Por mais que o tempo passe...
16 Capítulo 16
A primeira coisa que Bella ouviu foi o som dos aparelhos.O bip constante, quase cruel, marcava o tempo de uma forma que ela nunca havia sentido antes. Cada batida era um lembrete: Mia ainda estava ali. Mas também um aviso silencioso de que ela podia não estar por muito mais tempo.
O quarto da UTI era frio demais. As luzes brancas tornavam tudo impessoal, como se a vida precisasse ser observada à distância para não doer tanto. Mia estava deitada, ligada a fios e tubos, o rosto pálido, os lábios secos, o corpo pequeno e magro demais para suportar tanta coisa. Bella segurava a mão da filha havia horas.
Não sabia quando tinha começado a rezar, talvez nunca tivesse parado.
Stefan estava encostado na parede, os braços cruzados, o olhar fixo na filha. Ele parecia mais velho ali, como se cada segundo roubasse algo dele. Edward permanecia alguns passos atrás, quase como um intruso no próprio sofrimento, tentando ocupar o mínimo de espaço possível.
Anthony estava sentado no chão, de costas para a cama, a cabeça apoiada no colchão, os olhos vermelhos, os dedos entrelaçados aos de Mia por um fio invisível que ninguém mais conseguia ver.
O médico entrou em silêncio.
— A crise foi grave — disse, com cuidado. — O organismo dela respondeu mal. Precisamos estabilizar antes de qualquer nova decisão de tratamento.
Bella sentiu o coração afundar.
— Ela corre risco? — perguntou, sem rodeios.
— Corre — respondeu ele. — Mas ela é forte. Mais do que o quadro sugeriria.
Stefan fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo diferente ali. Não era desespero. Era decisão.
-
Mia acordou horas depois.
Confusa. Fraca. Dolorida.
A primeira coisa que fez foi procurar Bella com os olhos.
— Mãe… — a voz saiu baixa, quase um sussurro.
Bella se inclinou imediatamente. — Eu estou aqui, meu amor.
Mia respirou fundo, fazendo careta. — Eu ouvi vocês.
O mundo de Bella parou.
— Ouvi tudo — Mia continuou. — Sobre separação. Sobre escolhas. Sobre o Edward ir embora.
Bella tentou negar, mas Mia apertou sua mão com a pouca força que tinha.
— Não mente pra mim. Já chega de todo mundo tentando me poupar.
O silêncio se instalou pesado.
— Você acha que eu estou morrendo — Mia disse, sem rodeios. — E por isso acha que precisa fingir que está tudo bem.
Bella desabou em lágrimas.
— Eu tenho medo — confessou. — De te perder. De errar. De machucar todo mundo.
Mia respirou com dificuldade, mas o olhar era firme.
— Então para de fugir — ela disse. — Para de viver só dentro da sua culpa.
Bella a encarou, atônita.
— Eu não sou só uma doença — Mia continuou. — Eu sou sua filha. E eu quero ver você inteira. Seja com quem for.
— Mia…
— Você ama o papai — ela disse. — E ama o Edward. Mas isso não significa que precisa se punir pra sempre.
Ela engoliu em seco. — O amor não é uma dívida kármica, mãe. É um aprendizado.
Bella sentiu algo se reorganizar dentro de si.
— O Stefan foi meu pai — Mia continuou olhando para ele. — Sempre será. E o Edward… é parte de mim também. Vocês não precisam se destruir por minha causa.
Stefan se aproximou, ajoelhando ao lado da cama.
— Eu nunca vou deixar você — ele disse, a voz firme apesar das lágrimas. — Nem que eu precise te carregar no colo pelo resto da vida.
Mia sorriu, fraco, mas verdadeiro.
— Eu sei — disse. — Por isso eu confio em você.
Ela olhou para Bella novamente. — Agora faça algo. Não só sinta, reaja e seja quem você sempre foi.
-
Edward saiu do hospital naquela noite sentindo um vazio que não conhecia.
Não era saudade.
Não era ciúme.
Era renúncia.
Ele caminhou sem rumo até parar em frente a uma igreja pequena, quase esquecida. Sentou nos degraus e ficou ali, olhando o nada.
Ele tinha amado Bella por vidas inteiras.
Mas agora precisava aprender a amá-la de longe.
“Se isso é karma”, pensou, “então que seja o fim dele. ”
-
Enquanto isso, Lily ultrapassava um limite que não poderia ser desfeito.
Ela entrou no quarto do casal enquanto Bella estava no hospital e começou a arrumar malas. Separou roupas, documentos, objetos pessoais.
Quando Renée chegou, encontrou a cena.
— O que você pensa que está fazendo? — Perguntou, horrorizada.
— Resolvendo um problema — Lily respondeu. — Bella precisa sair da vida do meu filho o mais rápido possível.
— Você enlouqueceu? — Renée retrucou. — A filha deles está entre a vida e a morte!
Stefan entrou no quarto naquele momento.
— Mãe. Para.
Lily se virou, exaltada. — Eu estou te salvando!
—Chega! — Stefan respondeu, firme como nunca. — Você está tentando controlar algo que não te pertence.
— Ela vai te destruir!
— Não — ele disse — Quem está tentando destruir a minha família é você.
Renée se colocou ao lado do genro.
— Se você tocar em mais uma coisa da minha filha — disse, com calma mortal — você não pisa mais nessa casa, nem que eu tenha que quebrar as tuas duas pernas.
Lily ficou em silêncio.
Pela primeira vez, percebeu que havia perdido.
-
Naquela madrugada, Stefan voltou ao hospital e sentou-se ao lado de Bella.
— Eu sei que você está com medo — ele disse. — Mas eu não preciso que você seja perfeita. Eu só preciso que seja verdadeira.
Bella segurou a mão dele.
— Eu escolho ficar — disse. — Não por medo. Mas por amor. Pelo que construímos. Pela Mia. Por nós.
Stefan fechou os olhos, sentindo algo antigo se curar.
Não era vitória.
Era redenção.
-
No quarto, Mia dormia.
Mas sonhava.
Sonhava com vidas antigas, com encontros e despedidas, com almas que se reencontravam não para sofrer, mas para aprender a amar melhor.
E, pela primeira vez em muito tempo, o karma começava a se dissolver.
Não porque tudo estava resolvido.
Mas porque todos haviam escolhido a verdade.
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