar o namorado. — De verdade, Marinette!
Talvez fosse falta de educação, mas ignorou-o por completo e andou diretamente até Félix. Apontou um dedo acusatório sobre o peitoral dele.
— Por que fez aquilo?!
— Você precisava de ajuda — ele resmungou.
— E você precisava de um álibi!
— O que aconteceu? — Adrien quis saber, completamente confuso. Pois bem, se Félix não dissera, ela falaria:
— Ele foi visto.
Ambos sabiam o que aquilo queria dizer: em pouco tempo, Gabriel Agreste saberia que o sobrinho roubou as chaves dele. A partir daí, ele poderia cometer qualquer atrocidade contra Luka em retaliação.
— O que queria que eu fizesse? — Félix insistiu, zangando-se tanto quanto ela.
— Tudo, menos aparecer diante dela!
— Eu não tive alternativa! Sem minha interferência, ela teria te matado.
Isso a deixou furiosa de verdade. Quem ele achava que era?
— Não sou nenhuma princesinha indefesa! — Marinette já gritava. — Sempre estive pronta para morrer em missão.
— Nunca. — A voz dele era sombria. — Nunca deixaria você morrer sem intervir.
Foi a vez dela rir. Uma risada amarga e dolorosa.
— Por quê, hein? De que serve minha utilidade agora que você foi exposto?
— Porque eu me importo com você, cacete! — Félix admitiu, enfim. — Não quero que seja útil pelo preço da sua vida!
Estava completamente desprevenida, pois ao ouvi-lo, Marinette arregalou os olhos. Aquilo era… inacreditável. Impossível. Inadmissível. Tanto para ela quanto para ele, principalmente.
— O que podemos fazer para corrigir esse erro? — Adrien mudou de assunto, preocupado com o fundamental. Como todos deveriam estar.
— Agir mais rápido do que Gabriel Agreste — Félix arregaçou as mangas e uniu o que roubara ao antigo furto, sobre o mapa.
— Sem um plano?
— Nós temos as chaves, isso deve ser o bastante.
Atentos aos caminhos que podiam seguir sem ser vistos pelo mapa, os vampiros contornavam os caminhos mais breves do casarão ao Pompidou. Não eram muitos e ainda assim não eram rápidos o bastante.
— Quando?
— Hoje à noite. Agora.
— Eu vou com vocês — Marinette afirmou ao recuperar-se do choque.
Ambos olharam para ela antes de trocarem olhares entre si.
— Precisam de mim de qualquer forma para entrar naquela sala enfeitiçada — ela lembrou-os.
Félix acenou com a cabeça, ao mesmo tempo em que Adrien sugeriu:
— Você gastou todo o sangue naqueles portais?
Félix apanhou o baralho no bolso e as cápsulas quase vazias em que coletara o sangue deles três, além de Marc e Nathaniel.
— Consigo criar mais um.
***
Logo estavam no saguão do Pompidou. As chaves gêmeas serviam para destrancar a ala secreta, inacessível mesmo através de portais mágicos — Gabriel Agreste elaborara uma prisão inacessível por outros meios que não os seus. Era dentro dela que estava a sala enfeitiçada, aberta com a chave que roubaram das Bourgeois.
Entraram em alerta ao notar que não havia ninguém protegendo nenhuma das salas. Aquele era um péssimo sinal. A caçadora estava prestes a entrar quando sentiu a mão de Félix segurando a sua.
— Nem tente me impedir — avisou, sem paciência para mais uma demonstração de que ela precisava ser protegida.
— Não vou, sua corajosa estúpida. Só seja mais cautelosa.
— Tão cautelosa quanto você foi hoje?
Quando ele a encarou com o olhar frio, sustentou o olhar por tanto tempo quanto ele. Enfim, ele soltou sua mão e Marinette entrou no local vetado para vampiros.
Era uma praça e obviamente ocupava muito mais espaço por dentro do que uma simples sala de museu poderia tomar. Havia árvores, pássaros e até um chafariz, porém nenhum sinal de alguém além dela mesma.
Procurou, chamou por ele e não encontrou ninguém, a tal ponto que a aflição aumentou. Acima de sua cabeça, o sol brilhava e não tinha nenhum sinal de Luka. Até que ouviu a voz de Adrien.
Ainda mais agoniada, correu na direção do som e surpreendeu-se com a presença deles debaixo da luz solar, sem qualquer dano causado a nenhum dos vampiros. Só então percebeu o anel no dedo de Félix. Adrien também usava um. Como filho de Emelie, ele também era um Graham de Vanily.
Completamente devastado, Adrien ajoelhara-se e abraçara a um casaco azul. Deveria ser o casado do namorado, pois ele chorava e repetia o nome dele sem parar, apenas para fungar e lamentar ainda mais alto.
— Ele não está mais aqui, Félix — gemeu Adrien, inconsolável. — O que eu faço?
O primo, que estava de pé até o momento, agachou-se até estar à altura de Adrien. Para espanto de Marinette, ele foi capaz de um gesto de carinho que nunca esperaria de alguém como ele: envolveu-o com os braços e abraçou-o profundamente.
— Nós vamos começar de novo — murmurou Félix enquanto massageava o cabelo loiro para acalmá-lo. — Tentar quantas vezes forem necessárias.
— E se meu pai já tiver-
— Shh. O pior não aconteceu.
Ele não precisava dizer, pois todos sabiam. Se Luka estivesse morto, o corpo estaria ali como advertência. Apesar desse alívio, Adrien chorou ainda mais e Félix o abraçou com mais força. Em seus dedos, os anéis brilhavam contra o sol.
***
Me encontre na Place de la Nation à tarde.
Não sabia como ele conseguira enfiar um bilhete em seu apartamento infestado de armadilhas contra vampiros, contudo reconhecia a caligrafia elegante de Félix para saber que fora ele quem o deixara.
Chegando lá, encontrou-o sentado em um banco, lendo tranquilamente. Ainda era muito estranho vê-lo durante o dia. Apesar de notar sua presença, ele só ergueu os olhos das páginas quando já estava próxima o bastante para fazer sombra sobre elas.
— Como Adrien está? — Marinette quis saber.
— Da mesma forma que ontem. Talvez pior.
Sentou-se ao lado dele ao mesmo tempo em que Félix deixou o livro de lado. Enfim Marinette pôde ver a capa e, enquanto jurava que seria um título velho e antiquado, na verdade era um romance de época com um casal encarando-se apaixonadamente como ilustração.
— Conhecendo seu tio, tem ideia de onde Luka possa estar agora?
— Se eu o conhecesse de verdade, já teria espancado aquele desgraçado há muitos anos. — Félix fez uma pausa e deu um suspiro longo. — E não faço ideia, ainda estou reunindo informações.
— Mas os anéis já são seus. Por que continuar em Paris?
Em um gesto leve, ele pegou a mão dela. Virou-a até que a palma estivesse para cima e traçou o contorno do selo da promessa de sangue com os dedos, sem qualquer pressa. Ao mesmo tempo em que queria que ele a soltasse, também queria sentir aquela carícia por quanto tempo ele estivesse disposto a fazê-la.
— Ainda estou preso a você até que recuperemos o namoradinho de meu primo, não se lembra? — A voz dele era assustadoramente suave.
— Quer tanto assim se ver livre da promessa de sangue? — Marinette questionou, ainda que não quisesse acreditar naquilo. — Ou está fazendo isso por Adrien?
— É um absurdo você pensar na segunda alternativa.
Quando ele deixou de acariciá-la de tão ofendido com a suposição, confirmou que estava certa. Definitivamente, ele estava fazendo aquilo pelo primo. E, ainda assim, boas intenções não garantiriam o sucesso daquele resgate.
— Imagino que tenha um plano.
— Já me conhece tão bem, Dupain-Cheng — Félix ronronou, roçando o polegar e o indicador no anel da outra mão.
Foram juntos até o Hospital Bichat-Claude Bernard. Segundo Félix, lá havia um médico que devia favores a ele, pois se utilizara de suas mordidas como substituto para anestesia muitos anos atrás, quando ainda trabalhava para uma clínica menor. O turno dele se encerrava naquela noite e Marinette deveria fingir-se de paciente e ocupar o horário dele para que Félix pudesse encontrá-lo e “fazer suas mágicas”.
Meia hora depois, seguiram com as informações obtidas pelo médico para outro local e repetiram o método até encontrar onde Gabriel Agreste estaria na noite seguinte. Passaram por escritórios, consultórios e até bordéis. Era impressionante o alcance da influência de Félix e ainda mais que ele a utilizasse em benefício de outra pessoa que não ele mesmo.
De tão tocada por aquela atitude altruísta, mesmo que Félix nunca fosse admiti-la nestes termos, decidiu também agradecer pelo que ele havia feito por ela.
— Obrigada. Por ter me salvado, mesmo que eu não tenha pedido por isso.
— Você nunca pediria para ser salva. — Ele sorriu diante da necessidade dela de afirmar que não era necessário o que ele fizera.
Marinette chegou a revirar os olhos.
— Como se você fosse pedir também.
— Reconheço uma orgulhosa quando a vejo porque também sou.
Aquilo a deixou ainda mais irritada. Não gostava da ideia de parecer com ele.
— De qualquer forma, posso ser orgulhosa, mas não sou ingrata — concluiu ela, ainda enfurecida.
— Não precisa ficar na defensiva.
— Não? — Vira o que ele era capaz de fazer com todos os que ele ajudara em algum momento da vida. — Espero que não esteja pensando que te devo um favor a partir de agora.
— Te salvei porque quis — Félix insistiu, zangando-se tanto quanto ela com a teimosia da caçadora.
— E o que ganhou com isso? Só mais e mais trabalho.
— Acredito que já tenha dito o motivo, Dupain-Cheng.
— Ainda não acredito — desafiou Marinette, encarando-o com petulância. — Você é um mentiroso profissional.
— E o que posso fazer para te convencer de que para mim um mundo sem você é intolerável?
Durante a briga, ela não notou o quão perto ele estava, até que deparou-se com o rosto dele a centímetros do seu quando ele fez aquela declaração. Perplexa, Marinette ofegou.
— Você não tem noção do que está dizendo — murmurou, quase desesperada. Para que aquilo fosse real ou falso, não sabia dizer.
Ambos se encararam por um momento longo demais.
— Infelizmente eu tenho.
Félix está para se afastar quando ela o puxou pela gravata para um beijo.
Os lábios dele eram tão macios quanto se lembrava de senti-los em sua pele e era muito mais delicioso provar do sabor em sua boca. Despejou sobre ele todo o desejo que acumulara desde as noites de treino, desde o baile e talvez até antes. Ainda assim, não trocaram uma palavra — apenas o contato da boca um do outro.
Quando ele passou a retribuir o que se iniciara através dela, era exatamente como esperava que seria um beijo dele: atrevido, sensual e cheio de uma fome que deveria se equivaler à que um vampiro sentia por sangue. Ainda assim, era muito mais caloroso do que ela antecipava e, talvez estivesse sendo esperançosa demais, mas bastante apaixonado também.
***
Antes do anoitecer, voltaram ao casarão. Adrien esperava por eles na sala de jantar, mesmo horas antes de sua hora de despertar habitual. Ele parecia absorto e impaciente, a ponto de tamborilar os dedos sobre a mesa. Logo ao vê-los, ergueu-se da cadeira e avisou ao primo:
— Se acha que manter os anéis com você vai me impedir de sair, vou só esperar o sol se pôr para passar por aquela porta.
— E fazer o quê? — Ao contrário de Adrien, Félix era a definição de tranquilidade. — Se entregar em troca do seu namorado?
— Não vou ficar aqui de braços cruzados.
— Sabe muito bem o que seu pai fará no momento em que conseguir o que quer.
Por um momento, Adrien esteve prestes a chorar. Sua faceta furiosa deu lugar ao rosto triste de antes e Marinette quase censurou Félix por agir dessa maneira, porém também não sabia como impedi-lo de entregar-se a Gabriel Agreste e fazer com que ele matasse Luka no processo.
— Não — Adrien murmurou mais para si mesmo.
— Adrien, não seja ingênuo.
Angustiado, ele levou as mãos aos cabelos, puxando-os para trás em um gesto de pura aflição. Adrien estava perdido e não tinha nenhuma noção de que rumo seguir e assistir alguém tão doce passar por aquilo partiu o coração de Marinette.
— Eu não sei mais o que fazer, Félix.
— Nós descobrimos onde ele o aprisionou desta vez — Félix compartilhou as boas notícias e assistiu o rosto do primo se iluminar com um sorriso ameno nos lábios. — Vamos resgatá-lo amanhã.
— Por que não hoje?
— A Ópera Garnier estará lotada esta noite.
Não podiam fracassar desta vez como na noite em que Marinette tentara invadir a igreja durante uma cerimônia. Depois de determinar o papel de cada um na noite seguinte, estavam livres para prepararem-se, fosse através da alimentação ou da caçada. Quando Adrien se despediu dos dois e prometeu que não iria agir precipitadamente, estavam enfim sozinhos mais uma vez.
— Preciso falar com você — Marinette foi direto ao ponto.
Era necessário estabelecer limites, definir o que estava acontecendo entre eles e, de preferência, evitar que aquilo se repetisse indefinidamente. No entanto, nada disso permaneceu em sua mente no momento em que ele se pôs entre ela e a mesa e rodeou seus quadris com as mãos.
— Quer que eu finja que aquilo não aconteceu? — Félix sussurrou com um sorriso malicioso. — Porque vai ser muito difícil esquecer do gosto dos seus lábios.
— Pare com isso. — Sua voz saiu fraca quando sentiu a boca dele sobre seu pescoço. Tão perto de mordê-la e, ainda assim, impossibilitado de fazê-lo devido à promessa de sangue.
— Parar com o quê, Dupain-Cheng?
Como o maldito provocador que ela, ele deu uma boa lambida desde a clavícula até o queixo de Marinette, traçando em sua garganta um rastro úmido e sensual. Era difícil sequer pensar em qualquer coisa.
— Você sabe do que estou falando — insistiu ela com as poucas forças que restavam.
— Talvez. Refresque minha memória.
As mãos em seus quadris desceram até agarrar sua bunda, suspendendo-a até que estivesse sentada sobre a mesa. E, antes que pudesse sequer reagir, ele meteu-se entre suas pernas. Por que ele era tão sexy, que merda?
— Se continuar me provocando…
— Como vai me castigar, caçadora? — ele questionou contra seus lábios, nem mais um centímetro entre eles.
— Você é insuportável.
— E você é deliciosa.
Desta vez, foi ele quem deu início ao beijo que a envolveu em prazer e culpa e ainda mais prazer. O que fazia com que a culpa fosse apenas um tempero a mais que tornava mais saborosa aquela satisfação pecaminosa, aquela carícia proibida.
Os lábios de Félix eram mais lentos ao explorá-la dessa vez, como se ela realmente fosse um banquete que ele provava em beijos cada vez mais profundos e quentes. Tão quentes que ela lembrou-se do que ele falara que era necessário para que sua pele se mantivesse aquecida, o que a encheu de raiva e fez com que mordesse o canto da boca dele para despejar sobre ele essa irritação.
Excitado com a mordida, um gemido rouco nasceu do fundo da garganta dele e aquilo foi o bastante para Marinette envolvê-lo com as pernas e aproximá-lo o suficiente para agarrá-lo pelos cabelos. Conforme o desejo dela tornou-a mais selvagem e receptiva, ele também entregou-se àquele prazer sem regras.
***
Marinette retornou para casa depois de uma sucessão de caçadas bem sucedidas. Seria hipócrita da parte dela comemorar a captura de sanguessugas quando havia acabado de passar grande parte da noite beijando um vampiro? Talvez, porém ela não queria pensar tanto nisso — apenas deitar e relaxar até a noite seguinte.
Depois dos beijos e chupões e agarrões, Félix foi alimentar-se para saciar outro tipo de fome que não a que ele sentia pela caçadora. O rosto dela esquentou com as lembranças. Aquela era uma má ideia. Uma péssima ideia. E, como tudo que era proibido, irresistivelmente delicioso.
Ao chegar em seu apartamento, percebeu de imediato que as luzes não acenderam quando clicou no interruptor. Alerta, sacou as facas de uma vez, contudo algo a impediu de continuar a se mexer. Enraivecida, perguntou alto o bastante para ser ouvida em qualquer um dos cômodos:
— Quem está aí?
Nenhuma resposta. Como puderam ultrapassar as barreiras mágicas que ela impôs ao apartamento?
— Apareça!
— Até que protege bem o seu lar, humana — ouviu a voz profunda e conhecida.
Antes que pudesse identificar de onde ele falara, Gabriel Agreste apareceu diante dela, surgindo das sombras com ainda mais habilidade que Adrien era capaz de fazer.
— É uma pena que tudo isso seja inútil diante do meu poder.
De tão furiosa, rosnou ao tentar soltar-se da prisão de sombras com que ele a mantinha imobilizada.
— Onde está Luka? O que fez com ele?
— É exatamente sobre o pequeno mascote de meu filho que vim tratar com você.
Odiava a calma com que ele falava, como se uma conversa entre eles fosse realmente possível se ele não se utilizasse de seu poder para deixá-la inútil contra qualquer investida.
— Entregue-o! — pressionou-o, mesmo que soubesse ser impossível convencê-lo. — Ele não tem nada a ver com seus joguinhos de poder.
— Ele realmente não tem, mas um de seus… amigos está mais que envolvido em meus “jogos”.
Ele só podia estar falando de Félix. De imediato, Gabriel Agreste notou o reconhecimento em seus olhos.
— É bem inteligente para uma humana, Marinette Dupain-Cheng. Quero que traia meu sobrinho para que eu tenha os dois novamente sob as minhas mãos.
Aquela era uma alternativa inconcebível, porém queria ouvi-lo falar mais a respeito do tal plano que ele tinha para detê-los. Assim, entrou na conversinha dele.
— Como espera que eu faça isso?
— Uma pequena amiga sua… senhorita Rossi. Ela me informou da promessa de sangue entre vocês.
Aquela maldita invejosa! Provavelmente ela estivera na zona neutra na mesma noite em que discutiram sobre o que Félix planejara com tanto cuidado.
— Aproveite-se da confiança que ambos têm em você; da presunção que aposto que sentiram ao apanhar os anéis que deixei especialmente para eles — prosseguiu Gabriel Agreste, deixando claro que nenhuma das conquistas deles era por acaso ou por mérito. Era tudo parte das maquinações cruéis dele. — Faça isso e a vida de Luka Couffaine será poupada e ele será devolvido a você.
— E se eu não quiser?
— Então pode dar adeus às chances de salvá-lo vivo.
Ela não respondeu, o que era o bastante para Gabriel Agreste. Conforme ele desapareceu nas sombras do apartamento, a voz dele também foi soando mais distante:
— Estaremos amanhã na Ópera Garnier. Aja com discernimento.
Enfim livre para movimentar-se, Marinette deixou as facas caírem no chão e usou as mãos livres para enfiar os dedos entre os cabelos. O que poderia fazer agora?
***
Enquanto Félix e Adrien discutiam o plano, Marinette só conseguia pensar que ele estava fadado ao fracasso desde o início. Gabriel Agreste sabia de tudo — ou, ao menos, sabia do fundamental. Se esperavam vencê-lo, deveriam atentar-se aos detalhes ou à surpresa.
— Marinette? — Adrien questionou, preocupado. — Aconteceu alguma coisa? Está distraída hoje.
— Não é nada. Vamos repassar o que cada um vai fazer mais uma vez antes de sairmos.
Notou o olhar atento de Félix sobre si mesma, assim como o silêncio dele ao deixar aquilo de lado. Porém, era apenas um adiamento: mais tarde, ao saírem, ele a puxou para um canto para esclarecer a situação:
— Você sabe de alguma coisa.
Por que ele tinha de ser tão observador?
— Já disse que não é nada.
— Sei quando está mentindo, Dupain-Cheng.
— Não ache que só porque nos beijamos você me conhece de verdade — Marinette apelou para a crueldade.
Não era inteiramente verdade, porém precisava afastá-lo dos fatos ou ele logo descobriria o plano de Gabriel Agreste. E, para seu assombro, Félix pareceu magoado. Magoado o bastante para não insistir.
Ao chegarem ao teatro, ele estava estranhamente vazio. Naquela noite, não haveria qualquer apresentação, porém a ausência de quaisquer funcionários fez com que agissem com cautela. Como se conectados, os primos trocaram olhares.
— Ele sabe que estamos aqui — afirmou Félix.
— Acha melhor voltarmos atrás? — Adrien sugeriu, tentando ser prudente embora sua vontade fosse arrancar o namorado de lá de qualquer forma.
— Não — Marinette intercedeu. — Não sabemos por quanto tempo ele vai manter Luka vivo.
Ambos concordaram.
Percorreram as escadarias e corredores da plateia em busca de qualquer pista. Para eles, era mais fácil, já que vampiros enxergavam no escuro. Para Marinette, aquilo era apenas a espera pelo inevitável.
E enfim o inevitável ocorreu, quando todas as luzes acenderam-se e Gabriel Agreste surgiu no palco. Antes que os vampiros pudessem atacá-lo, ele mirou onde eles menos esperavam: em sua confiança.
— Meus parabéns, Marinette Dupain-Cheng. Me trouxe não só meu sobrinho como também meu filho.
— Marinette? — Adrien questionou, incrédulo diante de uma traição daquelas.
Já Félix permaneceu quieto e soturno. Era doloroso testemunhá-los assim.
— Esta é uma lição para vocês, crianças — Gabriel Agreste prosseguiu. — Um humano, principalmente um caçador, nunca vai deixar de priorizar os seus. Que aprendam assim a fazer o mesmo por nossa espécie.
Adrien encarou o pai e Marinette, alternando olhares entre eles, e balançou a cabeça em pura negação.
— Não pode ser verdade.
— Sempre foi assim, Adrien. Agora faça como combinamos, humana, e te entregarei seu precioso amigo.
— Onde ele está? — A voz de Marinette era ríspida demais para alguém que seria aliada do poderoso vampiro.
— Primeiro cumpra sua parte do acordo — Gabriel Agreste insistiu, pois seus propósitos eram a prioridade.
Após um longo suspiro, Marinette tentou encarar Félix para fazer o que Gabriel Agreste lhe pedira em troca da vida de Luka. Porém, não conseguia olhá-lo diretamente nos olhos, não numa situação como aquela. Com o rosto virado em outra direção, deu uma ordem que ele não poderia recusar devido à promessa de sangue:
— Félix. Vá até o palco.
Indignado, Adrien estava preparado para impedi-los, mas Félix foi firme ao recusar qualquer ajuda:
— Adrien, não interfira.
Conforme Félix percorria as fileiras da plateia em direção do palco, Gabriel Agreste sorriu de maneira ampla, como se tudo estivesse de acordo com suas vontades. Até aproveitou-se para gabar-se diante do sobrinho:
— É isso o que recebe por acreditar em uma caçadora.
Para sua surpresa, Félix também sorriu.
— Sempre confiarei em Marinette — ele afirmou com toda a certeza que tinha.
No mesmo instante, quando Félix estava prestes a alcançar as escadas, Marinette atingiu as cortinas com duas facas, fazendo com que metros de pano vermelho caíssem entre eles. Como mágica, o sobrinho de Gabriel Agreste desapareceu quando o tecido veio inteiro ao chão. Ele era realmente bom com truques de ilusionismo.
Furioso com a traição, Gabriel Agreste voltou-se para Marinette e vociferou:
— Não vou deixar nenhum de vocês escapar!
No mesmo instante, Adrien meteu-se entre eles, protegendo a caçadora com o próprio corpo.
— Adrien, saia do meu caminho agora — o pai dele exigiu.
— Não. Já tolerei demais as suas ordens. Mas você machucou Marinette, machucou Félix e o que eu não vou perdoar nunca, machucou Luka. — Enquanto proferia cada palavra, também manipulou as sombras nos cantos do salão para mostrar que não iria mais aceitar nada passivamente. — Não vou te deixar ferir mais ninguém que eu amo. Nunca mais.
Quando Adrien partiu na direção do pai para enfrentá-lo, Marinette aproveitou-se da chance para procurar por Luka. Não sabia mais quanto tempo ele tinha agora que Gabriel Agreste sabia que ela não iria cumprir o que ele queria que ela fizesse e o risco que ele corria era muito mais urgente que qualquer coisa.
À caminho das escadarias, foi puxada para uma saleta. Já prestes a atacar quem quer que fosse o inimigo, percebeu o brilho dourado dos cabelos. Era Félix.
— Acho que encontrei onde ele o escondeu — ele afirmou, arrastando-a pela mão por um atalho.
— Você… você realmente acreditou em mim.
Ainda estava incrédula, na verdade. Todo o seu plano dependia da total confiança dele e Félix nem sequer ousou pensar diferente. Como se fosse óbvio, ele revirou os olhos diante da perplexidade de Marinette.
— Posso não te conhecer tão bem quanto queria, mas sei o quanto você é estúpida o bastante para ser irremediavelmente justa.
Após arregalar os olhos, ela agarrou o rosto dele entre as mãos e exigiu:
— Diga logo onde está Luka antes que eu te beije.
— Vou cobrar por isso depois que o encontrarmos — Félix sorriu maliciosamente.
Próximos do camarote onde Luka deveria estar, foram interrompidos por uma das escravas de sangue de Gabriel Agreste. Félix a conhecia: Nathalie Sancouer. Ambos se encararam antes de partirem um para cima do outro.
Apesar de somente reconhecê-la, Marinette também se envolveu na luta e, assim, ela e Félix enfrentaram juntos Nathalie. Ambos atacavam para cercá-la enquanto subiam pelas escadarias.
Com o sangue de um único vampiro e um humano, Félix também era capaz de criar portais para distâncias mais curtas. Assim, criou um portal de sangue para a mesma sala, de frente para uma porta. Ao persegui-los, Nathalie confundiu-se e acabou presa em uma das salas enfeitiçadas de Gabriel Agreste.
Enquanto a escrava de sangue tentava destruir a porta sob proteção mágica, ambos chegaram ao camarote em que Luka estava preso. Sem cerimônia, Marinette chutou a porta e respirou aliviada ao ver o cabelo tingido de azul.
Ao mesmo tempo em que Félix carregou Luka para fora no colo, devido à falta de forças do rapaz, o namorado dele foi atirado na direção dos três pelo pai. Gabriel Agreste parecia furioso, prestes a enfrentá-los, quando a porta principal do teatro foi escancarada e uma multidão de caçadores chegaram para encurralá-lo.
— Foi você quem planejou isso? — Félix ergueu uma sobrancelha para Marinette.
— Aprendi com um certo alguém a antecipar meus passos.
Aquilo era demais para ele e, mesmo com um homem no colo, ele ainda foi capaz de pedir:
— Posso reivindicar meu beijo agora?
— Quem é o impaciente aqui? — Marinette riu.
***
Graças à denúncia de Marinette, os caçadores conseguiram capturar Gabriel Agreste e Nathalie Sancouer depois de meses de tentativas. Tudo isso parte do plano que ela tivera de pensar sozinha, já que qualquer auxílio seria descoberto pelo pai de Adrien.
Luka estava fraco, mas iria ficar bem e Adrien não saiu de perto dele por um segundo sequer. Foi comovente assistir ao casal reencontrar-se e abraçar-se longamente antes de vários beijos apaixonados e cheios de saudade.
Depois de resolver-se com os caçadores, Marinette afastou-se até uma das vielas próximas. Sob a luz da lua cheia, observou a palma da mão. O selo da promessa havia sumido.
— Já está com saudades da nossa conexão, Dupain-Cheng? — Félix surgiu no escuro bem atrás dela, e Marinette deixou que ele a abraçasse por trás.
— Pelo que me lembre, você usou meu nome da última vez, Félix.
— Sempre atenta, Marinette — ele sussurrou em seu ouvido.
Arrepiou-se com a voz dele, assim como com o contato do corpo dele no seu. Mas ela era gananciosa e queria mais — mais do que pudesse ter, mais do que era sensato, mais do que as regras sempre a impediram.
— Agora é um vampiro livre de novo — comentou, mais para testar a reação dele.
— Finalmente. E quero aproveitar essa liberdade com algo que você me deve.
Quando Félix virou seu corpo, não pensou duas vezes antes de beijá-lo. Sabia que ele partiria em busca da mãe e não sabia se um dia ele iria voltar. No entanto, o que importava era aquele momento, em que eram apenas um do outro.
***
EPÍLOGO
***
Completamente confortável, Adrien aconchegou-se ainda mais ao corpo do namorado no banco que ambos dividiam. A cena estava entre adorável demais e bastante comprometedora de se olhar, de tanto que eles eram melosos um com o outro em público.
— Tem certeza de que não quer ficar mais com a gente? — Adrien chegou a fazer biquinho.
— Ela tem que trabalhar, meu amor — Luka tentou botar alguma sensatez naquela cabecinha apaixonada.
Não só isso, mas também era quase constrangedor para Marinette assisti-los como se fosse alguém extra ao casal. Isso e a urgência de caçar a deixavam a um passo de sair dali o mais rápido possível e dar a eles a privacidade que mereciam — ao menos, a privacidade em um bar onde qualquer um podia encará-los.
— Luka está certo, Adrien — ela confirmou, para infelicidade do vampiro. — Fica para a próxima.
— E nosso encontro duplo, fica para quando? — Ele arqueou uma das sobrancelhas e, fazendo aquilo, lembrava muito outro vampiro bem conhecido.
Marinette acabou engasgando com o suco que estava terminando antes de partir.
— Encontro duplo? Ele nem está em Paris, Adrien!
— Mas você está com saudades. — Adrien não se deixou assustar pela expressão irritada da caçadora. — Aposto que se ligar para ele e admitir o que sente, ele vem correndo.
Foi a vez dela rir com escárnio. Félix como um príncipe encantado para salvá-la do tédio e da solidão? Até parece.
— Definitivamente, não estamos falando da mesma pessoa.
— Conheço meu primo há mais tempo que você e sei que ele é super amoroso com quem ele se importa.
— Segundo as histórias que Adrien me conta, concordo com ele dessa vez — Luka intrometeu-se de novo e deu um beijo na bochecha do namorado para confirmar seu amor pela enésima vez na noite.
Ah, ótimo. Agora era ela contra o casal apaixonado. Não estava com ânimo nem paciência para discutir com eles, então fez o que devia ser feito: juntou o dinheiro, pronta para passar pelo caixa e pagar por sua parte antes que aquele vampiro rico fizesse isso por ela. Marinette ainda tinha o seu orgulho.
— De qualquer forma, eu realmente preciso ir.
Despediu-se dos dois e, após quitar seus débitos, partiu para a caçada. Marinette fazia sua patrulha costumeira e, até o momento, pacífica, até que flagrou um vampiro tentando morder uma mulher aos gritos.
De imediato, afastou-o de perto dela e saiu na perseguição pela criatura quando ele fugiu. Passaram pelos telhados e becos de Paris, ágeis como só seres acostumados à noite poderiam ser entre as sombras.
No entanto, sua velocidade foi brutalmente reduzida ao ser atacada de surpresa por outros dois vampiros, que uniram-se ao primeiro antes que os três partissem para cima dela. Era uma emboscada.
Na defensiva, conseguiu escapar o bastante dos golpes deles para se manter de pé, contudo seria questão de tempo até que a vantagem numérica se tornasse uma severa desvantagem. Gabando-se a plenos pulmões, um deles chegou a dizer:
— Nunca vai nos derrotar sozinha, caçadora.
— E quem disse que ela está sozinha?
Poderia reconhecer aquela voz mesmo à distância, pois passara as últimas semanas lembrando-se dela todas as manhãs antes de dormir. Uma estaca de sangue surgiu do chão e atingiu um dos vampiros antes que Félix surgisse ao lado dela para ajudá-la a dar conta dos outros.
E, assim, lutaram juntos mais uma vez até que derrotaram os três em muito menos tempo do que seria necessário apenas para ela. Não que ela fosse admitir isso, muito menos em voz alta. Ele não precisava de quaisquer reforços para aquele ego do tamanho da torre Eiffel.
— Eu não precisava de ajuda. — Foi a primeira coisa que Marinette resmungou quando voltou até ele depois de entregar os vampiros aos outros caçadores.
Boa, Marinette.
Como se fosse exatamente essa a resposta que ele esperava, Félix levou ambas as mãos ao rosto dela e o gesto continha tanto carinho ao acariciar suas bochechas com os polegares que mesmo o deboche na voz dele soou diferente.
— Nunca precisou, não é mesmo?
— Isso não vai funcionar de novo, nem tente — ela sussurrou, embora sorrisse no momento.
— Tem certeza? Funcionou tão bem das primeiras vezes.
— Francamente, Félix-
— Senti sua falta. — Aproveitando-se do silêncio causado pelo choque dela, Félix prosseguiu: — Por todas as semanas em que estive longe. Foi quase insuportável.
— Eu…
Foi beijada antes que pudesse falar qualquer coisa. Queria dizer tantas coisas, perguntar sobre a mãe dele, sobre a volta repentina à Paris, porém tudo parecia secundário perto dos lábios dele, perto do contato íntimo, quente e lento de suas línguas, de suas mãos, de seu corpo.
Em determinado momento, empurrou-o contra a parede para beijá-lo com mais fome e saudade, arrepiando-se cada vez que era ele quem mordiscava seus lábios desta vez. Continuaram com os beijos e carícias, cheios de um amor desejoso e acumulado por tanto tempo, até que afastaram-se bem pouco e passaram a trocar beijos curtos e suaves.
— A propósito… — Ela riu, pois já imaginava a reação dele. — O que acha de um encontro em dupla com Adrien e Luka?
— Foi ele quem deu essa sugestão absurda, não foi? — ele sussurrou sobre a pele de seu pescoço, pronto para mais uma rodada de beijos se ela quisesse.
— Responda com sim ou não.
Félix pareceu pensar de verdade por um tempo, mas a resposta deixou claro que aquilo era pura provocação por parte dele:
— Talvez eu aceite se me beijar de novo.
Ele nem precisava pedir.
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