O cheiro do hospital já não era estranho...

Mia percebeu isso no dia em que entrou para o primeiro ciclo de quimioterapia sem chorar. Não porque estivesse forte o tempo todo, não estava, mas porque o medo tinha mudado de lugar. Ele não morava mais no “e se”. Morava no agora.

A enfermaria oncológica tinha cores suaves demais para quem estava ali. Tons claros, frases otimistas coladas nas paredes, enfermeiras sorrindo com uma delicadeza treinada para não parecer pena.

Bella segurava a bolsa com os exames como se fosse um amuleto. Stefan empurrava a cadeira de rodas, atento a cada mínimo desconforto da filha. Anthony caminhava ao lado, em silêncio, os dedos entrelaçados aos de Mia.

— Vai demorar? — Mia perguntou, tentando soar casual.

— Algumas horas — respondeu a enfermeira. — O corpo precisa de tempo para receber o medicamento.

Tempo.

Tudo agora girava em torno dele.

A quimioterapia não era só uma medicação. Era um ritual duro. Antes, o acesso venoso, o frio do soro entrando, o gosto metálico que surgia na boca mesmo antes do remédio começar a correr pelas veias. Depois, o cansaço que não era sono, a náusea que vinha em ondas, a sensação de que o corpo estava lutando uma guerra invisível.

Mia fechou os olhos quando o medicamento começou a pingar.

Anthony se inclinou. — Estou aqui — disse. — O tempo todo.

Ela respirou fundo. — Promete que não vai me tratar como se eu fosse quebrar?

Ele sorriu, com os olhos marejados. — Eu prometo te tratar como alguém que escolheu ficar.

As horas passaram lentas. Bella observava cada reação da filha, o coração apertado, mas estranhamente firme. Pela primeira vez, ela não queria fugir daquela dor. Queria atravessá-la.

Stefan, por sua vez, sentia algo diferente: não era só medo de perder Mia. Era gratidão por ainda poder lutar por ela.

Quando o ciclo terminou, Mia estava exausta. Tremia levemente, a pele pálida, os olhos pesados.

Anthony a ajudou a se levantar com cuidado.

— Vamos para casa — ele disse. — E eu vou cozinhar algo horrível, porque você merece rir disso.

Ela soltou uma risada fraca. — Promete?

— Prometo.

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Dias depois, os efeitos vieram com força.

Queda total do pouco cabelo que tentava nascer novamente, deixando muitas falhas na cabeça e nenhum pelo de sobrancelha, muito menos cílios. Enjoos repentinos. Fraqueza. Um cansaço que fazia o corpo pesar como se tivesse vivido anos em poucas semanas.

Foi Anthony quem raspou o cabelo dela novamente.Com cuidado. Lentamente. Como se aquele gesto fosse sagrado.

— Você ainda é a mulher mais linda que eu já vi — ele disse, beijando a testa dela.

Mia chorou. Não de tristeza. De amor.

— Eu não sei quanto tempo eu tenho — ela confessou naquela noite, deitada ao lado dele. — Mas eu sei que quero viver tudo com você.

Anthony respirou fundo, como se já tivesse ensaiado aquele momento mil vezes.

— Então vamos parar de adiar — disse. — Vamos marcar a data do casamento. O quanto antes.

Ela o encarou. — Tem certeza?

— Eu quero viver com você nesta vida — ele respondeu. — E nas próximas. Se existir reencarnação, karma, eternidade… eu quero te encontrar em todas.

Mia sorriu, cansada, mas plena. — Então casa comigo logo, antes que eu reclame da comida do buffet.

Ele riu, emocionado. — Amanhã eu ligo.

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O presente veio numa manhã ensolarada demais para quem estava acostumada a dias nublados.

Anthony apareceu no quarto com uma caixa pequena que se mexia.

— O que é isso? — Mia perguntou, desconfiada.

— Um compromisso — ele respondeu.

Quando abriu a tampa, um filhote de cachorro pulou para fora, desajeitado, com o rabo abanando furiosamente.

— Meu Deus… — Mia levou a mão à boca.

— O nome dele é Jacob — Anthony disse. — Porque ele é o fruto do nosso amor. Algo vivo, que cresce, que fica.

O cachorro se aninhou no colo dela como se já soubesse onde pertencia.

Mia chorou, rindo ao mesmo tempo. — Eu vou lutar — disse. — Por mim. Por você. Por ele.

Jacob latiu, como se concordasse.

Bella observava tudo da porta.

E finalmente entendeu.

Não era sobre escolher entre dois amores. Era sobre sustentar uma história inteira, com coragem.

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Naquela noite, sentou-se com Stefan na varanda.

— Eu escolhi você — ela disse, sem rodeios. — Não porque o Edward deixou. Não por culpa. Mas porque com você eu não preciso me dividir.

Stefan engoliu em seco. — Eu errei — disse. — Muito.

— Eu sei — ela respondeu. — Mas você ficou. Quando doeu. Quando foi difícil. Quando ninguém mais sabia como.

Ele segurou a mão dela. — Eu escolho você todos os dias. Mesmo quando eu não mereço.

Bella sorriu. — Amor não é mérito. É presença.

Eles se beijaram devagar, como quem não precisava mais provar nada.

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Naquela casa, entre quimioterapias, latidos, planos de casamento e silêncios compartilhados, algo se firmava.

A vida não estava garantida.

Mas estava sendo vivida.

E, às vezes, isso era o maior milagre de todos.